Entre o orgulho e a cesta

O aproveitamento medíocre de alguns jogadores na linha do lance livre é um dos maiores mistérios do jogo de basquete. Muita gente adora berrar que estes jogadores teriam que treinar mais (ainda que sejam os que mais treinam), a liga mudou algumas regras para que eles vão com menos frequência à ‘linha da caridade’, há quem diga que o problema é de capacidade motora, irreversível, ou que é uma questão de confiança, passível de tratamento. Não há um consenso de fato.

A única certeza neste caso é que, quando o chute convencional não favorece, existe uma outra forma de arremessar mais eficiente e menos ortodoxa: o chamado arremesso de ‘lavadeira’.

Ao invés de lançar a bola da maneira convencional, por cima da cabeça, o jogador segura a pelota com as duas mãos simetricamente posicionadas entre as pernas e joga a bola de baixo para cima. Muita gente já estudou o tema e garante que esta é a maneira mais eficaz de mandar a bola para dentro da cesta quando o jogo está parado – durante a partida é diferente porque existe marcação, a distância pode ser bem maior e etc.

Um dos melhores arremessadores de todos os tempos era adepto da ‘técnica’. Rick Barry, líder em aproveitamento dali em seis temporadas dos anos 70, batia lances livres desta forma. Wilt Chamberlain, um dos maiores cestinhas da história da liga, tentava amenizar sua deficiência batendo as penalidades da mesma forma.

Recentemente, a maior prova da eficácia do chute de lavadeira é Chinanu Onuaku, jogador draftado esta temporada pelo Houston Rockets e que atualmente joga na D-League. Ao aderir ao movimento, Onuaku melhorou dos 54% de acerto na liga universitária, quando arremessava do modo convencional, para 87% de aproveitamento, chutando a bola de baixo para cima.

E porque os figurões que são péssimos no fundamento não tentam o mesmo? Porque o movimento é visto como vergonhoso por boa parte da comunidade basqueteira. A justificativa geral é de que é ‘humilhante’ arremessar ‘como uma menina’.

É uma bobagem, com certeza, mas é preciso contextualizar. O basquete, na sua essência, é um esporte baseado no desafio individual, na supremacia de um jogadores perante seu marcador. Ainda que existam times, táticas, jogadas e tudo mais, não há jogo coletivo mais propício para uma batalha entre dois atletas do que o basquete. O drible que deixa o outro no chão, o contra ataque que faz o rival se perder no meio do caminho, a enterrada na cara do marcador: o basquete é um ato de provocação ao adversário.

Tudo isso em um cenário que o estilo das coisas, a plástica das jogadas e a leveza dos movimentos vale, muitas vezes, mais do que o desfecho das coisas. Eu, que sou ruim no lance livre, nunca tive coragem de arremessar estilo lavadeira na pelada, imagine um profissional, que jogou a infância inteira nas quadras dos EUA, fazer isso na NBA?

Não é nenhuma apologia à ruindade, mas só uma reflexão de que é preciso ter um desprendimento tibetano para engolir todo o orgulho do mundo e, naquele ambiente, fazer isso.

Mais de uma vez Rick Barry se colocou à disposição de craques que eram péssimos nos lances livres para ensinar e aperfeiçoar a técnica do arremesso de cima para baixo. Foi sumariamente desprezado. Shaquille O’Neal certo dia disse que preferia errar todos seus arremessos a chutar de outra maneira, Dwight Howard já disse que ‘está bom do jeito que está’ e, assim pro diante, ninguém se dobra à mecânica esquisita.

No final das contas é uma briga entre o orgulho e a eficiência. E em número de adeptos, o orgulho ainda ganha de lavada.

 

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O imprescindível Paul Millsap

A maneira mais eficiente de se mostrar fundamental é na ausência. E é neste espaço de três jogos em que não entrou em quadra que Paul Millsap está provando que é, talvez ao lado de Russell Westbrook e James Harden, o jogador mais imprescindível para seu time nesta temporada.

