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Lendas Urbanas da NBA: Ersan Ilyasova não é quem você pensa

Parece desproporcional colocar Ersan Ilyasova, ala que já rodou por seis times da NBA e nunca conseguiu se firmar como um jogador muito útil na liga, na mesma série de posts de Lendas Urbanas que tem Michael Jordan, Magic Johnson, Patrick Ewing e Lebron James (ou mais precisamente, a mãe dele). Não é. Ele está aqui justamente porque, ao contrário dos demais, sua história, apesar de bem bizarra, é definitivamente a que mais parece ser real.

O papo é que Ersan Ilyasova é, na verdade, Arsan Ilyasov, um cara nascido no Uzbequistão (e não na Turquia, como ele alega) e é três anos mais velho do que constam seus registros. A identidade de um foi criada justamente quando a do outro foi apagada.

A suspeita surgiu quando Ilyasova tinha 15 anos e começou a dominar os campeonatos turcos e europeus de basquete juvenil. Ninguém nunca tinha visto aquele moleque antes. Não só no meio do esporte, nos clubes e competições. Ninguém conhecia ele. Nem mesmo o governo turco o reconhecia. Seu pai, semanas antes, tinha procurado as autoridades para registrar o adolescente, alegando que tinha ‘esquecido’ de fazer a certidão de nascimento quando ele nasceu, quinze anos antes.

Isso era em 2002. Um mes antes, ainda no mesmo ano, um jovem de 18 anos e de nome Arsan Ilyasov tinha saído do Uzbequistão, atravessado algumas fronteiras, até desaparecer na divisa da Turquia. Nunca mais alguém ouviu qualquer notícia do rapaz.

De fato, os registros dizem que Arsan chegou à Turquia no dia 7 de agosto e no dia 19 de setembro Ersan foi registrado naquele país pelo seu suposto pai – que se chamava Semsettin Bulut e nem tinha o sobrenome Ilyasova.

(Bill Streicher-USA TODAY Sports)

A federação uzbeque de basquete levou a história à Fiba. Alegava que aquele cara já tinha jogado pela seleção do país, que tinha desaparecido e que – era o que incomodava, na real – não tinha apenas 15 anos, mas 18. A fuga de um país para o outro seria uma tática do pai do garoto para fazer com que ele se destacasse no esporte. A Fiba, no entanto, não puniu nem os turcos, nem o atleta, alegando falta de provas mais concretas.

Ninguém sabe muito bem a repercussão da história por lá. Se os EUA não dão muita bola para o resto do mundo, imagine para migrantes de países que eles mal sabem que existem, que usam alfabetos diferentes e que não parecem ser dos mais transparentes que se tem conhecimento. O caso só chegou aos americanos em 2005, quando um olheiro especializado em draft abriu toda a polêmica em um texto em um site que cobre calouros e prospectos – ressaltando que Ilyasova era um grande talento, mas que carregava uma certa desconfiança pelo passado dúbio.

De lá para cá, a polêmica sempre foi lembrada em alguns momentos da carreira do jogador e algumas evidências foram reunidas. Por exemplo, que Ilyasova sequer é um nome comum na Turquia. Outra é de que seus pais hoje moram na Criméia, região da Rússia que quer se emancipar e que abriga o povo Tártaro, que no meio do século passado se refugiou em massa no… Uzbequistão.

O interesse das pessoas, no entanto, não passa disso. No máximo, há análises falando que a renovação ou contratação de Ilyasova pode não ser tão útil já que é preciso considerar que ele talvez seja mais velho do que diz – depois de rodar quatro times em um ano e meio, Ersan jogou muito bem no Sixers, por exemplo, mas foi descartado pelo time, já que os planos da franquia são de buscar jovens talentos (e foi ponderado que ele até seria interessante aos 30 anos que diz ter, mas não aos 33 que cogita-se que tenha).

Não achei em nenhum lugar qualquer questionamento feito ao próprio jogador, nem alguma declaração dele desmentindo, explicando ou comentando a história. Se tem, está em algum registro indecifrável para nós. E mantém o mito da lenda.

Lendas Urbanas da NBA: Como Magic Johnson está vivo se é HIV positivo há 25 anos?

Para muita gente, mais chocante do que o anúncio de que tinha contraído o vírus da Aids em pleno auge da carreira é o fato de Magic Johnson, 25 anos depois, ainda estar vivo. Por não dar nenhum sinal aparente da doença, fugir do estereótipo dos portadores do vírus (especialmente naquela época em que muita gente era ignorante sobe o tema) e ter tido um filho HIV negativo mesmo depois de ter sido infectado, há uma lenda que diz que o ex-armador do Lakers foi curado após uma viagem ao Quênia, em que visitou um bruxo que trabalha com ervas terapêuticas que tirou o vírus do seu corpo.

Para entender a loucura conspiratória é preciso voltar um pouco no tempo. Magic anunciou que tinha o vírus no começo dos anos 90, quando as pessoas ainda estavam descobrindo a epidemia da Aids. Até aquele momento, para a maioria esmagadora das pessoas o HIV era um vírus exclusivo de gays e viciados em drogas. Muita gente sequer imaginava que era possível um que um atleta, homem, heterossexual pudesse ser infectado – Johnson admite que até foi por isso, por essa ignorância, que acabou contraindo o vírus, pois não achava que era necessário se proteger.

O próprio anúncio de Magic foi feito em meio a uma tensão de desconhecimento, como se ele fosse morrer por causa da doença em poucos meses ou anos. Ninguém sabia dos riscos e muito menos das consequências. E o histórico dos casos não era animador mesmo. Mas ele venceu todos estes prognósticos.

As teorias já tinham algum corpo por Magic não ser gay e por ser uma pessoa querida por todos – e muita gente se recusava a aceitar que a Aids poderia acometer qualquer pessoa e não somente aquelas de um grupo marginalizado à época. Elas ganharam mais coro ainda quando se soube que nem sua esposa, Cookie, e nem seu filho, EJ, que nasceu depois disso tudo, eram HIV positivo.

