O esporte é mutante. Já foi só de brancos, só de americanos, só de gigantes. Já foi jogado só dentro do garrafão. Não tinha linha de três. Cogitaram uma linha de quatro pontos. Foi corrido, foi caminhado. Em quadra, já rolou quase tudo. E quase tudo mudou.

O mesmo nos acessórios e equipamentos. Os All Star deram lugar aos Nikes, os calções ficaram cada vez mais curtos e, quando não podiam diminuir mais, começaram a crescer até o joelho novamente. As camisas já não são só mais regatas.

Aos mais desatentos, só uma coisa parece que passou incólume a tudo isso: a bola de basquete. Sempre do tamanho de uma melancia, alaranjada e com aquele quique característico, não muito cheia, não muito vazia.

Mas, dez anos atrás, a liga passava por dois meses de polêmica, justamente quando uma meia dúzia de cartolas decidiu mudar o “instrumento de trabalho” dos atletas sem consultá-los.

Na offseason de 2006, a Spalding lançou uma nova bola que prometia melhor performance e uma reação mais natural ao entrar em contato com o suor. A promessa era que, ao contrário da clássica bola, ela não precisaria de pausas sistemáticas ao longo da partida para que fosse secada. O material, sintético, também era ambientalmente mais indicado do que o couro usado até então.

A grande treta foi que nenhum jogador da liga testou a nova bola. Eles só tiveram em contato com a nova laranjinha, em outro tom da cor e com um desenho diferente nas ‘costuras’, na pré-temporada. Com o passar dos jogos, a promessa de desempenho não se confirmou. Não que ela piorasse o jogo propriamente dito – não melhorou, nem piorou os números de turnovers ou o aproveitamento dos chutes, apesar da promessa de facilitar a partida para os atletas -, mas os jogadores se sentiam incomodados com a mudança.

A principal reclamação é que o material causava alguns cortes nas mãos. A absorção da umidade também não estava legal. Havia quem reclamasse que, por causa disso, a pelota nunca saia da mão da mesma forma. Ora grudava mais do que deveria, ora escapava involuntariamente.

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Quando foi lançada, a Spalding, fabricante das bolas, disse que ex-jogadores fizeram testes para comprovar as melhorias. Steve Kerr e Mark Jackson, cobaias da marca, depois vieram a público para dizer que só tinham passado uma tarde batendo bola e que, naquele período, não identificaram nenhuma anormalidade.

Um protótipo parecido tinha sido usado no All Star Game do ano anterior e em algumas partidas da D-League, sem grandes reclamações, mas também sem uma amostra de horas de jogo suficiente para que os atletas formassem opinião.

Shaq, Nash, Nowitzki, Kidd… todo mundo reclamou da bola, mas a liga não se pronunciou no primeiro momento. A NBA, imagino, não queria minar o que ela julgava que poderia ser um sucesso comercial – afinal, era a primeira mudança na bola de jogo em 35 anos e apenas a segunda em toda a história do basquete profissional americano (a outra foi mudar o visual de quatro para seis ‘gomos’ a fim de deixá-la mais estável para o quique). A Spalding era seu parceiro mais duradouro e o medo era dar um tiro no pé do patrocinador.

Mas não há marketing que resista às principais estrelas mostrando seus dedos arranhados depois dos jogos ou a um Shaquille Oneal apontando para a bola depois de errar um lance-livre (mesmo que seu aproveitamento tenha sido medonho ao longo de toda a carreira). Dois meses depois, David Stern, manda-chuva da NBA, admitiu que estava reunindo as reclamações para avaliar o que seria feito. Diante do temor de uma adaptação tecnológica que resultasse em um frankenstein ainda pior, a alternativa mais desejada era que a velha bola de couro voltasse às quadras.

E, na virada do ano, foi o que aconteceu. A NBA voltou atrás e assumiu o erro de não ter testado exaustivamente a inovação entre os jogadores. A admissão pública do erro funcionou. Num acordo implícito – ou não, sei lá -, jogadores voltaram a jogar com a antiga bola de couro e todo mundo meio que fingiu que aqueles dois meses nunca aconteceram.

Desde então, nenhum executivo ou cientista maluco ousou mexer na laranjinha da NBA novamente.