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Adiós, Magnano

A Confederação Brasileira de Basquetebol (CBB) confirmou a saída do técnico argentino Rubén Magnano do comando da seleção brasileira masculina. O encerramento do vínculo com o treinador já era esperado depois da eliminação no torneio olímpico ainda na primeira fase e simboliza o final de uma era no time nacional. Ao meu ver, o trabalho foi razoável, o final foi melancólico e a saída foi natural. O desafio futuro não combina com o seu trabalho de seis anos comandando o elenco brasileiro.

Antes de qualquer coisa, vou fazer uma ressalva básica: a análise aqui se restringe ao trabalho técnico de Magnano. Ainda que ser treinador de uma seleção por seis anos signifique uma conivência com os rumos da Confederação Brasileira de Basquete, eu encaro que o ambiente de merda da CBB é um atenuante para a avaliação do legado do Magnano exclusivamente. Não que isso possa servir como desculpa, mas se o cenário fosse outro, as chances de melhores resultados seria consideravelmente maiores.

De um modo geral, acho que o trabalho realizado por ele foi bem decente. Foi bem justificável a aposta em um técnico campeão olímpico para comandar a primeira geração brasileira com jogadores da NBA. Ainda que tenha demorado um tempo e seja fruto de uma característica individual de alguns jogadores do elenco, sob seu comando o time definitivamente conseguiu assumir uma identidade de forte defesa e movimentação frenética da bola – e, convenhamos, que não é fácil implementar um modelo de jogo num elenco que se reúne a cada dois anos somente.

Os resultados, no entanto, não foram tão bons – aliás, salvo o quinto lugar nas Olimpíadas de Londres, em 2012, eles foram bem decepcionantes. Nada muito diferente do que Lula Ferreira e Moncho Monsalve conseguiram com esta mesma geração, mas convenhamos que a expectativa com Ruben Magnano era ligeiramente maior.

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Magnano montou um time com cara e identidade, mas com resultados decepcionantes

Outro problema, que ficou bem evidente nos últimos jogos, foi a insistência em fazer uma rotação que ignora o momento da partida, o calor do jogo e o desempenho individual dos atletas. Eu entendo que é importante ter convicções, mas é fundamental saber rever seus conceitos rotineiramente – e isso parece que nunca passou pela sua cabeça.

No final das contas, aquele papo de que “o Brasil não tem um jogador que decide” pode ser muito bem resultado de um esquema de jogo que não permite que um jogador se destaque a este ponto – e enquanto a seleção brasileira tinha dez atletas jogando 15 minutos, os rivais tinham jogadores que metiam 40 pontos por jogo. Quem sabe se Nene, Leandrinho ou qualquer outro tivesse esta liberdade, não seria um jogador “que decide” como os dos outros times…

Na reta final, Magnano também perdeu a chance de contribuir com o legado do basquete brasileiro e fazer uma seleção do povo, botando os jogadores em contato com a torcida nas vésperas do torneio do Rio. Ele preferiu a atitude antipática de blindar o elenco – o que se provou, no mínimo, ineficiente.

Diante do resultado dos jogos, então, sua saída era natural – ainda que eu ache que não foi um vexame. Ser um técnico bom, mas cabeça-dura não é uma combinação interessante para o desafio da seleção brasileira para os próximos anos.

É necessário contar com alguém que esteja alinhado com a formação dos jogadores no Brasil e que não tenha muito compromisso com os resultados imediatos – por sorte, a próxima grande competição é só daqui três anos, no Mundial de 2019 na China. Um técnico como José Neto vai muito mais ao encontro da renovação necessária para o escrete.

Dito tudo isso, adiós, Magnano.

Não foi vexame

Claro que poderia ser muito melhor, que poderia se classificar e até avançar no mata-mata dependendo do cruzamento da segunda fase, mas o resultado da seleção brasileira no torneio de basquete não foi vergonhoso, como muita gente tem dito neste momento.

O grupo do Brasil era muito foda. Das seis equipes, cinco tinham plenas condições de se classificar. O problema é que eram apenas quatro vagas – e os brasileiros que ficaram de fora.