Para completar, Magic Johnson não deu nenhum sinal de abalo na sua saúde desde então. São duas décadas e meia convivendo com o vírus, mas sem sinais da doença – pelo menos para a gente, que vive à distância e não acompanha seus cuidados, hábitos e eventuais dificuldades.

Por mais que o mito sobre a Aids tenha sido esclarecido e só gente bem ignorante ainda não entende como ela funciona, que todos estão sujeitos ao perigo e tal, há um coro que pergunta: como um cara teria Aids, não passou para a mulher, teve um filho sem o vírus e continua vivendo ‘numa boa’ duas décadas e meia depois?

Uma história surgiu há algum tempo que Johnson teria viajado ao Quênia para se encontrar com um curandeiro que teria arrancado o vírus do seu corpo e por isso nunca deu nenhum sinal da doença. Um outro cara, chamado Dr. Sebi, também alega ter curado Magic Johnson – junto com John Travolta e Eddie Murphy, que eu nunca soube que tinham Aids, mas tudo bem.

O próprio Magic desmente tudo isso. Ele, como porta-voz do combate ao HIV, garante que não está curado simplesmente por não existir uma cura ainda – e de um modo bem responsável sempre alerta para o risco eminente do vírus. O lance é que Magic sempre foi um cara saudável e que, milionário que é, teve acesso aos melhores e mais desenvolvidos tratamentos que existem – é, inclusive, garoto-propaganda de um laboratório. Por fim, Magic parece fazer parte de um grupo de portadores do vírus chamado LTNP, que ficam com o HIV armazenado no corpo durante muitos anos, mas sem se manifestar. Não é um privilégio exclusivo do jogador.

Mas claro que há quem duvide de tudo isso. Como há quem ache que a Aids foi uma doença criada pelo governo americano para controlar a população e exterminar alguns grupos de pessoas. Tem de tudo no mundo. Uma pena.

Lendas Urbanas da NBA: Jordan não se aposentou, mas foi suspenso pela NBA (?)

Então tricampeão, cestinha das últimas sete temporadas, finalmente incontestável melhor jogador de basquete de todos os tempos, Michael Jordan anunciava sua aposentadoria do jogo aos 30 anos de idade. A notícia era absurda. Os motivos, praticamente incompreensíveis: a falta de desafios no basquete e o desejo de jogar baseball eram suficientes para que o jogador mais competitivo que já existiu largar mão de tudo?

Então, na coletiva de imprensa em que anunciava oficialmente sua saída de cena, Jordan é questionado se voltaria um dia a jogar basquete profissionalmente e ele responde: “se minha vontade voltar, se o Bulls precisar, se David Stern deixar, eu posso voltar, sim”. Pronto, já estava claro para alguns: Michael Jordan não estava de fato se aposentando, mas na verdade iria cumprir uma suspensão secreta por abusar das apostas e, assim que o manda-chuva da NBA permitisse, voltaria a vestir a regata do Chicago.

A teoria conspiratória tem sustentação na realidade, de fato. Michael Jordan vinha acumulando problemas associados ao seu vício em apostar grana em jogos de golfe e cartas e a pressão da imprensa por atitudes por parte da liga vinham crescendo substancialmente.

Nos meses anteriores alguns casos específicos confirmariam as suspeitas. Em 1992, a polícia prendeu um traficante chamado James “Slim” Bouler com um cheque no valor de 57 mil dólares assinado por Jordan. Meses depois, encontrou outro cheque de MJ, no valor de 108 mil dólares, na casa de Eddie Dow, um agiota assassinado – a biografia de Michael escrita por David Halberstam conta que o jogador contraiu as dívidas em uma temporada de jogatinas com os dois depois do título de 1991.

Aproveitando toda a confusão, um cara chamado Richard Esquinas escreveu um livro sobre seu vício em jogo e disse que já tinha tirado mais de 1 milhão de Jordan e que ele ainda o devia 300 mil – confirmados pelo atleta depois. A NBA, naturalmente, ficou bastante incomodada com tudo isso. Jordan era o melhor jogador da melhor época da liga. A ida do Dream Team para Barcelona, a renovação dos contratos de TV e a popularização do esporte pelo globo multiplicavam as cifras e Michael Jordan era seu garoto-propaganda absoluto.

A relação de apostas e esporte notoriamente polêmica e muitos jornalistas cobravam uma atitude da liga, que nada fazia se apoiando no fato de que Jordan nunca tinha sido pego apostando em basquete, apenas em golfe e jogos de cartas.

O estopim foi Michael ter sido visto em um cassino de Atlantic City entre um jogo e outro das finais da conferência Leste dos playoffs de 1993. A imprensa dizia que Jordan estava descontrolado. O jogador se irritava com isso e ficava ainda mais arredio. Bob Costas, comentarista da NBC, chegou a confrontar David Stern no ar, perguntando se a NBA não faria nada para frear as jogatinas de Jordan.

Stern não manifestava publicamente preocupação. Era de se entender, já que desvalorizar Jordan era fazer a NBA perder muito dinheiro. A solução seria, então, uma punição por debaixo dos panos. MJ ficaria um tempo sem jogar, a poeira iria baixar e o foco seria desviado. A ausência dele também ajudaria a liga a formar novos ídolos, já que estava carente de Larry Bird e Magic Johnson e todos os holofotes se concentravam em Michael. Passada a tempestade, Jordan poderia voltar – como voltou, de fato, um ano e meio depois.

O péssimo rendimento de Jordan no baseball é outra fonte de desconfiança da turma mais paranoica. Já que a falta de competitividade era um argumento para não jogar mais basquete, seria também para não jogar baseball – era muito bom em um e muito ruim em outro, sem competitividade em ambos.

