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Durant não fugiu da história, só a escreveu à sua maneira

No dia em que Kevin Durant anunciou que se juntaria ao Golden State Warriors, eu fiz um texto aqui revoltado com a decisão. Naquele momento, eu estava triste que meu jogador preferido tinha escolhido se reunir com o time que tinha o derrotado. Que ele preferia o título a uma história que parecia ser mais fascinante.

Mas seria fascinante para quem? Para mim, sem dúvidas, seria muito mais legal ver uma dupla tipo Batman e Robin enfrentando os times superpoderosos da NBA e os derrubando um a um. Ver uma caminhada heróica de dois jogadores, dois amigos, que cresceram juntos como atletas e logo estariam prontos para conquistar a glória máxima. Mas para ele talvez fosse mais uma história digna de filme de heróis do que propriamente uma possibilidade real.

Por mais que o Oklahoma City Thunder tenha verdadeiramente ameaçado o Golden State Warriors no campeonato do ano passado, a quase vitória parece mais um ponto fora da curva, um evento circunstancial, do que uma tendência. Curry e companhia já formavam um time absurdamente bom que dificilmente seria batido por uma equipe com um basquete tão simples como aquele Thunder.

Por mais que eu ainda ache que um título não é (ou pelo menos não deveria ser) determinante para nós, torcedores, reconhecermos definitivamente se um jogador teve sucesso na sua carreira ou não, é preciso, para começo de conversa, considerar que para ele isso pode ser, sim, a coisa mais importante da sua vida. Portanto, se Durant achava tão necessário para sua carreira ser campeão e não via uma maneira disso acontecer em Oklahoma, é legítimo – por mais que eu ou você discordemos – que ele tenha ido para o Warriors.

Mas eu vou mais além nesse processo de empatia. A gente não sabe o que rola no dia a dia de um time, como são as relações dos jogadores, como eles se sentem nas organizações em que trabalham e tudo mais. Se há um ano parecia que Westbrook e Durant eram uma dupla inseparável, os relatos que sucederam a saída de Kevin do Thunder mostraram um cenário bem diferente, em que Russell era próximo de todos os jogadores do time e Durant não passava de uma referência técnica, mas com pouca afinidade com os caras na vida extra-quadra.

A sua trajetória no Warriors também mostra que seu talento pode ser muito melhor aproveitado se usado em um esquema coletivo, de muitos passes, muita movimentação sem a bola – algo que não acontecia no ex-time. Não difícil imaginar que, independente de título, Durant era um cara mais ‘realizado’ profissionalmente, que tinha mais prazer em jogar com seus colegas de Golden State do que com Westbrook.

Por mais que ele ganhe milhões e que seu trabalho seja jogar bola, existem situações que podem fazer disso uma tarefa não muito prazerosa – ou melhor, uma mudança de ares pode fazer desse trabalho muito melhor. Não digo que ser jogador de basquete deva ser encarado como um trabalho qualquer, como o meu ou o seu, mas que existem fatores muito mais corriqueiros do que nós imaginamos. E que eles influenciam a tomada de decisões.

Tudo isso para dizer que eu na época fiquei muito frustrado com a escolha, como vejo que a maioria esmagadora das pessoas ficou, mas que a gente não pode tomar como base apenas a parte da história que nós achamos que conhecemos. Mais do que isso, não podemos minimizar o feito absurdo realizado por Durant – com um super time ‘apelão’, mas contra outro super time ‘apelão’ com Lebron James, Kevin Love e Kyrie Irving. Hoje, Kevin Durant é o melhor jogador do melhor time da NBA – e um daqueles que entram na discussão para ser um dos maiores da história!

Ao ir para a Bay Area, Durant não ‘escolheu se escondeu da história’, como eu mesmo disse há quase um ano. Ele só resolveu marcar seu nome na história de outra forma – como MVP das Finais, como campeão da NBA… -, talvez diferente da que muita gente queria. E aparentemente ele está mais feliz com o desfecho do que com a nossa opinião sobre tudo isso.

Um era pouco

Depois de uma série final irretocável, o Golden State Warriors se sagrou o campeão da NBA. O time varreu todos os seus adversários do Oeste, venceu de maneira incontestável o baita time do Cleveland Cavaliers (desta vez completo), e confirmou, com o segundo título em três anos, que este é um dos grandes times do basquete dos últimos tempos.

