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Lendas Urbanas da NBA: Delonte West e a mãe de Lebron James

Nenhuma história está absolutamente imune das fantasias de quem as viveu e de quem as conta. Todo grande feito tem aquela pitada de exagero que faz dele algo quase sobrenatural. Que faz as conquistas deixarem o plano mundano e virarem algo épico. Faz parte. Elevando isso a outros patamares, eu tenho um fascínio especial por aquelas lendas urbanas que povoam o imaginário dos torcedores ao longo dos anos. Mais do que saber se Jordan estava mesmo com a cabeça explodindo de febre naquele jogo da final de 20 anos atrás, eu gosto das histórias que mostram toda a criatividade da turma, que alimentam teorias da conspiração e que, na maior parte das vezes, têm relevância zero para o jogo. E o melhor de tudo: nunca vamos saber se foram reais ou não, já que interessa mais a todos perpetuar as lendas do que esclarecê-las.

Aproveitando que não acontece absolutamente nada na liga neste período e preparando o terreno para o que está por vir (semana que vem começo a postar as previsões para a temporada, time a time), lanço uma série de cinco posts com lendas que cercam a NBA. Começo com uma clássica: o lindo caso de amor entre Delonte West e a mãe do seu colega de time Lebron James.

A história foi deflagrada durante os playoffs do Leste de 2010, logo após a eliminação do Cleveland Cavaliers diante o Boston Celtics. O time de Lebron e Delonte tinha sido a equipe de melhor campanha da conferência e o camisa 23 vinha comendo a bola, como de costume. A série chegou a estar 2 a 1 para o time de Ohio até que James estranhamente desmoronou tecnicamente em quadra e não conseguiu segurar a reação do Celtics, que fechou a disputa em 4 a 2.

A justificativa é que entre um jogo e outro Lebron descobriu o que supostamente todos sabiam em Cleveland: sua mãe Gloria estava desfrutando dos prazeres da carne com seu colega Delonte West.

Um blog soltou a notícia alguns dias após a eliminação do Cavs. O autor da postagem, Terez Owens, que se diz o número 1 em fofocas relacionadas a esportes, disse que sua fonte era um confiável rapaz cujo tio trabalhava na arena do Cleveland e conhecia todos da franquia. Segundo ele, James descobriu o romance antes do jogo 4 e ficou arrasado. O acontecido teria também dividido o vestiário do Cavs, destruindo a química do elenco.

Nenhuma das partes se pronunciou logo de cara e, como toda gozação pra cima de Lebron, a história cresceu. Diziam até que Dan Gilbert, dono do Cavs, confirmava o caso – apesar dele nunca ter se pronunciado publicamente sobre isso.

No final das contas, a única pessoa que deu a cara a tapa para dizer que rolava um affair entre Delonte e Gloria foi o ex-jogador do Houston Rockets e, na época, comentarista da ESPN Radio, Calvin Murphy, que não tinha absolutamente nada a ver com o Cleveland, West ou James – e tem em sua ficha corrida a acusação de ter abusado cinco das suas quatorze filhas que teve com nove mulheres diferentes…

Segundo o blogueiro que soltou a informação, Lebron James o processou pela história, mas a merda já estava feita: todo mundo atribuía a queda de rendimento de James e a eliminação do Cavs à história.

O contexto e o preconceito da turma só piorava as coisas. Delonte West era aquele maloqueiro assumido. Seu estilo podrão dentro e fora das quadras casam perfeitamente com a história. O papel de Gloria no enredo da vida de Lebron também reforçavam a fantasia da torcida mais troglodita, machista e intransigente: foi mãe solteira ainda na adolescência, criou o garoto prodígio sozinha e teria encontrado conforto nos braços de um novo bad boy. Era mais fácil acreditar nisso do que no vacilo em quadra do herói supostamente infalível.

A lenda esteve em alta ainda por um tempo considerável. Chegou ao nível de, com a saída de Lebron para o Miami Heat, justificarem a contratação de Delonte West pelo Boston Celtics como uma arma secreta para, em um eventual confronto nos playoffs, a presença do ‘padrasto’ intimidar James (o confronto existiu, mas o Heat saiu vitorioso com boas atuações de Lebron).

Alguns anos depois, Delonte West veio a público dizer que nada tinha acontecido, que a história não tinha pé nem cabeça e que nunca se envolveu com a mãe de Lebron.

O técnico do Denver Nuggets, Mike Malone, que na época era assistente do Cavs, também já deu sua versão sobre o caso, alegando que os números de Lebron nem caíram tanto na série e que a derrota tinha mais a ver com a casca dura do Celtics, com uma virada reveladora no jogo cinco e com uma lesão no cotovelo do então MVP do que com qualquer abalo psicológico de James.

Mesmo assim, a lenda resiste e muita gente vai viver e morrer acreditando que Delonte era o pai que Lebron nunca quis ter, mas teve.

Até quando Isaiah Thomas será rejeitado?

Nem que seja timidamente, nem que seja uma breve desconfiança, mas absolutamente todo mundo duvida ou já duvidou das capacidades de Isaiah Thomas. A rejeição ao seu tamanho, à sua defesa, ao seu jogo é uma tônica na sua carreira. A ameaça do Cleveland Cavaliers de voltar a troca e a atitude do Boston Celtics em ceder à pressão e juntar mais uma escolha de segundo round de 2020 ao pacote da negociação são apenas dois exemplos disso.

O que eu me pergunto é: o que Thomas precisará fazer para que a gente pare de desconfiar dele? Até quando faremos isso?

Que ele tenha sido a última escolha do draft, mesmo com números muito melhores nos três anos de universidade do que dezenas de outros armadores que tentaram entrar na NBA, é compreensível – seus 1,75 m podem sobreviver a um torneio universitário, mas parecem risíveis para uma liga de homens adultos.

