Month: March 2017

Ninguém merece ser co-MVP. Nem Harden, nem Westbrook.

Dias atrás, Kobe Bryant levantou a bola de que, neste ano, a NBA poderia pela primeira vez na história dar o prêmio de MVP a dois jogadores. A ideia seria agraciar James Harden e Russell Westbrook como co-MVPs, dividindo o prêmio.

Em outros prêmios isso já aconteceu: Jason Kidd e Grant Hill já foram co-Rookie of the Year, Elton Brand e Steve Francis idem, Kobe e Shaquille O’neal já dividiram o prêmio de melhores jogadores do All Star Game em um ano e etc. Em uma disputa tão acirrada como a de melhor jogador da temporada, a proposta de agraciar Harden e Westbrook ganha força neste ano.

No entanto, acho a ideia uma besteira tremenda. Não faz o menor sentido sugerir uma divisão do prêmio entre os dois.

Para começar, o critério de escolha minimiza completamente as chances disso acontecer. Em uma votação em que jornalistas escolher os cinco melhores jogadores da temporada, em ordem, e em que a cada posição uma pontuação é atribuída, é quase impossível que os dois empatem.

Nas votações mais apertadas da história (como em 90, quando Magic Johnson superou Charles Barkley e 97, quando Karl Malone bateu Michael Jordan), o MVP teve mais do que 20 pontos de votação acima do segundo colocado.

Quando esse empate aconteceu no prêmio de calouro do ano, a votação era muito mais simples e muito mais suscetível para um empate na pontuação.

A única chance de uma divisão acontecer, seria com uma canetada da NBA. No entanto, isso seria a mesma coisa do que RASGAR E JOGAR NO LIXO os critérios de escolha usados nos últimos anos. Seria uma piada.

Mas ok, mesmo imaginando que Adam Silver estivesse disposto a isso, eu acho que seria uma baita de uma sacanagem com todos os outros jogadores que ‘quase foram MVP’ no passado e, principalmente, com James Harden e Russell Westbrook.

Ainda que seja uma pena imaginar que um dos dois vá sair de mãos abanando nesta temporada, é um absurdo pensar que, se fosse dividido, uma temporada impressionante como esta carregaria para sempre um asterisco justificando que a escolha foi diferente das demais.

Em uma competição de alto nível como esta, do prêmio individual máximo da temporada, alguém TEM que ganhar. Dividir o título como consolação não serve para isso. Muito menos para dois jogadores que estão batalhando tanto para superar um ao outro. Não funciona assim.

Seja lá quem for o vencedor da votação, merece o título só para ele. Absoluto. Inquestionável. Como sempre foi.

A uma troca da oitava vaga

Duvido que Denver Nuggets e Portland Trail Blazers tinham noção do quanto a troca entre os dois às vésperas da trade deadline deste ano iria embaralhar a disputa entre as duas equipes pela última vaga para os playoffs da Conferência Oeste.

Os dois tinham bastante consciência do que buscavam dentro de quadra, é verdade: de um lado, o Denver Nuggets queria reafirmar sua aposta em Nikola Jokic e, ao mesmo tempo, não perder um ativo valioso que estava esquecido no seu banco, o outro pivô do time, Jusuf Nurkic. Do outro, o Portland Trail Blazers buscava alguém para tentar solucionar um dos seus maiores problemas da temporada, a falta de força no garrafão.

A troca parecia solucionar os dois problemas. O time de Oregon ganhava um pivô tradicional para jogar lá dentro, de baixo da cesta, e mandava para o Nuggets um pivô menos talentoso, mas mais móvel, que repetia (ainda que pior) as características do seu titular, Jokic. Pronto, troca feita, tudo solucionado.

O que o Denver Nuggets não contava é que a troca colocaria seu rival de volta na briga – e possivelmente nem o Portland tinha a consciência de que iria funcionar tão em breve e que a disputa se concentraria justamente entre os dois times. Naquele momento, o Nuggets reinava mais tranquilo com a oitava posição, monitorando apenas a reação do Dallas Mavericks, que vinha ganhando mais partidas do que o esperado com um time recheado de free agents.

