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[Previsão 17/18] Lakers: a esperança (e a pressão) chamada Lonzo Ball

A história do Los Angeles Lakers tem uma marca bem definida: a franquia é feita de grandes estrelas. Com a aposentadoria de Kobe Bryant, o time parecia desorientado no seu processo de reconstrução. Tinha bons valores, finalmente encontrou um técnico que parece decente, mas não parecia ter aquele jogador com banca suficiente para carregar o fardo de super estrela da equipe.

Dos garotos mais talentosos do time, D’Angelo Russell era o que melhor vestia a capa da responsabilidade. Ao mesmo tempo, nunca conseguiu convencer a todos de que ele era esse cara mesmo. Foi aí que meteram o botão shuffle em LA e decidiram que precisaram repensar os planos da equipe. Isso aconteceu justamente com a chegada de Magic Johnson, atro-mor da história da franquia, para comandar o front office.

Magic, armador lendário da liga, parece que tinha a mesma desconfiança em relação a Russell e entendeu que não seria ao seu redor a construção de um novo Lakers, pós-Kobe. Trocou D’Angelo com a promessa de trazer algum craque na próxima offseason e draftou o calouro Lonzo Ball, jogador mais hypado da liga no momento sem sequer ter pisado em quadra ainda.

Como a vinda de um Lebron James, Paul George ou sei lá de mais quem ainda é só uma promessa para daqui um ano, o projeto mais real de craque que o Lakers aposta para o momento é o seu calouro.

Por um lado, a experiência será válida. Lonzo chega com toda a pressão possível sobre seus ombros num teste de fogo para ver se tem cacife para um dia ser uma lenda da franquia, como seu pai diz que é.

Por outro, pode ser que essa mesma pressão seja um limitador do talento de um garoto tão jovem que ainda tem uma carreira inteira pela frente.

Offseason
O time abriu mão de D’Angelo Russell e Timofey Mozgov em troca de Brook Lopez e espaço na folha salarial em um futuro próximo. Lopez é um excelente jogador no ataque, um dos melhores pontuadores no garrafão, que agora resolveu chutar de fora. Não sei se o time pretende ficar com ele por mais tempo, mas ao menos por essa temporada, tem tudo para ser o cestinha do time e formar uma dupla divertida com Julius Randle.

(Elsa/Getty Images)

Time Provável
PG – Lonzo Ball/Tyler Ennis
SG – Kentavious Caldwell-Pope/ Jordan Clarkson/Josh Hart
SF- Brandon Ingram/ Luol Deng / Corey Brewer
PF- Julius Randle /Larry Nance Jr / Kyle Kuzma
C- Brook Lopez/ Ivica Zubac

Expectativas
É de se esperar um time mais competitivo em quadra, mas não muito acima na tabela do que se viu no ano passado. A regra desta temporada é essa: no Oeste, só vai se dar bem quem for muito bom. Não é ainda o caso do Lakers. Individualmente, dá para esperar muita pressão sobre Lonzo Ball – e caso ele corresponda minimamente isso, dá pra imaginar que ele seja um dos grandes personagens da temporada.

Lendas Urbanas da NBA: Como Magic Johnson está vivo se é HIV positivo há 25 anos?

Para muita gente, mais chocante do que o anúncio de que tinha contraído o vírus da Aids em pleno auge da carreira é o fato de Magic Johnson, 25 anos depois, ainda estar vivo. Por não dar nenhum sinal aparente da doença, fugir do estereótipo dos portadores do vírus (especialmente naquela época em que muita gente era ignorante sobe o tema) e ter tido um filho HIV negativo mesmo depois de ter sido infectado, há uma lenda que diz que o ex-armador do Lakers foi curado após uma viagem ao Quênia, em que visitou um bruxo que trabalha com ervas terapêuticas que tirou o vírus do seu corpo.

Para entender a loucura conspiratória é preciso voltar um pouco no tempo. Magic anunciou que tinha o vírus no começo dos anos 90, quando as pessoas ainda estavam descobrindo a epidemia da Aids. Até aquele momento, para a maioria esmagadora das pessoas o HIV era um vírus exclusivo de gays e viciados em drogas. Muita gente sequer imaginava que era possível um que um atleta, homem, heterossexual pudesse ser infectado – Johnson admite que até foi por isso, por essa ignorância, que acabou contraindo o vírus, pois não achava que era necessário se proteger.