Há vinte dias, o Atlanta Hawks era a nova/velha aposta de ameaça ao Cleveland Cavaliers, a frente de rivais como Toronto Raptors, Charlotte Hornets e Boston Celtics. Apesar de ano após ano se confirmar como uma das melhores equipes do Leste, neste ano o time mudou e testava uma nova maneira de jogar, tentando, principalmente, solucionar a principal carência das últimas temporadas, que era garantir rebotes. A nova formação com Dwight Howard e sem Al Horford estava se mostrando eficiente e tudo parecia melhor do que antes.

Até que a coisa desandou. O time perdeu três seguidas, venceu o Indiana e, diante do Utah Jazz, Paul Millsap se lesionou. O jogador ainda continuou jogando e entrou em quadra nas duas partidas seguintes (contra Lakers e Warriors) com o quadril gritando, mas como o time tinha voltado a perder estes três jogos, a comissão decidiu tratar a lesão do seu melhor jogador. Daí que o bicho pegou de vez.

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As partidas em que Millsap não entrou em quadra, o Atlanta Hawks teve o pior desempenho de toda a liga. Perdeu para o Phoenix Suns, que é um dos lanternas da NBA no momento, e foi surrado por Detroit Pistons e Toronto Raptors, quando tomou uma diferença acumulada de 80 (OITENTA!!!) pontos nas duas partidas – a maior em dois jogos seguidos na temporada entre todos os times.

A ausência do ala-pivô explica boa parte deste desempenho horrível do time. Em pouco mais de três anos no Hawks, Millsap se mostrou um dos jogadores mais eficientes da liga, apesar de quase nenhum holofote. Seu jogo é discreto, mas comparável ao das maiores estrelas da liga.

Excelente reboteiro para seu tamanho e fenomenal bloqueador de chutes, Millsap é um dos melhores defensores da NBA. Ano passado foi eleito para o segundo time de defesa da liga, atrás somente de Kawhi Leonard e Draymond Green na votação entre os alas. Foi, inclusive, o líder em Defensive Win Share da temporada no ano passado, estatística que tenta medir a impacto defensivo do jogador nas vitórias do seu time.

No ataque, ele é completo. Pode armar como um point guard e, ainda assim, chuta próximo dos 35% da linha de três. Foi o maior pontuador do time nos últimos três anos.

Ainda que Lebron James, Kawhi Leonard e Kevin Durant, por exemplo, sejam jogador mais talentosos do que ele, não consigo imaginar que suas equipes agonizem tanto nas suas ausências do que como o Atlanta Hawks está sofrendo sem Millsap. Até mesmo o Pelicans, que praticamente só tem Anthony Davis, não se saiu tão mal sem o seu principal jogador.

Pelo que vimos até agora, Paul Millsap não será considerado para a corrida de Most Valuable Player (Jogador Mais Valioso), mas já é disparado o ‘Jogador Mais Fundamental’ do ano.

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Todo o equilíbrio desta temporada

O melhor jogo da temporada até o momento, Golden State Warriors x Houston Rockets na madrugada de ontem, é o melhor e mais vivo exemplo de como a disputa neste ano está boa. O Houston derrotou o Warriors em um jogo de duas prorrogações em São Francisco numa batalha épica, com placar apertado em 90% do tempo, defesa brigada e ataque preciso e ágil dos dois lados.

Só do Rockets, um time que ano passado era uma zona completa com jogadores absolutamente desmotivados, conseguir emplacar uma partidaça destas contra o Warriors, que jogava em casa, onde quase nunca perde, e vinha de uma sequência impressionante de vitórias, já mostra como tudo está mais achatado.

Mas os exemplos disso são vários: o Clippers se mostrar vivo, mesmo depois de embarcar numa sequência sinistra de derrotas, e bater o atual campeão em Cleveland; o San Antonio Spurs já ter perdido quatro jogos em casa, sendo o último deles para o caótico Orlando Magic; o Oklahoma City Thunder desfigurado e o Memphis Grizzlies repaginado continuarem no cangote dos líderes do Oeste; Toronto Raptors e Charlotte Hornets ganhando do time mais forte da liga num dia e tomando pau para uma equipe de lottery no outro; e etc.

Ainda que tivesse sua graça em ver San Antonio Spurs, Golden State Warriors e Cleveland Cavaliers destroçando todos os recordes possíveis na temporada passada, é muito mais divertido ver um campeonato totalmente em aberto, com muito mais gente brigando pelas cabeças.