Oficialmente – e de acordo com os relatos mais confiáveis da sua biografia e do livro de Phil Jackson, “Onze Anéis” – Jordan estava de saco cheio da imprensa e de ter sua vida importunada por tanta gente. Esta prestes a enlouquecer. Queria dar um tempo urgentemente. Perdeu a cabeça quando seu pai morreu assassinado em agosto de 1993 e repórteres transformaram o velório em um evento público – a morte do pai, aliás, segundo outras teorias malucas, teria sido um acerto de contas por causa de… apostas.

Phil Jackson, técnico do Bulls, sugeriu que o jogador ficasse uma temporada fora de cena e voltasse apenas para jogar os playoffs. Jordan, segundo Phil, disse que pensou nisso, mas que achava que não seria o suficiente. Queria descansar de vez. Não queria colocar uma data de retorno certa. Queria se aposentar mesmo.

Pelo visto, as apostas eram um problema real de Michael Jordan. O assédio da imprensa e a cobrança dela por conta deste vício, também. Mas é difícil de engolir que tudo tenha sido um mero jogo de cena.

Lendas Urbanas da NBA: A conspiração que levou Ewing ao Knicks

A história que muitos acreditam ser a verdade por trás da ida de Patrick Ewing ao New York Knicks muito possivelmente foi escrita por Gunther Schwiter, o cara que ficou conhecido como o autor do texto que denunciava o grande esquema que deu o título da Copa do Mundo de 98 para a França.

O ano era 1985 e David Stern completava um ano no cargo de comissário geral da NBA. Ele assumiu o cargo uma temporada antes com duas missões muito claras: tornar a liga mais competitiva e alavancá-la financeiramente.

A NBA não era o campeonato que temos como referência hoje, uma liga rica, mundialmente reconhecida e tudo mais. Era apenas o torneio do quarto esporte americano, mais novo de todos, com menos audiência e com a maior concentração de campeões em toda a sua existência.

Um dos maiores problemas era que dos 23 times que estavam em ação, uns seis jogavam descaradamente para perder e tentar a sorte no draft ao final da temporada. Logo, os 82 jogos da temporada regular quase não serviam para nada, já que praticamente todo mundo que estivesse interessado no mata-mata conseguia se classificar – se hoje o tanking já é chato, imagina naquela época.

O método vigente naquele momento para escolher o time que teria a primeira pick no draft era um banal ‘cara ou coroa’ entre os dois times de pior campanha no torneio anterior, um de cada conferência. Ou seja, perder de propósito era bastante recompensador e muitos times apostavam nesta estratégia para, no futuro, virarem forças dominantes como eram o Boston Celtics e o Los Angeles Lakers. Para piorar as coisas, o Houston Rockets tinha conseguido a primeira escolha em dois anos consecutivos, o que automaticamente já mudava seu patamar na liga.

Stern até vinha negociando um contrato gordo de televisão, um de seus objetivos iniciais para dar visibilidade ao basquete, mas muita gente questionava se ele se confirmaria caso, em quadra, os times continuassem sendo incentivados a perder. Para completar, um prodígio era dado como certo para a primeira escolha de 1985: Patrick Ewing, um pivô fenômeno do esporte universitário que estava pronto para colaborar imediatamente para qualquer time que o pegasse.

Para que a chegada de Ewing à competição não fosse desperdiçada em um draft mais uma vez sem graça e o hype ao seu redor não caísse em um time medíocre, Stern inventou um modelo de sorteio mais imprevisível. Naquele ano, todos os oito times que ficaram de fora dos playoffs teriam as mesmas chances de pegar a primeira escolha. Sete envelopes seriam colocados dentro de uma caixa e a ordem das escolhas seria definida a partir da sequência em que eles fossem retirados, simples assim.

O New York Knicks, por sua vez, vinha da sua pior campanha em muitos anos. Bernard King, ídolo local, tinha passado metade da temporada lesionado e o Madison Square Garden, maior palco do basquete, vinha registrando recordes negativos de público. O time de Nova York inha sido o terceiro pior time da temporada e iria para a loteria do draft ao lado de Indiana, Golden State, Clippers, Kansas City, Atlanta e Seattle.

O burburinho começou a crescer quando as regras do sorteio foram anunciadas e tomaram corpo quando o New York Times soltou um artigo dizendo que seria muito mais fácil renovar o contrato de transmissão da tevê nos termos negociados por Stern caso Ewing fosse jogar na Meca do basquete.

O cenário era perfeito para os paranoicos confabularem. A tensão que permeava o novo sistema de escolha só piorava as coisas. A dinâmica do sorteio e, pior, da divulgação do seu resultado era ainda mais cretina: valeria o sorteio feito por Stern, mas ele seria divulgado de trás para frente, da pior para a melhor posição. Um suspense tremendo para confirmar o que muita gente ‘já sabia’.

A mecânica do negócio também abriu margem para dúvidas. Os sete envelopes gigantes foram colocados em sequência, sem passar por uma conferência externa, dentro de um globo de plástico não grande o suficiente para que os papéis girassem enlouquecidamente lá dentro. Alguns deles, o escolhido, inclusive, se dobraram com o movimento. Tudo isso serviria como argumento posterior para comprovar aquilo que seria uma fraude: sem uma conferência externa, o envelope do Knicks poderia estar em uma temperatura diferente dos demais ou uma daquelas dobras era, na verdade, uma marcação para indicar a Stern qual das cartelas deveria escolher.

Para piorar as coisas, David segura dois envelopes de uma vez, em uma fração de segundos nota que pegou mais do que deveria e descarta um deles. O escolhido, óbvio, é o do New York Knicks.

