Month: December 2016 (Page 1 of 2)

Globo quer transmitir compacto dos jogos de madrugada em 2017

Saiu na última edição da Veja de 2016: a Globo pretende finalmente valer seu contrato e transmitir algumas partidas da NBA a partir de 2017. Segundo a coluna Radar da revista, o esquema seria parecido com o do UFC, em que a emissora transmitia um tape depois do evento. No caso da liga americana de basquete, seria um compacto de madrugada.

As reações nas DITAS REDES SOCIAIS não foram das melhores. O público que acompanha o esporte acha que o modelo precariza a transmissão. De fato, se isso se confirmar e for assim mesmo, o cara que quiser assistir NBA vai possivelmente ter que ficar acordado até a madrugada para ver um ‘protótipo de jogo’. Além disso, há o receio de que a Globo coloque sua ‘marca’ das transmissões esportivas que não são futebol: comentários infantis, rasos e que tratam o telespectador como se fosse um completo imbecil, recheando de analogias ao futebol e “à nossa realidade”.

Acho que tudo isso é verdade e lamentável. No entanto, acho que MESMO ASSIM é uma experiência válida. Parto do básico: a parcela de pessoas que tem acesso aos canais por assinatura é pequena ainda (certa de 1/3 dos domicílios do país). Se para nós, eu e você, que escrevemos e lemos sobre NBA, um compacto de madrugada é muito pouco, para quem não tem Sportv, ESPN ou League Pass essa pode ser a única forma de ver um pouco de basquete, conhecer os principais jogadores e se encantar por este esporte.

Galvão sempre diz que o esporte dele é o basquete. Nota-se.

Também penso que serve como um teste. Assim como a Band nos anos 80 começou transmitindo tapes de jogos DO ANO ANTERIOR e, dez anos mais tarde, chegou a passar os playoffs ao vivo – e até hoje é tida como a grande escola de NBA da turma que tem entre 30 e 40 anos -, a presença do basquete na Globo pode mudar com o passar do tempo. Claro que é bem difícil que veja a ocupar algum lugar relevante na programação, mas quem sabe aquele horário da meia-noite, da 1h30, não possa ser ocupado eventualmente por basquete ao vivo na maior emissora do país? Seria um feito e tanto!

A experiência da liga na tevê aberta nos anos 80 e 90 foi sensacional para a popularização do esporte e, ainda que os tempos fossem outros, o público também só tinha acesso a doses homeopáticas de NBA. E mesmo assim uma legião considerável de fãs se formou.

Para o próprio canal, a experiência de teste seria útil para aprender a transmitir basquete. Há muito a evoluir. O que temos de exemplo não é animador. Quando o Globo Esporte resolve encaixar um resumo da rodada sempre sai uma pérola (outro dia eles cantaram uma vitória do Charlotte BOBCATS e não se cansam de chamar as conferências Leste e Oeste de DIVISÕES). Mas eu confio que isso possa mudar a partir do momento que a Globo for transmitir as partidas e tiver que valorizar seu produto.

Posso estar entorpecido pelo espírito das festas de final de ano. Ou pela bebida que já está rolando desde cedo aqui. Mas eu estou esperançoso que isso pode ser bem positivo.

Promoção Dois Dribles: ganhe uma camiseta “JR Smith sem camisa”

Pessoal, mais um ano que termina, mais uma temporada que vai correndo e eu só tenho a comemorar. Neste segundo ano de atividade, o blog tem crescido bastante, ganhado muito reconhecimento, eu tenho sido proporcionalmente menos xingado e, por isso, chegou a hora de eu agradecer a todos que leem os meus textos por aqui, curtem as páginas do Dois Dribles nas redes sociais e prestigiam o meu trabalho de alguma forma.

Para isso, anuncio aqui uma PROMOÇÃO em que vou sortear entre os meus queridos leitores e leitoras uma CAMISA DO JR SMITH SEM CAMISA. Quem conhece o blog sabe que JR Smith é um dos meus personagens favoritos da NBA e nada mais justo do que dar para um de vocês a camiseta mais badalada da última temporada.

O título da promoção ficou bem estranho, é verdade, mas o que interessa é que para participar da promoção é muito simples, muito fácil. Basta se candidatar pelo Yes! Ganhei para ganhar um cupom. O link estará fixado no perfil do Dois Dribles no Facebook ou no Twitter. Quanto maior a interação com as páginas do Dois Dribles, mais chances você tem de ganhar, então recomendo que passem a seguir a conta do blog nestes dois ~ambientes.