O próprio anúncio de Magic foi feito em meio a uma tensão de desconhecimento, como se ele fosse morrer por causa da doença em poucos meses ou anos. Ninguém sabia dos riscos e muito menos das consequências. E o histórico dos casos não era animador mesmo. Mas ele venceu todos estes prognósticos.

As teorias já tinham algum corpo por Magic não ser gay e por ser uma pessoa querida por todos – e muita gente se recusava a aceitar que a Aids poderia acometer qualquer pessoa e não somente aquelas de um grupo marginalizado à época. Elas ganharam mais coro ainda quando se soube que nem sua esposa, Cookie, e nem seu filho, EJ, que nasceu depois disso tudo, eram HIV positivo.

Para completar, Magic Johnson não deu nenhum sinal de abalo na sua saúde desde então. São duas décadas e meia convivendo com o vírus, mas sem sinais da doença – pelo menos para a gente, que vive à distância e não acompanha seus cuidados, hábitos e eventuais dificuldades.

Por mais que o mito sobre a Aids tenha sido esclarecido e só gente bem ignorante ainda não entende como ela funciona, que todos estão sujeitos ao perigo e tal, há um coro que pergunta: como um cara teria Aids, não passou para a mulher, teve um filho sem o vírus e continua vivendo ‘numa boa’ duas décadas e meia depois?

Uma história surgiu há algum tempo que Johnson teria viajado ao Quênia para se encontrar com um curandeiro que teria arrancado o vírus do seu corpo e por isso nunca deu nenhum sinal da doença. Um outro cara, chamado Dr. Sebi, também alega ter curado Magic Johnson – junto com John Travolta e Eddie Murphy, que eu nunca soube que tinham Aids, mas tudo bem.

O próprio Magic desmente tudo isso. Ele, como porta-voz do combate ao HIV, garante que não está curado simplesmente por não existir uma cura ainda – e de um modo bem responsável sempre alerta para o risco eminente do vírus. O lance é que Magic sempre foi um cara saudável e que, milionário que é, teve acesso aos melhores e mais desenvolvidos tratamentos que existem – é, inclusive, garoto-propaganda de um laboratório. Por fim, Magic parece fazer parte de um grupo de portadores do vírus chamado LTNP, que ficam com o HIV armazenado no corpo durante muitos anos, mas sem se manifestar. Não é um privilégio exclusivo do jogador.

Mas claro que há quem duvide de tudo isso. Como há quem ache que a Aids foi uma doença criada pelo governo americano para controlar a população e exterminar alguns grupos de pessoas. Tem de tudo no mundo. Uma pena.

‘Tampering’: o que é, por que virou notícia e no que pode dar?

É o assunto da semana: o Indiana Pacers acusou o Los Angeles Lakers de ter negociado com Paul George enquanto o jogador ainda estava sob contrato com o time de Indianápolis, uma prática chamada ‘tampering’ e que é proibida pela liga. A NBA acatou a denúncia e está investigando o caso, apesar de já adiantar que não encontrou nenhuma evidência mais concreta logo de cara.

Na teoria, nenhum time pode tentar aliciar, convencer ou até mesmo, em certa medida, contactar qualquer jogador, técnico ou executivo que esteja sob contrato com outra franquia. A liga pode aplicar punições, como multas, perdas de picks no draft e até bloqueio de transações, ao time que fizer isso.

O que o Indiana Pacers alega é que o contato do Lakers com Paul George fez o jogador manifestar o interesse em sair assim que seu contrato terminasse e, com isso, jogar seu valor de troca no chão. Com isso, o time acredita que recebeu muito pouco em troca quando negociou seu atleta. Tudo porque ele estaria já acertado com o time de Los Angeles e nenhuma equipe queria pagar o que ele valia para ter só um ano dos seus serviços.

Apesar do Pacers ter aceitado a proposta que quis – ninguém obrigou o time a negociar George por Victor Oladipo e Domantas Sabonis -, eu entendo que o time tenha se sentido prejudicado. PG é um atleta sensacional e sua saída, dessa forma, foi uma porrada em qualquer pretensão da franquia para o futuro. No entanto, eu duvido muito que isso vá dar em alguma coisa.

As razões são várias. Primeiro que é muito, mas muito difícil provar que efetivamente aconteceu algo. Jogadores, executivos e agentes se falam o tempo todo. É muito complicado afirmar que um contato aqui ou ali aconteceu dentro ou fora das regras. Se fossemos levar a lei da liga ao pé da letra, todos os times teriam que ser punidos dezenas de vezes a cada temporada, quando, na prática, são raríssimos os casos de punição. Na real, só acontecem quando os envolvidos admitem o ‘tampering’.