Cavs e Warriors ainda são os melhores times das suas respectivas conferências, mas não é um absurdo pensar que Clippers e Spurs terminem na frente no Oeste ou que Raptors assuste no Leste. Numa série de playoffs, Hornets e Hawks podem ganhar de qualquer um. Com sorte, até Bulls e Celtics podem assustar (o primeiro começou muito bem e o segundo está em uma arrancada convincente). O mesmo dá para dizer de Jazz e Blazers no Oeste.

A rodada de terça-feira mostrou isso: TODOS os times com pior campanha, com mais derrotas do que vitórias, ganharam seus jogos diante dos favoritos. Estatisticamente falando, as chances daquela combinação de resultados acontecer daquela forma era menor do que 1%. Mas não quando as coisas estão mais imprevisíveis do que nunca.

Até os times que tinham tudo para ‘tankar’ e jogar a toalha estão fazendo os melhores times suar. Los Angeles Lakers é o melhor exemplo disso, disputando partida a partida uma chance de ir para os playoffs (sendo um dos únicos três times que já derrotou o GSW nesta temporada). Mas mesmo aqueles que não têm qualquer chance estão fazendo jogos muito melhores do que no ano passado: não é mais uma completa perda de tempo assistir Brooklyn Nets e Philadelphia 76ers.

Para se ter uma ideia, a essa altura do campeonato passado o Warriors estava invicto, com 20 triunfos. Lakers, Nets e Sixers tinham, somados, seis vitórias acumuladas.

No geral, mais de 20 times estão com uma diferencia média entre pontos feitos e tomados menor do que 5 – um equilíbrio incomparável com o ano passado, quando menos da metade estava nesta situação e Spurs e Warriors, em contrapartida, emplacavam recordes históricos nesta estatística.

Isso é ótimo. Dá mais gosto enfrentar, assim, a maratona de 82 jogos da temporada regular. Quando as coisas acontecem como no ano passado, a temporada regular vira uma corrida em que cada time testa seu próprio limite, sem uma competição de fato entre eles. Do jeito que as coisas estão neste ano, o clima de disputa é maior, dando uma boa medida da guerra que os playoffs podem se transformar.

Tomara que continue assim!

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Quadra molhada, goteira, ar condicionado quebrado: as arenas da NBA são mais amadoras do que a gente pensa

Ontem eu já tinha escolhido o meu jogo do League Pass. Seria Kings e Sixers. A partida reunia tudo que eu queria ver de maneira despretenciosa: o embate de dois dos meus jogadores preferidos (Demarcus Cousins e Joel Embiid) em um horário decente (às 22h e não de madrugada, o que me destruiria para o dia seguinte de trabalho). Mas um imprevisto bizarro aconteceu e adiou a partida, frustrando meus planos – sim, esse é o ponto mais importante pra mim: o assoalho estava muito úmido e a organização do Wells Fargo Center não conseguia secá-lo.

O pessoal formou uma força-tarefa, passou rodo no chão umas quatrocentas vezes – até os jogadores ajudaram -, mas não teve Cristo que conseguisse secar aquela desgraça. A justificativa é que havia gelo por baixo do piso, usado na partida de hóquei na noite anterior, e o calor incomum na cidade causou uma condensação por cima da madeira, aponto do isolamento térmico não dar conta da MUDANÇA DE ESTADO DA MATÉRIA. Sem ter muito o que fazer, a partida foi adiada.

Este é o tipo de imponderável que muita gente nem imagina que rola na NBA – e se fosse por aqui, com certeza ia ter muita gente dizendo EITA SÓ NO BRASILZÃO MESMO NÉ PQP -, mas este tipo de ‘amadorismo’ é até recorrente por lá.

Ano passado rolaram umas bem primárias. Um jogo do Bucks foi paralisado porque um torcedor mais exaltado resolveu destilar todo seu azedume, literalmente, jogando um pepino em quadra.

Em outra partida, uma goteira atrasou uma partida do Nets em meia hora por causa de uma goteira no teto do Barclays Center – e neste caso, o mais amador foi o jeito que eles tentaram solucionar o problema, com um balde gigantesco na beira da quadra, da mesma maneira que você faz em casa quando acontece algo parecido.

