Não desista: ainda há motivos para assistir as finais de conferência

As finais de conferência não podiam estar mais desinteressantes. No Oeste, o Golden State tem passeado em quadra desde a lesão de Kawhi Leonard, que não deve jogar hoje a noite, facilitando as coisas para o time californiano fechar a série em quatro partidas. No Leste, o Cleveland Cavaliers aplicou duas lavadas monumentais fora de casa e ontem deixou escapar mais um jogo ganho. Para piorar, o Boston Celtics não terá mais Isaiah Thomas, machucado.

Por mais que pareça uma perda de tempo parar para assistir duas séries que não estão nada competitivas, ainda há algo em jogo em cada uma delas.

Possível despedida de Manu Ginóbili – O argentino até agora não anunciou se vai se aposentar ou se volta para mais uma temporada. Ainda que algumas das últimas atuações lembrem o craque multi-campeão pelo Spurs, Manu completa 40 anos daqui dois meses e discrição da sua participação ao longo da temporada sugere que vai ser difícil o jogador enfrentar mais uma maratona de 82 jogos no campeonato que vem. Ele já se despediu da seleção e o jogo desta segunda tem boas chances de ser o último dele na NBA.

Show de Kevin Durant/Stephen Curry – A dupla de scorers do Golden State Warriors tem sido espetacular nos playoffs, especialmente na série contra o Spurs. Na primeira partida, ambos somaram mais de 70 pontos para virar um jogo que parecia perdido. Nos dois confrontos seguintes, cada vez um apareceu para acabar com a partida.

Quem será útil ao Boston ano que vem? – Um dilema toma a direção do Boston Celtics para o ano que vem. O time é excelente, tem bons jogadores para todas as posições, mas praticamente só tem uma estrela de fato – não que seja pouco, mas não é o suficiente para fazer frente aos supertimes que dominam a liga hoje. Os últimos jogos da temporada podem servir como uma peneira para definir quem será útil na próxima temporada e que papel cada jogador poderá ter. Jaylen Brown, por exemplo, tem ganhado espaço com uma defesa disciplinada e ousadia no ataque. Marcus Smart foi fundamental na única vitória do time na série, colocando em cheque o quanto mais um armador vai poder contribuir para a franquia.

(David Liam Kyle/NBAE via Getty Images)

Lebron James persegue Michael Jordan – Pode não valer mais nada, mas cada vez que Lebron James entra em quadra nos playoffs pode resultar em uma performance histórica ou render em uma jogada lendária. A aura de jogador decisivo e vencedor vem se confirmando neste ano. É neste mata-mata, também, que Lebron tem alcançado Michael Jordan em alguns atributos – já passou em roubadas de bola e está a poucos jogos de superar em pontos.

Super Kevin Love – O ala-pivô do Cleveland Cavaliers já vinha recuperando sua melhor forma técnica ao longo da temporada, com performances comparáveis aos seus tempos de Minnesota Timberwolves, mas no mata-mata Love está especialmente bem. Este deve ser o último jogo em que ele vai atuar com alguma liberdade de ação no perímetro, já que contra o Warriors a marcação de Kevin Durant e Draymond Green deve ser implacável. Uma boa oportunidade para emplacar uma statline gorda.

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Lonzo, Kobe e o Lakers

Quem acompanha o basquete universitário com mais atenção garante que esta é uma das melhores turmas dos últimos anos. Seria comparável com a de 2003, que revelou Lebron James, Dwyane Wade, Chris Bosh e Carmelo Anthony. Mesmo sem terem jogado uma partida profissional sequer, Markelle Futlz, Malik Monk, Jayson Tatum e companhia já estão na boca do povo e são tratados como os salvadores de algumas franquias.

Por bons e péssimos motivos, o mais falado deles é Lonzo Ball. O point guard de UCLA mistura um corpo de ala-armador com uma visão de jogo de veterano, um zelo incomum com a bola e uma capacidade única de definir na transição. É, discutivelmente, o melhor jogador da turma. Além dos atributos impressionantes do seu jogo, Lonzo tem um pai falastrão que, ansioso, quer fazer da sua prole – são três filhos – super estrelas do basquete.

A última de Lavar Ball, pai do universitário, foi dizer que não vai calar a boca até que o filho seja um jogador do Los Angeles Lakers. Na cabeça dele, faz todo o sentido: a família é de LA, Lonzo foi uma estrela da universidade local e o Lakers está com a segunda escolha do draft. O plano de Ball é fazer do garoto o novo franchise player do maior time da NBA.

Lonzo e Lavar Ball

A declaração é antipática e pretensiosa. Primeiro que sugere que o jogador não aceitaria jogar com outra camisa, quando na verdade a escolha não é dele. Segundo que coloca um atleta universitário no papel de principal aposta de um time recheado de jovens talentos que, teoricamente, estariam na sua frente na linha sucessória do reinado angelino.

Por mais que pareça hoje que Lavar Ball, o pai, seja um boçal sem precedentes, esta tática é antiga. Ele não foi o primeiro a forçar a barra nesse sentido. Aliás, se serve como alento, uma outra vez que isso aconteceu com o mesmo Los Angeles Lakers, o jovem jogador acabou se transformando em um dos maiores – talvez o maior – jogadores de todos os tempos da franquia.