Não vou entrar no mérito da comparação se este ou aquele time é o melhor da história, se é top3, se venceria o time de não sei lá quando – essa é uma outra discussão para depois -, mas é fato que, diante de todas as marcas que este Golden State atingiu, de todos os jogadores que reuniu, a forma como jogou e ganhou, um título seria pouco. Por tudo que esse time fez, era essencial, até obrigatório, que Curry e companhia fossem campeões de novo. Pelo reconhecimento que merecem.

Quando falo das realizações do GSW atual, não me refiro apenas aos vários recordes quebrados (de vitórias totais numa temporada, vitórias seguidas, vitórias em três temporadas e etc). Mas falo sobre toda a mudança provocada no estilo de jogo.

O Golden State Warriors retomou um fundamento básico, primário, do basquete de que este é um jogo sobre fazer cestas, sobre eficiência ao colocar a bola no aro antes de qualquer coisa. E mostraram que é possível jogar com atletas fora dos padrões de suas posições se eles provarem que conseguem pontuar.

Que, para não depender dos estereótipos, basta ter um time que saiba se movimentar no ataque e na defesa de maneira inteligente para ocupar todos os espaços da quadra, que a bola corre mais do que as pernas e que o arremesso de três pontos vale mais do que o de dois (dã!).

Não que Steve Kerr e seus comandados tenham inventado estes conceitos e estilo de jogo, mas foram os melhores a executá-los. E, se um título já não parecia mais suficiente para que todos entendessem isso, dois deixam as coisas um pouco mais claras.

Não torço para o Warriors, mas, pensando neste legado, eu fico satisfeito com o resultado. Deixemos as comparações com os outros grandes times da história, as críticas ao fato de Kevin Durant ter se juntado ao time e as ponderações sobre o futuro de uma possível dinastia para daqui a pouco. Agora é hora de reconhecer a importância de mais um título para um time dominante e inovador. E que um time com Stephen Curry, Durant, Klay Thompson, Draymond Green e Andre Iguodala tinha que ser mais do que uma vez campeão.

Warriors não tem que temer a sombra do 3 a 1

A vitória do Cleveland Cavaliers na partida de sexta-feira deu mais do que uma sobrevida à série final da NBA. Retomou um placar que não traz as melhores lembranças ao torcedor do Golden State Warriors. Ano passado, o time da Bay Area vencia pelos mesmos 3 a 1 quando deixou o rival do Leste virar a contagem – a primeira vez na história nestas condições.

A virada foi motivo de chacota o ano inteiro e serve como um argumento para os mais otimistas de que as coisas ainda podem mudar drasticamente na final deste ano. Por mais que ~matematicamente exista esta possibilidade mesmo, as condições deste ano fazem com que uma eventual vitória do Cavs em sete jogos seja uma tarefa praticamente impossível, muito mais complicada do que na temporada passada.

Para começo de conversa, na verdade o Cleveland precisa reverter uma vantagem que começou em 3 a 0, algo que nunca aconteceu na história dos playoffs – não só em finais, como a virada do ano passado. É algo muito, mas muito difícil de acontecer em qualquer circunstância. Especialmente contra o time do Golden State Warriors, que não perde quatro partidas seguidas desde março de 2013.

Para se ter uma ideia de quanto tempo isso não acontece com o time, naquela época o técnico do Warriors era Mark Jackson, o segundo melhor jogador do elenco era David Lee e Draymond Green era um calouro vindo do segundo round com 3 pontos e 3 rebotes de média. Richard Jefferson fazia parte do time e Andre Iguodala ainda nem tinha sido contratado.

Se isso não rola desde que o Golden State era um time ainda em formação, imagine hoje, com Kevin Durant jogando em um patamar de MVP e com uma formação no seu auge. Bem difícil de se imaginar.

Também é preciso olhar para os quatro jogos que já aconteceram na série. Em dois deles o Cavs simplesmente não teve chance de vencer. Em outro a disputa foi pau a pau e no último tudo deu certo para Lebron e companhia. Para vencer o Warriors, é preciso que o último caso se repita por mais três vezes, o que é bastante improvável.

