Ontem Larry Sanders estreou pelo Cleveland Cavaliers. A franquia fechou com o jogador até o final da temporada para substituir Andrew Bogut, que se lesionou em menos de um minuto de ação pela equipe. Sanders se une ao time como a última peça que faltava para que o Cavs busque seu bicampeonato. Com o sinal de alerta máximo acendido com as lesões de JR Smith e Kevin Love, a franquia se mexeu para acertar os últimos reforços.

Nisso, chegaram Kyle Korver para incrementar a artilharia de fora do arco, Deron Williams para dividir a responsabilidade de carregar a bola com Kyrie Irving e Lebron James e Andrew Bogut para dar força ao garrafão enquanto Tristan Thompson descansa – com a saída de Bogut, Sanders foi chamado.

Sanders se resume a um protetor de aro, que pode oferecer poucas coisas à equipe além de solidez na defesa dentro do garrafão e finalizações fáceis perto da cesta. No entanto, essa limitação do seu jogo não é nem de longe a maior preocupação em relação à sua aquisição. Larry, na verdade, vem de um hiato de dois anos em que, no auge da sua forma técnica e da sua capacidade física, simplesmente desistiu do basquete. Com problemas de ansiedade e depressão, o jogador não via grandes motivações para entrar em quadra e jogar sem tesão.

Para isso, abriu mão de uma bolada (mais de 20 milhões de dólares) e do papel central em uma equipe em franca ascensão (um Milwaukee Bucks que começava a se transformar já com Kris Middleton, Giannis Antetokounmpo e Jabari Parker). Antes do anúncio da aposentadoria, Sanders vinha de uma suspensão por uso de maconha e ‘falta de interesse pelo jogo’. Na sua carta de despedida, disse que era “uma pessoa, um artista, um músico, um escritor que às vezes jogava basquete”. E desapareceu.

O caso é bastante incomum. Numa liga tão competitiva em que centenas de ‘role players’ vão, vêm, são rebaixados para d-league, jogam na China e voltam, é raro que um jogador abra mão de um lugar cativo em um time – que naquele ano, inclusive, foi para os playoffs já.

Entendo que é muito mais fácil tomar esta decisão depois de já ter garantido algumas dezenas de milhões e ter uma mesada certa por um bom tempo – no acordo de rescisão, o Bucks ficou de pagar um resto de quase 2 milhões anuais até 2020 ao jogador -, mas a jogada mais comum nestes casos é o jogador, mesmo desinteressado, continuar dando migué em quadra até que a motivação reapareça ou que os times desistam dele. Ainda que eu entenda o ódio da turma de Milwaukee, acho louvável a desistência sincera de Sanders.

Um fato interessante, é que Sanders começou a jogar basquete bem tarde, já na high school, possivelmente porque era imenso e tinha o biotipo necessário pro esporte. Pode ser que ele nunca tenha tido o real tesão do jogo, só viu nele uma oportunidade de ganhar dinheiro com o corpo que tinha.

No começo deste ano, algumas notícias voltaram a pipocar falando que Sanders estaria disposto a tentar uma retomada na carreira. Mas temendo o real nível de comprometimento que o jogador poderia entregar, quase nenhuma franquia deu muita bola para ele.

Mas, num golpe de azar de um colega de profissão, necessidade de um time campeão e conveniência, Sanders descolou o melhor dos trabalhos.

É difícil dizer o que realmente move Sanders agora. Pode ser que a grana tenha encurtado e que a volta ao jogo seja uma maneira de incrementar a mesada paga pelo Bucks. Pode ser que os problemas da cabeça tenham se resolvido e o jogador esteja realmente afim de dar a volta por cima. Mesmo assim, a aposentadoria precoce de dois anos atrás vão manter o fantasma de que a qualquer momento o jogador pode desistir de contribuir com o time.

Neste caso, a vantagem é que pesa o fato de jogar ao lado do melhor atleta desta geração, que tem fama de elevar o basquete dos seus colegas – é só ver os casos de JR Smith, Channing Frye e Tristan Thompson que migraram do status de praticamente descartáveis em determinados momentos das suas carreiras para jogadores valorizados.

Para alguém que teve problemas psicológicos de depressão de ansiedade, também fica mais fácil voltar com um papel de importância bem reduzida – em um time em que a pressão vai cair toda nas costas de outros 14 caras antes de Sanders ser cobrado de algo.

Ainda que o papel central em um time, ter a bola nas mãos, ser a estrela seja o que maior parte desses caras queiram, há quem tenha pavor da pressão e da responsabilidade, ainda que curta jogar, tenha habilidade. Impossível dizer se Sanders é este cara, mas é uma hipótese animadora para que ele encontre seu lugar no jogo novamente.

Mas ainda assim, dado o histórico, não dá para esperar que Sanders retomará a moral que tinha na liga há alguns anos. Ainda que tenha físico e técnica, o carimbo da desistência vai ficar por muito tempo marcado em sua testa. Com um pé atrás dos times e pouco tempo de quadra, Sanders também não deve ter muitas chances de mostrar que seu comprometimento mudou.

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