Eu até concordo que as rotações de Magnano foram esquisitas, que o time foi amador em um ou outro momento decisivo, mas não acho que exista um grande culpado pela eliminação.

Olhando jogo a jogo, o Brasil teve boas condições de vencer todos eles. Começou muito mal contra uma Lituânia que acertava tudo, mas quase conseguiu buscar uma diferença de 29 pontos. Contra a Croácia, fez um jogo honesto, mas do outro lado tinha um Bogdanovic endiabrado. Superou o melhor elenco do grupo, os espanhóis, e perdeu para a Argentina em um jogo com mais méritos dos hermanos, que teve muita estrela em buscar dois empates nos segundos finais, do que deméritos do Brasil.

Da mesma forma que perdeu três destes jogos, poderia ter vencido mais um, mais dois, ter perdido mais um. Foi tudo decidido muito no detalhe. A verdade é que as coisas estavam equilibradas a ponto de que todos os times tinham chances de classificação na ultima rodada do grupo – Argentina podia se classificar do 1º ao 4º lugar, Croácia idem, ou dependendo do resultado da Lituania, os quatro classificados podem terminar empoados, num cenário de paridade surreal.

O problema é que o ufanismo toma conta da rapaziada nessas horas e nem sempre conseguimos ver a dificuldade de um torneio olímpico – basta ver o que a rapaziada me xingou quando eu disse que jogar em casa não garante medalha pra ninguém. Com muita sorte nos cruzamentos dava pra ir mais longe, mas seria uma campanha que desafiaria a lógica do torneio e o favoritismo de outros times.

Claro que, apesar de não achar que foi um grande vexame, eu esperava um pouco mais. Achava que o Brasil tinha elenco pra superar pelo menos Croácia e Argentina. Ia achar sensacional um jogo, mesmo que fosse uma eliminação anunciada, contra os Estados Unidos com um ginásio incendiado pela torcida. E, por fim, torcia muito por uma campanha histórica pra esta geração que se despede da seleção e não vê muitas alternativas de renovação.

Mas não rolou. Diante de todas as circunstâncias, acontece…

Hoje tem que dar Brasil… e Argentina!

Esqueça o jogo insano do final de semana. Esqueça a rivalidade histórica, esqueça as piadas, a treta Pele e Maradona ou qualquer coisa do gênero: hoje não basta uma vitória do Brasil para que a seleção passe para a segunda fase. É preciso também que a Argentina, já garantida na segunda fase, encontre motivação para ganhar o jogo contra a Espanha para que o time brasileiro fique entre os quatro times classificados para o mata-mata dos Jogos Olímpicos.


Quanto ao jogo do Brasil, acho que não vai ser difícil bater a Nigéria. Os africanos têm o pior time do grupo, apesar da vitória sobre a Croácia – que derrotou o Brasil… – e mostraram formar um elenco mais instável que o dos brasileiros.

O ‘pepino’ da rodada é depender dos nossos simpáticos vizinhos. O grande problema, ao meu ver, é que eles já estão em uma posição muito confortável na liderança garantida do grupo.

Há quem diga que eles poderiam fazer corpo mole para eliminar o Brasil. Eu duvido. Não que eles não queiram a eliminação brasileira ou que hesitem entregar um jogo na fase de classificação, mas acho que os argentinos preferem limar a seleção da Espanha, que pode ser mais ameaçadora do que o Brasil um cruzamento futuro.

Ainda que os dois estejam cambaleando na competição, historicamente esse elenco espanhol cresce com o desenrolar dos torneios e os argentinos sabem disso – ou talvez esse seja o enredo que eu escolhi acreditar para ter alguma esperança de classificação brasileira…

Sei lá. Nunca é bom depender dos outros, muito menos de um rival, mas não restam alternativas.