Não que o Cleveland não tenha capacidade de fazer mais jogos com mais de 20 cestas de três e tudo mais, mas é preciso lembrar que um a performance de um time não depende apenas dele, mas da sua capacidade versus a habilidade do rival em atrapalhá-lo, algo que o Golden State faz com primazia. É bem possível que o Cavs consiga mais um jogo muito bom enquanto o Golden State não tenha reação, pode acontecer até duas vezes, mas é difícil imaginar isso acontecendo mais três vezes em sequência.

Por fim, o jogo 5 acontece em Oakland, casa do Warriors, ainda com um clima relativamente tranquilo para os mandantes. Ano passado também deveria ter sido assim, não fosse a ausência de Draymond Green – melhor jogador do Golden State naquelas finais. Uma pressão bem diferente caso a série se encaminhe para um jogo 6 em Cleveland ou para uma partida derradeira com a competição empatada.

A história já nos ensinou que o imponderável toma conta das finais, que tabus são quebrados quando ninguém espera e que não dá para duvidar de Lebron James. Mas o 3 a 1 deste ano é bem diferente do 3 a 1 do ano passado.

Um resultado conveniente – e nada mais do que isso

Se ainda parece muito provável que o título do Golden State Warriors é só uma questão de tempo, a vitória do Cleveland Cavaliers foi bastante útil para confirmar e renovar algumas convicções sobre a série, os times e jogadores envolvidos.

Golden State Warriors não é imbatível
O time finalmente perdeu depois de muito tempo (meses!). É ainda um fato que o Warriors é a melhor equipe da liga, tem o melhor grupo de jogadores e o estilo de jogo mais eficiente nos dois lados da quadra, mas uma noite ou outra nem tudo vai dar certo para eles – nos últimos jogos ficou marcada a impressão exagerada de que nunca mais alguém poderia bater este time junto numa série de playoffs. Vai ser difícil, mas pode acontecer, sim. Nem mesmo a ida de Kevin Durant faz do time invencível – uma conclusão que talvez não faça muito mais sentido para o campeonato deste ano, mas importante para a competitividade das próximas temporadas.

Cleveland Cavaliers também é um supertime
Foram 49 pontos marcados no primeiro quarto e 86 até o intervalo, duas marcas inéditas para as finais da NBA e das maiores na história da liga em qualquer situação. Um aproveitamento nos chutes insano, um volume de jogo surreal. Não se faz isso por acaso. O Cavs também é um time com muito talento reunido. Seu trio de estrelas é um dos melhores da liga na década, seu banco reúne vários bons jogadores que só se juntaram à franquia para tentar ganhar um título também. O resultado é um time excelente – que esquecemos por um tempo o quão bom era por causa da sequência de derrotas para o Golden State.

Cavs se torna competitivo acertando seu jogo de sempre
A diferença de qualidade entre os dois times existe, mas não é tão gritante quanto os três primeiros jogos fizeram parecer. Até agora, o Cleveland não tinha conseguido mostrar algumas das suas principais ferramentas, como uma artilharia pesada da linha dos três pontos. Conseguiu no jogo 4. O time acertou 7 de 12 arremessos da zona morta, de onde vinha tendo um aproveitamento pífio na série final. Foi mais físico no ataque, forçando a ida para a linha de lance livre. Conseguiu recuperar mais rebotes ofensivos. Forçou turnovers do rival. Conseguiu se desvencilhar da defesa do Warriors no perímetro. Enfim, jogou como deve jogar.

Lebron James para a história
Nas estatísticas, Lebron James já tem feito uma performance monstruosa. Anotou mais um triple-double, confirmando sua média na final com mais de 10 rebotes, assistências e pontos por partida – primeira vez na história – e ultrapassando Magic Johnson no número total de vezes que alguém atingiu este statline em jogos de final, com 9. Mas mais do que isso, protagonizou uma daquelas jogadas que entrará para a história da NBA, assim como foi aquele toco em Andre Iguodala no ano passado, mas que ainda não tinha sido feita na disputa deste ano: deu um passe para si mesmo, jogando a bola na tabela, para enterrar no meio da defesa do GSW. O lance é genial porque não foi apenas plástico. Foi um recurso mesmo. Ao infiltrar e segurar a bola para passar, viu que nenhum companheiro seu estava livre. Em uma fração mínima de segundos viu a brecha de jogar a bola na tabela para ele mesmo fazer a cesta. Uma jogada que, com certeza, vai figurar nos tapes de melhores de todos os tempos das finais.

