Eu aposto que quem tem mais ou menos a mesma idade que eu, na faixa dos 30 anos, vai reconhecer esta passagem: era início da década de 90, eu estava começando a acompanhar futebol com alguma consciência. Torcendo pelo humilde Coritiba, que iria enfrentar uma fila sem títulos de uma década e que só voltaria à Primeira Divisão dali alguns anos, o que mais via na tevê era um imbatível Palmeiras dominando o futebol nacional. Campeão Brasileiro, Paulista, cheio dos maiores craques da época. Tudo isso vestido com uma camisa listrada de verde e branco.

Passaram algumas temporadas, o time ainda era bom, continuou na tevê, mas mudou o uniforme para uma camisa toda verde (com algumas variações infelizes na época), que na minha cabeça de criança, que não conhecia a história do time alheio, era estranha. Isso me marcou. Mesmo hoje, sabendo que a verdadeira camisa palmeirense seja toda verde e que as listras brancas sejam só uma exceção na história do time, inconscientemente ainda me pego estranhando o time jogar com a camiseta do uniforme só com uma cor.

Acho que por isso eu fico tão incomodado quando vejo os times da NBA jogando com uniformes alternativos nos playoffs. Que porra é essa de Houston Rockets jogando mais vezes de regata preta ou camisetas cinzas com manga ao invés das tradicionais ‘jersyes’ vermelhas e brancas? Ou do Washington Wizards abrir mão por completo dos seus uniformes principais para jogar todas as partidas do mata-mata com uma camisa alternativa que homenageia o exército americano? Sem falar nos pijamas que Spurs usou vez ou outra na pós-temporada e no uniforme preto de D-League que o Milwaukee Bucks entrou em quadra na série contra o Toronto Raptors.

Com toda a visibilidade que a liga ganha quando os playoffs chegam, acho triste que os times abram mão das suas identidades por alguma jogada de marketing. Certamente, é neste período que o maior número de pessoas passam a se interessar pelo jogo, começar a acompanhar as transmissões e conhecer os times. Não consigo engolir que valha a pena promover um determinado uniforme negando toda a história de uma franquia – ainda que muitos times mudem radicalmente suas identidades visuais ao longo dos anos, infelizmente.

É provável que uma porção considerável de pessoas estejam conhecendo o Houston Rockets agora com uma camisa que não tem nada a ver com nada, enquanto há dois anos o time lotava a sua arena na final de conferência com uma camiseta escrita RED NATION – exemplo do quanto a cor vermelha é importante para o time.

Entendo que os times façam isso por dois motivos e que eles não estão ligando muito para quem não gosta. O primeiro deles é comercial, dar uma super exposição para um conjunto de uniformes e “obrigar” o torcedor mais fanático comprar umas cinco camisas por ano – ainda que o próprio Wizards tenha falhado miseravelmente nessa estratégia, já que fez um lote muito pequeno de unidades deste modelo do mata-mata, as regatas se esgotaram e agora acha que não vale a pena confeccionar novas por causa da mudança de fornecedor de materiais da Adidas para Nike daqui dois meses.

O outro é a superstição. O time usa uma vez uma camisa diferente, ganha um jogo e cai na tentação de usá-la mais vezes já que “deu sorte”. Foi por isso que o Cleveland Cavaliers foi campeão com a praticamente irreconhecível camiseta preta com mangas no ano passado.

Não há nada que possa ser feito contra isso. A grana e essa suposta forcinha extra para ganhar são maiores do que a opinião de um punhado de torcedores resistentes às mudanças. Que joguem uma vez ou outra durante a temporada regular, que inventem histórinhas para justificar isso ao longo do ano. Tudo bem, até vai. Mas nos playoffs? Não é pra mim.

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