Eu também entendo que, mesmo sendo uma grata surpresa nos dois primeiros anos na liga e ter sido o jogador mais produtivo da equipe na sua terceira temporada, o Sacramento Kings tenha escolhido trocá-lo por um calouro que nunca pisou numa quadra da NBA por acharque Thomas não era bom o suficiente para liderar a retomada da franquia – por mais que essa reviravolta ainda não tenha acontecido no time californiano e Isaiah tenha se tornado All Star e All NBA alguns anos depois.

Na época, não discordei e também não lembro de muita gente criticando o fato de Thomas ser reserva do Phoenix Suns, sua nova equipe, atrás de Eric Bledsoe e Goran Dragic, apesar de ter o maior Player Efficiency Rating (PER) de todo o time, ter uma pontuação quase tão boa quanto as dos titulares com quase 10 minutos a menos de jogo de média e ter um impacto ofensivo consideravelmente maior do que todos os titulares (maior Offensive Rating). Mesmo com estes números, o Suns se livrou dele para prestigiar Eric Bledsoe e para conseguir Brandon Knight – por mais que nenhum dos dois tenha conseguido jogar mais de 66 partidas em uma temporada e o Suns não tenha superado a marca de 24 vitórias em um ano desde então.

Muita gente também achou que era normal que Thomas fosse reserva do Boston Celtics, time que o acolheu, mesmo sendo o cestinha da equipe e mesmo que o time tenha se recuperado de uma campanha ruim desde a sua chegada (estava com 21 vitórias e 30 derrotas até a troca e teve 20 vitórias e 11 derrotas depois disso). Afinal, o consenso era de que Isaiah era bom, mas só para cumprir determinadas tarefas em quadra, para aproveitar a correria dos times reservas, para infernizar o final do jogo e não para ser o craque da franquia – por mais que já fosse.

(AP Photo/Elise Amendola)

Duas temporadas se passaram, Isaiah virou o favorito dos torcedores do Boston Celtics, se consolidou como o melhor jogador da equipe de melhor campanha na conferência, se confirmou como uma das mais letais ameaças ofensivas da liga e até demonstrou todo o seu comprometimento com o jogo ao entrar em quadra no mesmo dia da confirmação da morte da sua irmã mais nova em um trágico acidente de carro. Fez absolutamente tudo que se espera de uma estrela inquestionável. E mesmo quando era para ele nunca mais ser questionado, uma densa nuvem de dúvida segue pairando sobre sua cabeça.

Primeiro, o Boston Celtics abre mão do jogador por Kyrie Irving, o colocando em um pacote volumoso, em que, na cabeça dos executivos dos dois times envolvidos, foi preciso incluir Jae Crowder, um pivô calouro e uma valiosa escolha de primeiro round do ano que vem para que ‘as qualidades fossem equiparadas’ – por mais que Thomas tenha jogado muito mais que Irving na última temporada.

Depois, o Cleveland Cavaliers reclama que o ‘pack’ não foi bom o bastante, que Thomas pode estar bichado e que precisa de ainda mais contrapartidas para assumir o risco de ficar com o jogador – choradeira atendida pelo Boston, que envia mais uma escolha de draft.

Entendo que Thomas esteja machucado e não duvido que a lesão possa ser séria, mas é impressionante o tanto de vezes que Isaiah foi rejeitado, duvidado, questionado ao longo da sua carreira, mesmo que em absolutamente todas as oportunidades ele tenha provado que merecia um tratamento mais respeitoso. Tenha mostrado que sempre foi menosprezado injustamente.

Diante disso, não consigo imaginar o que ele precisa fazer para que finalmente um dia seja tratado como um jogador do quilate que é – o terceiro maior pontuador da liga, o nono mais preciso nos chutes, um dos doze all stars do Leste e um dos quinze all NBA da liga toda na temporada passada.

O lado bom disso, é que a desconfiança parece ser uma gasolina do jogo do armador. Que ele nos prove mais uma vez que todos estavam errados. E, se fizer isso, que seja a última vez que duvidemos dele.

Cavs pode barganhar na troca Irving-Thomas, mas não deveria tentar

É verdade que o Cleveland Cavaliers pode pedir uma revisão da troca que envolve Isaiah Thomas e Kyrie Irving se a saúde do armador que era do Celtics estiver comprometida – Isaiah está com uma lesão no quadril e, segundo exames médicos realizados pelo Cavs, seu rendimento poderia ser abalado nos próximos anos por conta do ocorrido. Segundo Adrian Wojnarowski, da ESPN, o time de Lebron James teria pedido mais jogadores para completar a negociação, sob ameaça de cancelar a troca.

O Cleveland pode, realmente, fazer este tipo de ameaça, mas não vejo mais do que um blefe irresponsável ou um boato mal contado. Mesmo que Thomas esteja baleado, o Cavs tem muito a perder cancelando o acordo. Por mais que ficar com um jogador machucado seja um pepino, seria um negócio ainda pior voltar tudo como estava uma semana atrás – e é isso que aconteceria caso o Celtics se recusasse a mandar Jaylen Brown ou Jayson Tatum, os dois jogadores que o Cavs sonha envolver no bolo.

Digo isso por vários motivos. Para começo de conversa, Kyrie Irving teria que voltar ao elenco ainda mais insatisfeito e deslocado. Como não há nenhum clima para ele ficar em Cleveland, o jogador teria que ser trocado por qualquer coisa. Se as propostas já eram ruins antes, agora seriam ainda mais indecentes. Seu valor de mercado seria ridículo se comparado ao seu basquete.

Fora isso, o time perderia elementos que fizeram da troca um achado surreal para a franquia do Ohio. Perderia um coadjuvante muito bom com um contrato sensacional (Jae Crowder), um prospecto que pode vir a ser interessante (Ante Zizic) e um ativo fundamental (escolha de primeiro round do Nets do ano que vem) diante da possibilidade da saída de Lebron James e a necessidade de se reformular por completo.

Por tudo isso que foi colocado no pacote por Irving, vale a dúvida quanto a saúde de Thomas. Se ele se recuperar bem, é uma troca inimaginável diante das circunstâncias. Se não, pelo menos é um jogador com apenas um ano de contrato.