Ainda não acho que o resultado de sexta sirva para mais coisas além disso. Na prática, e mais importante de todos, ainda não é suficiente para que o título do Warriors seja ameaçado.

Um problema na zona morta

Mesmo que hoje já pareça claro que o título do Golden State Warriors é só uma questão de um ou dois jogos, é preciso reconhecer que o Cleveland Cavaliers apresentou alguma evolução dos jogos 1 e 2 para o jogo 3. Fora toda a qualidade ofensiva e defensiva do Warriors, todo o poder de decisão de Kevin Durant, tudo que Stephen Curry está jogando e a qualidade defensiva de Klay Thompson, o Cleveland não estava jogando o seu melhor basquete – e é até natural que as virtudes do GSW façam com que isso aconteça com seus rivais.

Nos dois primeiros jogos da série, a timidez de Kyrie Irving e os coadjuvantes do Cavs foi um problema claro. A falta de convicção se era necessário desacelerar ou não também não ajudou. Mas quando o time resolveu apostar no ataque agudo em transição e Kyrie apareceu para decidir, o jogo foi pau a pau. Decidido em detalhes.

Um destes detalhes foi a falta de eficiência do time nas bolas da zona morta. No jogo em Cleveland, o Golden State Warriors acertou 5 dos 7 arremessos do canto da quadra. O Cleveland Cavaliers meteu 2 de 18.

A disparidade é emblemática: o Cavs tentou muito dali justamente porque pintaram várias oportunidades excelentes ao longo da partida, com jogadores completamente livres – fruto de trocas de passes e contra ataques eficientes do time, tirando a defesa do GSW da bola -, mas mesmo assim JR Smith, Kevin Love, Kyrie Irving, Deron Williams e os demais não se cansaram de errar.

A falta de eficiência neste tipo de chute nesta época do ano explica muito sobre a dificuldade do time em ter jogos parelhos com o Warriors. Primeiro que os chutes dali são naturalmente, por essência, mais ‘fáceis’ que os demais – a linha é mais próxima da cesta e muitas vezes a bola chega antes do marcador, com mais espaço para quem chuta.

Segundo que esta tinha sido uma arma amplamente usada com muita eficiência pelo Cleveland ao longo de toda a temporada. A equipe foi a única de todas as 30 da NBA a arremessar mais de 10 bolas por jogo da zona morta e a fazer mais do que quatro cestas, em média, por partida dali. Tinha o mérito de ter o sétimo maior aproveitamento (40,8%) num volume brutalmente superior aos demais.

Nas finais contra o Warriors, o desempenho despencou. Continuou chutando mais de 10 bolas por partida dali (foram 34), mas acertou residuais 8 tentativas, com um aproveitamento pífio de 23,5%. No último jogo que fosse, se tivesse acertado duas ou três bolas a mais – teve mais chances do que isso completamente livre e ainda assim teria um desempenho médio muito abaixo do normal – o resultado da partida teria chances imensas de ser outro.

Neste caso, repito, nem acho que seja mérito da defesa do Warriors, pois o Cavs teve muitas chances sem marcação, em que a marcação do GSW não conseguiu acompanhar a troca de passes ou que chegou muito atrasada. Foi deficiência dos jogadores do Cleveland mesmo.

Se a batalha da série final já seria difícil para Lebron e companhia fazendo o que estão acostumados, ficou impossível de ser superada com esse tipo de erro.

Eu, pessoalmente, não consigo pensar o que causou isso. Só sei que custou boa parte da competitividade das finais.

Golden State Warriors é isso aí

Os 180 segundos finais de partida resumem todo o poder de fogo do Golden State Warriors de hoje: o time estava perdendo, a torcida estava ensandecida, Kyrie Irving vinha jogando tudo que não tinha jogado na série inteira, mas bastaram algumas posses para que a partida fosse decidida em favor do time californiano.

É sempre assim. Tem sido com o Cleveland, foi com o Spurs e seria contra qualquer outro rival. Não importa o que façam, o quão bem joguem, que tudo dê certo. A facilidade com que o Warriors pontua e se mantém vivo no jogo é surreal. E ao longo de 48 minutos de partida, em algum momento, o time vai abrir uma sequência de pontos, ficar sem tomar e desgarrar no placar.

Nas primeiras duas partidas da série isso tinha acontecido no terceiro quarto, quando em ambas as oportunidades meteu mais de 30 pontos, fez run de alguns minutos pontuando sem resposta do rival e abriu vantagens de uns 15 pontos.