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A bizarrice mais grave de todas foi quando o sistema de ar condicionado do AT&T Center, em San Antonio, quebrou no primeiro jogo das finais de 2014. Com mais de 20 mil torcedores respirando e transpirando em um lugar completamente fechado, a temperatura interna da arena bateu os 30ºC.

Para piorar, o jogo estava corrido pra cacete e os jogadores se desgastaram muito mais do que o usual – a ponto de Lebron James não aguentar mais ficar em quadra nos minutos finais por conta da desidratação.

Na época até rolou teoria da conspiração dizendo que o sistema teria sido desligado de propósito para prejudicar o Heat – como se fosse possível prever que os jogadores do Miami iriam sentir mais do que os do San Antonio… Em todo caso, uma falha que prejudicou bastante a disputa do jogo.

Isso tudo sem entrar no assunto ‘cronômetro quebrado’, que toda semana rende alguma treta – semana passada, inclusive, uma das maiores, quando uma contagem atrasada do relógio foi determinante para mudar o resultado da partida entre Kings e Raptors.

É o tipo de coisa que não se espera que aconteça na liga que é a maior referência de profissionalismo no mundo, né?

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Qual o problema de Antetokounmpo? O nome

Giannis Antetokounmpo é um monstro. Lidera seu time em pontos, rebotes, tocos, roubadas de bola e aproveitamento nos chutes. É o que mais faz arremessos de quadra e do lance-livre. Está uma fração atrás de Matthew Dellavedova na briga pela liderança em assistências da equipe. Mas seu técnico, Jason Kidd, acredita que a liga não o reconhece ainda como um dos melhores jogadores da temporada. O problema, segundo ele, é o nome do jogador.

Particularmente, eu acho que o fato de jogar em um mercado minúsculo – possivelmente o menor da NBA -, com uma base de fãs modesta e com poucos jogos programados para a tevê aberta americana são justificativas mais plausíveis para o eventual desprezo, mas não dá para se ignorar o fato de que quase ninguém na liga consegue chamá-lo pelo nome que carrega na camisa.

Quando ele entrou na liga, o pessoal do Bucks fez uma brincadeira com o elenco perguntando como era a pronúncia do sobrenome do grego. Poucos se arriscaram e nenhum conseguiu falar.

Mesmo o presidente americano Barack Obama em visita à Grécia tropeçou no nome do jogador quando se arriscou no seu discurso. Sobraram umas letras na hora que tentou arranhar o palavrão.

Os narradores, então, têm pesadelos com a sopa de letrinhas. No começo era impossível, mas ainda hoje eles encontram dificuldades.

Prova disso é que ele tem um dos melhores e mais consolidados apelidos da atualidade no jogo (“Greak Freak”) e basicamente só o chamam assim ou pelo seu primeiro nome, Giannis (fala-se IANIS, sem o som de G). O coitado sofre com a dificuldade do nome mesmo e pela preguiça do pessoal em aprender – o povo americano é, em especial, preguiçoso para tentar falar qualquer coisa diferente do inglês.

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Para quem é familiarizado com a coisa, a pronúncia correta de nome e sobrenome é \YAHN-iss ah-deh-toh-KOON-boh\, mas acho que ler esse tipo de coisa atrapalha mais do que ajuda numa hora dessas.

Ainda acredito que não é a melhor desculpa para justificar a falta de reconhecimento a ele, mas é verdade que esse Antetokounmpo não ajuda.

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O tank involuntário do Mavs

Não existe hoje na NBA time com uma campanha pior do que a do Dallas Mavericks. São 3 vitórias e 13 derrotas, o que lhe confere uma posição pior do que outros times bem ruins da disputa, como Brooklyn Nets, Philadelphia 76ers e Phoenix Suns.

Não chega a surpreender que o Dallas esteja mal – a equipe está envelhecida, sem saúde e não é muito qualificada. Mas é inesperado que esteja na última posição.

Na NBA não é necessariamente um péssimo negócio ter a pior campanha. Exceto quando já há uma troca engatilhada, ser o lanterna rende à franquia as maiores chances de pegar a primeira posição no draft seguinte, além de garantir, no mínimo, ficar entre os quatro primeiros no sorteio das picks. Para os iniciantes, é por isso que alguns times entram no modo “tank” – que é perder de propósito quando seu time é ruim para acelerar as chances de, nos próximos anos, se reerguer com novos talentos.