Olhando bem o acontecido, eu diria que tem que ser muito maluco para achar que tudo ali foi calculado. Toda a sucessão de eventos parece bem casual e a ‘sorte’ de Stern e da NBA de Ewing cair bem na franquia em que ele seria melhor aproveitado comercialmente não passa de um acaso e do resultado de um formado de sorteio bem ruim – tanto é que em 1987 o esquema teve algumas alterações, fazendo com que apenas as três primeiras escolhas fossem decididas na escolha aleatória dos envelopes e em 1989 o método foi completamente abandonado de vez.

A NBA também não foi salva exclusivamente pela dobradinha Knicks e Ewing – principalmente se comparados ao impacto da Nike, das tevês, da abertura da NBA para o mundo e, principalmente, de Michael Jordan. Mas é claro que é muito mais legal perpetuar uma história como essa.

Lendas Urbanas da NBA: Delonte West e a mãe de Lebron James

Nenhuma história está absolutamente imune das fantasias de quem as viveu e de quem as conta. Todo grande feito tem aquela pitada de exagero que faz dele algo quase sobrenatural. Que faz as conquistas deixarem o plano mundano e virarem algo épico. Faz parte. Elevando isso a outros patamares, eu tenho um fascínio especial por aquelas lendas urbanas que povoam o imaginário dos torcedores ao longo dos anos. Mais do que saber se Jordan estava mesmo com a cabeça explodindo de febre naquele jogo da final de 20 anos atrás, eu gosto das histórias que mostram toda a criatividade da turma, que alimentam teorias da conspiração e que, na maior parte das vezes, têm relevância zero para o jogo. E o melhor de tudo: nunca vamos saber se foram reais ou não, já que interessa mais a todos perpetuar as lendas do que esclarecê-las.

Aproveitando que não acontece absolutamente nada na liga neste período e preparando o terreno para o que está por vir (semana que vem começo a postar as previsões para a temporada, time a time), lanço uma série de cinco posts com lendas que cercam a NBA. Começo com uma clássica: o lindo caso de amor entre Delonte West e a mãe do seu colega de time Lebron James.

A história foi deflagrada durante os playoffs do Leste de 2010, logo após a eliminação do Cleveland Cavaliers diante o Boston Celtics. O time de Lebron e Delonte tinha sido a equipe de melhor campanha da conferência e o camisa 23 vinha comendo a bola, como de costume. A série chegou a estar 2 a 1 para o time de Ohio até que James estranhamente desmoronou tecnicamente em quadra e não conseguiu segurar a reação do Celtics, que fechou a disputa em 4 a 2.

A justificativa é que entre um jogo e outro Lebron descobriu o que supostamente todos sabiam em Cleveland: sua mãe Gloria estava desfrutando dos prazeres da carne com seu colega Delonte West.

Um blog soltou a notícia alguns dias após a eliminação do Cavs. O autor da postagem, Terez Owens, que se diz o número 1 em fofocas relacionadas a esportes, disse que sua fonte era um confiável rapaz cujo tio trabalhava na arena do Cleveland e conhecia todos da franquia. Segundo ele, James descobriu o romance antes do jogo 4 e ficou arrasado. O acontecido teria também dividido o vestiário do Cavs, destruindo a química do elenco.

Nenhuma das partes se pronunciou logo de cara e, como toda gozação pra cima de Lebron, a história cresceu. Diziam até que Dan Gilbert, dono do Cavs, confirmava o caso – apesar dele nunca ter se pronunciado publicamente sobre isso.

No final das contas, a única pessoa que deu a cara a tapa para dizer que rolava um affair entre Delonte e Gloria foi o ex-jogador do Houston Rockets e, na época, comentarista da ESPN Radio, Calvin Murphy, que não tinha absolutamente nada a ver com o Cleveland, West ou James – e tem em sua ficha corrida a acusação de ter abusado cinco das suas quatorze filhas que teve com nove mulheres diferentes…

Segundo o blogueiro que soltou a informação, Lebron James o processou pela história, mas a merda já estava feita: todo mundo atribuía a queda de rendimento de James e a eliminação do Cavs à história.

O contexto e o preconceito da turma só piorava as coisas. Delonte West era aquele maloqueiro assumido. Seu estilo podrão dentro e fora das quadras casam perfeitamente com a história. O papel de Gloria no enredo da vida de Lebron também reforçavam a fantasia da torcida mais troglodita, machista e intransigente: foi mãe solteira ainda na adolescência, criou o garoto prodígio sozinha e teria encontrado conforto nos braços de um novo bad boy. Era mais fácil acreditar nisso do que no vacilo em quadra do herói supostamente infalível.

A lenda esteve em alta ainda por um tempo considerável. Chegou ao nível de, com a saída de Lebron para o Miami Heat, justificarem a contratação de Delonte West pelo Boston Celtics como uma arma secreta para, em um eventual confronto nos playoffs, a presença do ‘padrasto’ intimidar James (o confronto existiu, mas o Heat saiu vitorioso com boas atuações de Lebron).

Alguns anos depois, Delonte West veio a público dizer que nada tinha acontecido, que a história não tinha pé nem cabeça e que nunca se envolveu com a mãe de Lebron.

O técnico do Denver Nuggets, Mike Malone, que na época era assistente do Cavs, também já deu sua versão sobre o caso, alegando que os números de Lebron nem caíram tanto na série e que a derrota tinha mais a ver com a casca dura do Celtics, com uma virada reveladora no jogo cinco e com uma lesão no cotovelo do então MVP do que com qualquer abalo psicológico de James.

Mesmo assim, a lenda resiste e muita gente vai viver e morrer acreditando que Delonte era o pai que Lebron nunca quis ter, mas teve.

‘Old Faces, Fresh Cuts’: designer troca cabelo das lendas da NBA

Estilo e basquete são coisas praticamente indissociáveis. De bom gosto ou não, não dá para negar que os caras da NBA estão anos-luz a frente de qualquer outra classe de atletas ou celebridades. O corte de cabelo deles é o melhor exemplo disso. Seja a careca brilhante de Michael Jordan, os mullets de Larry Bird, o afro de Julius Erving ou até o feroz high top fade do insosso Iman Shumpert: todos estão carregadíssimos de personalidade. O banho, corte e tosa dos jogadores são uma referência para a legião de fãs.