No último jogo a coisa só ficou um pouco mais emocionante porque a sequência matadora veio nos minutos finais. O Cavs estava com a maior chance em toda a série de reequilibrar a disputa, vencendo por 113 a 107 a três minutos do final da partida. Aí então o GSW meteu 9 pontos sem resposta do Cleveland, que confirmaram o 3 a 0 na série e deixam o Cavs respirando por aparelhos na final do campeonato.

Foi cagada do Cleveland, claro, pois podia ter matado o jogo se acertasse uma porção mínima dos inúmeros arremessos de três que teve livre, mas o time cansou de desperdiçar bolas da zona morta que geralmente acerta. Mas é algo que tem que sempre ser contabilizado nas partidas contra o Warriors: se você não aproveitar toda e qualquer oportunidade de pontuar fácil, a conta será cobrada em algum momento da partida.

O aproveitamento nos tiros de longe mostra como o Golden State não deixa escapar suas chances de emplacar bolas que sobram mais fáceis, enquanto o Cavs queima muitas destas oportunidades. O campeão do Oeste meteu 16 de 33 tentativas, enquanto a equipe do Leste dez 12 de 44.

(David Liam Kyle/NBAE via Getty Images)

Kyrie Irving e Kevin Love, juntos, saíram de quadra com o pífio aproveitamento de 1-14 nos chutes de fora do arco. Kyle Korver, especialista nestes lances (na teoria, ao menos), foi 2-6 de três. Iman Shumpert, Deron Williams e Richard Jefferson não acertaram nenhuma das cinco tentativas.

Do outro lado, Kevin Durant, Klay Thompson e Stephen Curry, juntos,  acertaram 15 de 27 arremessos de fora. Cada um dos três saiu com mais de 50% de aproveitamento neste tipo de chute – foi uma destas cestas no minuto final, de Durant, que virou a partida em favor do Warriors, inclusive depois de um erro de Kyrie Irving num step back.

Com tantos chutadores tão bons e tão afinados, é sempre necessário saber que em algum momento o Warriors vai pontuar e defender muito. Para batê-los, é preciso fazer a diferença – uma diferença, de preferência, grande – no restante do jogo. Mas isso ninguém consegue. Por isso eles estão invictos nos playoffs. Com boas chances de continuarem assim até que ergam a taça.

Dono da quadra

Kevin Durant tem sido, disparado, o melhor jogador das finais da NBA até o momento. Na série com o maior número de all stars dos últimos 30 e poucos anos, o jogador tem o feito de ser o cestinha, o maior bloqueador, o terceiro reboteiro e o segundo com mais assistência entre todos os jogadores dos dois times. Tem decidido os jogos a favor do Golden State Warriors fazendo de tudo um pouco na quadra.

Ao longo da carreira, o jogador já tinha mostrado toda a sua versatilidade: era o armador do Thunder e do próprio Warriors em muitas posses de bola, tem um dos melhores chutes da liga como um bom ala-armador e sabe cair no post como um ala deve fazer. No esquema do Warriors, Durant também se mostrou um bom protetor de aro no garrafão, especialmente cobrindo os jogadores marcados por Draymond Green. Seus 2,10 m e quilômetros de braços já indicavam que ele não encontraria problemas com a nova função.

(Nathaniel S. Butler/NBAE via Getty Images)

E ontem veio a confirmação. No terceiro quarto, com Green carregado de faltas, Steve Kerr colocou Kevin Durant como pivô do time. O jogador já tinha caído várias vezes na posição em trocas defensivas, mas nunca tinha sido escalado como pivô de fato na formação, só com alas menores e armadores ao seu redor. E ele dominou o jogo no único papel do jogo que nunca tinha desempenhado em larga escala.

Na formação Curry, Livingston, Thompson, Iguodala e ele, o Golden State emplatou 14 pontos em cinco minutos e levou a vantagem do jogo a 13, mesmo com Kevin Love e Channing Frye do outro lado, dois jogadores muito mais acostumados com a função.

Defensivamente Durant foi dominante no garrafão.

Os seus números no jogo mostram bem sua atuação eclética. Durant esteve a duas roubadas de bola de fazer um ‘5×5’ – ter pelo menos cinco pontos, rebotes, assistências, roubadas e tocos.