NBA: Milwaukee Bucks at Dallas Mavericks

A ‘cara’ do Dallas nesta temporada é irreconhecível

O inusitado desta vez é que o Dallas não é um time que está lá atrás propositalmente. Ainda que estivesse consciente das suas limitações, a estratégia da franquia era brigar pelas últimas posições dos playoffs do Oeste. Questionado recentemente sobre a possibilidade de largar mão desta temporada, Mark Cuban, dono do time, disse que só pretende decidir ‘tankar’ caso esteja nesta posição lá pela 70ª rodada.

Mas uma conjunção de fatores podem forçar o Dallas a ficar por ali, lambendo o chão da NBA, mesmo que involuntariamente. O lance é que, ao menos no primeiro mês de temporada, vivemos um momento único: aparentemente nenhum time está realmente perdendo de propósito mais.

Nets e Sixers, ‘habitués’ da lanterna, estão jogando com uma vontade impressionante. O primeiro não tem muitos motivos para propositalmente ficar lá embaixo, já que sua escolha de primeiro round do draft está alienada ao Boston Celtics. O segundo está completamente entorpecido pelo fator-Embiid e tem jogado com um vigor inédito nos últimos anos. Suns, que seria um concorrente do peso de uma âncora, tem se mostrado inconstante a ponto de poder ganhar qualquer jogo – e eventualmente conseguir, de fato.

O dilema, agora, é se a campanha ruim até o momento é digna de um ‘tank’ para valer ou se ainda é possível correr atrás do prejuízo. A questão não é nem sobre explicitamente perder de propósito, propriamente, mas se força a barra ou não para colocar Dirk Nowitzki e Deron Williams em quadra apesar das lesões, se abre espaço entre os medalhões para tentar garimpar um jogador sem contrato com fome de bola (como estes dias entrou em quadra com quatro titulares que sequer tinham sido draftados) e etc.

Sinceramente, acho que, mesmo completo, o Mavs não tem gás para tentar alguma coisa no Oeste. Mesmo que tenha potencial para ir melhor do que Suns, Kings e Pelicans, o passo para chegar ao pelotão seguinte é muito mais largo do que as possibilidades reais da franquia. Levando em conta que será preciso, além de ir bem, tirar o atraso de um mês perdido na temporada, a tarefa é quase impossível.

Por outro lado, entendo que é difícil admitir que o botão de reset foi apertado tão cedo. Tank não é um remédio fácil de se engolir, especialmente para uma franquia que nos últimos anos se acostumou com campanhas vitoriosas. Mais fácil é, mesmo, se contentar com condição e fingir que tudo que está ao alcance está sendo feito – mesmo que, na prática, seja um ‘tank’ de fazer inveja aos concorrentes.

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Quando os engravatados quase estragaram a bola de basquete

O esporte é mutante. Já foi só de brancos, só de americanos, só de gigantes. Já foi jogado só dentro do garrafão. Não tinha linha de três. Cogitaram uma linha de quatro pontos. Foi corrido, foi caminhado. Em quadra, já rolou quase tudo. E quase tudo mudou.

O mesmo nos acessórios e equipamentos. Os All Star deram lugar aos Nikes, os calções ficaram cada vez mais curtos e, quando não podiam diminuir mais, começaram a crescer até o joelho novamente. As camisas já não são só mais regatas.

Aos mais desatentos, só uma coisa parece que passou incólume a tudo isso: a bola de basquete. Sempre do tamanho de uma melancia, alaranjada e com aquele quique característico, não muito cheia, não muito vazia.

Mas, dez anos atrás, a liga passava por dois meses de polêmica, justamente quando uma meia dúzia de cartolas decidiu mudar o “instrumento de trabalho” dos atletas sem consultá-los.

Na offseason de 2006, a Spalding lançou uma nova bola que prometia melhor performance e uma reação mais natural ao entrar em contato com o suor. A promessa era que, ao contrário da clássica bola, ela não precisaria de pausas sistemáticas ao longo da partida para que fosse secada. O material, sintético, também era ambientalmente mais indicado do que o couro usado até então.