Nessa pegada, o designer gráfico e artista digital Tyson Beck fez um trabalho brilhante chamado ‘Old Faces, Fresh Cuts’. Pegou fotos de jogadores clássicos da história da liga e colocou uns penteados diferentes, mais atuais – nenhum dos caras jamais usou um cabelo desses, o que praticamente dá uma nova alma a cada um deles. O resultado é hilário.

Ufa! Mas valeu a pena, né?

Entenda como funciona quando a NBA resolve aumentar o número de times

A história da volta do Seattle Supersonics voltou à tona depois que Adam Silver, o manda-chuva da NBA, falou em uma entrevista à CJ McCollum no Players Tribune, disse que o aumento no número de franquias na liga em algum momento do futuro é inevitável e que naturalmente o time do extremo noroeste americano seria levado em consideração quando isso acontecesse.

Sinceramente eu não sou tão otimista quanto boa parte das pessoas e, talvez por isso, não achei que a fala de Silver foi tão animadora. Ao meu ver, ele quis dizer que esportivamente a liga ainda não está preparada para isso (em linhas gerais, disse que muita gente já reclama que apenas um time é realmente bom, que falta jogadores bons para todas as 30 equipes e que trazer mais duas franquias para liga iria pulverizar ainda mais este talento), mas que mercadologicamente, sim, é normal que em algum momento, sabe-se lá quando, isso aconteça.

E que quando for para rolar, obviamente Seattle seria uma das favoritos – nem faria sentido que não fosse, uma vez que a franquia é tradicional, a torcida local está órfã e os problemas com arena estão sendo solucionados. Mas com certeza não é algo para um futuro muito próximo não.

Mesmo assim, é legal contar como acontece este processo – ou, mais concretamente, como foi a última vez que a NBA aumentou o número de times.

Há 15 anos, Charlotte sofreu uma pancada na sua relação com a liga. A franquia, que tinha sido líder em presença de público no seu ginásio na virada dos anos 80 para 90, enfrentava uma crise de popularidade. Diante da situação, a NBA ordenou que uma nova arena fosse construída para o clube. A franquia recorreu à prefeitura, que recusou usar dinheiro o público para a obra. Sem o ginásio, a liga obrigou o time a mudar de cidade.

Isso aconteceu em maio de 2002, com mudança confirmada para a temporada seguinte. Mal o New Orleans Hornets tinha estreado o novo endereço, a NBA cedeu à pressão de que teria que devolver um time à cidade de Charlotte, uma Meca do basquete universitário e que já sentia falta de uma franquia profissional. Desta vez, com um novo escudo e uma nova direção, que assumiria o compromisso de erguer uma arena nova. Em dezembro, um grupo de empresários disposto a comprar uma vaga na liga e pagar por uma arena nova apareceu e a NBA confirmou que aumentaria o número de times de 29 para 30 dali dois anos, incorporando o Charlotte Bobcats.

Logo após a final do campeonato de 2004, a liga agendou o draft de expansão para que o Bobcats completasse seu elenco. Ele funciona da seguinte maneira: como seria muito desequilibrado fazer com que o time preenchesse seu plantel somente com free agents, a liga determinou que cada franquia poderia proteger 8 dos seus  jogadores. Todos os demais – ou seja, aqueles que não estivessem protegidos – poderiam ser escolhidos pelo time de Charlotte. A nova franquia, por sua vez, não poderia pegar mais de um jogador de cada time e teria que escolher pelo menos 14 caras.

Os times deixaram desprotegidos, geralmente, jogadores ruins mesmo ou aqueles cujos contratos era muito ruins. No draft de expansão, o Bobcats pegou de relevante Gerald Wallace, que era um reserva promissor do Sacramento Kings. No total, tirou 19 jogadores dos seus times e usou boa parte deles para trocar por picks de draft ou outros jogadores (Zaza Pachulia foi um deles, que virou uma escolha de segundo round).

No draft de calouros, o time tinha a quarta escolha garantida do draft (as três primeiras foram definidas na loteria normal premiando os times com pior campanha no ano anterior). Na noite da escolha, o time trocou para subir para a segunda posição e escolheu Emeka Okafor, que seria um dos principais jogadores da breve história da franquia.

Nos primeiros anos, a NBA também determinou que o limite salarial do time seria consideravelmente mais baixo que o dos demais times. Na primeira offseason, o Bobcats podia gastar apenas 66% do salary cap dos demais times. Na segunda offseason, seria 75%, até que na terceira temporada teria igualdade de condições com os demais. Isso foi feito para que a franquia não entrasse no período de assinaturas de contratos em vantagem perante os outros times com muito espaço na folha salarial para atrair os principais nomes do mercado, despejando uma grana absurda em uns dois nomes de peso – enquanto as demais franquias estavam sufocadas em suas folhas salariais.

Desta forma, o processo de renascimento da franquia se baseia, principalmente, em jogadores jovens ou free agents meia boca. No caso do Bobcats, o time demorou seis temporadas para conseguir ter uma campanha com mais vitórias do que derrotas.

Em uma eventual entrada do time de Seattle, o rito seria basicamente o mesmo. O que mudaria de lá para cá é a forma de ‘aceitação’ da nova franquia – na época foi mais uma decisão arbitrária da NBA aliada a um consenso de que a liga deveria crescer -, que depende da boa vontade dos atuais 30 donos entenderem que precisam aumentar a quantidade de equipes, mesmo que isso implique em dividir ainda mais o bolo da grana que entra atualmente.

Além disso, é de se esperar que o draft de expansão fosse mais parecido com o que aconteceu em 95, quando Toronto Raptors e Vancouver Grizzlies entraram na competição – aparentemente, a disposição atual da liga é aumentar para 32 times, quando isso acontecer.