No fundo, eu não duvido que tudo isso faça parte de um jogo do front office para abalar as pretensões de Isaiah buscar um contrato máximo na próxima offseason. Para a diretoria do Cavs é interessante que o armador chegue jogando, mas sem toda aquela moral perante o resto da liga – o que forçaria a franquia a abrir mão dele ou gastar tudo o que não tem para mantê-lo.

Tem quem cubra o Cleveland e diga que é mais ou menos por aí e que, na verdade, ninguém no clube queira pedir este ou aquele jogador a mais na negociação – pois sabe-se que há um risco de colocar tudo a perder.

Trocas envolvendo jogadores seriamente lesionados já foram canceladas em outras oportunidades, é verdade, mas em nenhuma destas vezes jogadores tão importantes estavam nestas negociações – e as situações dos dois times também não seriam tão profundamente afetadas por elas.

Ter Isaiah Thomas machucado em seu elenco não seria bom, mas arriscar voltar a troca seria ainda pior para o Cleveland.

O melhor troco possível por Kyrie Irving

É difícil fazer render uma troca quando uma estrela pede para sair do time. Por melhor que seja o cara, é complicado conseguir alguém que pague o preço que aquele jogador efetivamente vale. Desesperado com a possibilidade de desvalorização do seu ativo, o time até então dono do contrato do jogador geralmente acaba aceitando a proposta ‘menos pior’.

Era assim que se encaminhava o pedido de Kyrie Irving para ser trocado. O Cleveland Cavaliers sonhava com alguma coisa tipo Kristaps Porzingis, mas tinha em mãos algo mais parecido com Eric Bledsoe. Os trocos oferecidos eram tão indecentes que cogitava-se que o time de Lebron iria começar a temporada com Irving. Era melhor levar alguns meses de clima péssimo no vestiário do que desvalorizar o segundo melhor jogador do elenco. Diante do eminente enfraquecimento da equipe depois da saída de Kyrie, o abandono de Lebron James era considerado certo. E, daí, pronto: voltariam os anos de mediocridade do Cavs.

Eis que, do nada, a franquia se acerta com Boston Celtics, maior rival do Cleveland na conferência Leste, e consegue o impossível: negocia Kyrie Irving por um pacote que, pasmem, pode até MELHORAR o time. Estão nele Isaiah Thomas, Jae Crowder, Ante Zizic e a escolha do Brooklyn Nets do próximo draft.

Elsa/Getty Images

Mesmo no pior momento possível, o Cleveland conseguiu transformar Irving em um dos melhores armadores de toda a NBA, em um ala extremamente útil com um contrato excelente, em um pivô alguma coisa promissora e em uma escolha top5 da próxima seleção de calouros.

A troca de Irving por Thomas tinha sido ventilada há algumas semanas, mas descartada logo de cara por ser uma negociação muito difícil para o time de Ohio – o Boston Celtics se mostrou duro na queda nas possíveis trocas cogitadas ao longo dos últimos meses e parecia difícil que a equipe despacharia seu melhor jogador. Isso descontando a situação frágil em que o Cleveland se encontrava, como já descrito anteriormente.

Para o acerto do Cavs, eu imagino que o time melhora, apesar de Kyrie ser o melhor nome da troca. Isaiah é um dos melhores jogadores no ataque em toda a liga. Crowder tem o perfil do banco do Cleveland. A equipe ganha profundidade e versatilidade.

Isso tudo não quer dizer que o Boston piorou. Apesar de ser uma troca surpreendente, fica claro que o time partiu para uma nova fase, apostando em jogadores de renome.

Para a franquia, a troca de Isaiah resolve algumas dores de cabeça da direção. Thomas se tornaria free agent ao final da temporada e pediria um contrato máximo, o que praticamente descartaria qualquer possibilidade do Celtics tentar buscar mais alguma estrela no mercado.

Até Kyrie, que parecia que ia abrir mão de tentar vencer com o seu pedido maluco para sair do Cavs, se deu bem: será o melhor jogador de uma das melhores equipes da liga.

Mas, mesmo que agora conte com um time titular poderoso, ainda terá que bater o Cleveland Cavaliers, que, surpreendentemente, conseguiu, de uma maneira incrível, ficar ainda melhor.

Muitos egos para um só time

O pedido de Kyrie Irving para ser trocado surpreendeu a quase todo mundo. Eu, por exemplo, escrevi aqui que não conseguia entender a cabeça do jogador. Muita gente, assim como eu, ficou sem compreender nada. Mas, no fundo, não deveria ser assim. O fim traumático do relacionamento de estrelas que dividem o mesmo time é frequênte. Na verdade, é mais comum que supertimes terminem com cada um indo para um canto em uns três ou quatro anos do que eles irem se desmanchando naturalmente, sem ressentimentos.

O roteiro quase sempre segue a mesma linha: dois ou três jogadores se reúnem para tentar ganhar, os egos inflam, alguém fica decepcionado com a repercussão das coisas e os caras brigam. As principais histórias parecem uma versão realmente interessante daquela poesia: Penny Hardaway tretou com Shaquille O’Neal (no Magic) que tretou com Kobe Bryant (no Lakers) que tretou com Dwight Howard (também no Lakers) que tretou com James Harden (no Rockets) que agora se juntou a Chris Paul e sabe lá até quando estarão ‘de bem’.

Mas é bem isso mesmo. Shaq e Penny Hardaway formavam a dupla mais empolgante da NBA. Um era o jogador mais dominante do esporte, o outro era o principal candidato a substituir Michael Jordan – que tinha se aposentado pela primeira vez. Em três temporadas, o casamento acabou com O’neal forçando a barra para fugir do companheiro.

No time seguinte, foi a vez de Kobe Bryant, uma estrela emergente, dar o ultimato. Os dois venceram três campeonatos seguidos, mas no último deles a situação já estava insustentável. A dupla ainda se manteve junta por mais duas temporadas, mas não resistiu à derrota para o Detroit Pistons – quando estavam acompanhados de Karl Malone e Gary Payton numa parceria que deu errado para todos os envolvidos.

