A história da volta do Seattle Supersonics voltou à tona depois que Adam Silver, o manda-chuva da NBA, falou em uma entrevista à CJ McCollum no Players Tribune, disse que o aumento no número de franquias na liga em algum momento do futuro é inevitável e que naturalmente o time do extremo noroeste americano seria levado em consideração quando isso acontecesse.

Sinceramente eu não sou tão otimista quanto boa parte das pessoas e, talvez por isso, não achei que a fala de Silver foi tão animadora. Ao meu ver, ele quis dizer que esportivamente a liga ainda não está preparada para isso (em linhas gerais, disse que muita gente já reclama que apenas um time é realmente bom, que falta jogadores bons para todas as 30 equipes e que trazer mais duas franquias para liga iria pulverizar ainda mais este talento), mas que mercadologicamente, sim, é normal que em algum momento, sabe-se lá quando, isso aconteça.

E que quando for para rolar, obviamente Seattle seria uma das favoritos – nem faria sentido que não fosse, uma vez que a franquia é tradicional, a torcida local está órfã e os problemas com arena estão sendo solucionados. Mas com certeza não é algo para um futuro muito próximo não.

Mesmo assim, é legal contar como acontece este processo – ou, mais concretamente, como foi a última vez que a NBA aumentou o número de times.

Há 15 anos, Charlotte sofreu uma pancada na sua relação com a liga. A franquia, que tinha sido líder em presença de público no seu ginásio na virada dos anos 80 para 90, enfrentava uma crise de popularidade. Diante da situação, a NBA ordenou que uma nova arena fosse construída para o clube. A franquia recorreu à prefeitura, que recusou usar dinheiro o público para a obra. Sem o ginásio, a liga obrigou o time a mudar de cidade.

Isso aconteceu em maio de 2002, com mudança confirmada para a temporada seguinte. Mal o New Orleans Hornets tinha estreado o novo endereço, a NBA cedeu à pressão de que teria que devolver um time à cidade de Charlotte, uma Meca do basquete universitário e que já sentia falta de uma franquia profissional. Desta vez, com um novo escudo e uma nova direção, que assumiria o compromisso de erguer uma arena nova. Em dezembro, um grupo de empresários disposto a comprar uma vaga na liga e pagar por uma arena nova apareceu e a NBA confirmou que aumentaria o número de times de 29 para 30 dali dois anos, incorporando o Charlotte Bobcats.

Logo após a final do campeonato de 2004, a liga agendou o draft de expansão para que o Bobcats completasse seu elenco. Ele funciona da seguinte maneira: como seria muito desequilibrado fazer com que o time preenchesse seu plantel somente com free agents, a liga determinou que cada franquia poderia proteger 8 dos seus  jogadores. Todos os demais – ou seja, aqueles que não estivessem protegidos – poderiam ser escolhidos pelo time de Charlotte. A nova franquia, por sua vez, não poderia pegar mais de um jogador de cada time e teria que escolher pelo menos 14 caras.

Os times deixaram desprotegidos, geralmente, jogadores ruins mesmo ou aqueles cujos contratos era muito ruins. No draft de expansão, o Bobcats pegou de relevante Gerald Wallace, que era um reserva promissor do Sacramento Kings. No total, tirou 19 jogadores dos seus times e usou boa parte deles para trocar por picks de draft ou outros jogadores (Zaza Pachulia foi um deles, que virou uma escolha de segundo round).

No draft de calouros, o time tinha a quarta escolha garantida do draft (as três primeiras foram definidas na loteria normal premiando os times com pior campanha no ano anterior). Na noite da escolha, o time trocou para subir para a segunda posição e escolheu Emeka Okafor, que seria um dos principais jogadores da breve história da franquia.

Nos primeiros anos, a NBA também determinou que o limite salarial do time seria consideravelmente mais baixo que o dos demais times. Na primeira offseason, o Bobcats podia gastar apenas 66% do salary cap dos demais times. Na segunda offseason, seria 75%, até que na terceira temporada teria igualdade de condições com os demais. Isso foi feito para que a franquia não entrasse no período de assinaturas de contratos em vantagem perante os outros times com muito espaço na folha salarial para atrair os principais nomes do mercado, despejando uma grana absurda em uns dois nomes de peso – enquanto as demais franquias estavam sufocadas em suas folhas salariais.

Desta forma, o processo de renascimento da franquia se baseia, principalmente, em jogadores jovens ou free agents meia boca. No caso do Bobcats, o time demorou seis temporadas para conseguir ter uma campanha com mais vitórias do que derrotas.

Em uma eventual entrada do time de Seattle, o rito seria basicamente o mesmo. O que mudaria de lá para cá é a forma de ‘aceitação’ da nova franquia – na época foi mais uma decisão arbitrária da NBA aliada a um consenso de que a liga deveria crescer -, que depende da boa vontade dos atuais 30 donos entenderem que precisam aumentar a quantidade de equipes, mesmo que isso implique em dividir ainda mais o bolo da grana que entra atualmente.

Além disso, é de se esperar que o draft de expansão fosse mais parecido com o que aconteceu em 95, quando Toronto Raptors e Vancouver Grizzlies entraram na competição – aparentemente, a disposição atual da liga é aumentar para 32 times, quando isso acontecer.

Neste caso, há um sorteio para decidir quem tem a chance de escolher primeiro e depois os times podem pegar dois jogadores cada em sequência (por exemplo, primeiro Toronto escolheu um jogador, depois Vancouver dois, daí Toronto mais dois e etc). É de se imaginar que a quantidade de jogadores protegidos seja diferente, já que os elencos aumentaram de lá para cá.

Uma coisa que não faço ideia de como funcionaria é em relação aos jogadores que hoje estão em times da D-League – especialmente agora que a NBA planeja fortalecer o vínculo dos atletas da liga de desenvolvimento com contratos que prevem a ida e volta mais fácil entre as franquias principais e associadas.

Mas como a coisa ainda deve demorar algumas temporadas para acontecer, há muito tempo para se pensar nas adaptações deste formato. Só espero, de verdade, que quando isso acontecer, Seattle esteja de verdade na lista de cidades confirmadas para a expansão.

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