São 17h30 e meu braço está formigando até agora

Pelo amor de deus, eu não estou preparado pra isso! O jogo entre Brasil e Argentina acabou faz quase uma hora e até agora eu estou meio zonzo, atordoado. O que nós acabamos de assistir foi um dos roteiros mais épicos, insanos e absurdos que o basquete pode nos proporcionar – infelizmente com um desfecho ruim para os brasileiros.

Na real se você não viu a partida, procure agora a programação dos canais de esporte e assista a reprise de madrugada. Qualquer descrição do jogo vai ser insuficiente para explicar a atmosfera da partida. Só assistindo para entender toda a aflição das quase três horas de embate. Mas se é possível resumir de alguma maneira, foi um jogo com duas prorrogações em um ginásio lotado de torcedores das duas equipes e decidido nos últimos segundos – e em vários momentos meu braço deu aquela formigada, num sinal claro de PRINCÍPIO DE INFARTO.

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Vai se foder, Nocioni

Apesar da tristeza de perder um jogo assim e decretar o destino fatal de enfrentar os americanos nas quartas de final, é preciso entender que vimos um dos maiores jogos da história das olimpíadas, com uma atmosfera que impressionou o mundo inteiro – os jornalistas americanos, especialmente, surtaram por nunca terem assistido uma partida com duas torcidas tão barulhentas e intensas em uma quadra de basquete.

Não vou tentar explicar a derrota – o Brasil errou em algumas jogadas, mas da mesma forma os argentinos vacilaram em diversos momentos e isso que fez o jogo ser pegado. Só vou lamentar que a vitória não tenha vindo. Seria o tipo de superação perfeito para o enredo de uma medalha olímpica. Vencer os rivais argentinos desta maneira poderia ser a passagem de bastão de um time que conseguiu um milagre olímpico para outro que tenta um feito parecido. Não rolou.

O final foi triste, o enredo foi nervoso, mas foi um puta jogo – e é por isso que nós amamos essa merda (nas derrotas é uma merda mesmo) de esporte.

Lance-livre ganha jogo – de novo

O Brasil conseguiu uma vitória empolgante contra a Espanha na segunda rodada do campeonato de basquete das Olimpíadas do Rio. A cinco segundos do fim, Marquinhos deu um tapinha no rebote ofensivo e deu a liderança para o time brasileiro no placar: 66 a 65 sobre um dos favoritos do torneio.

Existem inúmeros fatores que dão ou tiram uma vitória dessas das mãos de uma equipe em jogos tão apertados e é irresponsável atribuir a apenas um destes, mas nestes dois primeiros jogos, o time brasileiro teve uma alteração decisiva e flagrante no seu desempenho: o aproveitamento de lances-livres.

Na derrota na partida de estreia, o Brasil acertou apenas 22 de 35 (62,9%) arremessos da linha, enquanto os lituanos converteram 15 de 18 (83,3%) tentados. No placar, apesar da reação impressionante no segundo tempo, os brasileiros perderam por seis pontos. Hoje, contra a Espanha, o Brasil meteu 16 de 21 (76,2%) e os rivais acertaram 22 de 33 (66,6%). Em especial, Pau Gasol, principal jogador espanhol, errou sete arremessos do lance-livre – e dois decisivos no último minuto, que obrigariam o Brasil a chutar de três pontos no lance seguinte.

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Este tipo de análise vale, atribuindo uma derrota ou uma vitória em grande parte ao aproveitamento dos free throws, porque é a única jogada do basquete em que o time depende exclusivamente da sua capacidade e do seu equilibrio emocional – excluindo a capacidade de defesa do adversário, os esquemas táticos, os matchups, o ritmo da partida, que influenciam nos outros arremessos e jogadas. Um time excelente neste fundamento, vai ganhar boa parte dos jogos disputados lance a lance e um time pouco confiável vai oscilar quando depender disso para vencer – é bem básico.

No final das contas, o Brasil só teve condições de fazer valer seu aproveitamento porque se manteve na partida a todo momento. Sem o apagão nos momentos finais dos torneios anteriores e sem a moleza com que entrou em quadra na estreia.