O Portland, que já tinha passado um tempo na zona de classificação, mas estava decadente na décima posição, brigando com New Orleans e Sacramento, começou a reagir com a nova formação. Ainda com um jogo totalmente concentrado na sua dupla de armadores, com chutes de três, infiltrações e pouca troca de passes, começou a se acertas. A defesa melhorou e o time passou a recuperar mais rebotes. Algumas semanas depois, deslanchou.

Hoje, o Portland e Denver estão empatados a oito jogos do fim da temporada e se enfrentam para decidir quem abre vantagem de uma partida.

O Blazers vem de uma sequência feroz, de 11 vitórias em 14 partidas. O Denver tenta se segurar, com um jogo muito forte de garrafão, troca de passes e distribuição do jogo, apesar de oscilar bastante. A diferença agora é que o Portland tem alguém para auxiliar Lillard e McCollum.

Ninguém imaginou que aquela troca seria tão crucial para definir o destino das duas equipes envolvidas. Dois destinos que se cruzam hoje em um jogo crucial.

A polêmica corrida para Calouro do Ano

Não há dúvidas que o melhor jogador a estrear na liga nesta temporada foi Joel Embiid. Seus números foram excelentes, seu impacto é notório e sua personalidade é digna de todas as reverências.

Apesar disso, Embiid não é necessariamente o franco favorito para receber o prêmio de Calouro do Ano desta temporada. Ainda que nenhum estreante atual bata a marca dele de 20 pontos de média e 7 rebotes por partida, Embiid jogou com uma série de restrições de tempo. Entrou em quadra em apenas 31 jogos e por mínimos 786 minutos. Jogou menos de 20% do total de minutos do seu time no ano. Embiid foi excelente quando jogou, mas praticamente não jogou. Numa premiação que reconhece o melhor jogador de uma categoria em uma temporada inteira, o volume dos seus números são muito modestos.

Para se ter uma ideia, até hoje, o atleta que menos minutos jogou e ainda assim venceu o prêmio foi Kyrie Irving, que atuou por 1558 minutos na temporada de 2011-2012 – literalmente o dobro de Embiid. O que jogou menos proporções dos minutos da sua equipe foi Patrick Ewing, com 45% dos minutos do Knicks de 1985-1986. E o jogador com menor média de minutos foi Andre Miller, com 27 por partida – Embiid tem 25 minutos por jogo.

Mesmo que seja interessante o argumento de que Embiid foi ótimo em todos os minutos que jogou, conseguiu ser eficiente mesmo com pouco tempo de quadra, há o contraponto de que é mais fácil ser excelente por um curto período de tempo do que por um ano inteiro – e médias tendem a ser maiores com amostras menores do que com amostras mais robustas.

Este argumento fica um pouco mais concreto se a gente pegar apenas a melhor série de 31 jogos dos concorrentes de Embiid ao prêmio. Fosse assim, Dario Saric, colega de Embiid no Sixers, teria média de 16 pontos e 7 rebotes por partida (números consideravelmente mais impressionantes do que os 12 pontos e 6 rebotes que tem de média na temporada toda e bem mais próximos aos de Embiid). Malcolm Brogdon, armador do Bucks que está na disputa, também melhoraria seus números (somaria 2 pontos à média de 10 por partida e uma assistência em relação às 4 que já consegue por jogo).

Também sou meio reticente a premiar como calouro um cara que está na NBA, mesmo que sem jogar, desde 2014. Não me parece justo colocar no mesmo balaio um atleta que está desfrutando de toda a estrutura profissional de um time da liga há dois anos, treinando e aprendendo com o staff, convivendo com o grupo de jogadores, com outros, efetivamente calouros, que acabaram de vir da universidade ou da Europa.

Para quem acha que isso não faz diferença, basta comparar o corpo de Embiid quando foi draftado com o que ele tem hoje. Basta ver o tanto de treinamentos que ele teve nesse período – a ponto de virar uma piada. Neste ponto, me parece uma disputa injusta, como numa corrida entre um adolescente e um bando de crianças em que o primeiro não tem como perder.

