Está ficando cansativo para muita gente. Ontem aconteceu mais uma vez: o Cleveland Cavaliers entrou em quadra para enfrentar o Memphis Grizzlies sem seu trio principal. Não foi lesão, nem nada. Kyrie Irving, Lebron James e Kevin Love tiraram um dia de folga. Na noite anterior, quando os dois times tinham se enfrentado a primeira vez em dois dias seguidos, o armador do Cavs e Marc Gasol, principal jogador do Memphis, já tinham ficado de fora para descansar. Na noite de ontem, o ala-pivô do San Antonio Spurs Lamarcus Aldridge e o pivô do Sacramento Kings Demarcus Cousins também trocaram o tênis de jogo pelos chinelos e ficaram em casa.

A situação é incrivelmente delicada. Por um lado, jogadores buscam mais saúde para enfrentar a maratona de jogos decisivos das finais e maior longevidade nas suas carreiras. As decisões são respaldadas pelos seus patrões, que pagam cada vez mais pelo talento destes atletas e não querem gastar para que estes fiquem se recuperando no Departamento Médico.

Do outro, torcedores que querem ver os times com força total sempre que possível e se sentem injustiçados por pagarem fortunas em ingressos para assistirem um punhado de reservas correndo em quadra em uma partida que a franquia declaradamente abre mão da vitória. Ou então canais de tevê que pagam BILHÕES – não é exagero – pelas transmissões e, no fundo, são quem irrigam a liga e os salários dos atletas.

A preocupação das duas partes é inteiramente legítima. Como torcedor, com certeza não acho bom para o espetáculo que uma equipe faça isso. No entanto, tenho que entender que a história do jogo e a ciência construíram este desfecho. E tendo a pensar que, no longo prazo, os próprios fãs de basquete são recompensados com esta atitude ultra-conservadora.

Uma máxima que domina a discussão é a seguinte: “Michael Jordan nunca descansou um jogo”. É verdade. Na temporada passada, apenas 18 caras jogaram todos os 82 jogos. Há 20 anos, 44 atletas enfrentaram a mesma maratona sem uma folga sequer.

Mas também é verdade que a maratona sacrificante encara pelos jogadores daquela geração abreviou a carreira de muita gente. Larry Bird e Isiah Thomas, dois dos dez maiores jogadores daquela época, não conseguiram jogar mais do que 13 anos como profissionais por conta das sucessivas lesões que tiveram. Charles Barkley, outro do mesmo calibre, se arrastou o quanto pode para jogar 16, sendo as últimas quatro completamente comprometidas.

Descansar os jogadores neste momento serve como uma troca. São alguns jogos no miolo da temporada, quando uma vitória para cá, uma derrota para lá não fazem grande diferença, em troca de uma série de playoffs jogada no mais alto nível ou em mais uns dois ou três anos de sobrevida. Olhando assim, me parece justo.

Para se ter um exemplo bem extremo, dos 24 jogadores que entraram em quadra com mais de 40 anos, 14 deles o fizeram nos últimos 13 anos de liga. Os outros dez, legítimos pontos fora da curva, estão distribuídos nos demais 47 anos de história.

Talvez sabendo dos benefícios de descansar seus principais jogadores de vez em quando, times pudessem ter contado com estes atletas lesionados por mais tempo.

Também é preciso ponderar que a exigência física e, consequentemente, o desgaste dos atletas de hoje é muito mais brutal do que em qualquer momento do esporte. É o tipo de coisa que só cresce nas competições de alto nível. Ainda que os métodos de recuperação, a medicina esportiva e a tecnologia tenham evoluído assustadoramente também, alguns fatores fisiológicos não mudam, e a necessidade de descanso para que o corpo se recupere, a medicina provou, faz parte disso.

Sobre Jordan, vale lembrar duas coisas: a primeira é que ele não era humano e justamente por isso é considerado o maior de todos – desde quando o melhor da história serve de parâmetro para algo? – e se ele não descansou um jogo ou outro, ele teve mais aposentadorias e ‘anos off’ do que qualquer jogador…

Outra coisa que tira o torcedor do sério é que cada vez mais os jogadores são poupados em partidas do começo e meio da temporada, ao invés das últimas rodadas quando oficialmente muitos times já estão fora de combate. Eu entendo que é irritante mesmo. Só que já está provado que o que lesiona os atletas são as sequências exaustivas de dois jogos em noites seguidas ou de quatro partidas em seis dias – comuns durante a temporada, seja no começo, meio ou fim – e que é mais fácil evitar problemas quebrando estas sequências do que tirando jogadores de combate nas semanas finais, meses depois do desgaste.

Tendo tudo isso em conta, é preciso mexer em algumas coisas estruturais da liga e pensar em alternativas. Na gestão do antigo comissário da NBA, David Stern, os times chegavam a ser multados quando abusavam dos descansos para suas estrelas. Com Adam Silver, a conversa evoluiu para o entendimento de que é um recurso válido e até necessário.

Há algum tempo, a proposta mais popular era a da diminuição de jogos da temporada regular de 82 para 60 ou 66. No entanto, seria impossível alterar esta grade sem sensíveis cortes de receita – televisiva, ingressos, marketing e etc.

Tentando solucionar este quebra-cabeça, a NBA mexeu em algumas coisas. O número de jogos em dias seguidos, os “back-to-back”, diminuíram. Há também bem menos sequências de quatro partidas em seis dias. Na prévia de acordo coletivo que teve seu martelo batido ontem à noite, um dos principais anúncios é que a temporada começará uma semana mais cedo, na tentativa de ‘espalhar’ o calendário.

Ainda assim, são alterações muito discretas e sem qualquer garantia de que não veremos os principais jogadores na arquibancada mesmo sem qualquer lesão. Está cansativo para todo mundo, mas pelo visto ainda será preciso correr muito para se chegar a uma solução interessante para todas as partes.