(Richard Mackson-USA TODAY Sports)

O simples fato da NBA proibir mas assumir que nunca inicia uma investigação por conta própria já dá o tom do posicionamento diante dos casos – a liga só abre um processo mediante uma denúncia. Na história, poucos casos relevantes tiveram um desfecho mais grave – como o Miami Heat que perdeu uma escolha de draft por ter aliciado Pat Riley a se juntar ao time enquanto ainda era técnico do New York Knicks. Em geral, são multas pagas em valores que sequer são divulgados.

A prática é tão comum e suas consequências são tão desprezadas que na maioria dos casos ninguém dá bola. Neste ano, Draymong Green admitiu que ao perder para o Cleveland Cavaliers na temporada retrasada, ligou para Kevin Durant e o convenceu a se juntar ao Golden State Warriors. Depois de um frenesi inicial, ninguém mais deu a mínima.

O caso envolvendo Lakers-George-Pacers só tomou o noticiário com alguma proporção mais volumosa porque é offseason e, passado o período de assinatura de Free Agents e engavetado o pedido de Kyrie Irving para ser trocado, ninguém tem nada de mais interessante para falar – este blog é um exemplo disso, risos. Claro, o fato de ser o Lakers amplifica um pouco as coisas.

Por mais que nunca tenha rolado, a regra permite punições mais severas do que as conhecidas. Existe a possibilidade até do time e do jogador ficarem impedidos de assinarem contrato, caso a liga entenda que houve o aliciamento e que foi grave a este ponto. Mas diante de todas as alternativas e do histórico, esta é a mais improvável.

No final das contas, se o Los Angeles Lakers e Paul George combinaram algo, o mais provável é que o acordo seja confirmado no ano que vem, com o ala assinando com o time californiano. Sem punições.

O técnico e o executivo

Doc Rivers deixará de ser ‘presidente das operações de basquete’ do Los Angeles Clippers para se dedicar única e exclusivamente à função de técnico da equipe. Há algumas semanas, o mesmo aconteceu com Mike Budenholzer no Atlanta Hawks. As decisões são acertadas: não acho saudável que uma pessoa concentre tanto poder para decidir os rumos de uma franquia.

O acumulo de funções faz sentido até um ponto. É verdade que não há sinergia maior entre comissão e front office se o chefe de ambos é a mesma pessoa. Incontestável que a situação também não deixa margem para dúvidas sobre quem é o responsável real pelo sucesso ou fracasso da montagem e execução do elenco. Mas, ao meu ver, as vantagens param por aí. De resto, o clube só tem a ganhar quando são duas pessoas em cada um dos postos.

Vou usar um exemplo bem oportunista, mas que é o mais didático possível. Quem está mais errado: o executivo Doc Rivers que contrata o filho, com histórico duvidoso na liga, ou o técnico Doc Rivers, que o coloca para jogar mais do que o próprio elenco acha saudável (a ponto de, dizem, ser um dos motivos pelos quais Chris Paul se encheu da franquia)?

Sempre odiei Austin Rivers e, admito, me surpreendi com sua evolução nas últimas duas temporadas, mas considerando que sua qualidade ainda é questionável, imagino fossem presidente e técnico do time pessoas diferentes, a escolha por assinar com o jogador e colocá-lo em quadra não seria tão contestada (para dizer o mínimo) – afinal, teria passado pelo crivo de duas pessoas e pelo menos uma delas não seria o pai do cara. Ou, caso contrário, nem aconteceria: Austin não seria contratado ou seria ignorado pelo técnico.

(Jerome Miron-USA TODAY)

Dá para falar o mesmo dos milhares de ‘role players’ veteranos que em determinado momento assinaram com o time. Glen Davis, Paul Pierce, Josh Smith, Lance Stephenson… chegaram, cada qual em seu momento, como ‘a peça que faltava’ para o time deslanchar e na melhor dos cenários não conseguiram ajudar em quase nada a equipe – boa parte deles chegou a atrapalhar, na real.

