Alguns leitores me questionaram por não ter falado dos brasileiros nas análises dos times em que cada um deles joga. Não foi desatenção, não. Foi proposital. Os motivos são dois. Primeiro que, via de regra, eles são irrelevantes para suas equipes. Segundo que preferi fazer um post só deles. Da forma como os posts sobre os times foram feitos, eu teria que dar uma importância desproporcional para eles se fosse citá-los.

É duro admitir que esta deve ser a temporada em que os jogadores do Brasil terão a participação mais discreta desde que Nene foi draftado, em 2002, e reabriu a porteira da liga para os compatriotas.

A temporada passada já foi nessa linha. Ainda que 9 jogadores daqui tenham entrado em quadra (o maior número), nunca eles jogaram tão pouco. Na média, cada um deles jogou 564 minutos. Nene, o que mais jogou e, ficou 1198 minutos em quadra. Caboclo, o que menos jogou, teve 40 minutos.

Acho que esse cálculo é uma boa medida pois mostra que, mesmo que vários times tivessem brasileiros, eles eram totalmente irrelevantes em sua maioria. No máximo eram reservas úteis.

O número é mais baixo do que de anos em que o Brasil teve vários jogadores que assinaram contratos temporários – e acabaram jogando pouquíssimos minutos. O que contrabalanceava era que outros jogadores eram bem participativos em suas equipes (Leandrinho no Suns, Nene em Denver, Splitter no Spurs, Varejão no Cavs).

Essa geração está já no final de carreira e os seus substitutos não vingaram. Tiago já cogita se aposentar, Varejão e Leandrinho não conseguiram contrato, Huertas fez as malas para voltar à Espanha.

Na outra ponta, a coisa parece pior agora do que era há uma ou duas temporadas. No Raptors, Lucas Nogueira saiu do time titular no meio do campeonato para esquentar o fundo do banco canadense. Desde que Serge Ibaka chegou ao time, o pivô brasileiro foi praticamente descartado. Entrou em quadra em dez jogos apenas. Jogou 6 minutos por partida desde então.

O problema ali é a falta de confiança que o jogador desperta na comissão técnica. A defesa não é inteligente o suficiente para um jogador com seu físico e o ataque é limitado. Bebê também tem um sério problema de perder a bola uma vez a cada cinco posses em que ele é envolvido – uma média absurdamente alta.

Para este ano, seu envolvimento com o time deve ser quase nulo, já que a concorrência só tem crescido. Os jovens Jakob Poeltl e Pascal Siakam estão com mais moral que ele no time, por exemplo.

Mesmo time, mesmo problema com Bruno Caboclo. O jogador mal entrou em quadra pelo time desde que foi draftado, apesar das altas expectativas que o time tem (ou tinha) com o “Brazilian Kevin Durant”. Quando jogou, foi péssimo – o que até tem que ser ponderado, já que não há sequência.

Quando foi escolhido, um jornalista de Toronto brincou que ele estava “a dois anos de estar a dois anos de estar pronto para a NBA”. No caso, o tempo tem passado e Bruno parece que não está tão perto do amadurecimento que estava previsto – por mais que o horizonte fosse confusamente distante.

Os últimos meses pioraram a condição do jogador. Teve um surto jogando pela Seleção Brasileira e abandonou o time por ter sido colocado no banco de reservas durante um jogo. O caso deflagrou alguns problemas comportamentais do atleta, que parece que já vinham acontecendo pela franquia do Raptors na G-League.

Pela pré-temporada, justamente quando até os piores jogadores que existem vão bem, Caboclo foi tenebroso. Ao longo de quatro jogos, fez três cestas em 17 arremessos. Cometeu sete turnovers.

Por mais que, em tese, as negociações da offseason tenham favorecido sua posição no plantel, seu desempenho recente não é animador o suficiente para cavar um lugar cativo na rotação. A menos que o staff do Toronto insista muito nele até pegar ritmo e mostrar algo de bom, é provável que não tempo significativo de jogo na temporada.

Raulzinho está em uma situação um pouco melhor. Ele seria, mais uma vez, o terceiro armador do Utah Jazz apenas, assim como na temporada passada. Mas a lesão de Dante Exum, que deve tirá-lo de ação por vários meses, alçou o brasileiro a reserva imediato de Ricky Rubio. Deve, então, ter uma minutagem parecida com a da temporada de estreia, que conseguiu ser titular em vários jogos.

A única coisa que preocupa aqui é que Raulzinho vive uma curva descendente no Jazz – quando o normal seria o contrário. Começou bem, era titular e, pouco a pouco, foi perdendo espaço. No primeiro ano, o técnico Quin Snyder chegou a buscar um armador no mercado no meio da temporada, tamanha a desconfiança em relação ao brasileiro. Ano passado, jogou metade dos minutos da primeira temporada. Não fosse a lesão do australiano Exum, Raulzinho teria dificuldades para cavar espaço na rotação.

Os outros dois brasileiros que estão na liga são os únicos que devem ter algum destaque, ainda que cada qual tenha suas ressalvas. Cristiano Felicio renovou contrato com o Bulls e é o reserva imediato de Robin Lopez. Mesmo que ainda esteja no banco, Felicio está aos poucos ganhando espaço. Triplicou seu tempo de jogo ano passado e tem tudo para jogar ainda mais agora.

O triste é que o Bulls é um dos piores times da liga atualmente. Por mais que vá muito bem, se destaque e tudo mais, dificilmente alguma coisa decente sairá dali. E como seu vínculo com o time é de quatro anos, a perspectiva é sofrer em Chicago por um bom tempo.

O lado bom disso é que o time tem boas chances de promovê-lo a titular com o passar o tempo. Como o time não vai disputar nada mesmo, seria sensato colocar os caras mais jovens para rodar em quadra ao invés de insistir em um veterano como Lopez. Meu palpite é que ele passará a começar as partidas na segunda metade do campeonato.

Nene também tem sua importância no Houston Rockets. É reserva de Clint Capela, mas é um dos jogadores mais seguros da segunda unidade da equipe – aliás, a formação reserva do Rockets é uma das melhores e mais eficientes da NBA toda. Ao mesmo tempo que é um jogador importante em um dos melhores times da liga, é possível que ele seja poupado, tenha seus minutos reduzidor durante a temporada regular, já que sempre teve problemas de lesão, já tem 35 anos e se machucou na reta final dos playoffs passados.

Georginho, garoto jovem e promissor que chegou a assinar com o Houston para a temporada, foi dispensado pelo time na data limite para que os jogadores desprotegidos fossem descartados sem ônus para as franquias. Pode até pintar em algum time ao longo do ano, mas vai ter que mendigar poucos e preciosos minutos de jogo.

No final das contas, o retrato dos brasileiros na NBA não é animadora. A maioria dos veteranos não tem mais espaço em nenhum time e os mais novos ainda não conseguiram mostrar que podem jogar la liga. Salvo raras exceções.

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