Anos mais tarde, Kobe também não aguentou a união com Dwight Howard. Mesmo machucado, o jogador infernizou o pivô – que não tem a melhor cabeça do mundo – até o final da temporada. Resultado, na temporada seguinte Dwight saiu praticamente fugido de Los Angeles para Houston, encerrando uma parceria que foi anunciada como a ‘nova dinastia do Lakers’.

No Rockets, Howard também passou perrengue. Na última temporada, com o time implodindo, Harden e o pivô não conseguiam mais conviver. Parecia que nenhum dos dois mais queria jogar, só queriam, em quadra, mostrar que o motivo do insucesso do time era a presença do outro no elenco.

Mas os casos vão além dessa ciranda: Stephon Marbury não quis mais jogar com Kevin Garnett no Timberwolves, Ray Allen se desentendeu com o restante da turma em Boston, Sottie Pippen e Charles Barkley não se aguentavam mais em Houston… Todas as parcerias começaram muito bem, se diziam muito promissoras (algumas até de fato deram resultados excelentes), mas em algumas temporadas simplesmente evaporaram em meio à guerra de egos.

Levando em conta o principal motivo que faz com que estes caras se reúnam – ganhar um título -, a dissolução do Cleveland Cavaliers atual deveria ser ainda menos impressionante. O time já foi campeão em condições bem desfavoráveis, valorizando a conquista de cada um – Kyrie Irving especialmente, já que foi o autor da cesta do título.

Uma vez que a missão tenha sido cumprida, nada mais segura o jogador junto aos outros. No máximo, a sede por outros títulos – que pode ser menor do que a vontade de ser o melhor jogador em outro time, tomando outros ares. Em um cenário em que o roubo do título do Golden State Warriors parece uma tarefa cada vez mais difícil, é bem plausível que estes caras precisem de outras motivações para jogar.

Pela frequência tão intensa de desavenças entre estrelas é de se louvar supertimes que duraram mais do que a média. Não é comum times ficarem quase uma década juntos, como Los Angeles Lakers e Boston Celtics dos anos 80. Ainda que ambos tenham enfrentados alguns problemas de relacionamentos (Magic foi fritado pelos colegas no começo da sua carreira e Cedric Maxwell chegou a fazer a coisa desandar no Celtics em determinado momento), os núcleos principais de cada time conseguiram resistir ao tempo.

O mesmo dá para dizer do Chicago Bulls dos anos 90, que era uma bomba relógio ambulante, mas que conseguiu conter os ânimos dos jogadores por um bom período – talvez a grande virtude de Phil Jackson, técnico do time na época.

No momento, o Golden State Warriors é o grande exemplo. A exceção que confirma a regra. Não só Klay Thompson, Draymond Green, Andre Iguodala e companhia toparam manter os papéis de coadjuvantes de Stephen Curry em nome de uma sequência de temporadas vitoriosas, como Kevin Durant, uma estrela ainda maior, se juntou ao time – e sempre que pode, enaltece o clima entre os jogadores.

O quanto essa lua de mel vai durar é uma incógnita, mas ao que tudo indica a relação está saudável o suficiente para que não seja possível imaginar um desmanche no time, como é o que parece que vai acontecer com o Cleveland Cavaliers e que tantas vezes já rolou ao longo da história.

O quanto Derrick Rose pode ajudar o Cleveland Cavaliers?

Como se o pedido de Kyrie Irving para ser trocado não fosse o bastante para animar o período mais morno da offseason, ontem foi anunciado que Derrick Rose se juntará ao Cleveland Cavaliers para a próxima temporada.

Sinceramente, acho que a animação com a contratação está um pouco exagerada – há muita gente comemorando bastante a assinatura do contrato. Eu entendo que a torcida do Cleveland esteja machucada com a situação de Kyrie e o histórico de Derrick Rose, um dia MVP da liga, desperte alguma esperança, mas não acho prudente imaginar que a contratação vai, de fato, mudar a franquia de patamar (leia-se aqui: chegar ao mesmo nível do Golden State Warriors). Para mim, esta é uma adição que serve muito mais para os objetivos de Rose – de se reabilitar como jogador, de se mostrar útil e, eventualmente, disputar alguma coisa importante – do que para o Cavs – que quer ser campeão e, agora, buscar uma reposição para Kyrie.

O fato do jogador ter assinado pelo mínimo de veterano dá uma boa dica sobre sua condição atual na liga. Geralmente, este tipo de contrato é oferecido a jogadores que já estão nos últimos anos das suas carreiras ou a atletas absolutamente desacreditados. Rose, aos 28 anos firmando este tipo de vínculo, deixa claro em qual dos grupos ele se encaixa.

Aqueles que se animam com a chegada de Derrick após sua melhor temporada dos últimos anos, com 18 pontos de média, devem ter se concentrado muito olhando as estatísticas do jogador e esqueceram de assistir suas partidas – na quadra, Rose tem se mostrado um jogador apático, completamente sem tesão de jogar basquete.

É preciso lembrar que em determinado momento da temporada passada, Rose abandonou o time em dia de jogo sem dar satisfações para ninguém e reapareceu sem dar grandes explicações, em um gesto absoluto de falta de comprometimento.

Por mais que pareça, esta não é uma crítica a ele necessariamente. Eu entendo sua condição depois de inúmeras lesões logo no início da carreira. Se machucar no auge é a pior maldição que qualquer atleta pode sofrer. A culpa dele nisso é nenhuma. A frustração é total. Fosse eu, já teria abandonado o barco há muito tempo. Mas para mim é nítido que, por algum motivo – insegurança, medo de se lesionar, falta de vontade -, Rose hoje é quase que um zumbi em quadra, jogando no piloto automático.