Caso você não lembre, JR Smith ficou tão alucinado com o título do Cleveland Cavaliers que ele ficou praticamente uma semana inteira perambulando pelos EUA sem camisa. A piada foi longe, Obama ligou para ele pedindo para que se vestisse, cartazes se espalharam pelas ruas de Cleveland implorando para que ele se vestisse até que uma loja americana criou uma camiseta que imita o jogador sem camisa.

E, sinceramente, acho que essa é a ÚNICA oportunidade de você ter esta camiseta, já que a loja demora um tempo infernal para enviar os produtos, manda sem as informações de postagem completas (tive que brigar nos correios para que não devolvessem pro remetente, já que estava sem as informações necessárias) e ainda tem um atendimento péssimo (era para ter DUAS camisetas pro sorteio, mas eles só mandaram uma e até agora não se pronunciaram sobre o erro).

A promoção fica no ar até às 14h do dia 7 de janeiro e não tem risco de mutreta, nem nada, pois o sorteio é feito automaticamente pelo Yes! Ganhei – lembrando que é preciso curtir a página do Dois Dribles em uma das redes sociais para ganhar o prêmio!

Boa sorte a todos!

 

Kings não deve trocar Cousins agora

Demarcus Cousins é um animal incontrolável. Pior: é um animal incontrolável puto com seu time disfuncional e que esta a um ano e meio do final do seu contrato. Por causa disso, há algum tempo existe uma campanha para que o Sacramento Kings troque o jogador. A ideia é que, além de passar o ‘problema’ para frente, para um time que precise mais do seu talento e tenha melhores condições de domá-lo, a franquia não fique de mãos abanando caso o Demarcus resolva assinar com algum rival no verão americano de 2018, quando seu contrato se encerra.

O coro foi engrossado nas últimas semanas, quando Cousins conseguiu aumentar a frequência das polêmicas já habituais – as duas principais, quando cuspiu o protetor bocal no banco adversário, foi expulso do jogo, dai os juízes voltaram atrás e ele voltou para a partida e quando ameaçou sair na mão com um jornalista IDOSO do Sacramento Bee que tinha feito uma coluna criticando seus hábitos noturnos e possíveis más influências.

Desde o começo acho essa história uma besteira enorme! Ainda que seja um louco varrido, Demarcus é o que de melhor aconteceu para Sacramento nos últimos anos. Desde Chris Webber, nunca um jogador tão talentoso tinha vestido a camisa da franquia. É justo tratar como se a única jogada inteligente fosse justamente se desfazer dele?

Veja que atualmente, mesmo com todos os problemas, com um time ainda bagunçado, é ele que tem carregado a franquia inteira nas costas em uma campanha que, pela primeira vez em anos, flerta com os playoffs – está na oitava posição neste momento. Não existe absolutamente nenhum sentido em defender que Sacramento despache seu craque pelos seus problemas desconsiderando suas qualidades, o momento da equipe e suas possibilidades de sucesso.

No final das contas, me parece que toda esta história, desde o começo, acontece porque Kings é uma franquia pequena, uma das menores da NBA, e tem em suas mãos um talento que muitos não julgam digno de um time daquele porte. A turma, A MÍDIA, as outras torcidas acham que é mais justo ver um All NBA com uma camisa de peso, lutando no topo da tabela, mas não pensam que, para o Kings, um cara como Cousins é a esperança de ser alçado a um novo patamar.

Fica mais claro ainda quando lembramos que esse papo rola há pelo menos um ano e meio, quando Cousins estava A TRÊS ANOS do final do seu contrato – uma época em que essa campanha justificada pelo suposto ‘valor de mercado’ era absolutamente surreal.

Analisando friamente, se for para trocá-lo, é até melhor esperar o pior momento ’emocional’ de Cousins passar, torcer para uma improvável calmaria nas suas polêmicas e, de quebra, mostrar aos outros times que dentro de quadra ele é um dos jogadores mais decisivos do jogo, capaz de brigar com times muito mais preparados do Oeste.

Que seja em fevereiro, quando o prazo para trocas desta temporada se encerra, ou na offseason. Mas, fazer isso agora é o tipo de movimento que não faz o menor sentido para ninguém – só para quem quer vê-lo com outra camisa mesmo contrariando qualquer lógica.

A maior rivalidade da NBA hoje

Não é pelos uniformes diferentes. Não é pela superestimada ‘rodada de Natal’ – que geralmente rende boas exibições individuais, mas jogos não muito pegados. Mas se você gosta de basquete você tem um compromisso imperdível hoje às 17h: assistir ao jogo mais importante da temporada até o momento, Cleveland Cavaliers x Golden State Warriors.

