O aproveitamento medíocre de alguns jogadores na linha do lance livre é um dos maiores mistérios do jogo de basquete. Muita gente adora berrar que estes jogadores teriam que treinar mais (ainda que sejam os que mais treinam), a liga mudou algumas regras para que eles vão com menos frequência à ‘linha da caridade’, há quem diga que o problema é de capacidade motora, irreversível, ou que é uma questão de confiança, passível de tratamento. Não há um consenso de fato.

A única certeza neste caso é que, quando o chute convencional não favorece, existe uma outra forma de arremessar mais eficiente e menos ortodoxa: o chamado arremesso de ‘lavadeira’.

Ao invés de lançar a bola da maneira convencional, por cima da cabeça, o jogador segura a pelota com as duas mãos simetricamente posicionadas entre as pernas e joga a bola de baixo para cima. Muita gente já estudou o tema e garante que esta é a maneira mais eficaz de mandar a bola para dentro da cesta quando o jogo está parado – durante a partida é diferente porque existe marcação, a distância pode ser bem maior e etc.

Um dos melhores arremessadores de todos os tempos era adepto da ‘técnica’. Rick Barry, líder em aproveitamento dali em seis temporadas dos anos 70, batia lances livres desta forma. Wilt Chamberlain, um dos maiores cestinhas da história da liga, tentava amenizar sua deficiência batendo as penalidades da mesma forma.

Recentemente, a maior prova da eficácia do chute de lavadeira é Chinanu Onuaku, jogador draftado esta temporada pelo Houston Rockets e que atualmente joga na D-League. Ao aderir ao movimento, Onuaku melhorou dos 54% de acerto na liga universitária, quando arremessava do modo convencional, para 87% de aproveitamento, chutando a bola de baixo para cima.

E porque os figurões que são péssimos no fundamento não tentam o mesmo? Porque o movimento é visto como vergonhoso por boa parte da comunidade basqueteira. A justificativa geral é de que é ‘humilhante’ arremessar ‘como uma menina’.

É uma bobagem, com certeza, mas é preciso contextualizar. O basquete, na sua essência, é um esporte baseado no desafio individual, na supremacia de um jogadores perante seu marcador. Ainda que existam times, táticas, jogadas e tudo mais, não há jogo coletivo mais propício para uma batalha entre dois atletas do que o basquete. O drible que deixa o outro no chão, o contra ataque que faz o rival se perder no meio do caminho, a enterrada na cara do marcador: o basquete é um ato de provocação ao adversário.

Tudo isso em um cenário que o estilo das coisas, a plástica das jogadas e a leveza dos movimentos vale, muitas vezes, mais do que o desfecho das coisas. Eu, que sou ruim no lance livre, nunca tive coragem de arremessar estilo lavadeira na pelada, imagine um profissional, que jogou a infância inteira nas quadras dos EUA, fazer isso na NBA?

Não é nenhuma apologia à ruindade, mas só uma reflexão de que é preciso ter um desprendimento tibetano para engolir todo o orgulho do mundo e, naquele ambiente, fazer isso.

Mais de uma vez Rick Barry se colocou à disposição de craques que eram péssimos nos lances livres para ensinar e aperfeiçoar a técnica do arremesso de cima para baixo. Foi sumariamente desprezado. Shaquille O’Neal certo dia disse que preferia errar todos seus arremessos a chutar de outra maneira, Dwight Howard já disse que ‘está bom do jeito que está’ e, assim pro diante, ninguém se dobra à mecânica esquisita.

No final das contas é uma briga entre o orgulho e a eficiência. E em número de adeptos, o orgulho ainda ganha de lavada.