Veio totalmente do nada. O Miami Heat tinha emplacado três vitórias seguidas, mas nem o torcedor mais otimista poderia imaginar que a sequência fosse continuar. Os motivos eram dois: ao longo de toda temporada o time não tinha emplacado tantos resultados positivos seguidos e o rival da vez era o Golden State Warriors, time de melhor campanha na NBA.

Se você está ligado na liga, já sabe o resultado. O Miami não só venceu este jogo como ganhou outros seis e hoje ostenta a melhor sequência da NBA nos últimos 20 dias. São dez triunfos seguidos que colocaram o time na briga pelos playoffs do Leste – antes disso, o time estava a 10 vitórias de distância da oitava colocação. Hoje são apenas duas.

Além disso, é a segunda equipe que melhor arremessa (56,1%) – atrás apenas do histórico Golden State Warriors – e a que faz os adversários chutarem pior (47,9% de aproveitamento). A equação é básica: acertando muito mais que o adversário, a vitória geralmente vem.

O roteiro é absolutamente improvável. O Miami Heat começou a temporada sem grandes pretensões e com um time para não brigar por nada. A ideia era passar um ano perdendo para buscar talentos para rechear o jovem elenco – fosse por draft, já que a próxima classe parece ser bem forte, fosse pelo mercado de jogadores sem contrato, já que a Flórida é um bom destino para quem não quer perder grandes fatias de salário em impostos.

O time já não era lá essas coisas e ficou ainda menos estrelado quando entrou numa maré de azar das lesões. Justise Winslow, principal jogadores entre os pós-adolescentes da franquia, lesionou o ombro direito e está fora da temporada desde dezembro. Hassan Whiteside, maior salário do time e pivô titularíssimo, ficou de fora uma ou outra partida com um problema no olho. Josh Richardson, ala armador titular, também já completou um mês sem jogar.

Somando toda essa turma, o Heat já contabiliza mais de 160 abstenções por lesão, maior marca da NBA neste ano (sem contar a ausência de Chris Bosh, que não deve jogar mais pelo time).

Mas surpreendentemente esta equipe é a que mais vence na liga nos últimos tempos. O mérito, neste caso, é de um grupo de formigas operárias que se acertaram com a camisa do Miami e estão carregando o time. O elenco varia de jogadores que nunca tiveram outra experiência na NBA e eram insignificantes para o universo há um mês até aqueles que já tiveram seus lampejos na carreira mas nunca conseguiram ser constantes.

Exemplo disso é que o atleta que mais vezes entrou em quadra pela franquia neste ano é o completo anônimo Rodney McGruder, que tentou entrar na liga em 2013, mas só nesta temporada conseguiu efetivamente estrear em uma partida oficial – no currículo, até então, só jogos de summer league, d-league e campeonato húngaro.

Dion Waiters, eterna promessa que eu tinha certeza que nunca iria vingar em nenhum lugar, tem jogador muito. Foi eleito o melhor jogador da conferência na semana passada. James Jonhson, eterno reserva-do-reserva, é o sexto-homem mais eficiente das últimas partidas.

Ao lado deles, Luke Babbit, Willie Reed e Okaro White também têm sido importantes – jogadores que têm mais contratos temporários na carreira do que partidas jogadas, praticamente.

Só Dragic e Whiteside foram mais vezes titulares em suas carreiras do que reservas ou ‘dleaguers’

Até Goran Dragic e Hassan Whiteside, os mais badalados, também têm seus históricos de ‘underdog’: passaram despercebidos por várias equipes e só estouraram depois de uns bons anos rodando pela liga.

É um fenômeno difícil de explicar. Além de uma sintonia fina entre os caras e um momento em que tudo dá certo, é possível imaginar que todos eles estão jogando no limite máximo dos seus talentos em busca do reconhecimento que nunca tiveram em suas carreiras – mesmo que o basquete de um ou outro não seja lá essas coisas, o esforço está fazendo a diferença.

Não acredito que isso vá durar muito tempo. Até acho que o mais provável é que em breve o time vai caia na real e se perca na corrida pelo mata-mata. Mas, sem dúvida nenhuma, estes caras estão conseguindo mostrar que têm um valor que nunca esperamos deles.

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