Marcelinho Huertas controlou o ataque do time e Nene, além de ser um point guard dentro do garrafão, foi monstruoso na defesa. Augusto Lima mostrou que tem que tomar todos os minutos de Hettsheimer e Marquinhos conseguiu entrar no jogo melhor do que fez nos amistosos e na estreia. O time apresenta um desempenho crescente, que é o mais importante em uma competição de tiro curto como esta.

O caminho para medalha é longo e não tem nada garantido, mas o Brasil está pelo menos fazendo o básico – o que a Espanha, um dos seus maiores rivais nesta caminhada, não fez.

 

Não foi de todo mal

O Brasil perdeu na estreia do torneio masculino de basquete para a equipe da Lituânia por 82 a 76. Apesar da derrota, há o que tirar de bom do primeiro jogo do campeonato. Depois de começar o terceiro quarto de jogo perdendo por 58 a 29, o time brasileiro conseguiu uma reação impressionante e chegou a diminuir a vantagem para apenas 4 pontos.

Jogos de estreia em torneios curtos não são fáceis, especialmente jogando em casa, em uma situação que o apoio da galera pode se transformar em nervosismo. Nem acho que foi exatamente este o caso – pelo menos não ficou evidente isso. Na primeira metade de jogo, principalmente no segundo quarto, o time Lituano deu uma aula de ataque contra defesa, em que eles acertavam tudo na frente diante de uma defesa totalmente apática do Brasil.

Tivesse sido este o teor até o final do jogo, a seleção brasileira sairia arrasada de quadra para sua próxima partida. Não foi assim. Nos dois quartos seguintes, o time fez 23 a 12 no terceiro tempo e 24 a 12 no último. A defesa se acertou e o ataque passou a jogar simples, buscando as cestas no garrafão e a forçar a falta nos pivôs lituanos.

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O Brasil fez valer seu banco. Marcelinho Huertas, Alex e Heittsheimer estiveram muito mal. Até mesmo Leandrinho, maior pontuador do time com 21 pontos, não esteve bem com a formação principal e errou quase tudo na primeira parte da partida. Quando Raulzinho – salvo o último chute a cinco passos da linha de três que ninguém entendeu -, e Felício entraram por mais tempo na segunda etapa, o Brasil se acertou. Leandrinho e Nene, titulares, passaram a jogar demais nos dois lados da quadra e o time quase virou um jogo que estava perdido.

Fica o alerta para o apagão que a equipe teve – muito característico deste elenco, ainda que o mais recorrente seja o time estar vencendo e sofrer um lapso no final e tomar a virada. Dos males, o menor: foi no primeiro jogo onde isso ainda poderia acontecer. Também é bom ficar mais atento aos lances-livres e aos chutes de fora, de onde o Brasil teve um desempenho fraco (22/34 do free throw e 2/14 dos três).

É bom para o time entrar no clima da competição. O time lituano é excelente e não é um desastre perder para eles. O grupo tem tudo para ser decidido na última rodada. Até lá, o time já deve ter encontrado sua formação titular.

Olimpíadas – o caminho da medalha

Já falei aqui que a competição olímpica é muito difícil. São poucas equipes, muitas no mesmo nível e o tiro é curto. Da mesma forma que o Brasil tem time para ficar entre os quatro melhores times, pode perfeitamente cair logo no primeiro jogo do mata-mata e ficar com a oitava posição. No final das contas, a sorte nos cruzamentos é o fator mais decisivo para a longevidade da seleção brasileira na competição. Vou detalhar aqui o roteiro ideal para que Nene e companhia belisquem a melhor medalha possível – e, sendo bem otimista, acho que até uma prata é possível, ainda que não seja o mais provável.

Eu estou considerando que o Brasil passa da primeira fase, claro. Ainda que exista alguma dúvida, já que existem cinco potenciais classificados no grupo para quatro vagas, acho que Croácia e Argentina estão um passo atrás de Espanha, Lituânia e Brasil. Mas, como já disse, as coisas são tão equilibradas que meio que tudo pode acontecer.