Era a virada de 1995 para 1996 e um adolescente da Philadelphia começava a chamar a atenção do universo basqueteiro norte-americano. O draft se aproximava e os jogos da Lower Merion High School passaram a ser frequentados por olheiros, general managers e técnicos da NBA. Apesar de ainda estar na escola, o jovem Kobe Bryant já era cobiçado por algumas equipes profissionais.

O maior empecilho era o seguinte: menos de meia dúzia de jogadores tinham pulado a universidade para jogar na NBA e todos eles eram alas ou pivôs. A avaliação era que um jogador de perímetro teria ainda mais dificuldades de render na liga logo de cara e que os fundamentos do basquete universitário poderiam fazer falta. Outro problema era que Kevin Garnett, outro adolescente que tinha entrado na NBA há um ano, apesar de mostrar muito talento, tinha deixado claro que não estava física e tecnicamente pronto para a competição profissional.

Um time mostrava mais interesse que os demais. O New Jersey Nets estava com a oitava escolha no draft e tinha um front office reformulado, afim de reconstruir a franquia, escolher uma estrela em potencial e sair da sombra do New York Knicks. John Nash, general manager, e John Calipari, técnico, se encantaram por Kobe e decidiram que ele era a escolha mais indicada daquela safra de calouros carregada de talentos – em um clima parecido com o deste ano.

Os dois viram alguns jogos e resolveram conversar com o pai de Kobe, Joe Bryant, para formalizar o interesse. Joe gostou da ideia e se convenceu que seria o melhor destino para o jogador – New Jersey fica a menos de 1h30 de carro da Philadelphia e era uma franquia que poderia dar tempo de jogo ao jovem logo de cara, a principal exigência do pai de Kobe.

Kobe e seu pai, Joe Bryant

O interesse do Nets era fundamental também para que Kobe decidisse não ir mesmo para a universidade. O jogador tinha medo de ser rejeitado de alguma maneira ou de chegar a um time sem garantias de que teria um tratamento especial.

Na manhã seguinte, no dia do draft, Nash recebeu uma ligação do agente de Kobe, Arn Tellem. O representante disse que o jogador tinha mudado de ideia e que não queria ser draftado pelo Nets. Deu a desculpa que Kobe tinha pensado melhor e que não queria jogar perto da casa dos pais, que estava com medo da pressão. Ao mesmo tempo, Joe Bryant ligou para Calipari, técnico do Nets, dizendo que o filho não jogaria pela equipe de New Jersey. Que caso fosse escolhido, iria abrir mão da NBA para jogar na Itália.

Para se certificar da ameaça, os dois passaram a ligar para colegas de outros times com escolhas próximas no draft para saber se tinham sofrido algum tipo de ameaça parecida. Isiah Thomas, executivo do Toronto Raptors na época, disse que o agente de Kobe tinha o alertado que o jogador não iria jogar no Canadá e que não deveria ser escolhido na segunda posição pela franquia. Mike Dunleavy, do Milwaukee Bucks, disse que Joe Bryant tinha rejeitado que o filho participasse do work out do time, pois já estava acertado com uma outra franquia.

A verdade é que, horas depois que o Nets confirmou o interesse para a família de Kobe, Jerry West, general manager do Lakers, também sinalizou que estava interessado no jogador. O problema é que o time de Los Angeles só tinha a 24ª escolha. West prometeu, então, que iria conseguir ‘subir’ na ordem do draft e pegar Kobe o quanto antes. Paralelamente, West estava a procura de um time que quisesse Vlade Divac, pivô do time, de graça. A ideia era limpar a folha salarial do time para tentar assinar com Shaquille Oneal pelo maior contrato possível.

O Charlotte Hornets aceitou a negociação e topou mandar sua 13ª escolha em troca do iugoslavo. Bastava, agora, a West, Tellem e o pai de Kobe ‘assediar’ as 12 franquias que estavam na frente da lista para que não escolhessem o jogador, frustrando os planos dos três. Até o momento do draft, então, eles fizeram lobby com quase todos os interessados, dizendo que Kobe não aceitaria jogar pelos demais times.

Nash e Calipari, do Nets, até pensaram em se arriscar, achando que o blefe jamais se concretizaria. Mas pesava o fato de que os donos do time preferiam que um jogador mais experiente fosse escolhido. Então o Nets pegou Kerry Kittles, jogador da mesma posição de Kobe, mas que tinha passado um tempo de provação no basquete universitário.

A história toda do draft de Kobe Bryant está no livro “Boys Among Men: How the Prep-to-Pro Generation Redefined the NBA and Sparked a Basketball Revolution”, que relembra as passagens dos jogadores que pularam a universidade para jogar na NBA – as histórias boas e as tristes.