Não existe, nos últimos anos, rivalidade como esta. Os dois times se enfrentaram nas últimas duas finais, com uma vitória para cada lado, e tem tudo para se encontrarem novamente na série derradeira deste ano, fazendo uma inédita terceira final seguida entre duas equipes. A dupla também concentra, disparado, o maior número de excelentes jogadores da NBA, com o melhor da última década (Lebron James), o melhor dos últimos dois anos (Stephen Curry) e o último MVP que não nenhum destes dois já citados (Kevin Durant), além, claro, dos excepcionais Kyrie Irving, Kevin Love, Klay Thompson e Draymond Green.

Disputa assim, com tantas finais, títulos e craques juntos, só nos anos 80 entre Boston Celtics e Los Angeles Lakers, com três finais em quatro anos (84, 85 e 87) e contando com lendas do esporte como Larry Bird, Kevin McHale, Robert Parish, Magic Johnson e Kareem Abdul Jabbar. Depois disso, as rivalidades foram mais passageiras, menos talentosas, vitoriosas e equilibradas.

A disputa também foi esquentando nos últimos tempos e chega a este Natal no auge do ódio mutuo – o máximo que se pode atingir em um jogo de temporada regular. A começar pela virada impressionante nas finais passadas, quando o Warriors vencia por 3-1 e acabou sendo derrotado por 4-3 e o deboche pelo lado do Cavs (com direito a piadas maldosas a respeito disso na festa de Halloween organizada por Lebron) e finalizado pela chegada de Kevin Durant ao time californiano, na novela mais controversa da offseason.

Provocação de Lebron: biscoitos com as lápides de Curry e Thompson

Quem confirma tudo isso que eu disse acima são os torcedores dos dois times, que simplesmente ODEIAM uns aos outros, hahaha.

E, além de toda a batalha EMOCIONAL, os times também se enfrentam hoje na primazia técnica. O Golden State chega à partida com um jogo ofensivo mais refinado, menos dependente das bolas de três e mais envolvente entre todos os seus jogadores. Ao invés de várias cestas em que Stephen Curry e Klay Thompson batiam bola desesperadamente até que chutasse a dois metros da linha de três, a equipe agora se transformou no time que mais passa a bola na liga. Com uma proporção de assistências historicamente alta, o GSW dificilmente força um arremesso ‘ruim’ – uma característica letal quando se tem reunidos três dos melhores arremessadores da história em um só time.

A defesa, que não é tão boa quanto no ano passado, ainda conta com um Draymond Green ainda mais decisivo e com Kevin Durant marcando da melhor maneira possível em toda a sua carreira. Se o time não é tão eficiente lá atrás, tem jogado pelo menos de uma maneira mais plástica e bonita de assistir nos dois lados da quadra.

Do lado do Cavs, temos uma equipe que sabe cada vez mais administrar seus talentos – algo que só é possível em uma conferência Leste, onde o Cleveland sobra. É impressionante como o time puxa o freio de mão em partidas mais simples e joga tudo que pode quando é exigida – o que faz o time estar mais inteiro que os demais quando o bicho pega, como é o caso de hoje. O seu trio principal está jogando ainda melhor, tanto individualmente quanto juntos. Lebron dispensa qualquer análise, Kyrie está mais feroz como pontuador e Kevin Love nunca esteve tão próximo do que era em Minnesota. De negativo, apenas a baixa de JR Smith, lesionado com um dedo quebrado.

Ou seja, não é pela rodada de Natal, mas sim pela rivalidade. O jogo é imperdível!

Sem mais hoverboards. Pra sempre.

Jogadores e times chegaram a um consenso no novo acordo de trabalho na semana passada, afastando quase que definitivamente as chances de uma greve ou locaute nos próximos anos – ainda que muito improvável, os termos do novo acordo precisam ser ratificados pelos donos de times até a primeira quinzena do ano que vem. A nova CBA determina novos salários mínimos para calouros e veteranos, garantindo a possibilidade de vencimentos ainda maiores para os jogadores. Também define algumas regras sobre quem pode se candidatar ao draft e novas alternativas de calendário. Tudo muito importante e alvo de muitas negociações.

No entanto, os meandros do acordo guardam algumas curiosidades mais, digamos, banais. Como boa parte da discussão se trata de dinheiro (sua divisão, salários mínimos e máximos e etc), um dos termos do documento fala sobre atividades não relacionadas ao basquete que serão proibidas aos jogadores pelos riscos de lesão aos atletas – e, convenhamos, não existe algo mais detestável na visão dos clubes do que ter que pagar contrato a um jogador que se machucou por uma imprudência fora das quadras.