Acho que um cara nestas condições e neste preço é uma boa aposta para ser backup na armação de um time bom. Quando está em um bom dia, pode ganhar um jogo para o time. Quando não está bem, usa-se outras opções. Derrick chegando em um time bom, que não dependa da sua atuação, pode renovar suas ambições e até tirar o que tem de melhor em um cara tão calejado. Chegar a um time como este depois de passar tanta coisa pode ser oxigênio novo para Rose.

O que acho que não tem qualquer chance de dar certo é imaginar que Rose voltará a ser um cara seguro e que pode ocupar o lugar de Kyrie no time. Claramente não deu certo tentar reabilitá-lo como franchise player em Chicago ou em uma franquia em que tudo é amplificado para pior como o Knicks. Imagino que daria igualmente errado esperar protagonismo dele em Cleveland.

No começo da década, a discussão sobre quem era o melhor armador da NBA passava pelos nomes de Chris Paul, Rajon Rondo, Derrick Rose e Deron Williams. Na temporada passada, o Cavs apostou no último para ser uma mera opção no banco de reservas – e mesmo assim não deu certo. Não vejo motivos para Rose ocupar um espaço muito maior no elenco do que Deron ocupava.

É importante lembrar também que as características do jogo de Rose são bem peculiares. O jogador não é um distribuidor de bolas, não defende bem e não tem arremesso de três pontos – um fundamento muito explorado em Cleveland. Seu jogo depende muito da explosão física e do ataque à cesta – o que justifica em boa parte a sua queda de rendimento após as lesões.

Se o Cleveland Cavaliers e sua torcida tiverem consciência de que o papel a ser desempenhado por ele será limitado, o casamento pode dar certo. Se a expectativa for de algo a mais, a chance de decepção é consideravelmente grande.

Os possíveis destinos de Kyrie Irving

Não sou muito afeito a isso, mas dado o terremoto causado pelo anúncio de que Kyrie Irving pediu para ser trocado e a falta de notícias na liga neste período do ano, fazer um exercício de achismo total sobre o destino do jogador pode ser divertido.

Antes de analisar quais times poderiam se interessar numa troca por Kyrie, qual deles deveriam realmente se esforçar em uma negociação e o que poderia seduzir o Cleveland Cavaliers, é preciso fazer um esclarecimento muito importante – que muita gente tem ignorado por aí: Irving NÃO TEM poder sobre o seu futuro neste contrato atual (que vai até 2019). O Cavs é que decide para onde ele vai e SE vai para algum lugar. Por mais que o jogador tenha supostamente indicado alguns destinos de sua preferência, o que vai determinar esta negociação é qual o melhor troco que o Cleveland consegue.

O fato de Carmelo Anthony estar nas conversas para trocas há algum tempo pode causar alguma confusão neste sentido. O ala do Knicks tem uma cláusula em seu contrato dizendo que ele não pode ser trocado sem sua ciência e aprovação. Na prática, ele que escolhe se e para onde pode ser negociado. Mas pouquíssimos jogador têm termos deste tipo nos seus contratos – e Kyrie não é um deles. Logo, tudo depende da conveniência e boa vontade do Cavs.

Bom, sobre as suposições a seguir, lembrem que é só um exercício completo de achismo. Como vocês verão, acho bem difícil que saia algum negócio. Portanto, todas as propostas de trocas são absolutamente hipotéticas. Ah, e não considerei trocas envolvendo três times para não entrar em um espiral infinito de possibilidades.

Vamos às hipóteses que eu considero mais realistas:

Continua no Cleveland

Por mais que o jogador tenha pedido a negociação, o time pode não seguir esta recomendação. A verdade é que não sabemos o exato teor da conversa e como anda a relação do jogador, colegas e franquia. Não se sabe o quão urgente é essa saída, por exemplo. Com as trocas de Jimmy Butler, Paul George e Chris Paul, os nomes mais interessantes disponíveis já foram realocados, reduzindo as possibilidades do Cleveland conseguir algo de valor equivalente em troca.

Mesmo em um cenário em que Kyrie quer sair para se antecipar a um movimento do Lebron no ano que vem, acho que o mais prudente seria tentar segurar o grupo junto por mais uma temporada. Ir para o tudo ou nada. Um improvável título poderia mudar as coisas de cenário, também. Não vejo muito risco para o Cleveland apostar nisso.

New York Knicks

Dentre os times preferidos de Irving, o Knicks é o menos ameaçador para o Cavs. Logo, seria mais inteligente privilegiar a franquia, caso fosse mesmo atender o pedido do armador. Também atenderia melhor a vontade de Kyrie de ser dono do time, além de formar uma dupla animadora com Kristaps Porzingis. A chance de rolar jogo aqui é convencer Carmelo a ir para Cleveland – os reports dão conta que hoje o jogador está determinado a ir para Houston.

O desafio maior seria fazer os salários baterem, já que Irving recebe menos que Anthony e o Cavs está absolutamente afogado além do limite salarial – portanto, não pode receber contratos maiores do que os que está enviando. Neste caso, precisaria envolver mais jogadores no rolo.

Coloquei aqui Iman Shumpert na negociação. Ele perdeu algum espaço no time na última temporada e seria ‘muito Knicks’ repatriar um cara desse tipo em algum momento. Mas poderia ser qualquer outro cara desse calibre.

Chicago Bulls

Bom, aqui vou seguir o raciocínio de que o Cleveland iria preferir mandar Kyrie para times que não o ameaçam. Usando como critério que Lebron James MEIO QUE MANDA no Cavs e quer jogar com seus amigos, uma troca possível seria com o Bulls pelo Dwyane Wade. Não acho que seria a negociação mais inteligente para qualquer um dos lados, mas dá para imaginar uma reunião entre os jogadores ainda saudáveis do Big3, assim como acharia bem provável o Bulls fazer algo bem incoerente com seus últimos movimentos (que no caso seria pegar mais um point guard).

Wade também recebe um salário maior do que Kyrie, o que demandaria algum ajuste para que a negociação saísse do papel. Como os contratos são mais parecidos, qualquer troco do Cavs já seria suficiente.

