Se fosse possível planejar o roteiro de um jogo de playoff perfeito ele teria que ter alguns elementos fundamentais. Primeiro, uma atuação épica, histórica, de um jogador que supera alguma adversidade e desconta todas as suas frustrações e limitações dentro de quadra. Seria disputado ponto a ponto, com reviravoltas no placar e, no final das contas, seria decidido na prorrogação. E, até como consequência de tudo isso, de um jogo pegado do início ao fim, os dois times dariam o sangue em quadra, se odiariam, e brigariam – literalmente – até o fim.

A série entre Boston Celtics e Washington Wizards ainda não se tornou uma das grandes disputas da história do mata-mata da NBA – talvez ainda esteja longe disso -, mas até o momento é a única que reúne todas as condições para tal: Isaiah Thomas já fez uma das maiores atuações dos playoffs nos últimos anos depois de perder a irmã em um acidente de carro e o dente numa cotovelada (não são coisas comparáveis, mas você entendeu…); a série está pau a pau, com duas viradas do Boston, um jogo decidido na prorrogação e uma vitória retumbante do Wizards; e, por fim, o grande diferencial da série perante os demais confrontos, os dois times estão se matando em quadra.

O saldo da briga até agora é considerável. Para começar, Thomas já ‘beijou’ o cotovelo de Otto Porter Jr e o chão do TD Garden. Na primeira, perdeu o dente da frente. Na segunda, não sei como não perdeu de volta – vai ver a ‘janela’ foi consertada com alguma coisa bem mais resistente do que um dente original.

Markieff Morris e Al Horford também vem trocando carícias: no primeiro jogo, Morris caiu sobre o pé de Horford e torceu o tornozelo em uma lesão feia de assistir. No jogo seguinte, o ala do Wizards se embolou e empurrou o pivô celta no meio dos fotógrafos e torcedores. Ainda que defensores mais malandros coloquem o pé propositalmente para lesionar os arremessadores quando caem no chão, o histórico de Horford faz crer que a jogada foi uma fatalidade. Já a fama de Morris, que estava ‘lutando MMA’ no primeiro round do mata-mata segundo Paul Millsap, não deixa dúvidas que ele empurrou Horford para fora da quadra na maldade mesmo.

O mesmo Morris e Thomas se encrencaram também. Se xingaram, trombaram, o Estatuto da Criança e Adolescente fez vista grossa e Thomas botou Markieff pra dançar.

Entre os coadjuvantes, teve treta também. Kelly Olynyk, que já mandou Kevin Love e Robin Lopez para o departamento médico em outros confrontos, e Kelly Oubre tentaram sair na mão – o que pode render uma suspensão até -, enquanto Brandon Jennings e Terry Rozier fingiram que também sairiam até que ambos fossem expulsos.

A confusão toda da série é o desenrolar de uma rivalidade pesada que já vinha das temporadas passadas. Mal dá pra saber se começou quando o antigo técnico do Wizards Randy Wittman xingou Jae Crowder da beira da quadra ou se quando Crowder ‘tocou no nariz’ de John Wall numa discussão mais acalorada após o final de um jogo neste ano. De lá para cá, Wall e Beal já desceram o cacete em Marcus Smart, que por sua vez quebrou o nariz de Beal. Porter falou que o time do Washington jogava sujo, a turma do Wizards combinou de ir vestida de preto pra partida para o ‘funeral do Celtics’ e por aí vai.

A tendência é que as coisas fiquem ainda mais feias. Se as partidas continuarem disputadas, acho ótimo. Muito melhor do que uma lavada como Warriors e Cavaliers estão aplicando sobre Jazz e Raptors. E talvez é o que esteja faltando na série entre Spurs e Rockets.

Por mais quatro jogos assim. Enquanto todos estiverem vivos, claro.