A história que muitos acreditam ser a verdade por trás da ida de Patrick Ewing ao New York Knicks muito possivelmente foi escrita por Gunther Schwiter, o cara que ficou conhecido como o autor do texto que denunciava o grande esquema que deu o título da Copa do Mundo de 98 para a França.

O ano era 1985 e David Stern completava um ano no cargo de comissário geral da NBA. Ele assumiu o cargo uma temporada antes com duas missões muito claras: tornar a liga mais competitiva e alavancá-la financeiramente.

A NBA não era o campeonato que temos como referência hoje, uma liga rica, mundialmente reconhecida e tudo mais. Era apenas o torneio do quarto esporte americano, mais novo de todos, com menos audiência e com a maior concentração de campeões em toda a sua existência.

Um dos maiores problemas era que dos 23 times que estavam em ação, uns seis jogavam descaradamente para perder e tentar a sorte no draft ao final da temporada. Logo, os 82 jogos da temporada regular quase não serviam para nada, já que praticamente todo mundo que estivesse interessado no mata-mata conseguia se classificar – se hoje o tanking já é chato, imagina naquela época.

O método vigente naquele momento para escolher o time que teria a primeira pick no draft era um banal ‘cara ou coroa’ entre os dois times de pior campanha no torneio anterior, um de cada conferência. Ou seja, perder de propósito era bastante recompensador e muitos times apostavam nesta estratégia para, no futuro, virarem forças dominantes como eram o Boston Celtics e o Los Angeles Lakers. Para piorar as coisas, o Houston Rockets tinha conseguido a primeira escolha em dois anos consecutivos, o que automaticamente já mudava seu patamar na liga.

Stern até vinha negociando um contrato gordo de televisão, um de seus objetivos iniciais para dar visibilidade ao basquete, mas muita gente questionava se ele se confirmaria caso, em quadra, os times continuassem sendo incentivados a perder. Para completar, um prodígio era dado como certo para a primeira escolha de 1985: Patrick Ewing, um pivô fenômeno do esporte universitário que estava pronto para colaborar imediatamente para qualquer time que o pegasse.

Para que a chegada de Ewing à competição não fosse desperdiçada em um draft mais uma vez sem graça e o hype ao seu redor não caísse em um time medíocre, Stern inventou um modelo de sorteio mais imprevisível. Naquele ano, todos os oito times que ficaram de fora dos playoffs teriam as mesmas chances de pegar a primeira escolha. Sete envelopes seriam colocados dentro de uma caixa e a ordem das escolhas seria definida a partir da sequência em que eles fossem retirados, simples assim.

O New York Knicks, por sua vez, vinha da sua pior campanha em muitos anos. Bernard King, ídolo local, tinha passado metade da temporada lesionado e o Madison Square Garden, maior palco do basquete, vinha registrando recordes negativos de público. O time de Nova York inha sido o terceiro pior time da temporada e iria para a loteria do draft ao lado de Indiana, Golden State, Clippers, Kansas City, Atlanta e Seattle.

O burburinho começou a crescer quando as regras do sorteio foram anunciadas e tomaram corpo quando o New York Times soltou um artigo dizendo que seria muito mais fácil renovar o contrato de transmissão da tevê nos termos negociados por Stern caso Ewing fosse jogar na Meca do basquete.

O cenário era perfeito para os paranoicos confabularem. A tensão que permeava o novo sistema de escolha só piorava as coisas. A dinâmica do sorteio e, pior, da divulgação do seu resultado era ainda mais cretina: valeria o sorteio feito por Stern, mas ele seria divulgado de trás para frente, da pior para a melhor posição. Um suspense tremendo para confirmar o que muita gente ‘já sabia’.

A mecânica do negócio também abriu margem para dúvidas. Os sete envelopes gigantes foram colocados em sequência, sem passar por uma conferência externa, dentro de um globo de plástico não grande o suficiente para que os papéis girassem enlouquecidamente lá dentro. Alguns deles, o escolhido, inclusive, se dobraram com o movimento. Tudo isso serviria como argumento posterior para comprovar aquilo que seria uma fraude: sem uma conferência externa, o envelope do Knicks poderia estar em uma temperatura diferente dos demais ou uma daquelas dobras era, na verdade, uma marcação para indicar a Stern qual das cartelas deveria escolher.

Para piorar as coisas, David segura dois envelopes de uma vez, em uma fração de segundos nota que pegou mais do que deveria e descarta um deles. O escolhido, óbvio, é o do New York Knicks.

Olhando bem o acontecido, eu diria que tem que ser muito maluco para achar que tudo ali foi calculado. Toda a sucessão de eventos parece bem casual e a ‘sorte’ de Stern e da NBA de Ewing cair bem na franquia em que ele seria melhor aproveitado comercialmente não passa de um acaso e do resultado de um formado de sorteio bem ruim – tanto é que em 1987 o esquema teve algumas alterações, fazendo com que apenas as três primeiras escolhas fossem decididas na escolha aleatória dos envelopes e em 1989 o método foi completamente abandonado de vez.

A NBA também não foi salva exclusivamente pela dobradinha Knicks e Ewing – principalmente se comparados ao impacto da Nike, das tevês, da abertura da NBA para o mundo e, principalmente, de Michael Jordan. Mas é claro que é muito mais legal perpetuar uma história como essa.

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