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Os tempos são outros

O segundo título seguido de Jogador de Defesa do Ano (DPOY, em inglês) para Kawhi Leonard é um dos melhores exemplos de como o jogo mudou de uns tempos para cá. A NBA é um jogo muito menos de garrafão e muito mais de perímetro.

Falando assim parece que é uma assertiva óbvia. Todo mundo que vê basquete e que lê um pouco sobre isso percebeu que o número de arremessos de três se multiplicou nos últimos cinco anos e muito se fala no small ball – jogo sem pivôs e com jogadores mais baixos para as posições 4 e 5. Mas, de alguma forma, estes dois recursos poderiam parecer que eram mais táticas para ganhar jogos do que propriamente uma tendência definitiva do jogo.

Digo isso porque ainda existem times vencedores que não chutam tanto de três (Miami Heat e San Antonio Spurs estão no top 5 de times que menos arremessam de fora) ou que jogam com pivôs de ofício nas suas principais rotações (Clippers, Spurs e o próprio Warriors joga mais tempo de pivô do que a gente se habituou a dizer).

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Olha o tamanho do braço desse cara

Mas a prova definitiva de que o jogo está ‘perimetrizado’ é este domínio da defesa longe do garrafão. Sendo bem didático: quando esta história de small ball começou a ficar mais popular, os pivôs de alguns times pareciam que se tornariam apenas especialistas de defesa – como é o caso do center do Golden State Warriors, Andrew Bogut. Os times passariam a jogar com quatro jogadores abertos e uma âncora lá na área pintada pegando rebotes e defendendo a cesta das eventuais infiltrações.

De certa forma, este sempre foi um dos papéis mais importantes dos pivôs – prova disso é que a maioria esmagadora dos eleitos como melhores defensores da temporada era composta por jogadores de garrafão. Com a eleição de Kawhi ano passado e agora de volta nesta temporada, se confirma que nem isso é mais propriedade absoluta dos grandalhões – a defesa do jogo começa no meio da quadra, perturbando o armador para que ele não consiga chamar a jogada ou chutar de três. O próprio Draymond Green, outro jogador que domina as indicações de melhor defensor da liga ao lado de Leonard, é um defensor de perímetro (que também defende no garrafão, já que é excelente nas duas funções). Para se ter uma ideia da raridade disso, é apenas a segunda vez que um ala ou armador ganha o prêmio dois anos consecutivos. A outra vez foi na década de 80, com Sidney Moncrief.

Kawhi é só o protagonista deste movimento, mas a mudança de função primordial dos shooting guards é notória: se antes eles eram os principais pontuadores do time, agora eles são geralmente reconhecidos pelas suas habilidades defensivas. James Harden é um SG à moda antiga, já que encontramos muito mais caras com as características de Tony Allen, Avery Bradley, Aron Afflalo, Wesley Matthews, Danny Green e companhia. Jogadores que até sabem chutar e pontuar, mas não são o foco ofensivo do time e são excelentes defensores. Na melhor das hipóteses, são caras tipo Klay Thompson  e Jimmy Butler, que são excepcionais nos dois lados da quadra.

Pode ser que seja só uma fase, mas nada define tão bem o reinado dos armadores (ou a crise do garrafão) quanto este título seguido de Kawhi.

Unanimidade

Não é difícil prever que Stephen Curry ganhará o título de MVP, prêmio dado ao melhor jogador da temporada. O armador do Warriors foi o melhor jogador do melhor time do ano. Não só isso, mas da equipe de melhor campanha de todos os tempos. Steph também teve a maior média de pontos do campeonato e o melhor PER -Player Efficiency Rating, um índice que calcula a produção e colaboração do jogador em quadra, levando em conta várias estatísticas. A grande questão é se a eleição de Curry será por unanimidade.

Para entender as chances e a importância disso acontecer, é preciso esclarecer como a escolha é feita. Até 1980, eram os jogadores elegiam o melhor atleta da liga. Desde então, um grupo de 120 jornalistas que cobrem NBA é que escolhem o MVP, acrescido de um voto de uma enquete com o público. Eles fazem um top 5 dos jogadores da temporada, em que o primeiro recebe dez pontos, o segundo ganha sete, o terceiro fica com cinco, o quarto com três e o quinto recebe um ponto. Aquele que somar a maior pontuação é eleito o MVP.

Nem sempre a disputa é tão óbvia quanto neste ano – geralmente ela não é -, e como o prêmio, do inglês, quer dizer “Jogador Mais VALIOSO”, os ‘eleitores’ do prêmio têm a tendência de premiar o jogador que foi mais importante para uma campanha vitoriosa (ou do jogador mais dominante de algum dos times que fechou a temporada no topo da tabela).