Ainda que Lavar Ball, pai de Lonzo Ball, já tenha se mostrado bem mais insuportável que Joe Bryant – dizendo que os filhos vão revolucionar o jogo e que ele próprio ganharia de Michael Jordan num jogo de basquete -, algumas passagens têm suas semelhanças: quando decidiu ir para a NBA, Kobe fez um anúncio cheio de marra, com um circo imenso montado e transmissão pela TV; o jogador também estava caçando um contrato milionário de alguma marca de tênis antes da estreia, além de chegar à NBA cercado de empresas de marketing e entretenimento que cuidavam da sua imagem ainda quando era adolescente; e Joe Bryant também acertou a ida ao Lakers com a condição de que a franquia ajudasse o jogador a ser All Star logo no seu segundo ano na liga – o que aconteceu.

Não é um bom sinal. Por mais que Kobe tenha se tornado uma lenda, ele teve que jogar muita bola para que seu talento se tornasse mais notável do que sua marra. Hoje fica difícil lembrar, mas nos primeiros vários anos da sua carreira, Kobe esteve longe de ser uma unanimidade. E o principal motivo, foi o estrelismo.

No caso de Lonzo Ball, quis o destino que a franquia visada pela família do rapaz fosse justamente a segunda na ordem do draft – e é justamente essa a posição em que ele sempre foi cogitado. Apesar de ser chato o pai dele forçar a barra, o Lakers escolhê-lo seria a sequência natural das coisas.

Kobe, há 20 anos, superou a fama ruim. Mais do que isso, virou uma lenda. Lonzo Ball vai conseguir?

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[Previsão dos Playoffs] Final do Leste: Celtics x Cavaliers

Jogo 1 – Qua.  17 de maio,  Cleveland @ Boston, 21h30 (Sportv)
Jogo 2 – Sex.  19 de maio,  Cleveland @ Boston, 21h30 (Sportv)
Jogo 3 – Dom. 21 de maio,  Boston @ Cleveland, 21h30 (Sportv)
Jogo 4 – Ter.  23 de maio,  Boston @ Cleveland, 21h30 (Sportv)
Jogo 5 * Qui. 25 de maio,  Cleveland @ Boston, 21h30 (Sportv)
Jogo 6 * Sab. 27 de maio, Boston @ Cleveland, 21h30 (Sportv)
Jogo 7 * Seg. 29 de maio,  Cleveland @ Boston, 21h30 (Sportv)

Temporada regular: Cavaliers 3 x 1 Celtics

Palpite: Cavaliers em 5

A tarefa do Boston Celtics é dura. Para bater o favoritaço Cleveland Cavaliers, o time precisará vencer seu desgaste físico, parar a artilharia pesadíssima de fora do Cavs, finalmente superar algum rival na briga pelos rebotes e, acima de tudo, segurar Lebron James.

Parece cruel colocar tantos empecilhos para o avanço do líder do Leste, mas hoje parece óbvio que o Cleveland Cavaliers ficou em segundo lugar, abrindo mão do mando de quadra, para preservar seus atletas, com a crença de que bateria qualquer rival do Leste com o time inteiro. O Boston, que estava na cola, aproveitou a deixa – mas não tem todo o cacife do time de Ohio.

O primeiro ponto é que o Celtics vem de uma série muito desgastante contra o Washington Wizards. Não foram simplesmente sete partidas, mas foram todos jogos com muita luta, contra um rival muito mais forte fisicamente. Agora, enfrenta um time que não joga há mais de uma semana – o que talvez nem seja tão benéfico para o Cleveland quanto ao ritmo de jogo. Com apenas um dia de folga, o cansaço pode pesar, espacialmente numa série de playoffs em que os titulares costumam ficar mais tempo em quadra do que a média do restante do ano.

O Boston também precisa definir uma estratégia para parar o Cavs nos chutes de fora. O time de Lebron tem média de 14 cestas de três por jogo nessa pós-temporada e registra o melhor aproveitamento, acertando 49% das tentativas. Mais preocupante ainda, é que tem atiradores de todas as posições, tamanhos e características. Se o Celtics tem capacidade de sobra na defesa do perímetro, pode encontrar sérias dificuldades para marcar Kevin Love e Channing Frye, por exemplo.

E mesmo que consiga fazer cair este aproveitamento, será necessário proteger melhor o aro e recuperar mais bolas com rebotes. O Boston pega apenas 70% dos rebotes de defesa disponíveis ao longo dos jogos de mata-mata, a pior performance entre todos os times dos playoffs. Tristan Thompson, pivô do rival, por sua vez, é o segundo jogador que mais pega bolas de arremessos errados do seu próprio time. Atrás apenas de Robin Lopez, pivô do Bulls que deu muito trabalho ao Celtics.

Por fim, mesmo que tudo isso seja contornado, é preciso anestesiar o ímpeto de Lebron James. Isoladamente, não seria uma tarefa impossível – a defesa do time é boa e tem jogadores excelentes para isso, como Jae Crowder e Marcus Smart. O problema é fazer isso sem sacrificar todo o resto, sem concentrar absolutamente todos seus esforços nesta missão. E com a mínima brecha, Lebron é imparável. Sua versão nos playoffs, então, é histórica.

O Celtics é um time que tem um ataque eficiente, tem um craque em Isaiah Thomas e outros jogadores, como Al Horford e Avery Bradley, jogando o fino. Mas contra o time de Lebron, isso não deve ser o suficiente.

