Karl Malone para como uma tábua na cabeça do garrafão esperando que John Stockton passe como uma flecha rente a ele. Na mesma fração de segundos que o armador adversário se choca bruscamente em seu corpo, dando algum espaço para que Stockton pense sem marcação, Malone corre para perto da cesta com os braços levantados esperando a bola. O passe sai preciso e com uma virada de corpo, o ala-pivô do Utah Jazz enterra livre da sombra do marcador adversário, que ficou no meio do caminho sem saber se cobria Stockton ou se acompanhava Malone.

Não foram eles que criaram o pick and roll, mas Stockton e Malone o imortalizaram ao executá-lo milhares de vezes com uma perfeição ímpar na história da NBA aquele aquele momento.

Duas décadas e meia mais tarde, o corta-luz do pivô na intermediária da quadra para dar espaço ao armador e a corrida para receber a bola deixou de ser um ‘signature move’ da dupla do Utah Jazz  para se tornar a jogada mais utilizada no basquete.

Hoje, segundo o monitoramento estatístico da própria NBA, 33% das jogadas de ataque iniciam com um pick and roll – o dobro do que acontecia há dez anos, quando o tracking começou a ser feito.

A grosso modo, pode parecer uma simplificação do esporte, uma vez que uma única jogada dentre as infinitas variáveis domina um terço das ações com a bola.

Não é bem assim. Se antes este movimento tinha suas limitações de ações – basicamente se resumiam a um corte para o arremesso ou um passe no jogador que penetrava o garrafão. Uma prova da complexidade da jogada é que uma boa proporção dos melhores executores ou defensores do pick and roll são os jogadores reconhecidamente como os mais inteligentes da liga.

Diferente de antigamente, hoje os times tem se tornado especialistas na movimentação sem a bola para receber um passe que começa neste tipo de jogada.

Os alas, se movimentam sem a bola cortando em direção à cesta ou se posicionando nas brechas para receber o passe livres – e os times mantém sempre um ‘sharp shooter’ que saiba correr inteligentemente sem a bola para, rapidamente, se mexer da maneira apropriada criando uma opção de passe para o armador.

Os pivôs, mais do que nunca, estão aptos a abrirem para o chute de três depois do corte no marcador. Na defesa, a mesma coisa. Aquele ‘center’ que funcionava apenas como uma âncora defensiva se torna presa fácil na hora do corte, deixando muito espaço para o arremesso adversário ou sendo muito lento na cobertura.

Os armadores, então, estão cada vez mais hábeis para chutar enquanto driblam, logo após o bloqueio. A partir do momento que o adversário dá uma mínima brecha depois do bloqueio, o cara com a bola já tem condições de chutar e ameaçar o outro time. Por isso, as coberturas têm que ser muito mais rápidas – quase instintivas, o que, de certa forma, abre espaço para os demais jogadores na quadra.

Enfim, uma infinidade de variáveis que não eram comuns até 10, 15 anos atrás.

Hoje, é praticamente inviável ter sucesso na NBA sem saber executar um pick and roll com qualidade – Stephen Curry/Kevin Durant e Draymond Green fazem com maestria, Lebron James tem uma variável mortal no Cavs, James Harden se tornou o maior passador da NBA baseado seu jogo nos cortes dos pivôs.

Claro que não deixa de ser um modismo, mas é um hábito muito mais eficiente e bem trabalhado dos que o jogo bruto de costas pra cesta dos anos 90 e as jogadas de isolamento dos principais jogadores do time dos anos 2000.

E quem acha que é muito simples, dificilmente vai ganhar alguma coisa na liga por um bom tempo.

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