No Atlanta, a situação de Budenholzer tem suas coincidências com a de Rivers: como executivo, ele não foi capaz de capitalizar com as saídades de Jeff Teague, Paul Millsap e Al Horford, apostou mal em Dwight Howard e só conseguiu um trocado muito baixo…

Tanto Doc, quanto Mike fizeram trabalhos interessantes, mas falharam na hora na tarefa de fazer com que Hawks e Clippers se tornassem ameaças reais aos seus principais concorrentes. O time da Georgia se confirmou como freguês fácil do Cleveland Cavaliers e a equipe californiana nunca conseguiu passar da segunda rodada dos playoffs. Agora, enfrentarão reformulações nos seus elencos e suas pretensões – e só uma parte disso continuará nas mãos de Rivers e Budenholzer.

No fundo, eu não acho que um cara seja tão pica a ponto do time precisar tanto dos seus serviços nas duas funções. A única exceção que eu posso aceitar é para Gregg Popovich, que vem conduzindo as duas funções com sucesso há quinhentos anos no San Antonio Spurs e é possivelmente o cara que mais entende de basquete na face da Terra – mas, mesmo neste caso, acho conceitualmente errado.

Não me parece certo nem eficiente que o cara que avalia o trabalho do treinador seja o próprio treinador, por exemplo. Que ele seja chefe dele mesmo. Este é um tipo de papel que pode funcionar numa atividade em que, sei lá, o cara só depende dele para mostrar seu talento, produzir seu trabalho. Mas numa função em que você gerencia um monte de gente, media vários egos complicados e tudo mais? Uma atividade que é essencialmente conjunta? Não rola.

Acho que os donos de times – que não são caras que entendem da coisa, mas enfim – se tocaram disso e estão, aos poucos, se livrando das figuras super-controladoras. Phil Jackson passou no RH do Knicks mês passado (era presidente do time e queria impor suas convicções à comissão técnica) e Pat Riley cada vez apita menos nas decisões de dentro de quadra diante de um Erik Spoelstra com cada vez mais moral. Stan Van Gundy, que ainda acumula as funções no Detroit Pistons, não está com essa bola toda depois que o time ficou de fora dos playoffs e viu seus dois principais jogadores – e duas maiores apostas – terem temporadas decepcionantes. O técnico ou o executivo, não sei qual dos dois, está em estado de alerta. Logo, logo pinta alguém para dividir o trabalho com Stan.

E é assim que tem que ser: cada um com sua função, com sua cabeça, colaborando e cobrando o sucesso do outro.

Muitos egos para um só time

O pedido de Kyrie Irving para ser trocado surpreendeu a quase todo mundo. Eu, por exemplo, escrevi aqui que não conseguia entender a cabeça do jogador. Muita gente, assim como eu, ficou sem compreender nada. Mas, no fundo, não deveria ser assim. O fim traumático do relacionamento de estrelas que dividem o mesmo time é frequênte. Na verdade, é mais comum que supertimes terminem com cada um indo para um canto em uns três ou quatro anos do que eles irem se desmanchando naturalmente, sem ressentimentos.

O roteiro quase sempre segue a mesma linha: dois ou três jogadores se reúnem para tentar ganhar, os egos inflam, alguém fica decepcionado com a repercussão das coisas e os caras brigam. As principais histórias parecem uma versão realmente interessante daquela poesia: Penny Hardaway tretou com Shaquille O’Neal (no Magic) que tretou com Kobe Bryant (no Lakers) que tretou com Dwight Howard (também no Lakers) que tretou com James Harden (no Rockets) que agora se juntou a Chris Paul e sabe lá até quando estarão ‘de bem’.

Mas é bem isso mesmo. Shaq e Penny Hardaway formavam a dupla mais empolgante da NBA. Um era o jogador mais dominante do esporte, o outro era o principal candidato a substituir Michael Jordan – que tinha se aposentado pela primeira vez. Em três temporadas, o casamento acabou com O’neal forçando a barra para fugir do companheiro.

No time seguinte, foi a vez de Kobe Bryant, uma estrela emergente, dar o ultimato. Os dois venceram três campeonatos seguidos, mas no último deles a situação já estava insustentável. A dupla ainda se manteve junta por mais duas temporadas, mas não resistiu à derrota para o Detroit Pistons – quando estavam acompanhados de Karl Malone e Gary Payton numa parceria que deu errado para todos os envolvidos.

Anos mais tarde, Kobe também não aguentou a união com Dwight Howard. Mesmo machucado, o jogador infernizou o pivô – que não tem a melhor cabeça do mundo – até o final da temporada. Resultado, na temporada seguinte Dwight saiu praticamente fugido de Los Angeles para Houston, encerrando uma parceria que foi anunciada como a ‘nova dinastia do Lakers’.