Algumas coisas são bem óbvias: jogadores estão proibidos de manipular armas de fogo, fogos de artifício, andar de jet ski, pular de paraquedas e outras coisas do gênero, incluído todo o rol de esportes radicais, por exemplo. Não chega nem a ser uma novidade. Ainda que seja a primeira vez que isso é citado numa CBA, boa parte dos contratos dos jogadores já continham estas proibições em seus termos.

Se boa parte destas atividades já estavam na lista de passatempos proibidos pelos seus próprios contratos, uma restrição surpreendeu boa parte da classe: andar de HOVERBOARD não será mais permitido também. O ‘skate do futuro’ ficou mais famoso nos pés de JR Smith, que rodava pelos corredores das arenas como se fossem sets do ‘De volta para o futuro’ ao longo da temporada passada. Ainda que ele fosse o maior adepto, 9 entre 10 jogadores apareceram com um hoverboard por aí em algum momento.

A coqueluche foi tão forte que A MODA ATÉ PASSOU – o que causa um pouco de estranheza, já que aparentemente ninguém mais usa o negócio. Mesmo assim, a NBA está preocupada que algum jogador preserve um prazer reprimido por andar com o equipamento – que foi o item mais vendido na Black Friday de 2015 e que, consequentemente, mais causou lesões aos seus clientes.

Em todo caso, apesar de entender a posição dos times e achar que o impacto prático disso será mínimo a essa altura, acho lamentável a decisão. Seria possível ver um jogador tão SERENO, flanando por aí, mesmo quando seu time estava sendo massacrado na final, como vemos JR Smith naqueles vídeos (de 2015, quando o Cavs perdeu para o GSW)?

Acho impossível. Um milagre do bom estado de espírito promovido pelo hoverboard, com certeza.

Ruído anunciado no ‘processo’

Depois de anos com times medonhos e derrotas propositais, o Philadelphia 76ers voltou a ter algo parecido com um time de basquete. Uma boa parte disso se deve ao fato de que Joel Embiid é um ser humano maravilhoso com um talento ainda maior do que se imaginava dele (ou até imaginávamos, mas tínhamos esquecido depois de dois anos afastado por lesões) e outra parte porque o front office finalmente resolveu montar uma equipe com as mínimas características de um time de basquete.

Diferente dos anos anteriores, houve uma preocupação mínima com a formação titular, banco e o equilíbrio entre as posições. Exemplo disso foi a assinatura com o armador espanhol Sergio Rodriguez, um trintão, e a troca pelo ala turco Ersan Ilyasova, que também é um veterano já. Fosse nos anos anteriores, a franquia teria privilegiado o potencial talento em detrimento de uma formação mais fluída.

No entanto, o ‘processo’ enfrentou seu primeiro problema desde que esta curva ascendente se deu. Como já era de se esperar, não há lugar para todos os jogadores draftados recentemente na formação do Sixers. Com a política de sempre pegar o jogador de maior potencial, independente da posição, o jovem garrafão do time se congestionou.

Isso não era um grande problema diante da falta de saúde de boa parte de seus jogadores, que faziam um rodízio natural na formação titular diante das baixas. Agora, com quase todos saudáveis, não há minutos para todo mundo.

No momento, o preterido é Nerlens Noel. Voltando de lesão, o jogador jogou 10 e 8 minutos em duas partidas. Em outras duas, nem entrou em quadra. Depois de jogar tão pouco tempo, Noel reclamou que ele era ‘muito bom para jogar só 8 minutos por jogo’. Mesmo com a reclamação, o técnico Brett Brown disse que ele só terá minutos quando ‘Embiid ou Okafor estiverem fora de ação’ e que ‘se sente mal mesmo por Richaun Holmes‘, que é o quarto pivô do time.

Um dos dois jogadores está com seus dias contados em Philadelphia

Em outros momentos, no entanto, o ‘excluído’ foi Jahlil Okafor, calouro-problema da temporada passada, que foi deliberadamente colocado na vitrine nesta offseason. Sem ofertas decentes e na dúvida se Embiid iria aguentar o tranco, o time recuou.

O congestionamento todo nem leva em conta a presença de Ben Simmons na rotação – apesar da vontade de usá-lo como armador, sua posição de ofício, por enquanto, ainda é ala – e considerando Dario Saric como um ala menor – ainda que seu lugar no mundo ideal seja como ala-pivô.

