Um Iverson com disciplina“. O cara que cravou essa definição sobre Steve Francis lá no final dos anos 90, há quase 20 anos, foi um iluminado. Ainda que o futuro tenha provado que ele estava errado, já que Francis conseguiu a incrível proeza de ter uma biografia ainda mais conturbada que a de Iverson, a pertinência da comparação é impressionante: ambos foram atletas profissionais improváveis cujos talentos superaram as limitações físicas e que, no final das contas, acabaram boicotados pelos seus péssimos hábitos fora das quadras.

O leitor um pouco mais novo talvez não se lembre, mas Steve Francis foi um protótipo de Russell Westbrook que transitou pela NBA no começo dos anos 2000.

Em um relato pessoal, foi nessa época que eu comecei a ver basquete com mais cuidado mas, ao mesmo tempo, ainda não estava contaminado por essa obsessão muitas vezes chata de assistir o jogo pensando em eficiência, números e tudo mais. Ver um cara de 1,90m enterrar por cima de todo mundo e descolar triple-doubles no meio dos pivôs lendários dos anos 90 era algo fascinante. Por um período, eu me convenci que Steve Franchise, como era chamado, era a melhor coisa da NBA.

Steve Francis

Mas o seus feitos como jogador não são nada se comparados à sua atividade, digamos, extra-quadra – aliás, isso é que aparentemente fez a carreira de atleta de Francis ser tão curta.

O currículo de estrela universitária, calouro do ano e três convocações para o All Star Game nem se comparam à lista de bizarrices e problemas que enfrentou após a aposentadoria precoce da NBA, aos 29 anos.

Aliás, ele era tão bom que, quando começou a decair como atleta, ninguém entendeu muito bem, Tudo bem, teve uma lesão ou outra, mas nada tão sério a ponto daquele jogador, até pouco tempo fabuloso, virar uma peça descartável de uma hora para outra.

As coisas começaram a ficar um pouco mais claras quando as primeiras imagens de Francis após derrocada começaram a surgir. Em uns dois anos, o jogador parecia ter envelhecido uns quinze.

Ele é esse senhorzinho da esquerda

Ele é esse senhorzinho da esquerda

As imagens eram tão chocantes, que Francis teve que vir a público dizer que não estava virado nas drogas. Que apenas estava envelhecendo como qualquer outra pessoa – de 30 e poucos anos com uma lata de 50…

Vira mexe, pitavam umas imagens mais intrigantes ainda do jogador. Numa delas, jogando champangne no rosto enquanto CHORAVA cantando Drunk in Love da Beyoncé. Na outra, era enforcado pelo também ex-jogador e também maloqueiro Stephen Jackson.

Neste meio tempo, notícias davam conta que Francis estava completamente quebrado, sem dinheiro, apesar do mais de 103 milhões recebidos em salários. Para descolar uma grana, tentou jogar na liga chinesa – numa época em que a liga chinesa era menos competitiva ainda – e não mostrou qualquer condição de voltar a praticar um esporte.

Agora, parece que chegou ao fundo do poço. Nesta semana Francis foi parado por dirigir bêbado e acima da velocidade permitida nas ruas de Houston. Acabou mantido preso por estar sendo procurado por roubo – alguns meses atrás ele teria estourado um carro e roubado mais de 7 mil reais em pertences. Arrependido ou alterado, ele até procurou a polícia para confessar o crime aos prantos, mas foi liberado pelos policiais que não entenderam nada. Alguns dias mais tarde, com a denúncia do crime em mãos, a polícia da Florida passou a procurá-lo pelo crime e o classificou como fugitivo. Pesado…

Incrível que, ainda jovem, ainda sem grandes indícios do que viria pela frente, tenham soltado aquela comparação com Iverson. Realmente, com alguma razão, mas definitivamente sem a tal disciplina.