Durant é a cara de uma NBA que busca cada vez mais jogadores versáteis, móveis e leves. Não só tem tudo a ver com o small ball – apesar de não ter nada de ‘small’ no seu tamanho -, como tem o físico que os jogadores buscam nos dias de hoje – coisa inimaginável há 25 anos, quando a força física era um atributo fundamental para o jogo e os jogadores pesados tiravam vantagem dos demais.

A série vai para Cleveland e o time de Ohio precisa, acima de tudo, encontrar uma forma de parar Durant. No ano passado, a reviravolta aconteceu quando o Cavs notou que poderia abrir mão da marcação de Harrison Barnes e Andre Iguodala para anular Stephen Curry, Klay Thompson e Draymond Green.

Com Durant, isso não é possível. Para batê-lo, é preciso encontrar uma forma diferente de jogar. Que ninguém descobriu qual é até agora.

Klay Thompson lá e cá

Uma das grandes dúvidas que surgiram quando Kevin Durant desembarcou na California era como o Golden State Warriors funcionaria com mais um arremessador em quadra. Antes do ala, o time já tinha que jogar em um ritmo insano para que todos seus jogadores (Stephen Curry e Klay Thompson em maior medida, Draymond Green em menor) tivessem bolas suficientes para arremessar. Com Durant, o time teria que correr ainda mais ou então todos teriam que abrir mão de alguns de seus chutes.

A temporada regular foi de adaptação. Durant, como um bom recém-chegado, passou a chutar três bolas a menos do que estava acostumado no Thunder – o que foi compensado por um aproveitamento muito melhor, com mais jogadas de catch and shoot do que isolations. Curry fez seu sacrifício também e cortou, em média, dois arremessos de seu repertório. O mesmo fez Draymond Green.

Somente o papel de Klay Thompson ficou imaculado em um primeiro momento: apenas uma diferença decimal nas médias de chutes, acertos e pontos de um ano para o outro, de uma precisão robótica.

A temporada regular caminhou, o Golden State Warriors foi se acertando e só não funcionou como um grande treinamento ideal para a pós-temporada porque Durant se lesionou por uns 20 jogos. De resto, o time conseguiu emplacar e melhorar seu sistema de jogo e definir bem o papel de cada um dentro do esquema mais fluído da liga.

Isso funciona bem na temporada regular, mas geralmente é um cenário que muda nos playoffs. No mata-mata geralmente os melhores jogadores ficam mais tempo em quadra, chamam mais a responsabilidade e são, naturalmente, mais acionados. Como os confrontos são em série, ajustes específicos também são desenhados, redefinindo um pouco as funções de cada um em quadra.

Assim, Kevin Durant e Stephen Curry passaram a dominar mais a bola. Isso significa menos posses para os demais jogadores, especialmente se o ritmo do time continua o mesmo – é o caso do Warriors, que já tinha um dos esquemas mais rápidos da liga e se manteve assim, com uma média de 100 posses de bola por partida.

Aí que pegou para Klay Thompson: o shooting guard passou a chutar uma média de três bolas a menos por partida, a maior diferença registrada no time. E chutadores como ele tendem a sofrer com um volume menor de oportunidades – foi o caso, já que seu aproveitamento caiu para 36% ao longo do mata-mata.

Seria trágico se o ‘splash brother’ fosse única e exclusivamente um arremessador. Mas, para a sorte de Klay e do GSW, não é o caso. Thompson é um defensor implacável no perímetro. Sua vantagem é de ser alto para a posição (2,01m) e mesmo assim ter uma excelente movimentação lateral. Consegue marcar os armadores rivais – muito melhor do que Curry faria, por exemplo – e dá conta dos alas maiores nas trocas do pick and roll.

Contra o Cleveland Cavaliers, sua presença é fundamental: consegue ser o marcador principal de Kyrie Irving, o point guard que melhor dribla na NBA, e ainda cair na troca com Kevin Love e Lebron James. Possivelmente nenhum outro jogador de backcourt da NBA tem a capacidade de fazer estas duas coisas tão bem.

O primeiro jogo da série entre os dois times mostrou que mesmo péssimo no ataque – não errou só chutes difíceis, mas perdeu bolas a dois palmos da cesta -, Klay é indispensável para ajudar a segurar o ataque feroz do Cavs.