Os problemas dessa tática – de pegar o melhor jogador independente da posição – são vários. Primeiro que compromete a evolução dos atletas. O ideal é colocar esse povo para jogar o máximo de tempo possível enquanto os resultados não são tão importantes. Brown até passou a colocar Okafor e Embiid juntos na formação titular – ainda que maior parte do tempo não dividam tempo de quadra -, mas a escalação com um de pivô e outro improvisado como ala tem sido a campeã de turnovers por minuto do time e piora consideravelmente a defesa do time.

Segundo, que diante das reclamações e da flagrante impossibilidade de satisfazer todos, o valor dos jogadores despenca. Se mostrar desesperado para se desfazer de um jogador é fatal no mercado da bola. Então mesmo que consiga passar Noel ou Okafor para frente, é muito possível que a moeda de troca não seja lá tão valiosa. E, daí, vai ter valido a pena ter perdido um ano inteiro lá atrás por um punhado de jogadores não muito bons? Afinal, uma temporada ruim rendeu a escolha de Noel e outra se transformou em Okafor.

O ideal seria trocar um dos dois por um jogador de perímetro, um ala-armador de preferência – justamente a posição mais escassa de talento na NBA atualmente – e convencer o atleta que ficasse a integrar a segunda unidade da formação. No ‘trade machine’ e na teoria a solução é fácil. Na prática, um abacaxi complicado.

Não há uma saída 100% satisfatória para este problema. Agir rápido para minimizar os danos, acalmar os ânimos, mostrar confiança para quem ficar e montar um time azeitado para o futuro é emergencial para manter o tal ‘processo’ na rota.

Cansados

Está ficando cansativo para muita gente. Ontem aconteceu mais uma vez: o Cleveland Cavaliers entrou em quadra para enfrentar o Memphis Grizzlies sem seu trio principal. Não foi lesão, nem nada. Kyrie Irving, Lebron James e Kevin Love tiraram um dia de folga. Na noite anterior, quando os dois times tinham se enfrentado a primeira vez em dois dias seguidos, o armador do Cavs e Marc Gasol, principal jogador do Memphis, já tinham ficado de fora para descansar. Na noite de ontem, o ala-pivô do San Antonio Spurs Lamarcus Aldridge e o pivô do Sacramento Kings Demarcus Cousins também trocaram o tênis de jogo pelos chinelos e ficaram em casa.

A situação é incrivelmente delicada. Por um lado, jogadores buscam mais saúde para enfrentar a maratona de jogos decisivos das finais e maior longevidade nas suas carreiras. As decisões são respaldadas pelos seus patrões, que pagam cada vez mais pelo talento destes atletas e não querem gastar para que estes fiquem se recuperando no Departamento Médico.

Do outro, torcedores que querem ver os times com força total sempre que possível e se sentem injustiçados por pagarem fortunas em ingressos para assistirem um punhado de reservas correndo em quadra em uma partida que a franquia declaradamente abre mão da vitória. Ou então canais de tevê que pagam BILHÕES – não é exagero – pelas transmissões e, no fundo, são quem irrigam a liga e os salários dos atletas.

A preocupação das duas partes é inteiramente legítima. Como torcedor, com certeza não acho bom para o espetáculo que uma equipe faça isso. No entanto, tenho que entender que a história do jogo e a ciência construíram este desfecho. E tendo a pensar que, no longo prazo, os próprios fãs de basquete são recompensados com esta atitude ultra-conservadora.

Uma máxima que domina a discussão é a seguinte: “Michael Jordan nunca descansou um jogo”. É verdade. Na temporada passada, apenas 18 caras jogaram todos os 82 jogos. Há 20 anos, 44 atletas enfrentaram a mesma maratona sem uma folga sequer.

Mas também é verdade que a maratona sacrificante encara pelos jogadores daquela geração abreviou a carreira de muita gente. Larry Bird e Isiah Thomas, dois dos dez maiores jogadores daquela época, não conseguiram jogar mais do que 13 anos como profissionais por conta das sucessivas lesões que tiveram. Charles Barkley, outro do mesmo calibre, se arrastou o quanto pode para jogar 16, sendo as últimas quatro completamente comprometidas.

Descansar os jogadores neste momento serve como uma troca. São alguns jogos no miolo da temporada, quando uma vitória para cá, uma derrota para lá não fazem grande diferença, em troca de uma série de playoffs jogada no mais alto nível ou em mais uns dois ou três anos de sobrevida. Olhando assim, me parece justo.

Para se ter um exemplo bem extremo, dos 24 jogadores que entraram em quadra com mais de 40 anos, 14 deles o fizeram nos últimos 13 anos de liga. Os outros dez, legítimos pontos fora da curva, estão distribuídos nos demais 47 anos de história.