Em termos de elenco, saúde, momento e entrosamento, considero que Espanha é o time a ser batido no grupo e Brasil e Lituânia estão no mesmo nível como segunda força. O Brasil até tem condições de ganhar todos os jogos, mas o natural seria ficar em segundo ou terceiro do grupo.

Pensando nos cruzamento da segunda fase, caso não seja possível ser o líder do grupo – o que faria o time ficar no outro lado da chave dos EUA e ainda pegaria uma Austrália ou Venezuela nas quartas-de-final, o melhor dos confrontos -, a melhor posição para terminar a primeira fase é em terceiro lugar, porque jogaria um possível confronto contra os americanos somente para a final.

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Ainda assim, o Brasil já enfrentaria uma pedreira logo de cara, sem margem para derrota: França ou Sérvia. No último mundial, a seleção brasileira derrotou os sérvios na fase de grupos, mas perdeu no mata-mata – e eles acabaram com o vice-campeonato do torneio. Seja quem for, é um cruzamento muito difícil, mas possível de superar.

Passando essa fase, o Brasil, considerando que foi primeiro ou terceiro do grupo, pegaria algum rival da primeira fase (Espanha ou Lituânia de volta). Como eu falei acima, uma pedreira, mas não imbatível. Caso tenha ficado em segundo do próprio grupo e passado das quartas, o adversário é o time americano – e daí, só resta sonhar com o bronze.

Digamos que vença Espanha ou Lituânia mais uma vez na semi, chega à tão sonhada final do torneio olímpico contra os EUA. Sinceramente eu não vejo nenhuma chance de ganhar, ainda que o Brasil tenha um histórico de bons jogos contra os astros da NBA.

Mesmo assim, já seria uma baita campanha terminar com a prata e presentear a torcida com uma final contra o melhor time do mundo. É difícil e depende de uma série de fatores, mas dá para sonhar.

Olimpíadas: até que ponto o grupo é mesmo ‘da morte’?

Comecei uma série de posts sobre os Jogos Olímpicos. Já falei um pouco do momento da seleção brasileira e do ato final desta geração. Agora é a vez de comentar sobre o primeiro grande desafio do time brasileiro na competição: o famigerado ‘grupo da morte’. Sinceramente, eu acho uma besteira este rótulo nos Jogos Olímpicos. Voltando um pouco no tempo, olhando os torneios dos anos anteriores, dá pra dizer que é um ‘grupo da morte’ mesmo? Na boa, o campeonato de basquete das olimpíadas é tão foda e seleto que todo grupo é dificílimo!

Até pela forma como as eliminatórias acontecem, com um filtro fudido, sempre vão passar pelo menos oito times bem fortes para os jogos. Como são dois grupos de seis, tradicionalmente teremos quatro equipes bem fortes em cada grupo.

No caso do grupo brasileiro, o que faz a turma repetir o mantra é que, em tese, existem cinco potenciais classificados para quatro vagas. Além do time brasileiro, Espanha, Lituânia, Argentina e Croácia estão no bolo para avançar para a próxima fase – deixando só a Nigéria como virtual desclassificado logo de cara.

Eu discordo um pouco disso. Salvo alguma zebra, acho que existem três classificados garantidos – entre eles o Brasil – e duas equipes que disputam a última vaga, o que pra mim descaracteriza essa aura de ‘grupo da morte’ – seria se mais times estivessem disputando vaga, ao meu ver.

Destrinchando melhor cada um dos times: começo pela Espanha, melhor seleção da chave. O time europeu é o mais experiente e com maior número de excelentes jogadores do grupo – e o segundo mais forte da competição, atrás somente do favorito óbvio que é a equipe americana. Ainda que tenha a baixa do seu melhor jogador em atividade, Marc Gasol, e também não vá contar com Serge Ibaka, o grupo de doze espanhóis escolhidos é muito bom.