O aproveitamento dos rivais enquanto Thompson estava na marcação foi pífio: 11%. Foram nove arremessos na cara de Klay e só um acerto – foi aquela cesta espírita de Kyrie Irving, caindo no chão, para três pontos e mais a falta. De resto, o ala-armador do Warriors foi impecável: forçou dois air ball de Kevin Love, parou Kyrie em quatro bolas, JR Smith em outra e ainda fez Lebron errar na única bandeja em que caíram juntos – e a infiltração de James é, estatisticamente, o arremesso mais seguro da NBA.

Foi, também, o jogador que mais recuperou bolas perdidas para os dois lados: 6 – ajudando não só o Cleveland perder posses (foram 20 no total), bem como o Golden State a ter ínfimos 4 turnovers.

É claro que Klay seria mais útil se estivesse fazendo suas bolas de sempre. Cedo ou tarde, o Golden State também vai precisar dele no ataque – e até por sua capacidade de ser um bom pontuador, o Cleveland não poderá abrir mão de marcá-lo mesmo que a série ruim dele continue. Mas mesmo quando Klay não consegue decidir lá, é um jogador importante cá.

Ainda vai dar jogo. Eu acho

O resultado do jogo de ontem, com o Golden State Warriors vencendo o Cleveland Cavaliers por 113 a 91 não foi dos mais animadores para quem esperava (ou torcia por) uma série equilibrada, com os times buscando a vitória ponto a ponto. Depois da lavada, a sensação é que há mais chances de acontecer o que todos temiam – uma varrida do Golden State.

Um alento para que ainda tenhamos uma série competitiva, no entanto, é a série final do ano passado: nos sete jogos entre os dois times, apenas o último teve uma diferença menor do que 11 pontos. Em dois deles, inclusive, a diferença foi igual ou superior a 30 pontos.

Isso acontece por que as duas equipes tem ataques muito fortes, baseados, principalmente nos arremessos de longa distância – e nestes casos, é comum que o ritmo e a cadência do jogo levem a uma sequência de vários acertos ou erros seguidos, decidindo a partida em poucos minutos bons ou ruins dos times.

Ontem foi mais ou menos isso que aconteceu. Especialmente na primeira metade do terceiro quarto de partida. Foram dois minutos em que o Warriors meteu 13 pontos seguidos sem resposta do Cavs, acabando com o jogo mesmo com mais de 20 minutos por jogar.

De resto, enquanto os titulares estiveram em quadra, o jogo teve um relativo equilíbrio. No primeiro quarto os dois ataques começaram mal, muito nervosos, e as duas defesas estavam muito fortes e físicas. No segundo quarto, o Warriors começou a se soltar mais e o Cavs, mais lentamente, começou a acertar suas bolas de sempre. O time do Oeste abriu dez pontos, mas o Cleveland ainda estava na partida.

Além destes dois minutos em que tudo deu certo pra um e errado para o outro, o Cleveland não cuidou bem da bola (foram 20 turnovers cometidos contra apenas 4 forçados do rival) . Isso fez com que o Warriors pudesse fazer 20 arremessos a mais do que o Cavaliers – é quase como se um time tivesse um período a mais de partida disponível para pontuar. Nestas condições, fica quase impossível vencer.

Além das condições casuais de jogo, isso também é um sintoma de um confronto entre um time que tem uma defesa muito forte e aplicada e outro que vive de lampejos defensivos. O Warriors conseguiu atrapalhar o ataque do Cavs, enquanto a defesa do Cleveland não conseguiu sequer incomodar o rival.

Mesmo assim, acho que ainda podemos ter bons jogos e uma série disputada. O ataque do Cleveland é excelente e pode muito bem emplacar sequências tão massacrantes quanto o Warriors fez no jogo 1 – fez isso no ano passado várias vezes contra o próprio Warriors, fez inúmeras vezes neste ano contra todos os rivais possíveis.

Ainda teremos uma série disputada. Eu acho.

