Mudar a distância da linha de três pontos é uma besteira

O ~polemiquinho dono do Dallas Mavericks Mark Cuban deu a ideia (e muita gente comprou) de aumentar a distância da linha de três. Segundo ele, os jogadores chegaram a um nível de precisão em que seria necessário mover a linha uns dois passos para trás para dificultar o acerto, espaçar o jogo próximo à cesta e dar mais opções ofensivas para as equipes.

Primeiro é preciso entender o momento. Realmente, nunca se chutou tanto de fora. Com o crescimento dos analytics, as comissões técnicas criaram a convicção de que só existem dois tipo de arremessos que valem o risco de serem feitos: bandejas e enterradas fáceis ou chutes de três.

Seriam os únicos dois casos em que a recompensa vale o risco de arremessar a bola e perder a sua possa no caso de um erro. No primeiro caso, em mais de 70% das tentativas o time consegue os dois pontos. No segundo, em 35% das vezes o time consegue sair com três pontos. Com isso, aniquilou-se os arremessos longos de dois pontos, que têm um aproveitamento de acerto parecido com os chutes de três, mas com uma recompensa menor – afinal, o ataque sai com dois pontos ao invés dos três.

pontos por arremesso

Parece muito óbvio ao se falar assim, mas por décadas a ideia de ataque da NBA foi diferente. Nos anos 90 e 80, quando o basquete americano tomou a forma que conhecemos hoje, boa parte do jogo era baseado nos jump shots – isso porque o garrafão era uma área mais inóspita, digamos assim, para as infiltrações e os arremessos de três eram considerados alternativas desesperadas para pontuar.

Assim, a proporção de arremessos de três tem crescido ano após ano. Hoje 28% das tentativas de arremessos acontecem de trás da linha, o dobro da média dos anos 90 e dez vezes mais do que nos anos 80, quando a linha foi criada e colocada em quadra.

arremessos de tres

Proporção dos arremessos de três em comparação com o total de chutes ao longo dos anos

Durante três temporadas nos anos 90, a linha de três ficou menor. A NBA aproximou a marca e deixou na mesma distância da linha dos campeonatos universitários e do basquete mundial. Só nestes anos, a proporção de chutes de três teve um salto. A liga, no entanto, recuou da decisão e afastou a linha novamente em 1997.

Bom, tendo este cenário todo bem claro, eu posso dizer que acho uma tremenda besteira mover a linha de três pontos. Como qualquer esporte, o basquete tem seus modismos. Com eles, algumas convicções – que depois de alguns anos vemos que boa parte delas eram furadas. Hoje a impressão que temos é que os caras conseguem meter bolas de qualquer ponto da quadra. Acho uma tese furada. Primeiro que estamos ‘contaminados’ pelos arremessos mirabolantes de Curry, Lillard e outra meia dúzia de gatos pingados que estão em uma temporada excepcional, mas esquecemos o quão difícil é converter este tipo de arremesso. Segundo que para cada cesta daquelas, há uma série de tentativas frustradas (exceto Curry, que mantém um bom aproveitamento quase do meio da quadra). As porcentagens comprovam que o aproveitamento destes chutes tem se mantido na média histórica dos últimos 20 anos – por que então só agora mudaríamos a distância da linha, se os acertos são os mesmos?

É preciso lembrar que qualquer mudança neste sentido proporciona uma mudança brutal no jogo, com possibilidade de transformarmos o jogo inteiro. Será que vale a pena? Nos anos 90, na era de ouro dos pivôs, todos os times jogavam com dois ‘seven footers’, ou seja, dois grandalhões com mais de 2,10 plantados de baixo da cesta. O jogo se resumia a passar a bola pra esses caras, que giravam e metiam a bola na caçapa. Shaquille Oneal era o Curry daquela geração: imparável. Em um determinado momento cogitou-se aumentar a altura do aro para dificultar o trabalho destes caras, que na ponta do pé já conseguiam colocar a bola na cesta.

Por uma obra divina que trouxe lucidez a todos naquele momento, não fizeram isso. O basquete sobreviveu 100 anos com o aro na mesma altura e uma mudança deste tipo impactaria em uma mudança total na mecânica de chute, no posicionamento dos rebotes, na plástica das jogadas e tudo mais. O esporte seria transformado completamente – e por preciosismo, já que hoje a convicção de que se deve jogar com dois pivôs mudou e ninguém mais fala em aumentar a altura do aro.

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Só Curry tem um aproveitamento decente do meio da quadra: vale a pena mudar a regra por causa de um jogador?

A tese de que o jogo está muito previsível, só com duas jogadas, também é furada para mim. Nunca houve uma variação tão grande de jogo de contra-ataque e jogo de meia quadra – enquanto antes a NBA só jogasse ou de um jeito ou de outro. Nunca os pivôs precisaram sair tanto do garrafão para marcar outros pivôs que chutam de fora ou cobrir pick’n’roll – espaçando o jogo para alas e armadores infiltrarem.

Ao meu ver, existem regras e situações que são muito mais urgentes para que sejam revisadas, como o abuso das faltas sem a bola nos jogadores com baixo aproveitamento nos arremessos da linha de lance-livre. Isso atrapalha muito mais o jogo do que a chuva de chutes de três – que, além de tudo, ainda são empolgantes e bacanas de assistir.

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5 Comments

  1. qual a distancia para o arremosso de tres pontos

  2. Eliab Landin

    Bela abordagem, Dois Dribles. Concordo 100%. É sempre difícil aceitar a superioridade de um time, acontece em tds os esportes. Mas isso é fase ou o Barcelona continua imbatível com seu tic-taka??? Deixe do jeito que tá, que está maravilhoso!!!! Parabéns pela matéria, um abraço!

  3. Geo

    Bela análise!

    Eu gostaria que você explicasse do seu ponto de vista se o domínio dos pivôs na liga acabou por uma mudança na marcação feita pelos rivais, por uma mudança no ataque das equipes que não tinham grandes jogadores de garrafão, meio como uma reação ao jogo de post up eles decidiram chutar mais de fora e concluiu-se que isso era mais eficiente, ou simplesmente a safra de pivôs dominantes acabou.

    • Dois Dribles

      Geo,
      Eu não tenho uma opinião formada sobre isso e é algo bem difícil de cravar, mas a minha sensação é que podem ser estas três coisas (principalmente a passagem de uma safra excelente de jogadores de garrafão), aliado ao fato que o jogo está com uma velocidade (pace) semelhante ao dos anos 80, mas com atletas muito mais versáteis – fazendo com que os pivôs clássicos, altos e menos móveis, parecessem menos úteis.

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