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Um cara chamado Kelly

Não é muito comum que um cara se chame Kelly. Apesar de ser um nome unissex, da origem do nome ser masculino (segundo uma pesquisa no google), a maioria esmagadora das pessoas chamadas Kelly são mulheres (5 para cada 1 homem, mais precisamente).

No basquete, então, os Kelly são uma minoria. Apenas quatro deles pisaram em uma quadra da NBA. Kelly McCarty, que jogou expressivos dois jogos e quatro minutos pelo Denver Nuggets; Kelly Tripucka, que jogou por 10 anos e mais de 700 jogos, mas que na real se chamava Peter Kelly; Kelly Oubre, ala do Washington Wizards; e Kelly Olynyk, pivô do Boston Celtics e herói da classificação do time para a final da conferência Leste.

Mas não é só o nome que faz de Olynyk uma figura absolutamente estranha para o universo da NBA. Kelly é canadense. Apesar de um conterrâneo seu ter criado o basquete, o pessoal ‘do outro lado do muro’ não tem uma tradição de muito sucesso na liga de basquete que o Canadá divide com os EUA. Em toda a história, 29 canadenses jogaram na NBA. O melhor deles, Steve Nash, nasceu na África do Sul e é um canadense ‘importado’. O segundo mais famoso foi Ricky Fox, ala do Los Angeles Lakers de Kobe Bryant e Shaquille Oneal que é a definição do jogador coadjuvante. Aliás, sua carreira fora das quadras, como ator, é quase mais notável do que a sua participação como atleta.

O visual de Kelly Olynyk também não é dos mais dominantes no universo do basquete – seja na NBA, nas ruas ou em qualquer canto do mundo. Cabelos loiros no ombro, branquelo, faixa na cabeça, cara de cavalo, olhos claros… Olynyk tem mais estilo de personagem do filme do Adam Sandler do que de atleta profissional.

Mas apesar das chances de um cara chamado Kelly, canadense, com aquela cara, aquele estilo, jogar na NBA com algum sucesso serem mínimas, ontem foi ele, com todas estas características improváveis, que definiu a partida em favor do Boston Celtics. Foram 26 pontos em 28 minutos que esteve em quadra. 10 arremessos certos de 14 tentados. Mais do que todo o banco do Wizards. Aliás, mais do que o banco do Wizards multiplicado por cinco – os reservas do Washington foram muito mal! Mais do que John Wall, mais do que Avery Bradley.

É difícil de acreditar, mas aconteceu. E Kelly Olynyk está na final da conferência Leste.

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A loteria mais importante dos últimos anos

Hoje é o dia mais interessante do calendário dos playoffs para os torcedores dos times que não se classificaram para o mata-mata. É hoje que acontece a loteria do draft, que define a ordem das escolhas dos calouros que entrarão na liga na próxima rodada. E desta vez, mais do que as demais, a loteria vai atrair todas as atenções do mundo da bola laranja: a safra de novos jogadores promete ser uma das melhores em muitos anos.

Outro fator importante desta loteria é que muitos dos times que têm boas chances de pegar as primeiras são equipes de tradição e que estão demonstrando uma evolução animadora. Philadelphia 76ers, Los Angeles Lakers e Phoenix Suns podem estar a um craque do acerto do elenco. Boston Celtics, outra franquia ultra popular, tem as maiores probabilidades, já que tem os direitos do Brooklyn Nets.

Primeiro, entenda como é o dito sorteio. O modelo é um pouco complicado, um globo com 14 bolas numeradas sorteia uma sequência de quatro números. Cada time tem um um número total de sequências (quanto pior a campanha, mais sequências o time tem). O time que for ‘dono’ daquela sequência fica com a primeira escolha. Isso é refeito para definir a segunda e a terceira escolha do draft. Impossível entender, né?

Uma analogia para facilitar as coisas: é tipo um sorteio da ‘mega sena’ em que cada time tem uma determinada quantidade de apostas. O Celtics, que tem a escolha do pior time do ano passado, tem 250 bilhetes com apostas diferentes. Suns, segundo pior, tem 199 e assim vai até o Heat, time com menor probabilidade, que tem só 5 bilhetes. Sorteiam uma sequência entre mil possíveis, o vencedor fica com a primeira escolha. Na sequência são feitos novos sorteios para definir o segundo e o terceiro colocado. Do quarto em diante, é a ordem natural de pior para melhor campanha, excluindo aqueles que já foram sorteados. Desta forma, por exemplo, o Celtics fica garantidamente com uma escolha top4, porque na pior das hipóteses não será sorteado entre os três primeiros, mas fica com a melhor escolha dos que restam.

Além disso, alguns times fizeram trocas passadas e mesmo com uma péssima campanha suas escolhas pertencem a outras franquias. É o caso do Brooklyn Nets, que cedeu sua escolha para o Boston Celtics por causa de uma troca feita em 2013. Apesar de ter ficado com a pior campanha, é o Boston Celtics que vai escolher um jogador no seu lugar. Entre os times da lottery, o New Orleans Pelicans é outro que negociou sua escolha, já que cedeu sua pick na troca que levou Demarcus Cousins ao time da Louisiana. O time só mantém sua opção de escolher um calouro se ficar entre os três primeiros.