Neste caso, há um sorteio para decidir quem tem a chance de escolher primeiro e depois os times podem pegar dois jogadores cada em sequência (por exemplo, primeiro Toronto escolheu um jogador, depois Vancouver dois, daí Toronto mais dois e etc). É de se imaginar que a quantidade de jogadores protegidos seja diferente, já que os elencos aumentaram de lá para cá.

Uma coisa que não faço ideia de como funcionaria é em relação aos jogadores que hoje estão em times da D-League – especialmente agora que a NBA planeja fortalecer o vínculo dos atletas da liga de desenvolvimento com contratos que prevem a ida e volta mais fácil entre as franquias principais e associadas.

Mas como a coisa ainda deve demorar algumas temporadas para acontecer, há muito tempo para se pensar nas adaptações deste formato. Só espero, de verdade, que quando isso acontecer, Seattle esteja de verdade na lista de cidades confirmadas para a expansão.

#ChinaKlay é a melhor coisa da offseason

A offseason é um período ‘diferente’ para o noticiário da NBA. As informações relacionadas ao basquete propriamente dito não são das melhores. Flutuam entre o tracking no twitter para saber em primeira mão quem trocou de time ou renovou contrato, interpretações absolutamente precipitadas sobre as atuações nos sofríveis jogos das Summer Leagues, análises ansiosas das trocas e boatarias de negociações baseadas em fontes escusas.

Absolutamente alheio a tudo isso, vivendo em um maravilhoso mundo paralelo está Klay Thompson. O ala-armador foi ao outro lado do mundo assinar uma extensão contratual de 80 milhões de dólares por dez anos com a Anta, marca de tênis chinesa, e está tendo os melhores dias da sua vida ao cumprir seus compromissos publicitários por lá.

Tudo começou há duas semanas. Duas tentativas frustradas de enterradas de Klay viralizaram pela rede. O jogador se esforçou o mínimo possível para tentar dar um 360º e, na pior promoção possível do garoto-propaganda, se esborrachou de cara no chão. Com a maior cara de pau, Thompson assinou a bola e entregou para um dos torcedores que gritava enlouquecidamente pelo jogador.

Aparentemente, a reação da turma – os chineses são sempre os mais empolgados – ditou o tom das aparições seguintes do jogador. Klay, que não é o cara mais atento e dedicado do mundo, faz qualquer merda, de propósito ou não, e o povo vibra.

O mais fascinante desta viagem é que Klay mistura uma diversão ingênua e solitária em um mundo completamente estranho para ele com a ostentação típica de qualquer jovem multimilionário que está curtindo as férias em um lugar que ele é praticamente um semi-deus (um status que, apesar dele ser um excelente jogador, não seria desfrutado por Thompson em outro ambiente).

É louvável que ele esteja realmente aproveitando o momento. Boa parte dos jogadores participam destes compromissos somente para cumprir tabela, deixando claro que é uma obrigação e que, se pudessem escolher, estariam bem longe dali. Klay não.

De quebra, faz tudo com uma desenvoltura tosca que torna tudo ainda melhor.

https://twitter.com/roseOVERhoes/status/880572491424346112

Mas, de verdade, nada supera a ESPONTANEIDADE da comemoração dele na balada na noite seguinte à sua assinatura de contrato com a Anta, que resume meio o MOOD dessa viagem: Klay completamente frito, num pedestal à lá Michael Jordan dos chineses, regendo a galera numa empolgação surreal.

Nunca volte, Klay Thompson. O ocidente não te merece.

O bom e o mau exemplo

Em toda a história da NBA, apenas três times varreram três times até alcançar a final do campeonato: o Los Angeles Lakers de 1989, o mesmo Lakers de 2001 e o Golden State Warriors deste ano.

Levando em conta única e exclusivamente o que aconteceu na série final, contra o vencedor do Leste, os dois Lakers são exemplos completamente distintos do que pode acontecer com o Warriors atual.

O time de 1989 era uma máquina. Chegava à sua oitava final em dez anos. Era a terceira consecutiva depois de um bicampeonato. Tinha vencido cinco títulos da NBA neste período. Apesar de ser o segundo período mais vitorioso da história de um time de basquete americano, atrás somente do domínio do Boston Celtics nos anos 50 e 60, o grande legado do time foi ter emplacado um estilo de jogo diferente, baseado no improviso. Prezava pela velocidade, em uma época em que o jogo começava a ficar cada vez mais lento e cadenciado. E diferente da correria das décadas passadas, pregava o envolvimento coletivo de todos em quadra, com troca de passes e movimentação intensa sem a bola. Foi batizado, conhecido e mundialmente reconhecido como “showtime”.

A turma de Magic Johnson, James Worthy e Kareem Abdul Jabbar já estava junta há um bom tempo, tinha conquistado de tudo e naquele ano, pela enésima vez, impunha seu estilo de jogo perante os rivais. Varreu sem dó Blazers, Sonics e Suns.

Com tempo de sobra enquanto esperava a definição do rival do Leste, resolveu se preparar para o pior. No ano anterior, tinha vencido do Detroit Pistons em sete partidas, sofrendo com o jogo brutal do rival. Como o time de Michigan era o favorito para reeditar a final, o Los Angeles Lakers resolveu treinar por uma semana para a pancadaria que se anunciava. A ideia era ajustar o ‘showtime’ para a pegada ‘bad boy’ do Pistons.

A experiência foi tão desastrosa, que Magic Johnson e Byron Scott se machucaram nas preparações – pesadíssimas e que nada tinham a ver com o que o Lakers estava acostumado – e o time angelino foi varrido pelo rival do Leste, mesmo sendo a primeira franquia da história a chegar às finais passando por três rounds invicto.