O problema é que se riscarmos o nome do pivô do Philadelphia da lista, a disputa cai bastante de nível. Os já citados Saric e Brogdon parecem bons, mas nem se comparam a Embiid e aos jogadores que tradicionalmente ganham o prêmio. Além disso, suas médias totais da temporada figurariam entre as piores de um vencedor do prêmio de Rookie of the Year – em mais de 60 anos de NBA, só duas vezes em toda a história da liga o calouro premiado teve uma média de pontos inferior a 13 pontos por jogo, como ambos registram hoje, por exemplo.

Por tudo isso, a premiação de Calouro do Ano promete ser tão disputada quando a de MVP.

O emprego mais estável do mundo

Ser técnico da NBA, pelo menos nesta temporada, é o emprego mais seguro do mundo. Todos os 30 ‘head coaches’ que começaram a temporada comandando as franquias da liga continuam com suas carteiras de trabalho devidamente assinadas.

Para você ter noção do quanto isso é extraordinário, a última vez que uma temporada inteira correu com todos os ‘professores’ empregados do início ao fim foi em 1970-1971 – com a diferença que naquela época eram apenas 17 times na NBA, quase metade do que temos hoje.

Não dá para ter a pretensão de explicar um fenômeno desses com uma justificativa simples. Na verdade é uma soma de vários fatores que levam a isso.

Vamos partir do princípio que técnicos são demitidos, geralmente, quando o time não vai bem. Neste ano, os times que são realmente ruins já  tinham trocado de comandante no meio ou ao final da temporada passada e fizeram esta mudança pensando numa evolução a longo prazo – caso de Los Angeles Lakers, Phoenix Suns e Brooklyn Nets, principalmente. O outro time ruim da lista, o Phladelphia 76ers, já tinha escolhido o bode expiatório da temporada passada ao mandar embora Sam Hinkie, o general manager, e bancando o treinador Brett Brown. Pesa o fato também de todos os times terem demonstrado alguma evolução ao longo do campeonato. Não faria o menor sentido demitir alguém agora.

Os demais times que tiveram alguma queda considerável no desempenho ainda confiam muito em seus técnicos para demiti-los.

Dallas Mavericks e Miami Heat, por exemplo, têm técnicos reconhecidamente acima da média e contaram com baixas consideráveis nos seus elencos, o que justificaria a queda de rendimento. Ninguém seria louco de culpar Rick Carlisle e Erik Spoelstra pelo fato das equipes estarem com campanhas negativas enquanto seus elencos são formados principalmente por jogadores da D-League – que, ainda assim, mantém os dois times na disputa pelas últimas vagas da pós-temporada.

Outros, como Charlotte Hornets e Portland Trail Blazers, tiveram temporadas acima das expectativas no ano passado creditadas justamente aos seus head coaches e uma campanha cambaleante neste ano é, na verdade, uma correção de rota.

Claro que só essas justificativas não garantem ninguém no cargo. Quando um dono de time quer, ele manda embora mesmo, seja técnico ruim de verdade, seja o melhor deles. Não tem conversa.

Só que a sorte dos técnicos empregados nesta temporada é que não tem um nome disponível no mercado que seja lá muito forte. Nos anos anteriores, existia a ameaça constante de Tom Thimbodeau, um dos melhores nomes da liga nos últimos anos e que estava desempregado. Scott Brooks, outro treinador com um histórico interessante, também estava ‘distribuindo currículo’. Agora, não – os dois, inclusive, foram contratados na offseason.

Os demais potenciais substitutos são, via de regra, outros ex-técnicos que estão sossegados comentando jogos (Jeff Van Gundy, Mark Jackson, Kevin McHale), assistentes discretos (todos do Spurs) ou técnicos de times universitários, que sempre hesitam em fazer a mudança do torneio colegial para o profissional.

Esse hiato no mercado é o que também justifica que os poucos treinadores que estão com a corda no pescoço continuem nos seus cargos. Basicamente são quatro nesta situação: Fred Hoiberg, do Chicago Bulls, Jason Kidd, do Milwaukee Bucks, Alvin Gentry, do New Orleans Pelicans, e Jeff Hornacek, do New York Knicks. Todo mundo sabe que eles não são os caras ideais para suas equipes e que uma hora ou outra eles terão que ser substituídos, mas que simplesmente não vale a pena fazer esta troca agora.