Aliás, o Lakers é outro time que pode perder sua escolha caso não fique no top3. Por causa da troca que levou Steve Nash ao time californiano, caso o LAL fique com a quarta escolha em diante, a pick vai para o Sixers. Levando em conta as odds, o Lakers tem ‘apenas’ 46,9% de chance de manter a sua escolha. No ano passado isso já poderia ter acontecido se o time não ficasse entre os cinco primeiros, mas ficou e garantiu a escolha de Brandon Ingram.

Além de mexer com os sentimentos de algumas das maiores torcidas da NBA, a turma de calouros deste ano promete ser absurdamente talentosa. Markelle Fultz, Lonzo Ball, Malik Monk, De’Aaron Fox e Dennis Smith são armadores titulares em potencial, para ser conservador. Jayson Tatum, Jonathan Isaac e Josh Jackson são demais jogadores que carregam expectativas gigantes. Ao todo, oito jogadores de alto impacto potencial logo de cara – um volume bem incomum em qualquer draft.

Por tudo isso, o destino de muita gente e de muitos times pode mudar hoje. Tudo na conta da sorte.

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Sem Kawhi, sem chance

Ontem, na abertura da série da final da conferência Oeste, tivemos dois jogos. Um com Kawhi Leonard, em que o San Antonio Spurs massacrou o Golden State Warriors, e outro sem o jogador, lesionado, em que o time de Oakland devolveu a porrada e atropelou o rival. O azar do Spurs – e sorte do Warriors – é que tudo isso valeu pela primeira partida da série e na soma final dos fatos, o Golden State saiu com uma ligeira vantagem que rendeu a vitória e o 1-0.

O começo de jogo foi surreal. O San Antonio Spurs, que enfrentou algumas dificuldades contra Memphis Grizzlies e Houston Rockets, foi absolutamente superior ao Golden State Warriors, que não tinha passado sufoco ainda nos playoffs. No primeiro quarto, foram 30 a 16. Ao intervalo, 62 a 42.

A diferença, que chegou a 25 pontos, foi construída com uma defesa muito forte do Spurs e um ataque cadenciado e eficiente. O time também estava dominando completamente os rebotes. Mais de 1/3 dos arremessos errados foram recuperados no ataque. Além de Kawhi Leonard, um dos melhores defensores da NBA, Jonathon Simmons, Patty Mills, Danny Green e, PASMEM, David Lee estavam sufocando qualquer tentativa de ataque organizado do Warriors.

Isso tudo até Kawhi cair no chão com dores no tornozelo, que já vinha baleado desde a série contra o Houston. Primeiro, ele se enroscou com alguém do próprio banco. Depois, caiu sobre o pé de Zaza Pachulia – aqui vai um parêntesis: ao contrário de muita gente, não acho que dê para afirmar categoricamente que Zaza deixou o pé na maldade para Kawhi se machucar. O pivô, de 125 quilos, vinha correndo para contestar o chute. No movimento de defesa, é compreensível que ele tenha dado um passo a mais para tentar parar o corpo, o que fatalmente causou a lesão de Leonard. Por tudo isso, dou o benefício da dúvida ao Pachulia.

Mas intencional ou não, a jogada mudou o destino do jogo. Sem Kawhi, o Spurs desmoronou tática e psicologicamente. O Warriors emplacou 18 pontos seguidos para diminuir a diferença para menos de 10 pontos. Apesar da apatia total de Klay Thompson e de um jogo discreto de Andre Iguodala, Kevin Durant e Stephen Curry se endiabraram. Passaram a acertar tudo quanto é chute. O Golden State se recuperou na briga pelos rebotes e inverteu a lógica de até então, buscando todas as bolas erradas até que os chutes se encaixassem. O time californiano, correndo contra o relógio, também conseguiu impor seu ritmo rápido de jogo, cheio de contra-ataques. Depois da lesão, o Golden State Warriors fez 58 pontos contra apenas 33 do Spurs.

Sem Kawhi no seu encalço, por exemplo, teve 85% de true shooting. Somados, ele e Curry tiveram 74 pontos. Além da contribuição de ambos, há relatos de que Kerr fez um discurso motivacional sinistro no intervalo do jogo – o técnico acompanhou o jogo dos vestiários. Sabe-se lá o quanto isso influenciou o jogo…

Acredito que o San Antonio até tinha uma vantagem confortável para segurar o ímpeto do rival – jogou sem Kawhi contra o Houston e ganhou, por exemplo. Mas a qualidade do Golden State é surreal. Kevin Durant e Stephen Curry são simplesmente os dois pontuadores mais letais da NBA atual, ao lado de James Harden.

Apesar do enredo – talvez por causa dele -, a série começou mais competitiva do que se imaginava. No entanto, a saúde de Kawhi Leonard para os próximos jogos é preocupante. A exemplo do que aconteceu ontem, é bem provável que o San Antonio Spurs tenha chances muito reduzidas de aguentar o tranco caso ele fique de fora algum jogo. Por outro lado, se voltar, parece que o time tem bala na agulha para jogar de igual para igual contra o melhor time da NBA hoje. Tomara.