Já o time de 2001 teve melhor sorte. Apesar de também imbatível nos playoffs, o arranjo com Shaquille Oneal e Kobe Bryant tinha muitas diferenças se comparado com o escrete ‘purple&gold’ de 89: era um time ainda em evolução e ainda estava afirmando o esquema dos ‘triângulos ofensivos’ de Phil Jackson. O treinador havia sido contratado há duas temporadas para tentar impor o modelo que tinha sido dominante nos tempos de Chicago Bulls, além de mediar os talentos e, principalmente, os egos de Kobe e Shaq.

A caminhada até as finais foi bem mais desafiadora: ao invés de times muito jovens e inexperientes, como encontrou a equipe de 89, os rivais do Lakers da virada do milênio foram cascudos. Um Portland que, apesar do sétimo lugar na temporada regular, teve 50 vitórias. O elenco era veteraníssimo: dez jogadores tinham nove anos ou mais de liga, além de Avrydas Sabonis, que estava na NBA há menos tempo, mas já tinha ganhado o mundo por clubes soviéticos e espanhóis.

Depois, foi o Sacramento Kings, principal rival daquele Lakers. Chris Webber, Doug Christie, Peja Stojakovic e Vlade Divac formavam o grupo mais marcante da história recente da franquia, que possivelmente só não descolou um título porque enfrentou a dupla Kobe e Shaq por três anos consecutivos (e em duas vezes levou a disputa até a última partida da série).

Por fim, a caminhada para o título do Oeste foi finalizada contra o San Antonio Spurs, com a dupla Tim Duncan e David Robinson. O time texano estava nos primeiros anos do seu período mais vencedor e naquela temporada tinha registrado a melhor campanha da conferência – foi também o primeiro time nestas condições a ser varrido dos playoffs.

Na final, o Lakers enfretou o Philadelphia 76ers, que tinha única e tão somente Allen Iverson no seu elenco – naquela época, possivelmente o jogador mais decisivo do planeta, mas que não podia confiar muito na colaboração ofensiva dos seus colegas.

O Sixers surpreendeu a todos e venceu o Lakers em Los Angeles na partida inaugural da série. Mas foi só isso. Apesar dos esforços do Pequeno Notável, o LAL sobrou nos jogos seguintes e confirmou o favoritismo com um 4-1 convincente.

O Golden State Warriors chega à final em condições que podem ser comparadas aos dois Lakers. Assim como o time de 89, mostra uma identidade de jogo marcante, muito coletivo e que se impõe na NBA de hoje. Também passou por um caminho relativamente simples ao longo dos playoffs e, para seu azar, vai enfrentar uma equipe muito forte na final. E, comparando com o time de 2001, também foi bem sucedido ao colocar dois dos maiores talentos jogando juntos sem problemas e tem como principal objetivo na final parar um dos caras mais imparáveis da história do basquete.

Mas mais do que estas coincidências, deve olhas para os exemplos. Um passou o rodo, apesar do baque inicial de perder uma partida para um rival reconhecidamente mais fraco. Impôs seu estilo, reforçou seu ritmo. Outro, apesar da experiência e da qualidade, caiu na pilha do rival. Não conseguiu segurar e foi varrido. Ambos tinham sobrevivido tranquilamente nos playoffs até então. Um venceu e outro perdeu.

Acho muito difícil que o Golden State reviva exatamente uma das situações. Ambas tiveram resultados bem extremos. Mas, ainda assim, os dois casos servem de exemplo. Qual deles o Warriors vai seguir?

Lonzo, Kobe e o Lakers

Quem acompanha o basquete universitário com mais atenção garante que esta é uma das melhores turmas dos últimos anos. Seria comparável com a de 2003, que revelou Lebron James, Dwyane Wade, Chris Bosh e Carmelo Anthony. Mesmo sem terem jogado uma partida profissional sequer, Markelle Futlz, Malik Monk, Jayson Tatum e companhia já estão na boca do povo e são tratados como os salvadores de algumas franquias.

Por bons e péssimos motivos, o mais falado deles é Lonzo Ball. O point guard de UCLA mistura um corpo de ala-armador com uma visão de jogo de veterano, um zelo incomum com a bola e uma capacidade única de definir na transição. É, discutivelmente, o melhor jogador da turma. Além dos atributos impressionantes do seu jogo, Lonzo tem um pai falastrão que, ansioso, quer fazer da sua prole – são três filhos – super estrelas do basquete.

A última de Lavar Ball, pai do universitário, foi dizer que não vai calar a boca até que o filho seja um jogador do Los Angeles Lakers. Na cabeça dele, faz todo o sentido: a família é de LA, Lonzo foi uma estrela da universidade local e o Lakers está com a segunda escolha do draft. O plano de Ball é fazer do garoto o novo franchise player do maior time da NBA.

Lonzo e Lavar Ball

A declaração é antipática e pretensiosa. Primeiro que sugere que o jogador não aceitaria jogar com outra camisa, quando na verdade a escolha não é dele. Segundo que coloca um atleta universitário no papel de principal aposta de um time recheado de jovens talentos que, teoricamente, estariam na sua frente na linha sucessória do reinado angelino.

Por mais que pareça hoje que Lavar Ball, o pai, seja um boçal sem precedentes, esta tática é antiga. Ele não foi o primeiro a forçar a barra nesse sentido. Aliás, se serve como alento, uma outra vez que isso aconteceu com o mesmo Los Angeles Lakers, o jovem jogador acabou se transformando em um dos maiores – talvez o maior – jogadores de todos os tempos da franquia.

Era a virada de 1995 para 1996 e um adolescente da Philadelphia começava a chamar a atenção do universo basqueteiro norte-americano. O draft se aproximava e os jogos da Lower Merion High School passaram a ser frequentados por olheiros, general managers e técnicos da NBA. Apesar de ainda estar na escola, o jovem Kobe Bryant já era cobiçado por algumas equipes profissionais.

