Kevin Garnett, um dos principais jogadores de todos os tempos no basquete, anunciou a sua aposentadoria na última sexta-feira (23). O seu legado é imenso: foi o cara que abriu o caminho dos adolescentes vindos direto da escola para a NBA, foi o atleta que inaugurou a multifunção dentro da quadra, foi um dos primeiros desta geração que preferiu parecer mais baixo do que era para poder jogar aberto (quando o normal era tentar parecer mais alto para entrar na liga) e também foi um dos primeiros a nos chamar a atenção para estatísticas mais avançadas na defesa para medir a importância de um jogador em quadra.

Acima de tudo isso, o que sempre me fez gostar muito de Garnett foi que a sua boca conseguia ser ainda maior e mais letal que a sua habilidade monstruosa. Guardadas as devidas proporções, uu sou aquele cara que enche o saco do adversário o tempo inteiro na pelada, que fala ‘errou’ assim que a bola sai da mão do rival, que grita “ISSSOOOOOOOOOOOOOOO” sempre que alguém da chutão pela lateral e vejo em Garnett o mesmo prazer de avacalhar o adversário que eu tenho.

Garnett, por encarar todo jogo como uma guerra em que quase tudo é permitido, é o cara que melhor sabe se aproveitar daquele limbo que fica entre a regra do jogo e a ética pessoal. Dentro de quadra, a partir do momento que aquilo vai desestabilizar o adversário, todo bullying é permitido para ele.

trash-talking

De todas as cretinices, duas ficaram mais famosas: a primeira foi quando teria chamado Charlie Villanueva, ala com uma doença que o fez perder todos os pelos do corpo, de “paciente de câncer” durante uma partida. Depois do jogo, quando a história veio a público, Garnett disse que na real tinha dito que, na verdade, Villanueva era “um câncer para o seu time”. Ofensivo, mas menos cruel, convenhamos.

A segunda, uns anos mais tarde, rolou numa treta com Carmelo Anthony. Em um jogo de playoff, Garnett disse que a esposa do ala do Knicks tinha gosto de Honey Nut Cheerios em um momento em que o casal passava por uma turbulência no casamento, segundo os sites tipo TMZ da época. Diante da provocação, o pau quebrou em quadra. Dessa vez, KG não negou a declaração.

Mas há centenas de outras que, por se tratarem do mais refinado mau caratismo, jamais foram efetivamente confirmadas – mas a julgar pelo histórico, só podem ser reais. Uma delas foi a vez que desejou “feliz dia das mães” para Tim Duncan, cuja mãe já tinha morrido há anos.

E por se tratar do mais refinado mau caratismo, muitas delas jamais serão confirmadas, como é o caso da vez que mandou um “feliz dia das mães” para Tim Duncan, que já tinha perdido há mãe há anos.

Dizem que essa atitude era difícil de lidar até para os próprios companheiros – especialmente calouros e estrangeiros -, que muitas vezes não aguentavam o teor das ‘brincadeiras’. Rasho Nesterovic, pivô esloveno que jogou no Wolves, saiu do time ao final do contrato e disse que não aguentava mais dividir o garrafão com Garnett, que a cobrança era insuportável. Mason Plumlee, Jose Calderon, Dwight Howard, Ron Artest, Andrea Bargnani, Ray Allen e vários outros também provaram do bullying do Big Ticket.

Poucos conseguiram se livrar com algum êxito da língua afiada do ala-pivo. Steven Adams soltou nestes dias uma das raras histórias de sucesso. Recém-chegado na liga, mas já alertado de que Garnett não era fácil de lidar dentro da quadra, Adams fingiu não saber inglês. Diante de uma dezena de besteiras faladas por KG, Steven mandou um “no english”, que fez Garnett sossegar. Sorte dele que Kevin era ignorante o suficiente para não saber que Adams era neozelandês e que lá eles falam inglês…

No final das contas, é bem discutível o quanto é certo ou errado agir assim, mesmo que dentro da moral da disputa do jogo, que não prevê uma regra para isso. Mas, acima de tudo, demonstra toda a garra que Garnett despejava em quadra toda vez que a bola subia. Insuportável para boa parte dos seus pares, mas vai deixar saudades.