[Previsão dos Playoffs] Final da NBA: Warriors x Cavaliers

Jogo 1 – Qui.  1 de junho,  Cleveland @ Golden State, 22h (ESPN)
Jogo 2 – Dom.  4 de junho,  Cleveland @ Golden State, 21h (ESPN)
Jogo 3 – Qua. 7 de junho,  Golden State @ Cleveland, 22h (ESPN)
Jogo 4 – Sex.  9 de junho,  Golden State @ Cleveland, 22h (ESPN)
Jogo 5 * Seg. 12 de junho,  Cleveland @ Golden State, 22h (ESPN)
Jogo 6 * Qui. 15 de junho, Golden State @ Cleveland, 22h (ESPN)
Jogo 7 * Dom. 18 de junho,  Cleveland @ Golden State, 21h (ESPN)

Temporada regular: 1×1

Palpite: Golden State em 7

O cameponato deste ano foi muito bacana, uma série de histórias legais, feitos históricos e tudo mais. Mesmo assim, parece que foram meses de espera por um tira-teima histórico: a terceira final consecutiva entre Cleveland Cavaliers e Golden State Warriors.

O ponto alto do confronto é que aparentemente as duas equipes se enfrentarão em no auge da técnica e sem contratempos de lesão – nos últimos dois anos, cada vez uma equipe foi prejudicada por ausência de alguns dos seus principais jogadores. Agora, o Golden State chega mais experiente, tranquilo e com o reforço incomparável de Kevin Durant. O Cleveland também está bem, com Lebron James jogando o melhor basquete da sua carreira, Kevin Love finalmente à vontade e Kyrie Irving sendo decisivo como sempre.

Acredito que nestas condições, o pico do Warriors é ligeiramente superior ao do Cavaliers, o que faz pender a balança do favoritismo para o time californiano. É verdade que na decisão do ano passado o potencial do Golden State já era superior ao do Cleveland, mas acho que a pressão por fazer uma temporada épica, com o maior número de vitórias da história não ajudou na hora do mata-mata decisivo. Neste ano, o time veio em ritmo de cruzeiro  – e mesmo assim não perde há meses.

Kevin Durant é um reforço que não pode ser menosprezado. Até se machucar, o ala estava jogando um basquete digno de MVP, com a maior precisão e eficiência ofensiva e maior impacto defensivo da sua carreira.

No ano passado, a inoperância de Harrison Barnes foi um dos fatores que levou o Cleveland à virada – a tática de deixar o jogador descaradamente livre na intenção de anular outras ameaças mais perigosas do Warriors funcionou e, mais do que isso, perturbou o time do Golden State. Na troca de Barnes por Durant, saiu o poste para entrar o gatilho.

Curry e Durant, ao invés de dividirem a bola, estão multiplicando as oportunidades de pontuação. Os dois se encaixaram mais rápido do que se imaginava. Juntos, o time cria mais oportunidades de arremessos livres e equilibrados, o que aumenta consideravelmente as chances de acerto dos chutes.

O entrosamento tem sido benéfico até para Draymond Green, que já era decisivo na defesa, mas vem tendo um desempenho ofensivo impecável nas últimas séries.

Para que o time emplaque seu esquema com primazia, falta apenas que Klay Thompson apareça um jogo ou outro. O jogador não tem passado pelo seu melhor momento, mas é uma ameaça constante no perímetro – especialmente diante uma defesa não muito dedicada do Cleveland Cavaliers.

Esta, inclusive, é a deficiência que faz com que o time de Ohio esteja um passo atrás na disputa. O ataque não tem muitos problemas. Por mais que a defesa do Warriors seja excepcional, Kyrie Irving, Kevin Love, Lebron James são os jogadores com mais recursos técnicos para vencer a barreira adversária. Channing Frye, Kyle Korver e os demais reservas do time também são letais. Mas, no saldo, é mais difícil que a defesa do Cavs atrapalhe o ataque rival do que o contrário.

Um caminho para o Cavaliers é desacelerar o jogo com a bola na mão. Diminuir o número de posses de bola e levar as partidas em um ritmo que não favorece tanto o rival. Fechado, com posses de bola longas e marcações ‘on ball’, a ineficiência pontual da defesa do Cavs fica muito menos evidente – e chega a favorecer Tristan Thompson, Lebron James e JR Smith.

E, por fim, o que torna a disputa ainda mais imprevisível, apesar da vantagem coletiva do Warriors, é a presença de Lebron James com a camisa 23 do Cavs. Mesmo que Curry, Kyrie, Durant ou seja lá mais quem sejam excelentes, Lebron é de outro mundo. Nestes momentos, então, ele faz ainda mais diferença.

Eu acho que teremos pelo menos seis jogos. Torço muito por sete. Acho que dá Warriors.

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