A grande treta foi que nenhum jogador da liga testou a nova bola. Eles só tiveram em contato com a nova laranjinha, em outro tom da cor e com um desenho diferente nas ‘costuras’, na pré-temporada. Com o passar dos jogos, a promessa de desempenho não se confirmou. Não que ela piorasse o jogo propriamente dito – não melhorou, nem piorou os números de turnovers ou o aproveitamento dos chutes, apesar da promessa de facilitar a partida para os atletas -, mas os jogadores se sentiam incomodados com a mudança.

A principal reclamação é que o material causava alguns cortes nas mãos. A absorção da umidade também não estava legal. Havia quem reclamasse que, por causa disso, a pelota nunca saia da mão da mesma forma. Ora grudava mais do que deveria, ora escapava involuntariamente.

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Quando foi lançada, a Spalding, fabricante das bolas, disse que ex-jogadores fizeram testes para comprovar as melhorias. Steve Kerr e Mark Jackson, cobaias da marca, depois vieram a público para dizer que só tinham passado uma tarde batendo bola e que, naquele período, não identificaram nenhuma anormalidade.

Um protótipo parecido tinha sido usado no All Star Game do ano anterior e em algumas partidas da D-League, sem grandes reclamações, mas também sem uma amostra de horas de jogo suficiente para que os atletas formassem opinião.

Shaq, Nash, Nowitzki, Kidd… todo mundo reclamou da bola, mas a liga não se pronunciou no primeiro momento. A NBA, imagino, não queria minar o que ela julgava que poderia ser um sucesso comercial – afinal, era a primeira mudança na bola de jogo em 35 anos e apenas a segunda em toda a história do basquete profissional americano (a outra foi mudar o visual de quatro para seis ‘gomos’ a fim de deixá-la mais estável para o quique). A Spalding era seu parceiro mais duradouro e o medo era dar um tiro no pé do patrocinador.

Mas não há marketing que resista às principais estrelas mostrando seus dedos arranhados depois dos jogos ou a um Shaquille Oneal apontando para a bola depois de errar um lance-livre (mesmo que seu aproveitamento tenha sido medonho ao longo de toda a carreira). Dois meses depois, David Stern, manda-chuva da NBA, admitiu que estava reunindo as reclamações para avaliar o que seria feito. Diante do temor de uma adaptação tecnológica que resultasse em um frankenstein ainda pior, a alternativa mais desejada era que a velha bola de couro voltasse às quadras.

E, na virada do ano, foi o que aconteceu. A NBA voltou atrás e assumiu o erro de não ter testado exaustivamente a inovação entre os jogadores. A admissão pública do erro funcionou. Num acordo implícito – ou não, sei lá -, jogadores voltaram a jogar com a antiga bola de couro e todo mundo meio que fingiu que aqueles dois meses nunca aconteceram.

Desde então, nenhum executivo ou cientista maluco ousou mexer na laranjinha da NBA novamente.

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Lakersmania

É bem comum que times com este perfil caiam no gosto da galera: tomam tanto pau por tanto tempo que todo mundo passa a ter alguma simpatia e, quando as coisas finalmente começam a dar certo de novo, a turma se empolga e a equipe vira a nova queridinha da liga.

À primeira vista, não parece surpreendente que o Los Angeles Lakers esteja neste clima – o time passou por um período sombrio enquanto esperava Kobe Bryant se aposentar e agora parece que pode tentar beliscar uma vaga para os playoffs com um time cheio de moleques promissores. Mas o momento é sim único e diferente das outras vezes que outras equipes experimentaram momentos parecidos.

Para começar, é o Lakers, time que nove entre dez fãs de NBA gostam de secar. É como ver torcedores dos outros times comemorando o sucesso de Flamengo e Corinthians, times mais detestados do Brasil pelos torcedores dos rivais. O máximo de simpatia que o time já tinha conquistado era uma espécie de compaixão nutrida pelas sucessivas derrotas para o Boston Celtics na virada dos anos 50 para 60. Depois disso, a franquia sempre foi o time que todos amavam detestar.

Mas, acima de tudo, o time não é só divertido e surpreendente, ele é efetivamente bom, fugindo à regra de que equipes assim, nestas condições, são mais folclóricas do que eficientes.