Denver Nuggets ou Phoenix Suns

Acho possível que o Cleveland tope conversar com algumas equipes, digamos, ‘periféricas’ da conferência Oeste. Denver e Phoenix são dois times que estão bem empenhados em se reforçar e a adição de ‘star power’ poderia elevar consideravelmente o patamar das equipes.

O Suns tem sido envolvido em várias suposições, muitas delas em trocas de três times. O nome mais cotado para sair do time, neste caso, é Eric Bledsoe. Além dele estar meio descontextualizado no atual elenco do Suns – que tem duzentos jogadores sub-21 -, acredito que teria um encaixe interessante ao lado de Lebron. Seria um downgrade para o Cavs na armação, mas também uma oportunidade de se reforçar na defesa e pensar em um esquema diferente para parar o Golden State Warriors.

Para compensar as coisas, simulei a ida de Dragan Bender para Cleveland, já que tornaria a proposta bem mais interessante para o time. Como o jogador não performou o esperado nos primeiros meses de jogo, acho que seria a aposta mais dispensável do Suns.

Vejo o Denver Nuggets mais ou menos na mesma situação. O time quer muito um armador e tem muita gente para, eventualmente, formar um pacotão para o Cavs. A vantagem aqui é que o Denver tem bastante gente nova e com contratos baratos para oferecer. Caso o front office do Cleveland sinta que é inevitável a saída de Lebron no ano que vem, seria um primeiro passo interessante para formar um elenco jovem e promissor para o futuro sem ter que passar por um traumático processo de tanking.

Ajuda o fato que Nuggets e Cavaliers já vinham se falando para uma possível troca envolvendo Kevin Love. Logo, é possível que alguns atletas do Colorado interessem ao Cavs.

Miami Heat ou Milwaukee Bucks

Seria bem irônico o desmoronamento do Cleveland passar por Miami. Por mais que eu não acredite que o Cavs vá entregar seu segundo melhor jogador para um rival assim, este é um dos destinos preferidos de Kyrie, então é preciso ao menos considerar a possibilidade.

Só consigo imaginar alguma coisa saindo aqui se o Heat mandasse Goran Dragic e algum dos seus jovens talentos. Como desprezo completamente Josh Richardson e Tyler Johnson, simulei aqui com Justise Winslow, um desejo hipster de vários times da NBA quando entrou na liga, mas que passou boa parte da última temporada lesionado. Mesmo assim, não acredito numa troca assim.

Coloco no mesmo bolo o Milwaukee Bucks porque o time é um rival direto do Cavs que seria automaticamente alçado ao posto de favorito no Leste caso Kyrie desembarcasse por lá. Considerando o fato que o time não tem armadores que sejam do mesmo nível do resto do elenco, acho que o Milwaukee gostaria de contar com Irving no time.

A pegada aqui é dar alguma juventude ao Cavs, em um esquema parecido ao que fiz com o Denver – sem que o Bucks abrisse mão das suas principais apostas para o futuro. Não acho provável, mas…

San Antonio Spurs e Minnesota Timberwolves

Por fim, fecho a lista de especulações (que saíram da minha cabeça exclusivamente) com dois dos times que completam a lista de preferências de Kyrie. Acho até plausível que o Cavs considere mandá-lo para a conferência Oeste, mas a chegada do armador a qualquer uma destas equipes poderia fazer delas rivais reais do Golden State Warriors, tirando do Cleveland o posto de segunda melhor equipe da liga.

O Minnesota tem o empecilho que Jeff Teague, novo armador do time, só pode ser trocado em dezembro – e não vejo muita possibilidade de uma negociação sair ali sem envolvê-lo. Em todo caso, dá para brincar imaginando algo meio surreal levando Andrew Wiggins ao time que o draftou há três anos. Acho que seria ruim para o Cavs e não seria algo da vontade do Wolves, mas não consigo pensar em outra coisa – o time de Minneapolis não colocaria Towns ou Butler no negócio, acho.

Fiz uma troca meio nada a ver considerando que Wiggins está negociando uma extensão gigantesca de contrato e os valores salariam podem mudar nos próximos dias.

Spurs é outro time que vem sendo cotado nas conversas. Não acho que Irving, apesar da qualidade, seja o armador dos sonhos da franquia e nem que o cenário ao lado de Kawhi seja o mais apropriado para um cara que quer ser franchise player. Em todo caso, o time parece que tem ouvido propostas por Lamarcus Aldridge e uma mudança neste sentido não seria a coisa mais absurda do mundo – apesar de muito improvável.

Por tudo dito acima, apesar das propostas, acho bem difícil que Kyrie saia já. Mas é um bom assunto para ocupar o vazio da offseason.

A cabeça de Kyrie Irving

Os sinais já tinham sido dados há algum tempo. O mais claro deles quando Kyrie Irving desafiou a física, a lógica e a inteligência de todos ao dizer que acreditava que a Terra não era redonda, mas plana. Não é possível que a cabeça desse cara funcione normalmente.

Essa foi a única conclusão que eu consegui chegar depois de algum tempo tentando entender o pedido dele para ser trocado do Cleveland Cavaliers. Não torço para o time nem nada, mas fiquei anestesiado com a notícia. Não é nada comum um jogador deste quilate abrir mão de estar em uma das equipes mais fortes da liga. Justamente o contrário. Atletas abrem mão do protagonismo para que possam disputar títulos. Diante de algo tão surpreendente, da notícia mais bombástica da offseason, percebi que não podia escrever algo no calor do momento. Tinha que digerir o que estava rolando para tentar entender a fundo o que acontecia. Sai, bebi, falei com um monte de gente sobre isso e não consegui chegar a qualquer conclusão que não fosse: a cabeça de Kyrie funciona de um modo diferente das dos demais jogadores de hoje.