Apesar da calmaria momentânea, é bem provável que o mercado volte a se agitar assim que a temporada acabar. Além de Bulls e Pelicans, várias franquias ensaiam uma reformulação nos seus elencos que, de quebra, podem sobrar para os coaches: Clippers, Raptors, Hornets, Pacers, Hawks…

Mas até lá, os 30 técnicos podem ficar tranquilos. Todos sobreviveram a uma temporada e fizeram disso o emprego mais estável do momento.

Eles não precisam ser amigos

O Washington Wizards entrou na temporada regular cercado de dúvidas quanto ao seu real potencial. O time vinha de uma sequência estranha. Em 2014-2015, teve uma campanha animadora nos playoffs e, não fosse por uma lesão de Wall, tinha boas chances de alcançar uma final de conferência. Na temporada seguinte, a decepcionante décima colocação e não ida ao mata mata.

A história que era usada como álibi para a inconstância do time e sobretudo de John Wall e Bradley Beal, promissora dupla de armadores da franquia, era a de que os dois não se bicavam. De fato, frustrados com tudo que rolava na equipe, os dois trocaram alfinetadas públicas. Wall reclamou da baixa frequência de Beal, atormentado por lesões, no time. Beal, por sua vez, se incomodou com o domínio absoluto de Wall na posse da bola. Ficou famosa a frase que os dois tinham “tendência a não se gostar”. Como quase sempre acontece, a treta e os resultados ruins foram diretamente ligados.

Agora o time voltou a ganhar, emplacou a melhor sequência de vitórias em casa na temporada e já registra a melhor campanha da NBA desde janeiro. Não só está próximo de se garantir matematicamente nos playoffs, como é o time que atualmente mais ameaça o reinado do Cleveland Cavaliers na liderança do Leste. E, claro, muita gente tenta atribuir a uma suposta sintonia entre Beal e Wall fora da quadra.

Sinceramente não tenho como dizer se os dois são amigos, se não são. O meu ponto é que, dadas as declarações dos jogadores, dado o histórico de caras que declaradamente se odiavam mas jogavam muito, a amizade entre estrelas do mesmo time como receita do sucesso é uma balela. Apesar de ser muito bonito para os torcedores acreditarem naquilo e para a imprensa criar um enredo, é quase sempre irrelevante se jogadores dividem quarto, se jantam juntos, trocam mensagens ou se sequer se suportam.

Apesar do exemplo mais clássico disso ser a dupla Kobe Bryant e Shaquille Oneal, acho errado colocá-los no mesmo balaio. Ambos figuram possivelmente entre o top 10 da NBA em todos os tempos. Mesmo que um boicotasse o outro, as coisas dariam certo no Lakers. Mesmo no auge do ódio mutuo, o time foi tricampeão. Sem comparação.

Vou trabalhar com exemplos mais ‘terrenos’. Rajon Rondo e Ray Allen também não se gostavam. Um nunca foi muito fã do outro em quadra e, para completar, uma vez Allen disse que Doc Rivers e Danny Ainge não gostavam de Rondo e por isso iriam tentar trocar a dupla para Phoenix. Rondo não gostou, achou que Ray estava inventando alguma coisa para se livrar da negociação e a coisa melou de vez entre os dois. Mesmo assim, em quadra, em cinco anos de parceria, o Boston foi campeão uma vez, vice outra e chegou à final de conferência em mais uma. Rondo foi o jogador que mais deu assistências neste período e Ray Allen era o principal alvo dos seus passes.

Até ano passado, Kevin Durant e Russell Westbrook formavam a dupla mais talentosa da NBA. Por terem entrado na liga mais ou menos na mesma época, terem crescido como profissionais juntos e não terem muito mais colegas de qualidade ao redor, presumia-se que os dois eram muito próximos, quase irmãos. A revelação de que os dois nunca foram nada mais do que ‘colegas de trabalho’ se deu depois que Durant saiu do time. Muita gente achou absurdo que o ala ‘só’ mandou uma mensagem no celular de Russell avisando que deixaria o time, mas, apesar das rusgas ‘institucionais’ da separação, ambos confirmaram que nunca foram muito próximos fora da quadra. Mesmo assim, a parceria funcionou bem, no limite máximo dos seus talentos, independente deles serem super amigos ou só jogarem juntos.

