O Washington Wizards entrou na temporada regular cercado de dúvidas quanto ao seu real potencial. O time vinha de uma sequência estranha. Em 2014-2015, teve uma campanha animadora nos playoffs e, não fosse por uma lesão de Wall, tinha boas chances de alcançar uma final de conferência. Na temporada seguinte, a decepcionante décima colocação e não ida ao mata mata.

A história que era usada como álibi para a inconstância do time e sobretudo de John Wall e Bradley Beal, promissora dupla de armadores da franquia, era a de que os dois não se bicavam. De fato, frustrados com tudo que rolava na equipe, os dois trocaram alfinetadas públicas. Wall reclamou da baixa frequência de Beal, atormentado por lesões, no time. Beal, por sua vez, se incomodou com o domínio absoluto de Wall na posse da bola. Ficou famosa a frase que os dois tinham “tendência a não se gostar”. Como quase sempre acontece, a treta e os resultados ruins foram diretamente ligados.

Agora o time voltou a ganhar, emplacou a melhor sequência de vitórias em casa na temporada e já registra a melhor campanha da NBA desde janeiro. Não só está próximo de se garantir matematicamente nos playoffs, como é o time que atualmente mais ameaça o reinado do Cleveland Cavaliers na liderança do Leste. E, claro, muita gente tenta atribuir a uma suposta sintonia entre Beal e Wall fora da quadra.

Sinceramente não tenho como dizer se os dois são amigos, se não são. O meu ponto é que, dadas as declarações dos jogadores, dado o histórico de caras que declaradamente se odiavam mas jogavam muito, a amizade entre estrelas do mesmo time como receita do sucesso é uma balela. Apesar de ser muito bonito para os torcedores acreditarem naquilo e para a imprensa criar um enredo, é quase sempre irrelevante se jogadores dividem quarto, se jantam juntos, trocam mensagens ou se sequer se suportam.

Apesar do exemplo mais clássico disso ser a dupla Kobe Bryant e Shaquille Oneal, acho errado colocá-los no mesmo balaio. Ambos figuram possivelmente entre o top 10 da NBA em todos os tempos. Mesmo que um boicotasse o outro, as coisas dariam certo no Lakers. Mesmo no auge do ódio mutuo, o time foi tricampeão. Sem comparação.

Vou trabalhar com exemplos mais ‘terrenos’. Rajon Rondo e Ray Allen também não se gostavam. Um nunca foi muito fã do outro em quadra e, para completar, uma vez Allen disse que Doc Rivers e Danny Ainge não gostavam de Rondo e por isso iriam tentar trocar a dupla para Phoenix. Rondo não gostou, achou que Ray estava inventando alguma coisa para se livrar da negociação e a coisa melou de vez entre os dois. Mesmo assim, em quadra, em cinco anos de parceria, o Boston foi campeão uma vez, vice outra e chegou à final de conferência em mais uma. Rondo foi o jogador que mais deu assistências neste período e Ray Allen era o principal alvo dos seus passes.

Até ano passado, Kevin Durant e Russell Westbrook formavam a dupla mais talentosa da NBA. Por terem entrado na liga mais ou menos na mesma época, terem crescido como profissionais juntos e não terem muito mais colegas de qualidade ao redor, presumia-se que os dois eram muito próximos, quase irmãos. A revelação de que os dois nunca foram nada mais do que ‘colegas de trabalho’ se deu depois que Durant saiu do time. Muita gente achou absurdo que o ala ‘só’ mandou uma mensagem no celular de Russell avisando que deixaria o time, mas, apesar das rusgas ‘institucionais’ da separação, ambos confirmaram que nunca foram muito próximos fora da quadra. Mesmo assim, a parceria funcionou bem, no limite máximo dos seus talentos, independente deles serem super amigos ou só jogarem juntos.

Voltado ao Wizards, ao meu ver, é mais correto dizer que o time passou ganhar por outros motivos mais claros, como a habilidade do técnico Scott Brooks em transformar bons prospectos em jogadores de verdade, como Kelly Oubre e Otto Porter, e filtrar o elenco em uma rotação mais enxuta e eficiente. O time também passou a ter o ataque iniciado por mais jogadores, ao invés de concentrar todas as decisões em Wall – que, por outro lado, se tornou uma opção mais eficaz nos arremessos. A criatividade de Beal na armação do pick and roll, uma referência no fundamento entre os shooting guards, também passou a ser explorada com mais frequência. Com isso, a dupla alcançou o melhor momento da carreira individual e coletivamente – independente de serem amigos ou não.

Não é raro vermos a associação da melhora no rendimento a uma suposta amizade que estaria florescendo entre ambos. Eles não são bobos de negar, claro, mas o fato de Beal já ter reclamado que basicamente SÓ PERGUNTAM ISSO a ele é uma pista de que definitivamente não é a isso que eles creditam esta evolução.

Não digo que problemas de vestiário não influenciam na performance de um time. É claro que sim. Mas não ser amigo de alguém não é problema algum. Atletas jogam para ganhar, fazer seu trabalho, e não amar uns aos outros, amar uma camisa. Pouco importa com quem eles vão com a cara se jogarem tudo que sabem.

Beal, Wall, Shaq, Kobe, Rondo, Allen e companhia são as provas disso.

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