A superstição é presença constante no esporte. É meio que aquela coisa: não custa nada apelar para os poderes sobrenaturais de qualquer coisa e uma forcinha extra nos momentos decisivos é sempre bem vinda. Foi por isso que o Cleveland Cavaliers entrou em quadra com seu polêmico uniforme preto com mangas na partida 7 da final contra o Golden State Warriors. O time tinha usado a camisa na vitória do jogo 5, que deu sobrevida à equipe, e decidiu repetir a dose no confronto derradeiro. Não sei se foi por isso – na verdade com certeza não -, mas o time ganhou.

A mandinga final confirmada pela conquista do título é o maior trunfo para uma contestável mudança no basquete: goste ou não, as mangas vieram para ficar.

Os torcedores mais conservadores detestam a ideia. A regata é a principal marca do vestuário do basqueteiro – é como obrigar que os caras tirem o pijama centenário do baseball ou que se proíba as ombreiras no futebol americano. Durante um século de disputa do jogo, as camisetas só eram permitidas em situações extremas, mas sempre marcarando a inferioridade do camarada que a usasse. O reserva pode usar no banco, tá permitido. Aquele outro cara acima do peso também pode usar uma camiseta por baixo da regata. E só.

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Na hora do título, as mangas estavam lá

Bom, como nem sempre a moda esportiva vai ao encontro do gosto popular, vide as camisas de futebol justinhas que caem bem em menos de 5% da população mundial, a Adidas decidiu institucionalizar as camisas de basquete com manga em 2012, numa experiência com o Golden State Warriors. O povo caiu de pau, dizendo que os uniformes pareciam com muito com os de ‘soccer’ (e todo o ódio que o americano médio destila sobre este esporte europeu que invadiu o US and A).

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A primeira experiência dos modelos com manga eram péssimos mesmo

A fabricante oficial da NBA não deu a mínima e programou uma edição especial para todos os times que jogassem na rodada de Natal do ano seguinte (tradicionalmente, nos últimos anos, Adidas prepara um uniforme especial para os jogos do dia 25 de dezembro). Foi daí que as mangas caíram em desgraça: muita gente teve que jogar com a camisa e detestou. Lebron disse que eram desconfortáveis, Nowitzki classificou como ‘horríveis, Curry disse que eram ‘feias’ e Robin Lopes desejou que todas fossem queimadas e outras estrelas xingaram as novas camisetas.

Eu achava que a reclamação era um mimimi comercial, incentivado por jogadores que tinham contrato com outras fabricantes. Até achava que, cedo ou tarde, ia cair no gosto do pessoal: para um cidadão comum médio é mais propício usar uma camiseta de manga normal do que uma regata, não é mesmo? Pois é, mas sei lá se pela reação negativa dos jogadores ou se porque os primeiros modelos foram realmente feios, mas os modelos fracassaram nas vendas, a ponto da NBA cogitar tirá-los de circulação para a temporada 2014.

Ameaçou, mas não tirou de circulação. A fabricante das camisetas tentou dar uma nova cara para os modelos, lançando uma linha “PRIDE”, que serviria para reforçar o orgulho dos times e suas cidades. A camisa do Blazers dizia “Rip City”, por exemplo, a do Nuggets tinha uma picareta, que é o símbolo da cidade, e por aí vai – nada mais do que uma ideia de um marqueteiro para tentar desovar as camisetas.

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Partiu festa do pijama

Bom, aos trancos e barrancos elas continuaram por aí. Daí que chegamos à camiseta preta do Cavs. Na estreia do modelo nesta temporada, no início de novembro, o time enfrentou o New York Knicks em casa. A partida começou mal para o Cleveland, que perdia por 36 a 27, para um time bem mais fraco. Para piorar, Lebron tinha acertado só quatro arremessos de onze tentados. Assim que perdeu mais um chute, o jogador saiu para o banco de reservas rasgando as mangas da camisa, como se elas estivessem incomodando o jogador e atrapalhando seu desempenho – o que, aí sim, seria o argumento definitivo para enterrar de vez o modelo.

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O jogo terminou, Lebron foi diplomático em dizer que na verdade só estava frustrado com o resultado do jogo e descontou na camiseta. Apesar do time ter virado o jogo depois que ele arrebentou o uniforme, já se comparou o desempenho dos jogadores com e sem manga e a conclusão é que elas não atrapalham os arremessos. Com isso, mesmo marginalizadas, elas continuaram aparecendo em um jogo ou outro.

Até, no final das contas, a até então maldita camisa do próprio Cavs virou o pé de coelho do time. Foi a coincidência de ser o único modelo preto do time (e os times em que Lebron joga tem essa coisa de querer jogar de preto para superar as adversidades, calar os críticos e zzzzzzzzzzzz), ter sido escolhida para o jogo 5, o time ganhar e acabar tentando a sorte com ela na finalíssima. Pronto, a camisa com manga foi campeã da NBA pela primeira vez e teve sua redenção.

Tem louco pra tudo e óbvio que já calcularam o aproveitamento do Cleveland com cada um de seus uniformes na temporada e as ‘sleeved jerseys’ são as que mais deram vitórias, proporcionalmente, para o time.

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O levantamento, o cálculo e a arte são do StatMuse

Agora, o que antes seria uma simples decisão, se tornou um dilema. A Nike assume a criação e fabricação dos uniformes para a próxima temporada e a marca jamais abriu mão das regatas enquanto fabricava para outras ligas de basquete. Isso fazia sentido até então, já que as mangas eram um símbolo da rival e eram detestadas. Mas e agora que o uniforme foi uma das marcas do título do seu principal garoto propaganda? Estará para sempre como o uniforme do primeiro título da franquia com a maior folha salarial da NBA, que também tem em Kyrie Irving um dos seus principais patrocinados.

Bom, o Utah Jazz já até lançou um modelo com manga que na verdade é um uniforme de futebol com as cores do time de basquete. Com a autorização dos patrocínios em formas de patches nas camisas, a manga é também mais uma área comercializável para as franquias. Em resumo, muito se falou, muito se criticou, mas as camisetas estarão cada vez mais presentes. Agora, com um título no currículo.

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