Voltado ao Wizards, ao meu ver, é mais correto dizer que o time passou ganhar por outros motivos mais claros, como a habilidade do técnico Scott Brooks em transformar bons prospectos em jogadores de verdade, como Kelly Oubre e Otto Porter, e filtrar o elenco em uma rotação mais enxuta e eficiente. O time também passou a ter o ataque iniciado por mais jogadores, ao invés de concentrar todas as decisões em Wall – que, por outro lado, se tornou uma opção mais eficaz nos arremessos. A criatividade de Beal na armação do pick and roll, uma referência no fundamento entre os shooting guards, também passou a ser explorada com mais frequência. Com isso, a dupla alcançou o melhor momento da carreira individual e coletivamente – independente de serem amigos ou não.

Não é raro vermos a associação da melhora no rendimento a uma suposta amizade que estaria florescendo entre ambos. Eles não são bobos de negar, claro, mas o fato de Beal já ter reclamado que basicamente SÓ PERGUNTAM ISSO a ele é uma pista de que definitivamente não é a isso que eles creditam esta evolução.

Não digo que problemas de vestiário não influenciam na performance de um time. É claro que sim. Mas não ser amigo de alguém não é problema algum. Atletas jogam para ganhar, fazer seu trabalho, e não amar uns aos outros, amar uma camisa. Pouco importa com quem eles vão com a cara se jogarem tudo que sabem.

Beal, Wall, Shaq, Kobe, Rondo, Allen e companhia são as provas disso.

O que move Larry Sanders?

Ontem Larry Sanders estreou pelo Cleveland Cavaliers. A franquia fechou com o jogador até o final da temporada para substituir Andrew Bogut, que se lesionou em menos de um minuto de ação pela equipe. Sanders se une ao time como a última peça que faltava para que o Cavs busque seu bicampeonato. Com o sinal de alerta máximo acendido com as lesões de JR Smith e Kevin Love, a franquia se mexeu para acertar os últimos reforços.

Nisso, chegaram Kyle Korver para incrementar a artilharia de fora do arco, Deron Williams para dividir a responsabilidade de carregar a bola com Kyrie Irving e Lebron James e Andrew Bogut para dar força ao garrafão enquanto Tristan Thompson descansa – com a saída de Bogut, Sanders foi chamado.

Sanders se resume a um protetor de aro, que pode oferecer poucas coisas à equipe além de solidez na defesa dentro do garrafão e finalizações fáceis perto da cesta. No entanto, essa limitação do seu jogo não é nem de longe a maior preocupação em relação à sua aquisição. Larry, na verdade, vem de um hiato de dois anos em que, no auge da sua forma técnica e da sua capacidade física, simplesmente desistiu do basquete. Com problemas de ansiedade e depressão, o jogador não via grandes motivações para entrar em quadra e jogar sem tesão.

Para isso, abriu mão de uma bolada (mais de 20 milhões de dólares) e do papel central em uma equipe em franca ascensão (um Milwaukee Bucks que começava a se transformar já com Kris Middleton, Giannis Antetokounmpo e Jabari Parker). Antes do anúncio da aposentadoria, Sanders vinha de uma suspensão por uso de maconha e ‘falta de interesse pelo jogo’. Na sua carta de despedida, disse que era “uma pessoa, um artista, um músico, um escritor que às vezes jogava basquete”. E desapareceu.

O caso é bastante incomum. Numa liga tão competitiva em que centenas de ‘role players’ vão, vêm, são rebaixados para d-league, jogam na China e voltam, é raro que um jogador abra mão de um lugar cativo em um time – que naquele ano, inclusive, foi para os playoffs já.