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Para começar, o ataque do Lakers é poderoso. Num patamar, pasmem, dos melhores da liga. É o quarto time no aproveitamento dos arremessos, atrás somente de Warriors, que tem três dos melhores arremessadores da história da NBA, do Clippers, que joga junto há milênios, e do Hawks, outro fenômeno meio inexplicável do basquete, mas que é absurdamente bem treinado. A boa mira faz com que o time seja o segundo que mais faz cestas mesmo sendo apenas o 11º que mais tenta.

O time também tem se mostrado capaz de competir durante os 48 minutos de partida, sem tirar o pé. Além de ter um ritmo alucinante com a bola nas mãos (quarto que mais corre), tem o banco mais atuante da liga – que mais pontua, segundo que dá mais assistências e quarto que mais pega rebotes.

É o time que mais dá enterradas na liga.

Tem cinco jogadores com mais de 10 pontos por jogo.

Metade do time tem 25 anos ou menos. Três deles nem podem beber.

Além de divertido e surpreendentemente bom, o futuro do time que se desenha é brilhante. A ponto dos rivais, que sempre detestaram, se renderem.

É, acho que deu pra notar que eu também estou completamente fascinado pela Lakersmania.

 

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Procurado: Steve Franchise

Um Iverson com disciplina“. O cara que cravou essa definição sobre Steve Francis lá no final dos anos 90, há quase 20 anos, foi um iluminado. Ainda que o futuro tenha provado que ele estava errado, já que Francis conseguiu a incrível proeza de ter uma biografia ainda mais conturbada que a de Iverson, a pertinência da comparação é impressionante: ambos foram atletas profissionais improváveis cujos talentos superaram as limitações físicas e que, no final das contas, acabaram boicotados pelos seus péssimos hábitos fora das quadras.

O leitor um pouco mais novo talvez não se lembre, mas Steve Francis foi um protótipo de Russell Westbrook que transitou pela NBA no começo dos anos 2000.

Em um relato pessoal, foi nessa época que eu comecei a ver basquete com mais cuidado mas, ao mesmo tempo, ainda não estava contaminado por essa obsessão muitas vezes chata de assistir o jogo pensando em eficiência, números e tudo mais. Ver um cara de 1,90m enterrar por cima de todo mundo e descolar triple-doubles no meio dos pivôs lendários dos anos 90 era algo fascinante. Por um período, eu me convenci que Steve Franchise, como era chamado, era a melhor coisa da NBA.

Steve Francis

Mas o seus feitos como jogador não são nada se comparados à sua atividade, digamos, extra-quadra – aliás, isso é que aparentemente fez a carreira de atleta de Francis ser tão curta.

O currículo de estrela universitária, calouro do ano e três convocações para o All Star Game nem se comparam à lista de bizarrices e problemas que enfrentou após a aposentadoria precoce da NBA, aos 29 anos.

Aliás, ele era tão bom que, quando começou a decair como atleta, ninguém entendeu muito bem, Tudo bem, teve uma lesão ou outra, mas nada tão sério a ponto daquele jogador, até pouco tempo fabuloso, virar uma peça descartável de uma hora para outra.

As coisas começaram a ficar um pouco mais claras quando as primeiras imagens de Francis após derrocada começaram a surgir. Em uns dois anos, o jogador parecia ter envelhecido uns quinze.

Ele é esse senhorzinho da esquerda

Ele é esse senhorzinho da esquerda

As imagens eram tão chocantes, que Francis teve que vir a público dizer que não estava virado nas drogas. Que apenas estava envelhecendo como qualquer outra pessoa – de 30 e poucos anos com uma lata de 50…

Vira mexe, pitavam umas imagens mais intrigantes ainda do jogador. Numa delas, jogando champangne no rosto enquanto CHORAVA cantando Drunk in Love da Beyoncé. Na outra, era enforcado pelo também ex-jogador e também maloqueiro Stephen Jackson.

Neste meio tempo, notícias davam conta que Francis estava completamente quebrado, sem dinheiro, apesar do mais de 103 milhões recebidos em salários. Para descolar uma grana, tentou jogar na liga chinesa – numa época em que a liga chinesa era menos competitiva ainda – e não mostrou qualquer condição de voltar a praticar um esporte.