2014-15 KIA NBA Most Valuable Player Award

“VOTE EM MIM”

Bom, este é o trâmite normal da votação. Em alguns poucos anos, a disputa foi uma completa barbada. Algum jogador que fez algo muito impressionante durante o ano inteiro, com um desempenho muito superior aos demais, com um time muito bem ou muito acima das expectativas. Mesmo assim, nunca houve uma escolha unânime, em que o MVP eleito recebesse os 121 votos de primeiro lugar.

Em duas vezes isso quase aconteceu. A primeira vez foi com Shaquille O’neal na temporada 1999-2000. The Diesel liderou a liga em pontos, com 29 por jogo, e ainda anotou bizarros 13 rebotes e 3 tocos por partida. Em um cálculo chamado Win Share, que atribui pessoalmente a um jogador o número de vitórias totais pela qual ele foi responsável sozinho, Shaq liderou a liga naquele ano com 18. Naquele índice PER, O’neal também liderou a NBA com a marca de 30,6. Ah, além disso, ele também foi o melhor jogador disparado de um Lakers que dominou na temporada regular e fechou o campeonato com 67 vitórias e a melhor campanha da NBA – uma campanha e uma história parecida com a do Golden State deste ano. Na oportunidade, Shaq recebeu 120 votos para melhor jogador, mas um jornalista da Fox da Florida acabou dando o voto de primeiro lugar para Allen Iverson.

Na temporada 2012-2013 a história se repetiu. Lebron James liderou o Miami Heat para uma campanha dominante pelo segundo ano consecutivo. Fechou o ano com 19,3 de Win Share e 31,7 de PER. Liderou a liga em cestas e teve o segundo melhor aproveitamento real nos chutes. Era o principal jogador do Heat que teve a melhor campanha da NBA naquele ano, com 66 vitórias. Na votação final, levou 120 votos de melhor jogador, mas um jornalista acabou votando em Carmelo Anthony.

A expectativa de que finalmente exista um MVP unânime se renova com os números e a atuação de Curry nesta temporada. Steph fechou o ano com 30 pontos por jogo e duas roubadas de bola por partida, sendo o líder da liga nas duas estatísticas. Também fechou com os maiores índices de Win Share (17,9) e PER (31,5). Mas o principal feito foi ter sido o principal jogador de uma equipe que estraçalhou vários recordes e cravou a marca de 73 vitórias.

Além disso tudo, o principal fator é que ninguém fez frente ao jogador. Lebron teve uma excelente campanha neste ano, mas timidamente inferior ao que fez em outros anos e em um time que não encantou ninguém. Russell Westbrook e Kevin Durant tiveram temporadas excelentes, mas têm o ‘azar’ de jogar no mesmo time (dividir o ‘valor’ para o Thunder). Kawhi Leonard foi o melhor jogador em um time excelente, mas sua e sua eficiência ainda é discreta perto dos números vistosos de Curry. O camisa 30 do Warriors não só fez uma campanha impecável, mas a diferença de desempenho dele para os demais jogadores foi impressionante.

Mais do que nunca, Stephen Curry merece ser o primeiro MVP unânime.

 

É óbvio que Yao Ming mereceu entrar no Hall da Fama

Ontem o pivô chinês Yao Ming foi nomeado como um dos novos membros do Hall da Fama do basquete, a principal honraria concedida a um jogador pelos seus serviços ao basquete. Este tipo de homenagem é dedicada apenas aos melhores e maiores do esporte, às grandes lendas, aos multicampeões e referências das suas épocas. Desde que foi indicado para o memorial, muita gente questionou se Yao merecia ou não a vaga – para se ter uma referência, Allen Iverson e Shaquille O’neal foram outros jogadores eleitos na mesma turma deste ano. Para mim não há dúvidas: ele merece um posto na galeria dos maiores de todos os tempos.

Bom, o que os críticos do chinês gralham é o seguinte: Yao não jogou o suficiente para tal. Foram apenas 486 jogos na NBA e uma carreira quase insignificante fora da liga americana. Oito temporadas, com a maioria dela jogando cerca da metade dos jogos.

De verdade, para boa parte dos casos, acho que a longevidade de uma carreira é um fator muito importante para determinar o quão importante foi tal cara para o esporte ou para dizer se ele foi melhor do que fulano. Ser brilhante por um tempo é o tipo de sorte que pode acometer um medíocre. Já enganar durante anos é quase impossível.

No entanto, acho que Yao não pode ser vítima da sua saúde. Especialmente porque seus feitos e sua representatividade vão muito além disso.