Entendo que é muito mais fácil tomar esta decisão depois de já ter garantido algumas dezenas de milhões e ter uma mesada certa por um bom tempo – no acordo de rescisão, o Bucks ficou de pagar um resto de quase 2 milhões anuais até 2020 ao jogador -, mas a jogada mais comum nestes casos é o jogador, mesmo desinteressado, continuar dando migué em quadra até que a motivação reapareça ou que os times desistam dele. Ainda que eu entenda o ódio da turma de Milwaukee, acho louvável a desistência sincera de Sanders.

Um fato interessante, é que Sanders começou a jogar basquete bem tarde, já na high school, possivelmente porque era imenso e tinha o biotipo necessário pro esporte. Pode ser que ele nunca tenha tido o real tesão do jogo, só viu nele uma oportunidade de ganhar dinheiro com o corpo que tinha.

No começo deste ano, algumas notícias voltaram a pipocar falando que Sanders estaria disposto a tentar uma retomada na carreira. Mas temendo o real nível de comprometimento que o jogador poderia entregar, quase nenhuma franquia deu muita bola para ele.

Mas, num golpe de azar de um colega de profissão, necessidade de um time campeão e conveniência, Sanders descolou o melhor dos trabalhos.

É difícil dizer o que realmente move Sanders agora. Pode ser que a grana tenha encurtado e que a volta ao jogo seja uma maneira de incrementar a mesada paga pelo Bucks. Pode ser que os problemas da cabeça tenham se resolvido e o jogador esteja realmente afim de dar a volta por cima. Mesmo assim, a aposentadoria precoce de dois anos atrás vão manter o fantasma de que a qualquer momento o jogador pode desistir de contribuir com o time.

Neste caso, a vantagem é que pesa o fato de jogar ao lado do melhor atleta desta geração, que tem fama de elevar o basquete dos seus colegas – é só ver os casos de JR Smith, Channing Frye e Tristan Thompson que migraram do status de praticamente descartáveis em determinados momentos das suas carreiras para jogadores valorizados.

Para alguém que teve problemas psicológicos de depressão de ansiedade, também fica mais fácil voltar com um papel de importância bem reduzida – em um time em que a pressão vai cair toda nas costas de outros 14 caras antes de Sanders ser cobrado de algo.

Ainda que o papel central em um time, ter a bola nas mãos, ser a estrela seja o que maior parte desses caras queiram, há quem tenha pavor da pressão e da responsabilidade, ainda que curta jogar, tenha habilidade. Impossível dizer se Sanders é este cara, mas é uma hipótese animadora para que ele encontre seu lugar no jogo novamente.

Mas ainda assim, dado o histórico, não dá para esperar que Sanders retomará a moral que tinha na liga há alguns anos. Ainda que tenha físico e técnica, o carimbo da desistência vai ficar por muito tempo marcado em sua testa. Com um pé atrás dos times e pouco tempo de quadra, Sanders também não deve ter muitas chances de mostrar que seu comprometimento mudou.

A falta que Durant faz

Desde que Zaza Pachulia caiu sobre a perna de Kevin Durant, fazendo o ala do Golden State Warriors ficar de fora por algumas semanas, o time tem passado pelo seu pior momento na temporada. São cinco derrotas, apenas duas vitórias e um desempenho que coloca em risco a primeira colocação do time na conferência Oeste – o San Antonio Spurs está a uma vitória de igualar a campanha do Warriors.

A última vez que o time entrou em uma sequência dessas em temporada regular foi em novembro de 2013, quando a equipe ainda ensaiava ser a potência que é hoje – viria a terminar a temporada com 51 vitórias e ser eliminado para o Los Angeles Clippers na primeira rodada dos playoffs com Mark Jackson de técnico, David Lee de titular, com um Draymond Green ainda bem discreto e Stephen Curry longe de ser MVP.

Acontece que a partir daí o Golden State se transformou em uma equipe praticamente imbatível, sendo indiscutivelmente o melhor time da liga – sem Kevin Durant. Não é estranho, então, que o time decaia tanto por conta da sua ausência?

Não é. Não que o Warriors tenha se transformado em uma equipe ruim sem ele e que vá continuar com uma campanha tão cambaleante até que KD volte – de fato o calendário nestas últimas sete partidas foi pesado -, mas toda e qualquer equipe tem que ter um período de adaptação às mudanças para que jogue no máximo do seu potencial.