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Quem define o jogo 7?

Desde o começo, a série entre Boston Celtics e Washington Wizards deu todos os sinais que duraria até o jogo 7. Os dois times se matando na temporada regular, o equilíbrio dos confrontos ao longo do campeonato e a força dos elencos sugeriam isso – eu apostei nisso, inclusive. Finalmente, a expectativa se confirmou e chegamos até aqui.

Antes de tudo, fico feliz. Playoffs são legais quando acontece esse tipo de coisa, quando uma partida vai para a decisão final, quando os times vão para o tudo ou nada. A temporada passada foi excelente, mas o que fez ela entrar mesmo para a história foi a decisão do título no último minuto da última partida possível. Neste ano, por enquanto, não teve nada melhor do que esta série.

É muito difícil palpitar e, principalmente, prever o que pode acontecer num jogo 7. A atmosfera da partida é única. Mas existem alguns fatores que, a exemplo do que rolou até agora, podem ser determinantes para o sucesso de uma ou outra equipe.

John Wall e Isaiah Thomas, as duas estrelas máximas dos times, estão fazendo tudo que podem. Thomas meteu uma das maiores pontuações da história da franquia ao longo desta série e Wall acertou o arremesso salvador na partida passada. É de se esperar que joguem o tudo que podem e que as defesas adversárias concentrem seus esforços para pará-los. O fiel da balança está na performance dos colegas deles.

Da parte do Wizards, cabe a Bradley Beal ser a estrela que foi na sexta-feira. O shooting guard tem flashes de estrela no ataque e de especialista na defesa. No entanto, a falta de consistência mata seu jogo. Há partidas em que ele simplesmente não aparece.

Boa parte do sucesso do time depende do seu jogo. Beal é alto e forte para a posição. Tem um excelente chute e é uma referência na liga quando o assunto é movimentação sem a bola. Basta fazer valer tudo isso. Uma partida precisa de Otto Porter e Markieff Morris é fundamental para que a marcação dê algum espaço para Beal. Mesmo assim, é jogo para que ele engula quem estiver pela frente.

A prevalência no rebote ofensivo por parte do garrafão do Wizards, com Gortat e Morris, também é um fator fundamental para que o time se mantenha competitivo, mesmo quando as bolas não caírem.

Da parte do Boston, o peso recai sobre os ombros de Al Horford e Avery Bradley. O primeiro tem sido a válvula de escape na crianção de jogadas de meia quadra do time verde. Além disso, só ele tem talento e capacidade de incomodar o garrafão rival – Amir Johnson tem sido uma piada e Kelly Olynyk não é bom o suficiente lá dentro.

Avery Bradley, por sua vez, é o cara que tem potencial para barrar o backcourt avassalador do Washington e pontuar de fora com a bola na mão, especialmente quando Isaiah Thomas estiver atraindo as atenções da defesa rival. Ele, junto com Marcus Smart, são os mais capazes, também, de impedir as arrancadas que o Washington tem tido em todas as partidas.

Por tudo isso e pela característica que os jogos decisivos têm, a individualidade destes caras é que vai definir o resultado do jogo, mais do que os esquemas dos dois times, mais do que a prancheta dos técnicos.

Que venha mais um excelente jogo.

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[Previsão dos Playoffs] Final do Oeste: Warriors x Spurs

Jogo 1 – Dom.  14 de maio,  San Antonio @ Golden State, 16h30 (ESPN)
Jogo 2 – Ter.  16 de maio,  San Antonio @ Golden State, 22h (ESPN)
Jogo 3 – Sab. 20 de maio,  Golden State @ San Antonio, 22h (ESPN)
Jogo 4 – Seg.  22 de maio,  Golden State @ San Antonio, 22h (ESPN)
Jogo 5 * Qua. 24 de maio,  San Antonio @ Golden State, 22h (ESPN)
Jogo 6 * Sex. 26 de maio, Golden State @ San Antonio, 22h (ESPN)
Jogo 7 * Dom. 28 de maio,  San Antonio @ Golden State, 22h (ESPN)

Temporada regular: Spurs 2 x 1 Warriors

Palpite: Warriors em 6

O tão aguardado confronto de playoffs entre o sempre competitivo San Antonio Spurs e o recentemente dominante Golden State Warriors finalmente vai acontecer. Nos últimos dois anos, quando o time californiano despontou efetivamente como a maior força da NBA atual, os mais de 150 jogos de temporada regular funcionaram como um período de espera para quando, já no mata-mata, o GSW teria fatalmente sua real prova de fogo ao enfrentar o time texano.

Nos dois anos, o Spurs caiu no meio do caminho. Em 2015, perdeu numa série épica contra o Los Angeles Clippers. No ano passado, quando Spurs e Warriors registravam duas das melhores performances em temporadas regulares de toda a história, foi o Oklahoma City Thunder que se meteu na história. Tardou, mas aconteceu: Spurs conseguiu superar Grizzlies e Rockets para cruzar com o Warriors nos playoffs.