Segundo os reports, Irving quer sair da sombra de Lebron James. Quer ser o ponto focal de uma equipe. Quer uma franquia só para ele – uma ideia que vai na contramão do que as demais estrelas desta grandeza tem feito, já que a moda hoje é se reunir em supertimes. Vale lembrar que Kyrie já estava no Cavs quando Lebron e Love decidiram se juntar em Cleveland. Por mais que a gente não saiba os meandros da negociação, hoje é possível imaginar que tal reunião nunca estivesse nos planos do jogador. Na época, inclusive, o jogador já tinha assinado uma extensão contratual pelo período e valor máximo. Tinha definido que nos cinco anos seguintes, continuaria numa equipe que lutava pra não ficar entre as piores da NBA. E aparentemente ele estava bem com isso.

Ao pedir para ser trocado, Kyrie coloca seu destino nas mãos de executivos que não estão nem aí para o que ele pensa, mas apenas no que pode ser melhor para o Cavs – ou pelo menos causar menos estrago para o time. Por mais que ele tenha pedido para ir para Spurs, Wolves, Knicks ou Heat, Irving não controla seu futuro. O jogador não tem uma cláusula  de ‘no-trade’ como Carmelo Anthony, que só será envolvido em uma negociação com o seu aval. Se o Cavs quiser, Kyrie pode parar em equipes sem muitas pretensões como Magic, Mavericks, Bulls, por exemplo (dependendo apenas do que cada uma pode dar em troca).

Fazendo este pedido, Irving deixa claro que prefere ser feliz em um time pior, que ele não tem controle nenhum de qual possa ser, com talvez zero chances de vencer, do que ser o segundo jogador em um contender.

Aliás, sobre os possíveis destinos do jogador, não acredito que a franquia iria se desfazer do seu prodígio que ainda está a alcançar seu auge técnico (ele tem só 25 anos!) para reforçar um rival. Lembrem que o Cavs é um time forte (menos, mas forte) sem Kyrie (69% com ele e 68,5% sem nessa segunda passagem de Lebron no time), e até pode abrir mão dele, mas não gostaria de vê-lo jogar em outro postulante ao título. Portanto, vejo menos chances do time despachá-lo para alguns dos mais cotados. E ele deve saber dessa possibilidade.

Bom, há quem diga que a ideia de Kyrie não é jogar sozinho e que ele só quer preservar sua imagem em um eventual desmonte da equipe no ano que vem, quando supostamente Lebron James anunciaria a sua saída do time. Não acredito que seja isso. Ao pedir pra sair, Kyrie já despertou a fúria do torcedor do Cavs. Até aliviou a barra de James, que agora tem um argumento mais razoável para debandar de Cleveland caso a franquia não consiga se manter competitiva. Em última instância, Kyrie vai ser culpado pelos torcedores por ter enfraquecido o time e causado a saída do camisa 23.

Em todo caso, seja qual for o motivo, é diferente de tudo que vimos recentemente. É um movimento totalmente contrário do que o próprio Lebron fez duas vezes, do que Chris Paul pensou ao ir para Houston ou o que levou Kevin Durant para o Warriors. É um pensamento diferente, que talvez esteja além da nossa compreensão.

A fuga para o Oeste é a chance dos times do Leste

Ao que parece, boa parte dos bons jogadores que foram trocados ou assinaram contratos com novos times correram para jogar na conferência Oeste. O titular do All Star Game do ano passado e um dos selecionados para o terceiro All NBA Team deste ano, Jimmy Butler, é a principal novidade do Minnesota Timberwolves. Também estrelar e outrora ‘segundo melhor jogador da conferência Leste’ Paul George foi para no Oklahoma City Thunder. Paul Millsap, discreto porém eficientíssimo e All Star nos últimos quatro anos no Leste, assinou contrato com o Denver Nuggets.

Além das mudanças mais significativas, confirmam esta tese Chris Paul, Jrue Holiday e Blake Griffin, que poderiam mudar de ares (e fuso horário), mas preferiram continuar ‘do lado de lá’ do mapa. Sem contar, claro, nos inúmeros jogadores bonzinhos, médios e médios-pra-ruins que fizeram a troca e congestionaram o Oeste americano, como PJ Tucker, Jeff Teague e Patrick Patterson.

De relevante no movimento contrário, apenas Gordon Hayward trocou o Utah Jazz pelo Boston Celtics. No mais, são todos jogadores do calibre de JJ Redick pra baixo – úteis, mas nada que reequilibre a ordem das coisas.

Na teoria, isso significa que os times do Oeste estão se reforçando: Rockets adicionou mais uma estrela (e boatos dão conta que pode ter Carmelo Anthony ainda), Timberwolves virou uma força, Thunder reforçou o apoio a Westbrook e Spurs deu mais profundidade ao elenco com Rudy Gay. Além disso, Clippers conseguiu repor peças, Kings e Suns mostram alguma evolução e Grizzlies tenta rejuvenescer.

Apesar de achar que o Golden State Warriors ainda é, de longe, o time mais forte da liga e que nenhuma destas negociações chegue a formar um time tão talentoso quanto o atual campeão, acredito que este movimento, na prática, seja benéfico para as maiores potências do Leste. Na verdade vou além: acho que pode ser essa a grande chance de Cleveland Cavaliers e Boston Celtics ameaçarem o reinado do Warriors.

Meu raciocínio é o seguinte: nas condições atuais, a menos que uma macumba muito braba pegue de jeito o Golden State, o time tem pouquíssimas chances de ser vencido por qualquer time. Uma das chances mais reais, ao meu ver, seria se o melhor time do Leste conseguisse chegar à final da NBA com o mando de quadra a seu favor. Com o fortalecimento dos rivais do Oeste e míngua dos times do Leste, isso pode perfeitamente acontecer.

(Winslow Townson-USA TODAY)

É de se esperar que, fora Raptors, Wizards e, talvez, Bucks, os demais times não sejam lá grandes coisas para realmente tirar vitórias, de uma maneira geral, dos dois principais times do Leste. Knicks, Nets, Pacers, Bulls e Hawks estão formando times para levar porrada. Magic e Sixers devem levar bastante chumbo ainda. Pistons, Hornets e Heat devem descolar playoffs, mas não me surpreenderia se tivessem campanhas negativas ou bem próximas do 50% de aproveitamento. Com isso, projetando classificação em um exercício puro de especulação, seria natural que os melhores times do Leste tivessem um acréscimo considerável nos seus números de vitórias – já que times das mesmas conferências jogam o dobro de vezes entre si.