O maior empecilho era o seguinte: menos de meia dúzia de jogadores tinham pulado a universidade para jogar na NBA e todos eles eram alas ou pivôs. A avaliação era que um jogador de perímetro teria ainda mais dificuldades de render na liga logo de cara e que os fundamentos do basquete universitário poderiam fazer falta. Outro problema era que Kevin Garnett, outro adolescente que tinha entrado na NBA há um ano, apesar de mostrar muito talento, tinha deixado claro que não estava física e tecnicamente pronto para a competição profissional.

Um time mostrava mais interesse que os demais. O New Jersey Nets estava com a oitava escolha no draft e tinha um front office reformulado, afim de reconstruir a franquia, escolher uma estrela em potencial e sair da sombra do New York Knicks. John Nash, general manager, e John Calipari, técnico, se encantaram por Kobe e decidiram que ele era a escolha mais indicada daquela safra de calouros carregada de talentos – em um clima parecido com o deste ano.

Os dois viram alguns jogos e resolveram conversar com o pai de Kobe, Joe Bryant, para formalizar o interesse. Joe gostou da ideia e se convenceu que seria o melhor destino para o jogador – New Jersey fica a menos de 1h30 de carro da Philadelphia e era uma franquia que poderia dar tempo de jogo ao jovem logo de cara, a principal exigência do pai de Kobe.

Kobe e seu pai, Joe Bryant

O interesse do Nets era fundamental também para que Kobe decidisse não ir mesmo para a universidade. O jogador tinha medo de ser rejeitado de alguma maneira ou de chegar a um time sem garantias de que teria um tratamento especial.

Na manhã seguinte, no dia do draft, Nash recebeu uma ligação do agente de Kobe, Arn Tellem. O representante disse que o jogador tinha mudado de ideia e que não queria ser draftado pelo Nets. Deu a desculpa que Kobe tinha pensado melhor e que não queria jogar perto da casa dos pais, que estava com medo da pressão. Ao mesmo tempo, Joe Bryant ligou para Calipari, técnico do Nets, dizendo que o filho não jogaria pela equipe de New Jersey. Que caso fosse escolhido, iria abrir mão da NBA para jogar na Itália.

Para se certificar da ameaça, os dois passaram a ligar para colegas de outros times com escolhas próximas no draft para saber se tinham sofrido algum tipo de ameaça parecida. Isiah Thomas, executivo do Toronto Raptors na época, disse que o agente de Kobe tinha o alertado que o jogador não iria jogar no Canadá e que não deveria ser escolhido na segunda posição pela franquia. Mike Dunleavy, do Milwaukee Bucks, disse que Joe Bryant tinha rejeitado que o filho participasse do work out do time, pois já estava acertado com uma outra franquia.

A verdade é que, horas depois que o Nets confirmou o interesse para a família de Kobe, Jerry West, general manager do Lakers, também sinalizou que estava interessado no jogador. O problema é que o time de Los Angeles só tinha a 24ª escolha. West prometeu, então, que iria conseguir ‘subir’ na ordem do draft e pegar Kobe o quanto antes. Paralelamente, West estava a procura de um time que quisesse Vlade Divac, pivô do time, de graça. A ideia era limpar a folha salarial do time para tentar assinar com Shaquille Oneal pelo maior contrato possível.

O Charlotte Hornets aceitou a negociação e topou mandar sua 13ª escolha em troca do iugoslavo. Bastava, agora, a West, Tellem e o pai de Kobe ‘assediar’ as 12 franquias que estavam na frente da lista para que não escolhessem o jogador, frustrando os planos dos três. Até o momento do draft, então, eles fizeram lobby com quase todos os interessados, dizendo que Kobe não aceitaria jogar pelos demais times.

Nash e Calipari, do Nets, até pensaram em se arriscar, achando que o blefe jamais se concretizaria. Mas pesava o fato de que os donos do time preferiam que um jogador mais experiente fosse escolhido. Então o Nets pegou Kerry Kittles, jogador da mesma posição de Kobe, mas que tinha passado um tempo de provação no basquete universitário.

A história toda do draft de Kobe Bryant está no livro “Boys Among Men: How the Prep-to-Pro Generation Redefined the NBA and Sparked a Basketball Revolution”, que relembra as passagens dos jogadores que pularam a universidade para jogar na NBA – as histórias boas e as tristes.

Ainda que Lavar Ball, pai de Lonzo Ball, já tenha se mostrado bem mais insuportável que Joe Bryant – dizendo que os filhos vão revolucionar o jogo e que ele próprio ganharia de Michael Jordan num jogo de basquete -, algumas passagens têm suas semelhanças: quando decidiu ir para a NBA, Kobe fez um anúncio cheio de marra, com um circo imenso montado e transmissão pela TV; o jogador também estava caçando um contrato milionário de alguma marca de tênis antes da estreia, além de chegar à NBA cercado de empresas de marketing e entretenimento que cuidavam da sua imagem ainda quando era adolescente; e Joe Bryant também acertou a ida ao Lakers com a condição de que a franquia ajudasse o jogador a ser All Star logo no seu segundo ano na liga – o que aconteceu.

Não é um bom sinal. Por mais que Kobe tenha se tornado uma lenda, ele teve que jogar muita bola para que seu talento se tornasse mais notável do que sua marra. Hoje fica difícil lembrar, mas nos primeiros vários anos da sua carreira, Kobe esteve longe de ser uma unanimidade. E o principal motivo, foi o estrelismo.

No caso de Lonzo Ball, quis o destino que a franquia visada pela família do rapaz fosse justamente a segunda na ordem do draft – e é justamente essa a posição em que ele sempre foi cogitado. Apesar de ser chato o pai dele forçar a barra, o Lakers escolhê-lo seria a sequência natural das coisas.

Kobe, há 20 anos, superou a fama ruim. Mais do que isso, virou uma lenda. Lonzo Ball vai conseguir?

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