O provável time titular é muito forte: Rúbio e Mirotic, apesar de jovens, são experientes e têm papéis importantes nos seus times na NBA. Sérgio Llull e Rudy Fernandez são estrelas do Real Madrid (ainda que o segundo tenha passado boa parte do ano lesionado) e Pau Gasol é o grande jogador espanhol de todos os tempos, que carregou a equipe na campanha vitoriosa do Eurobasket do ano passado. O banco ainda tem jogadores que seriam titulares em quase todas as outras equipes do torneio: José Calderon, Juan Carlos Navarro e Sergio Rodriguez, num backcourt impressionante, além dos jovens Alex Abrines e Willy Hernangomez, jovens que acabaram de assinar com times da NBA e que encabeçarão a renovação do time para os próximos anos.

A segunda força do grupo é a Lituânia. A seleção tem uma tradição incrível no esporte – era a base dos times soviéticos nas décadas em que vários daqueles países do leste europeu jogaram sob a mesma bandeira – e chega, mais uma vez, com uma equipe forte para a disputa de medalha. Tem Jonas Valanciunas, um pivô muito forte e com COJONES para liderar o time – não foge da briga e tem experiência internacional, apesar dos 24 anos de idade. O restante do time titular, com Kalnetis e Maciulis, está quase todo no seu auge técnico da carreira – foram vice dos últimos dois Eurobasket e semifinalistas da última Copa do Mundo e das Olimpíadas de 2004 e 2008.

O venceu bem boa parte dos seus últimos amistosos – até da Espanha – e mostrou ter um elenco muito homogêneo, ainda que falte um pontuador mais confiável de fora do garrafão para contribuir todo jogo.

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Junto destes dois times, eu colocaria o Brasil fechando o top3 do grupo, como seleções garantidas para a próxima fase, só dependendo dos seus resultados entre si para definir a ordem da classificação.

Sim, deixei a Argentina para o segundo escalão. Explico. Não é rivalidade – acho uma besteira essa treta forçada com eles -, nem má vontade, mas acho que os principais jogadores da equipe já envelheceram o suficiente a ponto dos seus níveis técnicos estarem prejudicados. Manu Ginóbili foi um deus em quadra, mas aos 39 anos ele já não é mais tão divino assim. Luis Scola, o terror do Brasil, já mostrou na última temporada da NBA que as 36 primaveras estão pesando. Andres Nocioni é outro vovô titular de 39 anos. Para completar, Carlos Delfino, também veterano, nem time tem.

A ‘Alma’, como é conhecida a seleção deles, até está no caminho certo para renovar seu time – ainda que seja muito difícil substituir à altura uma geração tão talentosa como a que venceu o outro em 2004 -, mas as grandes referências do time estão em uma decadência natural. Não que isso queira dizer muita coisa, mas a Argentina perdeu amistosos para Nigéria e Austrália ao longo da preparação para o torneio, evidenciando algumas fragilidades.

Para brigar com os hermanos pela última vaga, aparece a Croácia, que é basicamente o inverso do que o time argentino representa: um time muito jovem, que depende das suas estrelas em ascensão para ter sucesso. Dario Saric e Roko Ukic são estrelas, mas muito jovens ainda, assim como o reserva Mario Hezonja. Sobra, então, para Bojan Bogdanovic, do Brooklyn Nets, carregar o piano quando a molecada não der conta. Podem até surpreender, mas vão precisar ganhar de algum time muito mais rodado e igualmente talentoso para poder sonhar com uma vaga na segunda fase – e, mesmo que consigam isso, enfrentariam a seleção americana logo de cara.

Fecha o grupo, sem qualquer chance de se classificar, a Nigéria, que tem a melhor geração da sua história – fruto de um processo de naturalização de um monte de descendentes nascidos nos EUA -, mas mesmo assim ainda não tem uma seleção forte formada. Chega sem seus dois jogadores mais famosos, Al-Farouq Aminu, Victor Oladipo e Festus Ezeli, e vai entrar em quadra apenas com alguns jovens talentos escorados no veterano Ike Diogu, que já tentou a vida na NBA, fez sucesso na Europa e hoje joga na China.