Agora, parece que chegou ao fundo do poço. Nesta semana Francis foi parado por dirigir bêbado e acima da velocidade permitida nas ruas de Houston. Acabou mantido preso por estar sendo procurado por roubo – alguns meses atrás ele teria estourado um carro e roubado mais de 7 mil reais em pertences. Arrependido ou alterado, ele até procurou a polícia para confessar o crime aos prantos, mas foi liberado pelos policiais que não entenderam nada. Alguns dias mais tarde, com a denúncia do crime em mãos, a polícia da Florida passou a procurá-lo pelo crime e o classificou como fugitivo. Pesado…

Incrível que, ainda jovem, ainda sem grandes indícios do que viria pela frente, tenham soltado aquela comparação com Iverson. Realmente, com alguma razão, mas definitivamente sem a tal disciplina.

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Draymond Green e a busca pelo reconhecimento

Quase não há meio termo com Draymond Green. O jogador é detestado por boa parte dos torcedores e amado pela outra parcela. Há quem ache ele sujo demais e falastrão além da conta. Do outro lado, é considerado o último representante do jogo duro e um dos jogadores mais completos da liga. É difícil achar alguém que pondere os aspectos positivos e negativos para fazer seu julgamento sobre Green. Em geral, ele é considerado ou uma coisa só ou outra.

Essa polaridade de opiniões tem custado a Draymond Green o reconhecimento que, segundo suas declarações, ele considera mais importante a respeito do seu jogo: o posto de melhor defensor da liga.

Difícil dizer se ele é O MELHOR mesmo. Se de um modo geral no ataque, em que temos centenas de estatísticas e métricas precisas, já é foda cravar categoricamente quem é o melhor jogador, na defesa este trabalho é ainda mais árduo.

Em todo caso, este clima de “ame ou odeie” em relação a Green já custou a ele um título de Defensive Player of the Year – nos últimos dois anos, ele ficou em segundo, atrás de Kawhi Leonard. Ainda que Kawhi seja um monstro também e mereça os títulos, em 2014/2015, Draymond foi o melhor jogador de defesa do melhor time defensivamente da liga – assim como Leonard esteve nesta situação na temporada passada.

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Naquela oportunidade, Green chegou a receber mais votos para ser eleito o melhor defensor da NBA, mas como a premiação soma a pontuação das escolhas de primeiro, segundo e terceiro lugar, Kawhi acabou levando o troféu na somatória dos pontos. Enquanto a maioria dos jornalistas achou que o jogador do Warriors era o melhor defensor da NBA, quase um terço não se dignou a colocá-lo nem no top3 – um sinal claro do quanto Green divide opiniões.

O início de temporada e, principalmente, a mudança no plantel dos times sinaliza que este pode ser o ano em que Draymond vai superar esta polarização e vir a ser reconhecido como o melhor jogador de defesa da NBA – pelo menos ganhar o título de DPOY.

A chegada de Kevin Durant ao Warriors redefiniu os papéis de cada jogador do time. As prioridades no ataque e na defesa foram revistos e coube a Draymond Green assumir boa parte das responsabilidades defensivas de Andrew Bogut e Harrison Barnes.

Green está no top 10 em tocos e assistências, além de seu time conseguir segurar o ataque rival em 6 pontos abaixo da média a cada 100 posses quando ele está em quadra – uma média excelente. Foi ele que desmanchou a última jogada do Milwaukee Bucks na prorrogação do jogo de sábado. E é ele quem tem segurado as pontas lá atrás para o Golden State se manter como o ataque mais letal da liga.

Kawhi, ainda que continue sendo o melhor defensor da liga ao seu lado, tem outras preocupações nesta temporada, já que virou o principal jogador do Spurs nos dois lados da quadra. Uma condição que pode tirar o foco dos ‘eleitores’ do título de DPOY de Kawhi e migrar para Green.

Claro, tem muita coisa para rolar. Rudy Gobert e Deadre Jordan vem tão fortes quando Draymond nesta briga – mas acho que o ala tem a vantagem de ser mais versátil e defender qualquer posição na quadra.

Em todo caso, tudo se desenha para que este seja o ano que Green mais tem condições de se consagrar como o melhor defensor da liga, apesar dos haters.

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