No Rockets, Howard também passou perrengue. Na última temporada, com o time implodindo, Harden e o pivô não conseguiam mais conviver. Parecia que nenhum dos dois mais queria jogar, só queriam, em quadra, mostrar que o motivo do insucesso do time era a presença do outro no elenco.

Mas os casos vão além dessa ciranda: Stephon Marbury não quis mais jogar com Kevin Garnett no Timberwolves, Ray Allen se desentendeu com o restante da turma em Boston, Sottie Pippen e Charles Barkley não se aguentavam mais em Houston… Todas as parcerias começaram muito bem, se diziam muito promissoras (algumas até de fato deram resultados excelentes), mas em algumas temporadas simplesmente evaporaram em meio à guerra de egos.

Levando em conta o principal motivo que faz com que estes caras se reúnam – ganhar um título -, a dissolução do Cleveland Cavaliers atual deveria ser ainda menos impressionante. O time já foi campeão em condições bem desfavoráveis, valorizando a conquista de cada um – Kyrie Irving especialmente, já que foi o autor da cesta do título.

Uma vez que a missão tenha sido cumprida, nada mais segura o jogador junto aos outros. No máximo, a sede por outros títulos – que pode ser menor do que a vontade de ser o melhor jogador em outro time, tomando outros ares. Em um cenário em que o roubo do título do Golden State Warriors parece uma tarefa cada vez mais difícil, é bem plausível que estes caras precisem de outras motivações para jogar.

Pela frequência tão intensa de desavenças entre estrelas é de se louvar supertimes que duraram mais do que a média. Não é comum times ficarem quase uma década juntos, como Los Angeles Lakers e Boston Celtics dos anos 80. Ainda que ambos tenham enfrentados alguns problemas de relacionamentos (Magic foi fritado pelos colegas no começo da sua carreira e Cedric Maxwell chegou a fazer a coisa desandar no Celtics em determinado momento), os núcleos principais de cada time conseguiram resistir ao tempo.

O mesmo dá para dizer do Chicago Bulls dos anos 90, que era uma bomba relógio ambulante, mas que conseguiu conter os ânimos dos jogadores por um bom período – talvez a grande virtude de Phil Jackson, técnico do time na época.

No momento, o Golden State Warriors é o grande exemplo. A exceção que confirma a regra. Não só Klay Thompson, Draymond Green, Andre Iguodala e companhia toparam manter os papéis de coadjuvantes de Stephen Curry em nome de uma sequência de temporadas vitoriosas, como Kevin Durant, uma estrela ainda maior, se juntou ao time – e sempre que pode, enaltece o clima entre os jogadores.

O quanto essa lua de mel vai durar é uma incógnita, mas ao que tudo indica a relação está saudável o suficiente para que não seja possível imaginar um desmanche no time, como é o que parece que vai acontecer com o Cleveland Cavaliers e que tantas vezes já rolou ao longo da história.

Lonzo Ball era o que faltava ao Lakers

Por mais que sejam percepções alimentadas por clichês e mitos, é inegável que algumas franquias têm personalidades muito bem definidas. Os melhores times do Boston Celtics contam com talentos improváveis que tem algo a provar para o resto do mundo, o San Antonio Spurs parece ser viciado em discrição e eficiência, o Detroit Pistons tem uma aversão a grandes estrelas, que é compensada pelo jogo duro e coletivo. E por aí vai. O Los Angeles Lakers, por sua vez, tem uma característica muito simples: é movido a grandes estrelas.

Não quer dizer que o time vai bem, não quer dizer que os caras dão sempre certo, mas não existe um time do Lakers minimamente memorável que não tenha um cara diferente dos demais quando o assunto é chamar a atenção. É a gasolina do time. Ele vive disso. Se por algum motivo em algum determinado período a franquia não contou com um cara assim, esqueça: são anos que serão jogados na lixeira amarela e roxa da mediocridade.

Neste aspecto, Lonzo Ball era tudo que o Lakers precisava para ter alguma chance de mudar de rota, encerrar o processo de tanking e começar a pensar em evoluir daqui em diante. Não entro nem no mérito do quanto o menino joga – por favor, vamos com calma, Summer League não quer dizer nada e aquelas enquetes sobre quantos MVPs ele vai ganhar na carreira são uma atrocidade -, mas na capacidade que tem de atrair os holofotes.