Para começar, ele foi uma das primeiras escolhas de draft mais badaladas de todos os tempos. Sua escolha foi de uma importância sem precedentes para que a liga cravasse seus tentáculos nos quatro cantos do mundo. Ele foi o primeiro jogador de fora dos EUA, sem passar pela universidade ou ensino médio americano, a ser escolhido no topo do draft. Isso é de um simbolismo supremo, já que o draft é o garimpo dos grandes talentos americanos que podem ou não jogar na liga. Pela primeira vez um time foi à caça, fora do território americano, buscar alguém melhor do que qualquer jovem basqueteiro dos Estados Unidos.

Se a geração de Bird e Magic fez o basquete virar um esporte profissional de verdade nos EUA e a turma de Jordan, Barkley e Malone fez o mundo inteiro querer consumir aquilo, Yao é um dos protagonistas de uma era em que o planeta inteiro pode assistir aos jogos, comprar as camisetas e viver em tempo real tudo que rolava nos ginásios americanos.

Diferente do baseball e do futebol americano, que custaram a conquistar o público fora dos Estados Unidos, o basquete sempre teve um caráter universal – e a NBA explorou ao máximo isso. Yao foi o grande símbolo desta tentativa em dois aspectos que revolucionaram o mercado: a desbravada do oriente e a era da internet. Exemplo direto disso, do primeiro ao último dia em que esteve jogando na NBA, Yao foi o jogador que acumulou o maior número de votos para a escolha popular do All Star Game.

De maneira bem abrangente: ele é um dos principais responsáveis por eu, você e milhões de outros brasileiros, chineses, indianos, sulafricanos e etc, sermos tão donos da NBA quanto um pirralho americano é. Antes a liga era deles e nós só podíamos admirar de longe. Hoje a NBA é de todo mundo.

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Yao é o principal responsável por qualquer não-americano se sentir parte da liga

Para encerrar qualquer discussão, também acho que , mesmo que por um curtíssimo período de tempo, o auge do chinês foi brilhante. Estatisticamente falando, Ming teve uma temporada de 25 pontos, 9 rebotes e 2 tocos por jogo, médias que somente outros ‘hall of famers’ conseguiram. Seu tamanho e sua inteligência em quadra nos indicam que estes números só não foram mais frequentes porque, infelizmente, seu corpo não aguentou o tranco.

Mas o mérito nem é esse. É óbvio que Yao é digno do Hall da Fama.

São 23 milhões em jogo para Anthony Davis

Anthony Davis precisa desesperadamente ser eleito para o primeiro, segundo ou terceiro All-NBA Team ao final da temporada sob risco de perder 23 milhões de dólares acordados em contrato para os próximos anos.

O lance é o seguinte: a principio jogadores jovens tem um limite salarial mais rígido que os jogadores com sete anos ou mais de liga profissional. Os jogadores mais velho, digamos assim, podem ocupar até 30% do total da folha salarial, enquanto os rendimentos dos mais novos podem chegar a um limite de 25% do total de salários do time. Esta regra só pode ser quebrada com uma cláusula chamada de ‘Derrick Rose Rule’, que determina que os jogadores com menos tempo de liga podem extrapolar o limite salarial caso sejam eleitos MVP uma vez, ser chamado para o All Star Game como titular duas vezes ou escolhido para a seleção da temporada (primeiro, segundo ou terceiro All NBA Team) duas vezes durante seu contrato de calouro.

Quando assinou a extensão do contrato valendo de 2016 até 2021, parecia óbvio que Anthony Davis preencheria um dos requisitos – especialmente porque na temporada passada já tinha sido chamado como titular para o Jogo das Estrelas e porque foi o pivô da seleção da temporada. Restava, apenas, que ele repetisse um dos feitos ou fosse eleito o MVP desta temporada.

O campeonato começou e as coisas começaram a desandar. O Pelicans teve um início de ano sofrível, vários jogadores se lesionaram e o desempenho de Davis não teve a evolução esperada. Com a temporada espetacular de Curry, não existe qualquer chance de AD ser eleito o melhor jogador do ano. No All Star Game, Kevin Durant, Kobe Bryant e Kawhi Leonard foram os escolhidos para o frontcourt do Oeste. Agora, resta a Anthony Davis entrar em uma das três seleções da temporada.

A princípio não é uma tarefa muito difícil, apesar de existir a chance dele ser preterido. Os jornalistas escolhem os 15 melhores jogadores ao final do ano, sendo que são seis alas e três pivôs, que são as posições que Davis pode ser selecionado.