Olimpíadas: a última chance deste elenco brasileiro

Hoje vou estrear aqui uma série de posts sobre o torneio masculino de basquete nas Olimpíadas. Para começar, vou destrinchar um pouco da seleção brasileira e, na sequência, as suas possibilidades de beliscar uma medalha.

A competição olímpica é muito difícil, especialmente por ser muito equilibrada e curta. No entanto, justamente por isso, também é possível que o Brasil esteja na briga por medalha, mesmo não sendo uma das três melhores seleções do mundo. É tudo uma questão de sorte nos cruzamentos e momento – vou tratar disso em um post nos próximos dias.

Mas vamos lá, sobre o time: esta é a última chance deste elenco mostrar serviço pela seleção. O ‘núcleo duro’ do time é todo trintão e não vai ter mais uma chance de medalha: Leandrinho, Nene, Alex, Marquinhos, Huertas, Giovanonni e Hettsheimeir não estarão em Toquio daqui quatro anos. Isso não é necessariamente ruim para a disputa deste ano, já que os caras estão com rodagem suficiente para encarar o grande desafio das suas vidas e com a máxima motivação de fazer acontecer agora – só é negativo pensando no futuro da seleção, mas essa é outra conversa.

A primeira geração brasileira com experiência na NBA demorou para engrenar, ficou de fora dos jogos de 2000 a 2008. Mas teve participações com excelentes lampejos nas Olimpíadas de Londres, em 2012, e na Copa do Mundo de 2014, fechando na quinta e sexta posição, respectivamente. Isso denota alguma evolução, especialmente com a chegada do técnico Rubén Magnano no time.

Esta combinação, de técnico e time experientes, aliada à vocação e entrega de um elenco que joga junto há um bom tempo, faz do Brasil uma das melhores defesas da competição, o que já é um primeiro passo para ter um time bem competitivo. Se existe uma nuvem negra que atormenta este time, que são os apagões em momentos decisivos, uma marcação implacável nos 40 minutos de jogo é algo que pode compensar mesmos estes lapsos ofensivos.

O possível time titular – que eu imagino sendo Marcelinho Huertas, Leandrinho, Alex, Hettsheimeir e Nene – joga o chamado BASQUETE MODERNO. No backcourt, Huertas é um armador inteligentíssimo que mete suas bolas quando não é o ponto focal do ataque (e não é neste time), Leandrinho é um combo guard completo. Nas alas, Alex é capaz de marcar qualquer jogador da face da terra e Hettsheimeir, guardadas as devidas proporções, é o típico ‘stretch four’ que virou moda na NBA – corpo de pivô, mas especialista na bola de três, abrindo espaço no garrafão adversário para as infiltrações dos colegas.

Por último, Nene, que é o jogador brasileiro que eu mais gosto – acho que merece um comentário mais longo, aliás. O atleta já foi achincalhado em outros momentos por não ter jogado sempre que convocado pela seleção. Quem acompanha o blog sabe que eu defendo os jogadores que, nestes casos, pensam no que é melhor para suas carreiras e não para as confederações que cuidam das seleções nacionais. Hoje, sem sombra de dúvidas, é o principal jogador do elenco e os PATRIOTAS que tanto xingaram o cara nos últimos anos vão acabar se dobrando diante do seu talento. Nene tem a inteligência de um point guard dentro do garrafão e é o tipo do cara que não afina para absolutamente ninguém. O que me anima ainda mais, é que ele parece estar muito bem fisicamente. Veremos o pivô na sua melhor forma dos últimos anos, o que é excelente.

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Nene no garrafão: fisicamente bem e tecnicamente especial

Outro ponto positivo do time é que seu banco de reservas é bem completo e acima da média da competição. Raulzinho é muito bom jogador e é um armador quase tão bom quanto o titular. Marquinhos é excelente nos tiros e tem porte para encarar os principais jogadores das seleções adversárias. Felício e Augusto Lima são os jovens talentos com gás e potência para, inclusive, brigarem pela titularidade ao longo do torneio. Benite tem cacife para ser o pontuador da segunda unidade.