O contexto das coisas sugere que, infelizmente, o embate deste ano tem boas chances de ser menos equilibrado do que os hipotéticos confrontos aguardados nos anos passados. Em 2015, o Warriors não tinha alcançado seu auge ainda. Em 2016, apesar do rival estar voando, o Spurs parecia estar quase no mesmo nível. Neste ano, o Golden State se reforçou com Kevin Durant e amadureceu – deixou de lado a pira pelos recordes e passou a fazer o básico para vencer todo mundo com certa tranquilidade. Na contramão, o San Antonio perdeu Tim Duncan para o INSS e remontou seu esquema de jogo ao redor de Kawhi Leonard, que entra na série baleado com uma lesão no tornozelo.

O Warriors, mais do que nunca, tem uma defesa móvel e versátil. Tem a vantagem de poder colocar Andre Iguodala, Draymond Green, Klay Thompson ou Kevin Durant na marcação do melhor jogador rival sem medo de torrar um deles com faltas. Do outro lado, Kawhi, Jonathon Simmons e Danny Green terão que se desdobrar para parar um ataque ainda mais frenético, rápido e letal que o do Rockets, que em alguns momentos da série passada acabou com o SAS.

Os últimos 20 anos de basquete nos ensinaram que Gregg Popovich é capaz de qualquer coisa e que Manu Ginobili pode acabar com uma partida de playoff. Também não acho que o fato do Golden State ter sobrado nos playoffs até aqui e o Spurs ter sofrido bem mais seja vantagem para um ou para o outro – os rivais de cada um tinham níveis bem diferentes e nem sempre ficar uma semana descansando faz tanta diferença assim, já que o Spurs chega com mais ‘sangue no olho’ pra partida.

Mas, sem dúvida, o Warriors está em um momento melhor. Diferente dos anos anteriores, em que o nível dos dois times eram muito próximo, agora o Spurs teria que superar suas limitações e as certezas do rival para igualar a série. E essa é uma tarefa muito difícil.

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De volta aos anos 70

A década de 70 não foi das melhores. A pira inicial das discotecas, os hippies envelhecendo, um amontoado de roupas e cabelos de gosto duvidoso e um mar de gente que ainda não sabia lidar com uma oferta tão vasta e fácil de entorpecentes fez daqueles dez anos um período um pouco confuso da história do século 20.

A NBA não fugiu à regra e viveu dias de um embaralhado de forças nunca visto até e desde então. Foram oito campeões em dez anos, uma variedade jamais vista. O jogo não era dos melhores: as táticas eram muito embrionárias, as jogadas eram bem simples e os malabarismos que fizeram do basquete o esporte coletivo mais plástico do mundo ainda não tinham saído das quadras de rua para os jogos profissionais.

Mas se nessa zona alguém conseguiu mostrar alguma consistência no topo da liga, especialmente na conferência Leste, estes times foram Boston Celtics e Washington Wizards (na época, Baltimore/Capital/Washington Bullets), equipes que décadas depois se odeiam, formam uma das rivalidades mais tensas da NBA e se enfrentam no mais aguardado jogo 7 destes playoffs.

Mas voltemos aos anos 70, que foi a última vez que as duas equipes, juntas, dividiram os holofotes da conferência: o Boston era disparado o melhor time da história naquele momento. Vinha de uma década de 60 absolutamente dominante. Liderado por Bill Russell, o time tinha vencido 11 de 13 campeonatos até 1969.

Com a aposentadoria de Russell, a franquia deixou de ser a melhor disparada na liga e alguns rivais se aproximaram. Los Angeles Lakers, eterno vice dos anos anteriores, e Milwaukee Bucks, que tinha acabado de draftar o sucessor de Bill, Lew Alcindor/Kareem Abdul-Jabbar, se matavam no Oeste (sim, Milwaukee jogava do ‘outro lado’ dos EUA). No Leste, New York Knicks vinha com uma formação inovadora, com vários bons jogadores e um basquete coletivo muito bem jogado, e o Bullets, hoje Wizards, começava a montar uma potência.

O primeiro passo para isso foi escolher o atarracado pivô Wes Unseld. Com um black power invejável (um dos bons legados da época) e apenas 2,01 metros, Unseld era um pedaço maciço de músculos e ossos pesados. Estreou na liga como calouro do ano e MVP na mesma temporada. Nas primeiras cinco temporadas pelo Bullets, teve médias de 17 rebotes por partida. Num tempo em que a posse de bola média durava quase a metade do que dura hoje, Unseld era muito útil com passes que atravessavam a quadra.

Wes Unseld

O time também tinha Elvin Hayes, outro pivô com capacidade absurda de catar rebotes e com um talento nato para pontuar. Os dois formaram a dupla de garrafão mais dominante do basquete naquele momento.

Assim, os Bullets foram campeões uma vez, a única na história da franquia, chegaram a outras três finais, perdendo para Bucks, Warriors e Sonics. Ainda chegou a cinco semifinais de conferência até a virada dos anos 80, quando começou a decair e entrou num período de altos e baixos.

