Hoje é o 30º aniversário do jogo que, para muitos, foi o maior da história da NBA. No dia 20 de abril de 1986, Michael Jordan anotou o recorde de pontos em uma partida de playoff, 63. Mesmo assim, o Chicago Bulls perdeu o segundo jogo da série para o Boston Celtics, que se sagraria campeão da NBA algumas semanas mais tarde. Na entrevista pós-jogo, Larry Bird, principal jogador adversário, cravou uma das frases mais famosas da história da liga, ao se referir à performance de Jordan: “Acho que era Deus disfarçado de Michael Jordan”.

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Era Jordan contra um time de Hall of Famers 

Naquele momento, a liga ainda descobria quem era Jordan. Era apenas seu segundo ano como profissional. Todos já reconheciam nele uma habilidade absurda para pontuar e liderar o jovem time do Bulls, mas Boston Celtics e Los Angeles Lakers ainda polarizavam as ações da NBA. No Leste, nem mesmo o Detroit Pistons era páreo para o time verde. Chicago, então, ainda era um desenho só do que poderia se tornar.

MJ teve um excelente ano de estreia na temporada anterior, mas logo na sua segunda temporada se lesionou feio. Quebrou um osso do pé já na terceira partida da temporada regular. Ficou de fora maior parte da maratona de jogos e só voltou nos últimos meses de campeonato. Ainda foi poupado nas últimas partidas da temporada regular para que estivesse com tudo nos playoffs. A estratégia foi contestada, já que Jordan era jovem e a falta de sequência poderia ser mais prejudicial do que benéfica para o ritmo de jogo do atleta.

Chicago e Boston acabam se cruzando logo de cara nos playoffs. Um era o time a ser batido e o outro era o time que começava a virar xodó da torcida – mesmo terminando com uma campanha fraca de apenas 30 vitórias.

O primeiro confronto da série correu sem qualquer surpresa. Boston venceu o time do Bulls. No entanto, Jordan já surpreendeu todo mundo com uma atuação individual espetacular de 49 pontos.

Naquela época, a primeira rodada dos playoffs eram séries de cinco jogos, o que encurtava o trabalho para os melhores times. Chicago então entrou em quadra no segundo jogo da disputa determinado a empatar a série, caso contrário seria quase impossível reverter a vantagem do adversário. A comissão técnica do Bulls até considerava que seria melhor Jordan não jogar, depois do esforço descomunal do jogo 1 e da possibilidade de voltar a se lesionar, mas também sabiam que não existia a menor chance de vencer sem ele.

Bom, a partida em si foi quase que a primeira edição do jogo do Space Jam. Era Jordan sozinho de um lado contra um time de monstros sagrados do esporte. O grande craque era Larry Bird, eleito MVP pelo terceiro ano consecutivo naquela temporada – em que seria escolhido também como MVP das Finais. O garrafão tinha outros dois jogadores do Hall da Fama: Kevin McHale (eleito para o time de defesa da temporada) e Robert Parish. Na marcação de Jordan, o monstro Dennis Johnson foi o escolhido (também eleito para o time de defesa daquele ano, como em outras DEZ oportunidades).

O técnico adversário, KC Jones, contou na oportunidade que presenciou algo que nunca tinha visto em toda a sua carreira. “Geralmente, os jogadores reservas querem entrar e mostrar que podem parar o jogador adversário que está acabando com a partida. Naquele dia, ninguém queria entrar para marcar Jordan”, disse.

Bom, a verdade é que foi uma batalha totalmente desleal, mas ainda assim equilibrada. Da metade final em diante, era bola no Jordan e todos os defensores do Boston dobrando nele. Estava tão difícil parar o jogador, que o time inteiro do Celtics terminou a partida no limite de faltas – Bill Walton e Dennis Johnson foram eliminados com seis faltas e Bird, Ainge e Parish fecharam o jogo com cinco infrações.

O que os jogadores da época contam, é que parecia que Jordan pontuava com uma facilidade nunca antes vista. John Paxson, armador do Bulls, disse na oportunidade que Michael estava tão bem que ele tinha vontade de parar de jogar e só ficar assistindo o colega em quadra – aparentemente foi isso que aconteceu, já que Jordan meteu metade dos pontos da equipe.

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Famoso box score manual da partida

A partida terminou empatada no tempo normal do Boston Garden em 116 a 116. Mesmo com a superioridade flagrante do elenco do Celtics, o jogo foi pau a pau durante todos os 48 minutos, sem uma equipe abrir uma grande liderança. No lance final do tempo normal, o Boston liderava por dois pontos com seis segundos no cronômetro. Jordan tentou chutar de três para virar, mas errou – o juíz, no entanto, marcou falta. Da linha de lance-livre, Jordan acertou dois dos três arremessos e o jogo foi para a primeira prorrogação.

Na primeira prorrogação, Chicago até conseguiu abrir quatro pontos de vantagem, mas Boston conseguiu empatar nos últimos dois minutos. Jordan teve a chance de dar a vitória ao Bulls, mas errou o arremesso final, o que levou o jogo a uma segunda prorrogação. Daí Michael não teve gás (jogou 53 dos 58 minutos de partida) e o Boston conseguiu fechar o jogo em 135 a 131.

Neste jogo, Jordan deu seus sinais de que seria o maior pontuador dos anos seguintes – fazendo cestas de tudo quanto é lugar (como os tempos eram outros, o Chicago chutou só DUAS bolas de três o jogo inteiro), mesclando jump shots com uma habilidade ímpar de invadir o populoso garrafão do time adversário. Apesar da derrota, Jordan mostrou a cara ao mundo e conseguiu fazer frente a um dos melhores times de todos os tempos sozinho. Ele chutou 42 bolas e acertou 22. Forçou o jogo do lance-livre também, convertendo 19 e 21 tentativas.

Já destruído pro jogo seguinte, Jordan não conseguiu repetir a atuação e o Chicago perdeu mais uma. Boston fechou a série em 3×0 e avançou para derrotar, posteriormente, Atlanta Hawks, Milwaukee Bucks e Houston Rockets e se sagrar campeão da liga.