O que pesa contra esse elenco – e é uma desvantagem perante os principais rivais – é que os principais jogadores do time brasileiro não tem jogado com a intensidade de competição que os melhores jogadores das outras equipes ao longo do ano. Huertas, Nene e Leandrinho foram reservas das suas equipes. Faz diferença no ritmo e na moral você ter jogado a última temporada inteira como um titular, ter entrado em quadra 30 minutos de jogo, ter sido um dos caras que decidiu partidas para seu time de ser um reserva que entra, joga 15 minutos no máximo e volta para o banco assistir os minutos finais de jogo sentado. O alento é que existem outros jogadores que jogaram dezenas de partidas decisivas e foram os principais jogadores em suas equipes da NBB.

Os amistosos mostraram um time bem competitivo, mas né, foram amistosos. Eu acho que, mesmo no ‘grupo da morte’, o Brasil passa bem de fase – isso quer dizer que não fica em quarto, evitando um cruzamento precoce com os EUA – e que, com sorte, briga por medalha lá na frente. Acho que dá.

Deixem os torcedores de Mogi cornetar Rafa Luz

A seleção brasileira está em Mogi das Cruzes fazendo uma série de amistosos preparatórios para as Olimpíadas ao longo dos últimos dias. Em todos os jogos, nos momentos em que é apresentado na escalação inicial e quando dá seus primeiros toques na bola, o armador Rafa Luz recebe uma vaia da galera que está no ginásio. O jogador disputou até o último momento vaga no time final com o armador do time local, Larry Taylor. No final das contas, o atleta que jogou pelo Flamengo foi o escolhido em detrimento do americano naturalizado brasileiro – e o pessoal de Mogi ficou na bronca.

Na mesma frequência em que aparecem as vaias, o pessoal que está cobrindo o jogo, jornalistas que acompanham a modalidade e PERSONALIDADES DO BASQUETE EM GERAL criticam a reação da galera e fazem uma campanha de, digamos assim, ‘acolhimento’ de Rafael Luz.

Eu, sinceramente, acho essa recriminação um saco! Tem coisa mais escrota no esporte do que condenar uma torcida por fazer seu papel de torcida?

Luz foi escolhido no lugar do ídolo do time de Mogi, Flamengo e o time da cidade se mataram na semifinal da NBB há pouco tempo. Se essa é uma torcida de verdade, é claro que eles vão encher o saco dele.

Me coloco no lugar destes torcedores. Lembro de ter ido assistir o treinamento da seleção de futebol quando era moleque, numa das vezes que vieram jogar em Curitiba. Na oportunidade, Oséias, atacante do Atlético foi convocado. Eu, coxa-branca, só fui ao Pinheirão para xingar o cara. Dane-se que ele estava com a camisa do Brasil. Não dá para pedir que o torcedor, aquele que não é um mero espectador, deixe seus sentimentos de lado.

Além disso, são apenas amistosos. Os jogos não valem nada. Em breve, Rafa Luz, que não tem culpa de nada mesmo e está jogando numa boa, vai atuar ’em casa’, sem ninguém pra pegar no seu pé. Tenho certeza que o simples fato de ser o time da casa é uma pressão muito mais perturbadora do que essas vaias – que ao longo do jogo desaparecem, a exemplo de uma bola espírita que o armador meteu na partida deste sábado e todo mundo aplaudiu e comemorou.

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Rafa Luz está menos incomodado com as vaias do que todas as PERSONALIDADES DO BASQUETE que ficaram ofendidas com a reação da torcida local

Por último, o que me deixa mais puto com essa campanha é que, ao mesmo tempo que condenam a reação mais espontânea vinda da arquibancada nestes amistosos, um locutor insuportável tenta enfiar goela abaixo da torcida aqueles coros ensaiados do tipo EEEEEEEEEEUUU SOU BRASILEEEEEEIRO, que nenhuma torcida que se preze deveria ter a pachorra de cantar.

Contra esse tipo de coisa, que é o verdadeiro mal das arquibancadas nesse tipo de competição, essa turma não se revolta…

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