Por outro lado, é de se esperar que o Warriors tenha um declínio no seu número total de vitórias enfrentando uma concorrência muito mais bem armada dia sim, dia não. Neste raciocínio esperançoso por uma competição mais imprevisível, também dá para supor, mesmo que sem base alguma, que o Warriors relaxe um pouco mais na sua corrida de temporada regular (seria a quarta perto da casa das 60 vitórias!).

Para que um dos times do Leste o passasse, seria necessário que nenhum deles entrasse no modo de piloto automático – como fez o Cavs no ano passado, entregando a primeira posição para o Celtics nas rodadas finais.

Ok, assumindo que é possível que um time da outra conferência, mesmo sendo consideravelmente pior do que o Warriors, termine na sua frente, defendo que isso pode ser decisivo para que este mesmo time mais fraco aumente bastante as suas chances de bater o GSW numa série de playoffs com o mando de quadra a seu favor.

Para começar, existe uma vantagem histórica que dá uma boa sustentação a isso. Na temporada regular, o time da casa vence 60% dos jogos. Conforme a competição avança, a vantagem de jogar no seu ginásio é mais visível. Nos playoffs, o time que joga em seu território vence dois a cada três jogos. Nas finais, são três a cada quatro.

Além disso, dá para tirar como base as últimas finais em que Golden State e Cleveland se enfrentaram. Era esperado um confronto consideravelmente equilibrado neste ano, mas as duas lavadas aplicadas pelo Warriors nos primeiros jogos, em casa, fazendo valer o mando, afundaram as pretensões do time de Lebron James e Kyrie Irving. Mais do que o 2 a 0, parecia que não havia competição e que seria necessário um esforço descomunal para que a vantagem do GSW fosse revertida.

Fosse outra a ordem dos jogos, era possível que a série começasse com pelo menos uma vitória para o Cavs, mesmo que o Warriors fosse bastante superior, o que daria uma cara diferente ao confronto – fazendo com que ele fosse até mais competitivo dali em diante.

Não há nenhuma garantia, claro, mas é uma chance das coisas serem um pouco mais equilibradas enquanto o Warriors tiver um time tão sobrenatural. Por mais que seja uma sucessão de fatores que transitam entre a vontade de uma zebra e a possibilidade real (Golden State vencer menos jogos, Cavs ou Celtics ganharem mais, que a diferença seja suficiente para que o mando seja revertido e que isso seja realmente relevante na final), é um que inegavelmente influencia o jogo.

Só falta que cada um faça a sua parte do combinado.

Warriors não tem que temer a sombra do 3 a 1

A vitória do Cleveland Cavaliers na partida de sexta-feira deu mais do que uma sobrevida à série final da NBA. Retomou um placar que não traz as melhores lembranças ao torcedor do Golden State Warriors. Ano passado, o time da Bay Area vencia pelos mesmos 3 a 1 quando deixou o rival do Leste virar a contagem – a primeira vez na história nestas condições.

A virada foi motivo de chacota o ano inteiro e serve como um argumento para os mais otimistas de que as coisas ainda podem mudar drasticamente na final deste ano. Por mais que ~matematicamente exista esta possibilidade mesmo, as condições deste ano fazem com que uma eventual vitória do Cavs em sete jogos seja uma tarefa praticamente impossível, muito mais complicada do que na temporada passada.

Para começo de conversa, na verdade o Cleveland precisa reverter uma vantagem que começou em 3 a 0, algo que nunca aconteceu na história dos playoffs – não só em finais, como a virada do ano passado. É algo muito, mas muito difícil de acontecer em qualquer circunstância. Especialmente contra o time do Golden State Warriors, que não perde quatro partidas seguidas desde março de 2013.

Para se ter uma ideia de quanto tempo isso não acontece com o time, naquela época o técnico do Warriors era Mark Jackson, o segundo melhor jogador do elenco era David Lee e Draymond Green era um calouro vindo do segundo round com 3 pontos e 3 rebotes de média. Richard Jefferson fazia parte do time e Andre Iguodala ainda nem tinha sido contratado.

Se isso não rola desde que o Golden State era um time ainda em formação, imagine hoje, com Kevin Durant jogando em um patamar de MVP e com uma formação no seu auge. Bem difícil de se imaginar.

Também é preciso olhar para os quatro jogos que já aconteceram na série. Em dois deles o Cavs simplesmente não teve chance de vencer. Em outro a disputa foi pau a pau e no último tudo deu certo para Lebron e companhia. Para vencer o Warriors, é preciso que o último caso se repita por mais três vezes, o que é bastante improvável.

Não que o Cleveland não tenha capacidade de fazer mais jogos com mais de 20 cestas de três e tudo mais, mas é preciso lembrar que um a performance de um time não depende apenas dele, mas da sua capacidade versus a habilidade do rival em atrapalhá-lo, algo que o Golden State faz com primazia. É bem possível que o Cavs consiga mais um jogo muito bom enquanto o Golden State não tenha reação, pode acontecer até duas vezes, mas é difícil imaginar isso acontecendo mais três vezes em sequência.

Por fim, o jogo 5 acontece em Oakland, casa do Warriors, ainda com um clima relativamente tranquilo para os mandantes. Ano passado também deveria ter sido assim, não fosse a ausência de Draymond Green – melhor jogador do Golden State naquelas finais. Uma pressão bem diferente caso a série se encaminhe para um jogo 6 em Cleveland ou para uma partida derradeira com a competição empatada.

A história já nos ensinou que o imponderável toma conta das finais, que tabus são quebrados quando ninguém espera e que não dá para duvidar de Lebron James. Mas o 3 a 1 deste ano é bem diferente do 3 a 1 do ano passado.

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