Na rodada de 25 de março de 2012, o San Antonio Spurs recebeu o time do Philadelphia 76ers para mais uma partida de temporada regular. O torneio daquele ano tinha começado com dois meses de atraso em função do lockout (greve dos donos de times) e os calendários dos times foram espremidos para quatro meses de competição. Era apenas a décima rodada da temporada, mas o principal jogador do Spurs, Tim Duncan, foi poupado para a partida.

A justificativa estampada no box score oficial da NBA mostrou “DNP – Rest” (Não jogou – descansando). Nos box scores de outros sites, a justificativa foi ainda melhor “DNP – Old” (Não jogou – velho). Geralmente esta explicação no quadro de estatísticas dos jogos vem acompanhada de uma descrição da lesão que tirou o camarada da partida ou com um impessoal “coach decision”, que quer dizer que o cara não entrou simplesmente porque não está na rotação. Quase nunca vem com uma justificativa tão sincera e curiosa. Naquela noite foi assim. Obra do técnico do Spurs, Gregg Poppovich, que queria deixar claro que, mesmo ainda sendo início de temporada, queria poupar seu jogador veterano da maratona que jogos que teria a seguir.

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Did not dressed – OLD

Pop é um obcecado por poupar seus jogadores. Seus principais titulares deixam de jogar pelo menos dez jogos por temporada somente na tentativa de estarem mais inteiros para os playoffs.

Neste ano, o Golden State Warriors, atual campeão e time de melhor campanha, vem seguindo a mesma fórmula – inclusive registrou suas poucas derrotas justamente quando colocou no banco os titulares Klay Thompson, Stephen Curry e Draymond Green. Com isso, o tema voltou ao debate. Será que isso vale a pena? Será que não é exagero? Vira e mexe alguém levanta a tese de que esta obsessão foi longe demais e que nos anos 80 e 90 os grandes astros aguentavam jogar todas as partidas. Eu acho que a precaução vale a pena.

Antes de qualquer coisa é um cuidado válido e alguns times podem se dar ao luxo disso. O calendário da NBA é insano, com 82 jogos distribuídos de novembro a abril. Várias partidas em dias seguidos e são raros os casos em que os times tem três ou mais dias de descanso. Sem contar que o EUA é um país gigante e os caras também se desgastam com as viagens ‘coast to coast’. O San Antonio Spurs e o Golden State Warriors julgam que vale mais a pena arriscar uma meia dúzia de jogos para ter seus jogadores mais inteiros na reta final do campeonato. O risco é deles – já que podem perder um mando de campo na fase final por causa disso -, mas é calculado.

Outra: saúde é fundamental na pós-temporada. Foi nessa linha que o Spurs se tornou a franquia mais vencedora dos anos 2000. Foi com um time inteiro que o Warriors bateu todo mundo ano passado.

Também não é mito que hoje os jogadores se lesionam mais do que no passado. O quadro abaixo mostra que o dobro de atletas perde uma quantidade razoável de partidas do que acontecia no passado. Colocá-los no banco para ter um descanso parece fundamental para minimizar as chances de uma lesão.

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O gráfico mostra o número de jogadores que perderam pelo menos 20 jogos por lesão e tinham média de mais de 20 minutos por jogo.

Por último, acho que a memória nos trai quando pensamos que antes os grandes jogadores eram de ferro e sobreviviam à maratona de jogos. Charles Barkley só aguentou entrar em quadra em todos os jogos na sua primeira temporada, Kevin McHale jogava dois terços da temporada e David Robinson ficou de fora uma temporada inteira. Sem contar aqueles que se aposentaram precocemente, como Isiah Thomas e Penny Hardaway. As lesões estão diretamente relacionadas à quantidade de jogos. Poucos passam incólumes a isso.

Deixar os caras no banco sem motivo aparente pode ser ruim para os fãs e para as transmissões, mas os resultados e os riscos justificam a prática.

 

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