Talvez sabendo dos benefícios de descansar seus principais jogadores de vez em quando, times pudessem ter contado com estes atletas lesionados por mais tempo.

Também é preciso ponderar que a exigência física e, consequentemente, o desgaste dos atletas de hoje é muito mais brutal do que em qualquer momento do esporte. É o tipo de coisa que só cresce nas competições de alto nível. Ainda que os métodos de recuperação, a medicina esportiva e a tecnologia tenham evoluído assustadoramente também, alguns fatores fisiológicos não mudam, e a necessidade de descanso para que o corpo se recupere, a medicina provou, faz parte disso.

Sobre Jordan, vale lembrar duas coisas: a primeira é que ele não era humano e justamente por isso é considerado o maior de todos – desde quando o melhor da história serve de parâmetro para algo? – e se ele não descansou um jogo ou outro, ele teve mais aposentadorias e ‘anos off’ do que qualquer jogador…

Outra coisa que tira o torcedor do sério é que cada vez mais os jogadores são poupados em partidas do começo e meio da temporada, ao invés das últimas rodadas quando oficialmente muitos times já estão fora de combate. Eu entendo que é irritante mesmo. Só que já está provado que o que lesiona os atletas são as sequências exaustivas de dois jogos em noites seguidas ou de quatro partidas em seis dias – comuns durante a temporada, seja no começo, meio ou fim – e que é mais fácil evitar problemas quebrando estas sequências do que tirando jogadores de combate nas semanas finais, meses depois do desgaste.

Tendo tudo isso em conta, é preciso mexer em algumas coisas estruturais da liga e pensar em alternativas. Na gestão do antigo comissário da NBA, David Stern, os times chegavam a ser multados quando abusavam dos descansos para suas estrelas. Com Adam Silver, a conversa evoluiu para o entendimento de que é um recurso válido e até necessário.

Há algum tempo, a proposta mais popular era a da diminuição de jogos da temporada regular de 82 para 60 ou 66. No entanto, seria impossível alterar esta grade sem sensíveis cortes de receita – televisiva, ingressos, marketing e etc.

Tentando solucionar este quebra-cabeça, a NBA mexeu em algumas coisas. O número de jogos em dias seguidos, os “back-to-back”, diminuíram. Há também bem menos sequências de quatro partidas em seis dias. Na prévia de acordo coletivo que teve seu martelo batido ontem à noite, um dos principais anúncios é que a temporada começará uma semana mais cedo, na tentativa de ‘espalhar’ o calendário.

Ainda assim, são alterações muito discretas e sem qualquer garantia de que não veremos os principais jogadores na arquibancada mesmo sem qualquer lesão. Está cansativo para todo mundo, mas pelo visto ainda será preciso correr muito para se chegar a uma solução interessante para todas as partes.

Revertendo a lógica dos MVP

Como em qualquer lugar, a NBA tem algumas convenções implícitas. Regras que não estão escritas em qualquer lugar, que não são oficiais e que mal são ‘regras’ efetivamente, mas, se olharmos em retrospectiva, são coisas que se repetem corriqueiramente.

É provável que a mais conhecida destas convenções trate do prêmio de Most Valuable Player (MVP) da temporada. Ainda que na prática seja a honra destinada ao melhor jogador da liga naquele ano, nem sempre é isso que acontece de fato. Via de regra, o ‘colégio eleitoral’ dos awards ~laureia o melhor jogador de um dos melhores times. Mesmo que alguém COMA A BOLA em uma equipe de meio de tabela, o eleito será algum jogador que teve um excelente ano em um time de excelente campanha.

Existem alguns pretextos para isso: o nome do prêmio de, numa tradução livre, Jogador Mais Valioso abre precedentes para que o escolhido seja o jogador ‘mais importante para uma caminha vitoriosa’ do que propriamente o melhor atleta da temporada; foi um critério que se moldou com o tempo, se consolidando nos anos 80, quando os melhores jogadores fatalmente estavam nos times de melhor campanha; e é dessa forma que hoje os jornalistas que votam se sentem ‘obrigados’ a votar.

Com isso, dos anos 80 para cá, somente UMA VEZ um jogador de um time fora do top 3 da sua conferência ganhou o prêmio. Em 1982, Moses Malone foi o segundo cestinha da temporada e o maior reboteiro, com médias de 31 pontos e 14 rebotes por partida. Além disso, teve sorte de pegar uma entressafra de talentos, com Abdul Jabbar já com seus melhores dias no passado e Larry Bird e Magic Johnson ainda em ascensão.