De maneira até inesperada, a entrada de Kevin Durant no time no início da temporada fez do Warriors um time mais solidário (atualmente tem mais de 70% das cestas servidas com assistências) e mais enérgico na defesa (mesmo sem Harrison Barnes e Andrew Bogut, dois jogadores importantes na função). Sem ele, a equipe precisa reaprender a não depender do jogador nos dois lados da quadra, uma tarefa bastante difícil se tratando de um jogador do tamanho de um pivo, drible de um armador e que vinha tendo um desempenho digno de MVP.

E, por mais urubu que possa parecer, a contratação de Durant no meio do ano passado não era, necessariamente, para melhorar o time – com uma campanha de 73 vitórias e uma corrida nas finais até o jogo 7 não tem muito o que ir além -, mas sim criar uma margem de segurança para não piorar, especialmente para o caso de alguém se lesionar. Ironicamente, foi o próprio que se machucou.

Para a temporada regular, ainda que seja um golpe que o time tenha sentido, não chega a ser algo aterrorizante: o time pode perder a primeira colocação e o mando de quadra para o San Antonio Spurs, mas nada além disso. O que o time precisa, mesmo, é de Durant de volta para os playoffs – as projeções mais otimistas dizem que ele volta na última semana da campanha regular.

Lá, no mata-mata, do jeito que o time vinha jogando, só Durant pode recolocar o time ao patamar de intocável. Sem ele, o tempo é muito curto para o time reaprender a jogar de uma maneira tão superior aos demais.

Silêncio, por favor

No último domingo, o Madison Square Garden soou um pouco diferente durante parte da partida entre New York Knicks e Golden State Warriors. Minutos antes da bola subir, o telão pendurado no teto da arena mostrava um anúncio: “O primeiro tempo desta partida será apresentado sem qualquer música, vídeo ou entretenimento para que vocês possam experimentar o jogo na sua forma mais pura. Aproveite o som do jogo”.

O experimento tem sua bela dose de polêmica. De cara, não foi muito bem recebido pelos jogadores. Draymond Green, o mais enfático, disse que jogar sem as músicas características, sem os shows nos tempos e tudo mais é “patético” e “completamente desrespeitoso”. Courtney Lee achou estranho e disse que isso tira parte da vantagem de se jogar em casa. Carmelo Anthony achou ‘diferente’, para ser econômico nas palavras.

Já eu achei que foi um experimento válido. Não que eu concorde que todo e qualquer recurso de entretenimento de uma partida além do jogo deva ser eliminado, mas acho que é bacana um teste como este para que a gente possa comparar os dois ambientes e ponderar o que é necessário para o clima da partida e o que é supérfluo.

No alto do meu humor de um velho de 100 e poucos anos, me irrito com a falta de espontaneidade daqueles coros gravados e reproduzidos pelo sistema de som dos ginásios, por exemplo (“Everybody clap your hands: clap clap clap…” e etc). Não vejo muita graça nessa cultura de cheerleaders também.

Como amante do esporte, curto mais a sensação de estar próximo da quadra, ouvindo o deslizar dos tênis, o berro dos jogadores e o esporro do técnico do que o clima de espetáculo de circo, com trocentas músicas, gente dando pirueta e 50 dançarinas do Faustão fazendo coreografias no meio da quadra.

Isso não quer dizer que eu ache que tudo seja dispensável – o experimento do MSG foi extremo e não acho que seja necessário abrir mão de toda perfumaria extra quadra. Lembro, por exemplo, que fiquei efetivamente emocionado com a introdução do jogo da abertura da temporada do Heat de 2013, contra o Bulls, num jogo que assisti in loco. Todas as 20 mil pessoas que estavam lá ficaram pilhadas pra partida, mudando toda a atmosfera do jogo – o que, certamente, ajudou o Miami a vencer o jogo.

Também concordo que muita gente vai ao jogo da NBA esperando ver todo o show: as danças, as ‘kiss cam’, os arremessos do meio da quadra e tal. Faz parte da cultura do basquete nos EUA.

Mas isso não torna a reflexão inválida. A festa é importante, mas o jogo é ainda mais. Quando a barulheira se torna maior que o basquete, não custa nada repensar o espetáculo.

