“Who are you? Who are you?”, cantou ironicamente a torcida do Milwaukee Bucks quando o técnico Gregg Popovich colocou Jonathon Simmons em quadra na casa do adversário. Com uma dose de razão nos berros, os torcedores queriam intimidar o jogador, calouro, apesar dos seus 26 anos. Simmons respondeu a sacanagem com 18 pontos em 20 minutos e a vitória para o time visitante.

Anteontem, mais uma vez, o ala-armador do San Antonio Spurs saiu do nada para acabar com o jogo de estreia contra o superpoderoso Golden State Warriors. Fez 20 pontos, deu um toco à lá Lebron James em Stephen Curry e cravou uma das maiores enterradas do ano, no primeiro dia da temporada, na cara de Javale Mcgee. Nos 28 minutos que esteve em quadra, o time texano fez 33 pontos a mais do que o rival da California – um impacto maior do que Kawhi, Lamarcus ou Ginobili.

Mas se ontem ele estava com o diabo no corpo na principal partida da primeira rodada, se em janeiro ele calou um ginásio inteiro que sequer sabia da sua existência, há três anos Simmons era o retrato do fracasso no esporte profissional americano.

Jonathon estava fodido. Depois de ter saído da universidade e ter sido rejeitado no draft, Simmons jogava de graça pelo Sugar Land Legends, da semi-profissional e recém-criada American Basketball League (ABL). Ele só queria aparecer para algum time. Não contava que o campeonato seria interrompido por problemas financeiros depois de um mês de disputa e ele sequer teria um lugar para jogar.

Sem muito rumo na vida, o jogador tentou uma peneira do Austin Toros, time da D-League, liga de desenvolvimento da NBA, ligado ao San Antonio Spurs. Teve que pagar 150 dólares que não tinha para fazer o teste. Com quatro filhas desde a época da faculdade – quando os jogadores não podem receber para jogar -, apostar uma grana dessas num teste para um time de segunda categoria não era a melhor das ideias. Mesmo assim tentou. E passou.

Foi dos selecionados entre 60 caras que estavam na mesma merda que ele. Os treinadores recomendaram então que ele voltasse dali algumas semanas para o trainning camp do time, quando o Austin formaria um grupo para jogar a temporada da liga de desenvolvimento. A D-League funciona como uma ‘reserva técnica’ dos times da NBA, que despacham alguns jogadores do elenco para jogar por lá enquanto não têm espaço nos times principais. Para dar condição para estes caras atuarem com alguma frequência, completam o elenco com peladeiros profissionais como Simmons.

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Jonathon se saiu bem e a equipe o ofereceu um contrato de quase 2 mil dólares por mês. Em dois anos de atividade, ele foi o primeiro jogador a integrar o elenco vindo de uma peneira pública. A grana até era boa se comparada com o que ele tinha ganhado com basquete até aquele momento – no caso, nada -, mas não o suficiente para sobreviver e bancar as quatro filhas que tinha deixado na sua cidade natal, Houston.

Na sua primeira temporada estava cumprindo um papel razoavelmente digno, mas nada de muito destaque. Outros colegas de time ganhavam vez ou outra chances no San Antonio Spurs quando algum jogador do elenco principal se lesionava (Austin Daye, Ronald Murray, Bryce Cotton), mas nada dele ser chamado.

Um dia chegou ao treino decidido a largar mão da vida de atleta de segunda categoria e trabalhar em algum emprego tradicional – sua mãe queria que ele fosse barbeiro – , mas foi demovido da ideia pelo então membro da comissão técnica do time, Earl Watson, que hoje é técnico do Phoenix Suns. Watson e seus colegas de Austin estavam de olho no talento de Simmons, aguardando uma oportunidade para recomendá-lo para o staff principal de San Antonio.

Foram duas temporadas de insistência sem muitos frutos até que na offseason de 2015 o Brooklyn Nets o convidou para jogar nas Summer League de Orlando. Três jogos depois, foi a vez do San Antonio Spurs dar uma oportunidade a ele, desta vez para o torneio de verão de Las Vegas, o mais tradicional de todos. Atuou bem e foi nomeado o melhor jogador do campeonato.

Dois dias depois de receber o prêmio, o front office do San Antonio o procurou para oferecer um contrato para a temporada seguinte. Seriam 500 mil dólares não garantidos para ser inscrito como um dos 15 jogadores do Spurs para disputar a NBA!

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Como tudo na vida dele é dolorosamente sofrido, na data final para inscrição dos elencos, Simmons foi mandado de volta para o time de Austin – o alento era que, desta vez, era um atleta contratado da equipe principal que só jogaria temporariamente pelo time reserva.

Não durou um mês para, no mesmo jogo, Manu Ginobili e Kawhi Leonard se lesionarem e o time precisar de um suplente para a posição. Foi a deixa necessária para que Simmons estreasse na NBA, calouro aos 26 anos.

Desde então, teve algumas idas e vindas entre San Antonio e Austin, mas já jogou 56 partidas pela principal liga do mundo. Duas delas como titular. Foi vaiado em Milwaukee. Foi estrela contra o Golden State.

Hoje é uma peça garantida na rotação mais democrática e talentosa da liga, arranca elogios do principal técnico da NBA e, mais impressionante de tudo, venceu todos os prognósticos de ser um ninguém.