E somente em outras duas vezes um atleta que não estava entre os dois melhores foi eleito MVP. Ou seja, das últimas 37 temporadas, em 34 o cara estava em uma das duas melhores campanhas da sua conferência.

No entanto, as coisas vem se desenhando para que, ao final da disputa desta temporada, esta seja uma das poucas vezes em que esta lógica é revertida. Especialmente pelos desempenhos individuais espetaculares de Russell Westbrook e James Harden. Apesar de estarem em equipes que dificilmente figurarão entre as melhores do Oeste, já que Golden State Warriors, San Antonio Spurs e Los Angeles Clippers têm dominado a conferência, seus números são históricos. Mais do que isso, suas equipes, ainda que sem o sucesso necessário para ficar no topo da disputa, estão vencendo consideravelmente mais jogos do que perdendo e suas campanhas superam alguns prognósticos mais pessimistas do início do campeonato.

Excluindo três temporadas de Oscar Robertson, lá nos primórdios do universo dos anos 60, Harden e Westbrook são os únicos dois jogadores que ultrapassaram (por enquanto) uma média de 27 pontos, 11 assistências e 7 rebotes por jogo.

Em toda a história, só estes dois caras fizeram mais do que 20 pontos, 10 assistências e tiveram um índice de Usage Rating, que mede a participação do atleta nas jogadas totais do time, superior a 33%.

Se por um lado Russell Westbrook tem a seu favor números consideravelmente mais impressionantes que os de Harden – como uma média de triple-double – e a narrativa do abandono de Kevin Durant, o barbudo leva vantagem por ter uma campanha melhor por enquanto e também viver uma história curiosa digna de prêmio – de melhor pontuador da NBA a principal criador de jogadas da liga.

Histórias, números e trajetórias tão impressionantes que podem ameaçar candidatos mais tradicionais, como Lebron James, do soberano Cleveland Cavaliers, Kevin Durant, espetacular no Golden State Warriors, e Chris Paul, no ótimo Los Angeles Clippers. Não estivessem Russell e Harden tão sinistros, não poderiam sequer ser cogitados.

A garantia é Marc Gasol

Parecia que o pesadelo estava voltando. Assim como na temporada passada, quando, na reta final,  Memphis Grizzlies teve mais da metade do seu time fora de ação por lesões, a segunda quinzena de novembro foi tenebrosa para o time do Tennessee: Chandler Parsons machucou seu joelho de porcelana no dia 19, James Ennis sentiu a panturrilha na partida seguinte e, uma semana mais tarde, Vince Carter e Mike Conley também se lesionaram. Para completar, a mãe de Zach Randolph faleceu e ele ficou sete jogos afastado.

Se o time já não tinha o grupo de jogadores mais profundo da NBA e a disputa na conferência Oeste é das coisas mais selvagens que temos por aí, o desfecho mais provável para a franquia neste ínterim em que aguardaria seus jogadores baleados seria uma sequência deplorável de derrotas.

Curiosamente, é justamente o contrário que está acontecendo. Foi neste período que o Grizzlies emplacou sua segunda melhor sequência na temporada. Não que o time fique melhor sem um punhado dos seus melhores jogadores, não é isso, mas desde então Marc Gasol, pivô da equipe, simplesmente passou a jogar no mais alto nível possível.

São cinco vitórias seguidas (tudo bem, quatro delas em casa e apenas dois jogos contra supostos concorrentes por uma vaga nos playoffs) e um título de melhor jogador da semana. Neste meio tempo, Gasol tem sido soberano, tanto na defesa, onde habitualmente já é brilhante, quanto no ataque, onde também é bom, mas geralmente divide a responsabilidade com seus colegas. São 26 pontos, 7 rebotes, 5 assistências e 2 tocos de média nestas cinco partidas. Cinco jogos ganhos sem firula, com no máximo cinco pontos de vantagem diante do Sixers.

Eu sempre fui muito fã do seu jogo, de uma discrição digna de um Tim Duncan. Assim como o gênio do Spurs, Marc fundamentou seu jogo em uma defesa impecável baseada na técnica e no posicionamento, sem abusar do jogo físico e do atleticismo – uma virtude bem incomum. Com a bola na mão, o espanhol sempre teve um jogo de post eficiente mesclado com um bom range nos arremessos, que foi ~pimpado agora com chutes de três. De fora do arco, Gasol já foi decisivo um bocado de vezes e ostenta um excelente aproveitamento de 44% na temporada. Para completar, tem visão de jogo de um armador.

Todo este arsenal teve que ser usado exaustivamente no período, já que seu colegas de time neste período foram os ‘D-leaguers’ JaMychal Green, Andrew Harrison, Troy Williams e Troy Daniels, além do útil-porém-limitado Tony Allen.

