É o retrato da humilhação. Iverson, cheio de si, depois de ter acertado o arremesso que dava uma folga no placar na final contra o Lakers, passa por cima do defensor combalido sentado no chão depois de uma sequência atordoante de dribles naquela que se transformou em uma das imagens mais marcantes do esporte nas últimas décadas.

Naquele momento, o mundo passou a conhecer Tyronn Lue da pior maneira possível. De bunda no chão, praticamente lambendo as pernas do rival enquanto era atropelado já no final da prorrogação. Na época, Lue era uma espécie de cosplay mal feito de Allen Iverson. Tão baixinho quanto, usando as mesmas tranças de raiz no cabelo, mas com uma diferença fundamental: Iverson dominava as ações ofensivas do seu time, enquanto Lue era o incumbido de tentar pará-lo a qualquer custo.

A batalha era cruel para os dois lados. Iverson foi um dos caras mais habilidosos do jogo. Sua rapidez e agilidade tornavam a missão de marcá-lo praticamente impossível. Por outro lado, Lue abusava das técnicas da catimba, com dedadas, cuspidas e provocações ao longo do jogo inteiro.

A disputa ficou marcada por alguns anos. Lue ganhou o título e Iverson ficou com a glória da imagem mais humilhante da série. Afinal, era melhor ser um zé ninguém no time campeão ou o herói solitário do time perdedor? E assim os dois se odiaram por um bom punhado de anos.

No entanto, um grande ponto de interrogação se formou na testa de muita gente que cobre e acompanha NBA quando Iverson publicou na sua conta do Twitter uma mensagem parabenizando Lue por assumir o comando do Cleveland Cavaliers – passou de assistente técnico para head coach com a demissão de David Blatt.

Num primeiro momento, pareceu apenas uma cordialidade banal. Teve até quem pensou que fosse uma fina ironia do Pequeno Notável. Nada disso. Sinceros parabéns ao rival que se tornou amigo. Lue, na sua coletiva de imprensa após a estreia como líder do Cavs, explicou que realmente odiou Iverson por quase uma década após o lance, mas que depois de um tempo os dois viram que tinham muito em comum e se tornaram amigos próximos.

O próprio modo como ele lida com esse tipo de coisa pesa a seu favor. Lue foi vaiado no primeiro jogo como técnico, pela forma como seu antecessor foi demitido. “Sou vaiado há quinze anos sempre que vou a Philadelphia. Isso não me incomoda”, diz. Na última vez que foi à cidade, inclusive, topou tirar uma foto com um torcedor do adversário que vestia uma camiseta ilustrando o humilhante lance das finais de 2000. Ainda saiu sorrindo na foto.

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De boa com a zoeira

Não vou entrar num apelo melodramático, mas a amizade construída entre os dois mostra um pouco da personalidade do novo técnico do time de Lebron James. Lue é um underdog nato. Não está ali para tirar o brilho das estrelas. Está ali para somar algo ao jogo de Lebron e cia. Como esteve ali para correr atrás de Iverson. Aparentemente, Tyronn Lue está confortável com isso.

 

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