O mito Oscar Schmidt e o ‘não’ para a NBA

Uma das grandes dúvidas que muitos de nós, brasileiros, temos é que lugar Oscar Schmidt ocuparia no ranking imaginário de grandes jogadores de basquete do mundo se tivesse jogado na NBA.

Oscar, o maior cestinha do basquete mundial e principal pontuador da história das olimpíadas, até teve chance de, lá atrás, desfazer esta dúvida. Ele chegou a ser draftado pelo New Jersey Nets em 1984, mas optou por não jogar na liga americana. Sinceramente, não tenho uma opinião formada sobre o quão bom ou decepcionante ele seria. A única convicção é que seria bem mais fácil tirar a prova se ele tivesse aceitado.

Em todo caso, o próprio ‘não’ de Oscar ao Nets é rodeado de mitos e incertezas. Há anos ouvimos a saborosa versão de que Oscar abriu mão de ser um dos principais jogadores da história da NBA para defender a sua pátria. Porém, existem algumas ponderações impopulares que precisam ser feitas e que contextualizam melhor esta história.

É incontestável que Oscar foi escolhido mesmo pelo New Jersey no draft de 1984. O mesmo que tinha Hakeem Olajuwon, Michael Jordan, Charles Barkley e John Stockton.

Também é absoluto o fato que quem jogasse a liga americana deixaria de ser visto como um atleta amador e, consequentemente, não poderia participar mais dos Jogos Olímpicos e Panamericanos – numa proibição que durou até 1992.

No entanto, é bacana entendermos o que era Oscar, o que era a NBA e que lugar cada um ocupava no basquete mundial na época.

O brasileiro estava com tudo na Itália, era a estrela do seu time e tinha o devido reconhecimento no basquete europeu. Nos anos 80, a liga italiana vivia seu auge – cinco times foram campeões europeus – e Oscar foi cestinha do campeonato por sete anos seguidos.

Do outro lado do oceano, a NBA já era a melhor e mais badalada liga de basquete do mundo, mas não era nem sombra do gigante de marketing que se tornaria nos anos seguintes. Os salários não eram astronômicos como hoje e o campeonato não era transmitido para todos os países.

Para completar, não era uma competição simpática aos estrangeiros como é hoje. Em 84, ano que Oscar foi chamado para a liga, nenhum ‘estrangeiro puro’ tinha jogado mais do que cinco anos na liga ou tinha sido titular regular por algum time – mais do que isso, só aqueles que nasceram fora dos EUA, mas se formaram como jogadores nas escolas e universidades do país.

Com toda esta ‘antipatia’ ao basquete europeu, Oscar foi escolhido no nada honroso sexto round – 131ª escolha geral -, sem contrato garantido e com uma possível participação modesta no seu suposto ano de estreia.

Comparando as situações, de ser uma estrela emergente em uma liga boa e não ter qualquer garantia em uma liga mais forte e ainda ter que abrir mão das competições internacionais, Oscar preferiu não ir para a NBA. Em uma entrevista ao Grantland há uns anos, ele mesmo disse não estava disposto a trocar a coroa de um dos campeonatos mais fortes do mundo pela incerteza da briga por posição na NBA.

Para os mais jovens especialmente, é preciso lembrar que a troca de informações era muito diferente naquela época. A turma dos EUA não sabia exatamente o que rolava no basquete europeu e era um pessoal bem restrito que acompanhava a NBA. Não havia todo esse intercâmbio. Os olheiros americanos só foram saber quem era Oscar mesmo anos mais tarde, no Panamericano de Indianápolis em 87 ou nas Olimpíadas de Barcelona em 92.

Ele não foi o primeiro nem o último craque do basquete internacional a tomar esta decisão. Além dos soviéticos, que enfrentavam uma resistência natural por conta da Guerra Fria, muitos europeus e latinoamericanos recusaram a NBA. O mexicano Manuel Raga foi o primeiro deles, em 1970 (na 167ª posição do draft). No mesmo ano, o melhor jogador da europa na década, Dino Meneghin, também disse não à liga americana. O grego Nikos Galis, discutivelmente o melhor jogador internacional a não jogar na NBA, também não fez questão de voltar a liga depois de ter sido dispensado pelo Boston antes da sua estreia.

Portanto, não dá para acreditar piamente na história heróico-demagógica que Oscar se sacrificou pelo país, que abriu mão de ser um imortal da NBA pelo amor à pátria. Não foi isso. Foi uma escolha consciente de alguém que sabia que não teria a devida atenção, remuneração e espaço logo de cara nos EUA. Muito possivelmente, ele perderia alguns anos do seu auge tentando mostrar se tinha jogo ou não para se destacar na NBA – a exemplo de Drazen Petrovic, que demorou dois anos para conseguir começar como titular na liga, mesmo sendo melhor do que 90% dos jogadores americanos da época.

Nem entro no mérito de que ele não era um grande defensor, que alguns olheiros dos times americanos achavam que ele não tinha como jogar na liga por estas deficiências e etc. Acho que suas qualidades ofensivas eram suficientes para ser útil em qualquer time – ainda que a falta de um jogo defensivo torne claro que qualquer comparação com Larry Bird é sem noção.

Pesou contra ele, em todo esse período, também a falta de sucesso coletivo nos times europeus pelos quais passou. Num ambiente em que se valoriza tanto a cultura do vencedor, Oscar não tinha tantas vitórias nas ligas mais fortes da Europa para ostentar no currículo e mostrar para os olheiros americanos – foram 13 anos de basquete europeu sem títulos nacionais relevantes.

Por fim, acho que não ir para a NBA não tira os méritos de Oscar como um dos maiores do basquete mundial em todos os tempos. Ser dominante por tanto tempo em tantas competições diferentes é um mérito impressionante. Digno de orgulho.

Oscar é um mito. Mas é sempre interessante desconstruir alguns mitos.

Previous

Correção de rota

Next

Lebron sem folga

6 Comments

  1. Thiago

    Melhor artigo q li até agora sobre o assunto

  2. Luccas Alcindo

    Ótima matéria.

  3. Oscar

    Obrigado pelo carinho.

  4. Mauro

    Muito bem , acho que esse texto mostra bem o que deve ter ocorrido .

  5. André Luiz Alves

    Coerente como se deve ser!! Muito bom o post!! Sempre pensei exatamente como o descrito!!! Parabéns!!

  6. Naufrago

    Também reflete a minha opinião quanto a Oscar, sem contar seu egocentrismo e arrogância….

Leave a Reply

Powered by WordPress & Theme by Anders Norén