Apesar de todas estas qualidades de Gasol – sim, eu sou um paga pau dele -, o estilo de jogo do Grizzlies não privilegia o individualismo dos seus atletas. De um modo geral, isso é bom, já que abre um leque imenso de possibilidades à franquia todos os jogos. Mas, por outro lado, não nos ajuda a lembrar como alguns de seus jogadores são tão bons quando exigidos – coloco Conley e Randolph no mesmo balaio, ainda que em patamares diferentes.

Agora o Memphis pega uma sequência fuderosa que muito provavelmente vai botar um fim a este momento vitorioso do time. Em quatro dias, eles enfrentam o Warriors uma vez e o Cavs outras duas. Em todo caso, o time conseguiu minimizar os danos de um período completamente desfalcado. E o mérito é quase todo de Marc Gasol.

Entre o orgulho e a cesta

O aproveitamento medíocre de alguns jogadores na linha do lance livre é um dos maiores mistérios do jogo de basquete. Muita gente adora berrar que estes jogadores teriam que treinar mais (ainda que sejam os que mais treinam), a liga mudou algumas regras para que eles vão com menos frequência à ‘linha da caridade’, há quem diga que o problema é de capacidade motora, irreversível, ou que é uma questão de confiança, passível de tratamento. Não há um consenso de fato.

A única certeza neste caso é que, quando o chute convencional não favorece, existe uma outra forma de arremessar mais eficiente e menos ortodoxa: o chamado arremesso de ‘lavadeira’.

Ao invés de lançar a bola da maneira convencional, por cima da cabeça, o jogador segura a pelota com as duas mãos simetricamente posicionadas entre as pernas e joga a bola de baixo para cima. Muita gente já estudou o tema e garante que esta é a maneira mais eficaz de mandar a bola para dentro da cesta quando o jogo está parado – durante a partida é diferente porque existe marcação, a distância pode ser bem maior e etc.

Um dos melhores arremessadores de todos os tempos era adepto da ‘técnica’. Rick Barry, líder em aproveitamento dali em seis temporadas dos anos 70, batia lances livres desta forma. Wilt Chamberlain, um dos maiores cestinhas da história da liga, tentava amenizar sua deficiência batendo as penalidades da mesma forma.

Recentemente, a maior prova da eficácia do chute de lavadeira é Chinanu Onuaku, jogador draftado esta temporada pelo Houston Rockets e que atualmente joga na D-League. Ao aderir ao movimento, Onuaku melhorou dos 54% de acerto na liga universitária, quando arremessava do modo convencional, para 87% de aproveitamento, chutando a bola de baixo para cima.

E porque os figurões que são péssimos no fundamento não tentam o mesmo? Porque o movimento é visto como vergonhoso por boa parte da comunidade basqueteira. A justificativa geral é de que é ‘humilhante’ arremessar ‘como uma menina’.

É uma bobagem, com certeza, mas é preciso contextualizar. O basquete, na sua essência, é um esporte baseado no desafio individual, na supremacia de um jogadores perante seu marcador. Ainda que existam times, táticas, jogadas e tudo mais, não há jogo coletivo mais propício para uma batalha entre dois atletas do que o basquete. O drible que deixa o outro no chão, o contra ataque que faz o rival se perder no meio do caminho, a enterrada na cara do marcador: o basquete é um ato de provocação ao adversário.

Tudo isso em um cenário que o estilo das coisas, a plástica das jogadas e a leveza dos movimentos vale, muitas vezes, mais do que o desfecho das coisas. Eu, que sou ruim no lance livre, nunca tive coragem de arremessar estilo lavadeira na pelada, imagine um profissional, que jogou a infância inteira nas quadras dos EUA, fazer isso na NBA?

Não é nenhuma apologia à ruindade, mas só uma reflexão de que é preciso ter um desprendimento tibetano para engolir todo o orgulho do mundo e, naquele ambiente, fazer isso.

Mais de uma vez Rick Barry se colocou à disposição de craques que eram péssimos nos lances livres para ensinar e aperfeiçoar a técnica do arremesso de cima para baixo. Foi sumariamente desprezado. Shaquille O’Neal certo dia disse que preferia errar todos seus arremessos a chutar de outra maneira, Dwight Howard já disse que ‘está bom do jeito que está’ e, assim pro diante, ninguém se dobra à mecânica esquisita.

No final das contas é uma briga entre o orgulho e a eficiência. E em número de adeptos, o orgulho ainda ganha de lavada.

 

Page 1 of 2

Powered by WordPress & Theme by Anders Norén