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Que pepino: contrato de Davis pode cair de 145 para 122 milhões de dólares em cinco anos

Entre os alas, a disputa é mais difícil. Lebron James, Kawhi Leonard, Kevin Durant e Draymmond Green estão garantidos. As últimas duas vagas serão disputadas por ele e Paul Millsap, Lamarcus Aldridge e Chris Bosh.

Entre os pivôs, Davis tem mais chances, já que a concorrência é menor. DeMarcus Cousins e Andre Drummond possivelmente ficam duas das vagas. Davis deve ficar com a terceira, a menos que uma surpresa como a escolha de Hassan Whiteside ou Deandre Jordan surpreenda a todos.

A atuação monstruosa de 59 pontos e 20 rebotes na semana passada deve ajudar AD – é o recorde de pontos na temporada até então -, já que performances boas ao final da temporada sempre são determinantes para que um jogador seja agraciado com uma das premiações.

Ok, se der alguma zebra e ele não for chamado, não vai ser tão problemático. Ele terá garantido a bagatela de 122 milhões de dólares em cinco anos. No entanto, se conseguir, vai ter assinado o contrato mais caro de todos os tempos da liga até o momento, de 145 milhões – além de muita grana, é um título e tanto!

Curry merece, mas não ganhará o prêmio de Most Improved Player

A discussão ganhou força desde que, há alguns dias, Harrison Barnes, companheiro de Stephen Curry no Golden State Warriors, deu uma entrevista defendendo que o colega fosse considerado nas votações de Most Improved Player ao final da temporada. Curry já é o franco favorito para ser, novamente, eleito como Most Valuable Player da liga e, se vencesse o prêmio de maior evolução, seria o primeiro jogador a acumular os dois títulos em uma só temporada.

Eu não tenho nenhuma dúvida que Curry merece ser considerado na votação e, mais do que isso, também acho que ele deveria ser o eleito, mas tenho a certeza que as pessoas com direito a voto (jornalistas que cobrem a liga), não vão pensar assim. Tradicionalmente, o prêmio é dado ao jogador que mais evoluiu nas estatísticas numa visão, digamos, mais tradicional.

Curry: 8 pontos a mais por jogo

Curry: 8 pontos a mais por jogo

Vamos pegar os exemplos dos últimos anos. Kevin Love, Ryan Anderson, Paul George, Goran Dragic e Jimmy Butler. Em todas as vezes foram jogadores que estouraram naquele ano e conseguiram botar números muito melhores de pontos, rebotes e assistências em relação aos anos anteriores. Boa parte das vezes, também, eram jogadores que aumentaram, na mesma medida, seus minutos em quadra.

Seguindo esta linha, o principal favorito ao título seria o armador do Portland Trial Blazers, Cj McCollum, que ascrescentou 13 pontos por jogo na sua média em relação ao ano passado. Ao mesmo tempo, McCollum ganhou muito mais tempo de quadra: tinha 15 minutos em média no ano passado e agora tem 35.

Cabe aí a interpretação: estes caras (McCollum e vencedores passados do MIP award) evoluíram mesmo ou só tiveram mais tempo de jogo e participação nas jogadas da equipe? No espírito da coisa, um jogador evolui de fato quando ele ganha mais oportunidades ou quando ele consegue fazer seu jogo crescer naquele mesmo tempo de quadra? É uma questão a se pensar…

Neste ponto que eu acho que Curry poderia ser eleito, também, o Most Improved Player, apesar de ser quase que um caso fechado de que ele será eleito o melhor jogador da temporada. Com apenas 2 minutos minutos a mais de quadra em comparação com o ano passado, o armador do GSW passou a fazer 8 pontos a mais por jogo, pegou um rebote a mais, melhorou substancialmente seu aproveitamento nos chutes de perto e de longe.

Seu Player Efficiency Rating, uma medida que calcula a eficiência do jogador quando está em quadra, saltou em 5 pontos – sendo um dos maiores índices da história. Fora isso, Curry liderou o time para ter uma campanha ainda melhor, sendo ainda mais decisivo.

Um exercício de memória pode ajudar a ver o quanto Curry evoluiu: ao final do ano passado, muita gente, talvez até a maioria, achava que Harden era mais merecedor do prêmio de MVP da temporada passada. Hoje não há a menor dúvida de que ele é o melhor jogador da temporada, muito distante de qualquer concorrente.

Mesmo nas estatísticas brutas, a evolução de Steph foi bastante parecida ou melhor do que as registradas pelos antigos vencedores do prêmio. A única questão é que ele já é um jogador superstar. Isso nunca aconteceu, nesta medida, no jogo. Até mesmo por isso, acho que ele merece ser o MVP e MIP da temporada.

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