Uma média de triple double não é suficiente

A temporada de Russell Westbrook não precisa de mais nada para entrar para a história como uma das performances individuais mais bestiais de todos os tempos. Além da absurda e antes tida como impossível de se repetir média de triple double por jogo, Russell é o cestinha da temporada (único com mais de 30 pontos por jogo) e vem colecionando uma série de marcas do tipo “um dos dois jogadores a conseguirem múltiplos jogos seguidos com mais de tantos pontos, rebotes e assistências”, sempre igualando ou batendo marcas de lendas do jogo como Michael Jordan, Oscar Robertson, Wilt Chamberlain e afins.

Apesar disso, o mais provável é que isso não faça de Westbrook o MVP da temporada. Desta vez não vou nem entrar no mérito de que o prêmio de melhor jogador da liga é entregue a um jogador de um dos melhores times e da posição do Thunder na tabela. Mas o fato é que é preciso mais do que um desempenho individual absurdo para ser agraciado com o troféu de jogador mais valioso.

Parece até ingrato e ranzinza exigir ‘mais do que isso’, eu concordo, mas é assim que as coisas funcionam na NBA nestas horas. Quando teve médias de 50 pontos e 25 rebotes por jogo, Wilt Chamberlain ficou apenas em quarto na votação para MVP. Quando pela primeira e única vez até hoje que um jogador teve média de triple double, Oscar Robertson ficou em terceiro lugar na disputa pelo prêmio. As melhores temporadas em termos estatísticos de Michael Jordan (86-87), Lebron James (05-06) e Hakeem Olajuwon (94-95) também não foram contempladas com o ‘award’.

Isso acontece porque a forma como as coisas são conduzidas influenciam muito mais a cabeça dos votantes do que meros números impressos numa planilha – o que é bem justo, na real. A história da temporada, a narrativa do time e do jogador e coisas assim são os fatores que darão luz a este ou aquele cara, fazendo dele o MVP do ano ou não.

Neste caso, o fato de James Harden ter batido na trave na votação de melhor jogador de dois anos atrás, perdendo para o absurdo Stephen Curry, ter tido um ano de merda na temporada passada e ter voltado com tudo, com um jogo renovado, inteligente e, pasmem, altruísta, com um time que parece ter cacife para derrotar qualquer um na busca pelo título acaba valendo muito mais do que 30 pontos, 10 rebotes e 10 assistências por jogo.

Também pesa contra o Westbrook alguns aspectos que inflam estas estatísticas e, para alguns, colocam em dúvida a eficiência de uma média como esta.

Seu chute não é lá dos mais efetivos. Seu true shooting %, que mede a frequência de acertos dos arremessos ponderando chutes de lance livre, dois  e três pontos é apenas 0 147º da liga.

Sua média de rebotes é inflada. 7,8 dos seus rebotes por partida são pegos livres, quando ninguém mais disputa a bola – apenas 12% das bolas que recupera na defesa são ‘brigadas’ com algum rival, de longe a menor média entre os jogadores com mais de 5 rebotes por jogo na liga.

Para completar – e ser bem chato – seu win share, estatística que mede o suposto número de vitórias que um jogador rende para seu time, é menor que o de Kawhi Leonard, James Harden, Lebron James, Isaiah Thomas e Stephen Curry.

Particularmente, não acho que a média de triple double deixe de ser impressionante, mas de fato é de se ponderar o quanto ela é eficaz o suficiente para fazer de Westbrook o melhor jogador do ano, especialmente quando fica claro que há uma forçação de barra para atingir os números – uma crítica que é mais difícil de se fazer a James Harden, seu principal concorrente na disputa.

É mais ou menos o que rolou quando Kobe Bryant, com 35 pontos por jogo e um time meia boca, perdeu o prêmio de MVP para Steve Nash, que não tinha números tão impressionantes. Pesou o fato do primeiro chutar mais de 27 bolas por partida para atingir a média e o segundo estar num time que mudou o jogo naquele momento.

Isso não é diminuir os feitos de Westbrook. Mas, ao mesmo tempo, não é o suficiente para ser MVP.

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