A década de 70 não foi das melhores. A pira inicial das discotecas, os hippies envelhecendo, um amontoado de roupas e cabelos de gosto duvidoso e um mar de gente que ainda não sabia lidar com uma oferta tão vasta e fácil de entorpecentes fez daqueles dez anos um período um pouco confuso da história do século 20.

A NBA não fugiu à regra e viveu dias de um embaralhado de forças nunca visto até e desde então. Foram oito campeões em dez anos, uma variedade jamais vista. O jogo não era dos melhores: as táticas eram muito embrionárias, as jogadas eram bem simples e os malabarismos que fizeram do basquete o esporte coletivo mais plástico do mundo ainda não tinham saído das quadras de rua para os jogos profissionais.

Mas se nessa zona alguém conseguiu mostrar alguma consistência no topo da liga, especialmente na conferência Leste, estes times foram Boston Celtics e Washington Wizards (na época, Baltimore/Capital/Washington Bullets), equipes que décadas depois se odeiam, formam uma das rivalidades mais tensas da NBA e se enfrentam no mais aguardado jogo 7 destes playoffs.

Mas voltemos aos anos 70, que foi a última vez que as duas equipes, juntas, dividiram os holofotes da conferência: o Boston era disparado o melhor time da história naquele momento. Vinha de uma década de 60 absolutamente dominante. Liderado por Bill Russell, o time tinha vencido 11 de 13 campeonatos até 1969.

Com a aposentadoria de Russell, a franquia deixou de ser a melhor disparada na liga e alguns rivais se aproximaram. Los Angeles Lakers, eterno vice dos anos anteriores, e Milwaukee Bucks, que tinha acabado de draftar o sucessor de Bill, Lew Alcindor/Kareem Abdul-Jabbar, se matavam no Oeste (sim, Milwaukee jogava do ‘outro lado’ dos EUA). No Leste, New York Knicks vinha com uma formação inovadora, com vários bons jogadores e um basquete coletivo muito bem jogado, e o Bullets, hoje Wizards, começava a montar uma potência.

O primeiro passo para isso foi escolher o atarracado pivô Wes Unseld. Com um black power invejável (um dos bons legados da época) e apenas 2,01 metros, Unseld era um pedaço maciço de músculos e ossos pesados. Estreou na liga como calouro do ano e MVP na mesma temporada. Nas primeiras cinco temporadas pelo Bullets, teve médias de 17 rebotes por partida. Num tempo em que a posse de bola média durava quase a metade do que dura hoje, Unseld era muito útil com passes que atravessavam a quadra.

Wes Unseld

O time também tinha Elvin Hayes, outro pivô com capacidade absurda de catar rebotes e com um talento nato para pontuar. Os dois formaram a dupla de garrafão mais dominante do basquete naquele momento.

Assim, os Bullets foram campeões uma vez, a única na história da franquia, chegaram a outras três finais, perdendo para Bucks, Warriors e Sonics. Ainda chegou a cinco semifinais de conferência até a virada dos anos 80, quando começou a decair e entrou num período de altos e baixos.

Só não foi melhor porque tinha um rival de peso. Ainda que os tempos não fossem de tanta bonança como nos anos anteriores, o Boston ainda se manteve entre os mais competitivos. O craque, agora, era John Havlicek, sexto homem nos tempos de Russell, mas que tinha sido alçado à condição de ídolo com a mudança de geração.A parceria do ala-armador com Dave Dowens e Jo Jo White rendeu ao time verde dois títulos – ainda o maior número da década, junto com Lakers – e mais quatro finais de conferência, mais do que qualquer outra franquia dos anos 70.

Apesar do domínio – dentro de um cenário de equilíbrio total da época -, os dois times só se enfrentaram uma vez naqueles anos. Na final de conferência de 1975 deu Bullets, por 4 a 2. Nos demais anos, sempre um ou outro tropeçava em um rivais mais fraco no meio do caminho.

John Havlicek

A disputa entre os dois acabou não virando uma grande rivalidade porque a NBA não era das ligas mais populares dos EUA ainda (muito abaixo do baseball e futebol americano, além de contar com a concorrência com a ABA, outro campeonato de basquete da época). A passagem também fica esquecida na história porque precedeu um dos momentos mais marcantes da história do basquete, que foi a explosão do jogo nos anos 80.

Mas não dá pra negar, mesmo assim, que foi uma briga que teve sua importância na história. Por mais que todo mundo tenha todos os motivos para lembrar o mínimo possível dos anos 70, eles foram os mais marcantes da história para o confronto entre Boston e Washington, que terá um novo capítulo escrito nesta segunda-feira.