Só não foi melhor porque tinha um rival de peso. Ainda que os tempos não fossem de tanta bonança como nos anos anteriores, o Boston ainda se manteve entre os mais competitivos. O craque, agora, era John Havlicek, sexto homem nos tempos de Russell, mas que tinha sido alçado à condição de ídolo com a mudança de geração.A parceria do ala-armador com Dave Dowens e Jo Jo White rendeu ao time verde dois títulos – ainda o maior número da década, junto com Lakers – e mais quatro finais de conferência, mais do que qualquer outra franquia dos anos 70.

Apesar do domínio – dentro de um cenário de equilíbrio total da época -, os dois times só se enfrentaram uma vez naqueles anos. Na final de conferência de 1975 deu Bullets, por 4 a 2. Nos demais anos, sempre um ou outro tropeçava em um rivais mais fraco no meio do caminho.

John Havlicek

A disputa entre os dois acabou não virando uma grande rivalidade porque a NBA não era das ligas mais populares dos EUA ainda (muito abaixo do baseball e futebol americano, além de contar com a concorrência com a ABA, outro campeonato de basquete da época). A passagem também fica esquecida na história porque precedeu um dos momentos mais marcantes da história do basquete, que foi a explosão do jogo nos anos 80.

Mas não dá pra negar, mesmo assim, que foi uma briga que teve sua importância na história. Por mais que todo mundo tenha todos os motivos para lembrar o mínimo possível dos anos 70, eles foram os mais marcantes da história para o confronto entre Boston e Washington, que terá um novo capítulo escrito nesta segunda-feira.

 

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Reputação recuperada

O retorno de Mike D’Antoni à NBA no ano passado parecia o atestado do fracasso. Ora eleito o melhor técnico da liga, ora comandante de time com melhor campanha e das franquias mais tradicionais do país, agora ele voltava a trabalhar com um cargo menor na comissão técnica do pior time do campeonato em anos, o Philadelphia 76ers.

O enredo decadente era óbvio: os últimos trabalhos tinham sido trágicos. Uma passagem de quatro anos pelo New York Knicks, numa época que a franquia pensou que daria a volta por cima com a chegada de Carmelo Anthony mas que acabou com apenas uma ida aos playoffs e um ultimato do jogador de que não continuaria no time com Mike como técnico; e outra pelo Los Angeles Lakers, na última formação pretensamente galática do time, com Kobe Bryant, Steve Nash, Pau Gasol e Dwight Howard, mas que resultou na segunda pior campanha da franquia em toda a sua história até então.

A conclusão na época, três temporadas atrás, era de que Mike D’Anthony estava ultrapassado. Que seu trabalho, avaliado como unidimensional, estava manjado: um time que concentra todos seus esforços no ataque, nas posses de bola curtas, no pick and roll e nas bolas de três era legal e tal, mas não bom o bastante para ser campeão. Mesmo quando deu certo, diziam, o estilo tinha suas limitações e a equipe se tornava presa fácil nos playoffs.

Lendo hoje, parece bizarro imaginar que este tipo de crítica faça algum sentido. Com alguns ajustes, o estilo imposto por D’Antoni há dez anos se tornou não só uma tendência no basquete de hoje, mas uma referência para os melhores times em atividade – e os dois últimos campeões, rejeitando qualquer rótulo de que o estilo seja característico de equipes perdedoras.

Apesar desta redenção parcial, o reconhecimento de que talvez os insucessos passados estivessem mais relacionados a elencos descomprometidos ou baleados fisicamente veio nesta temporada. Numa união perfeita de talento dos seus jogadores e de um esquema que sabe tirar o melhor de cada um, Mike D’Antoni fez de um Houston Rockets desacreditado e decadente uma nova força na liga.

Montou um ataque poderosíssimo, refez James Harden como um MVP, ressuscitou Eric Gordon, rejuvenesceu Nene, reciclou Ryan Anderson e transformou o Rockets em uma equipe temida por qualquer time da NBA. É, mais uma vez, como há mais de uma década, um dos favoritos ao prêmio de melhor técnico da liga por tudo isso. Até conseguiu montar uma defesa mediana, sua principal dificuldade nos tempos de Phoenix Suns – será que por um problema dele ou pelas características de um time que tinha como principais jogadores Steve Nash e Amare Stoudemire, reconhecidamente péssimos marcadores?

O resultado da partida de ontem foi acachapante e decretou a eliminação do Houston e D’Antoni nos playoffs, mas vale lembrar que a disputa foi contra um excelente San Antonio Spurs, que tem à beira da quadra o melhor técnico da história do basquete, Gregg Popovich. E que a derrota de ontem foi maiúscula, mas praticamente na mesma proporção que a vitória conquistada pelo mesmo Rockets contra o mesmo Spurs no primeiro jogo da série. No final das contas, tomar 4-2 da equipe de segunda melhor campanha da NBA na semifinal da conferência Oeste é um trabalho bem digno para quem ‘estava acabado’.

Não foi neste ano que ele finalmente ganhou alguma coisa. Mas o título é para poucos. Seu estilo de jogo já ganhou troféus. Mais do que isso, ganhou a liga inteira e sua reputação foi merecidamente restabelecida.

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