Parece algo que acontece naturalmente com ele – e, claro, impulsionado por um pai maluco que quer muito aparecer. Só ver o buzz das últimas duas semanas: em primeiro lugar, só se falava da sua performance. Em segundo, do tênis que usava.

Lonzo surge na liga com o carimbo do Lakers na testa, assim como aconteceu com Magic Johnson e Kobe Bryant – de novo, sem comparar o jogo, mas o hype -, que mal vestiram a camisa mais vencedora da California e viraram ídolos instantâneos. Assim como acontece hoje com Ball, Magic e Kobe já eram verdadeiras estrelas antes mesmo de virarem grandes jogadores. Chamavam toda a atenção quando ainda eram adolescentes cheios de espinhas – neste caso em especial Lonzo já superou as duas lendas do Lakers, com mais acne do que qualquer jogador do time em todos os tempos.

Toda essa repercussão, aliás, confirma que finalmente o núcleo essencial do time que foi amargamento reconstruído ao longos das últimas temporadas está formado. Era este selo que faltava a D’Angelo Russell, Brandon Ingram e Julius Randle, por exemplo. Todos aparentemente com muito talento, mas insuficientes para recuperar o protagonismo que a franquia sempre esteve acostumada.

O primeiro pré-requisito foi preenchido. Agora que, com o tempo, confirme tudo que se espera dele dentro de quadra.

Chris Paul e James Harden podem jogar juntos?

Acabou de ser confirmada a troca que leva Chris Paul para o Houston Rockets. O jogador avisou a direção do Los Angeles Clippers que assinaria contrato com o time do Texas e, para que o time não saísse sem nada em troca com o final do contrato, acabou chegando a um acordo com Paul de que assinaria por mais um ano com o jogador e imediatamente o mandaria para Houston em troca de Patrick Beverley, Lou Williams, Sam Dekker e uma escolha de primeiro round do próximo draft.

A negociação saiu barato para o Rockets, é muito verdade, mas diante da possibilidade de uma debandada geral do time – capitaneada por Paul, mas já indicada por Blake Griffin e nas sondagens de troca de Deandre Jordan – era o que dava para fazer já que CP3 tinha escolhido seu destino. Era conseguir alguma coisa do Houston ou sair sem nada.

A grande questão agora é saber como Chris Paul e James Harden, dois jogadores que dominam a posse de bola enquanto estão em quadra, vão jogar juntos.

Mesmo quando era um shooting guard ainda, James Harden já era um cara que carregava as bolas além da conta. Na posição antiga, era um ‘buraco negro’ (recebia a bola, quebrava o ritmo e partia para a cesta quando bem entendia). Na nova, nesta temporada, era quem ditava a velocidade de um esquema insano de contra-ataques.

Chris Paul, da mesma forma, nunca jogou sem a bola na mão. Se notabilizou como O MELHOR armador clássico da liga. É um cara que carrega as bolas, chama as jogadas e alterna o ritmo como um comandante do time. Quase que todos os movimentos em quadra estão condicionados aos seus atos.

Os dois lideraram a liga em porcentagem das assistências totais dos seus times e estão há anos no topo da liga em ‘usage rating’. Harden nunca jogou com um armador de nível parecido – o melhor foi Russell Westbrook, que não era ainda nem sombra do que é hoje. Chris Paul também nunca teve um colega na armação tão capaz e centralizador – o mais próximo disso foi dividir a bola com o ‘peladeiro’ Jamal Crawford.

Mas do jeito que as coisas se desenharam, é de se esperar, no mínimo, que ambos estejam muito empenhados para que isso dê certo.

Paul escolheu o Rockets e disse que iria para lá sabendo que o time é de Harden e joga de uma maneira bem característica. Mais do que isso, abriu mão de 11 milhões de dólares na negociação – poderia abocanhar um contrato muito maior se tivesse assinado como free agent com qualquer franquia.

O barba seguiu a mesma linha. Reports dão conta que Harden trabalhou intensamente nos bastidores para convencer Chris a ir para o seu time e, paralelamente, para que o front office do Rockets se mexesse para que a negociação saísse do papel. Fez tudo isso sabendo que Chris Paul é um armador que joga com a bola nas suas mãos o tempo todo.

Digo isso porque qualquer análise que considere as características de ambos deve ser ponderada pela vontade que os dois mostraram em jogar juntos. Logo, é provável que se esforcem para que dê certo, mesmo cada um precise mudar sua maneira de se comportar em quadra.

Na prática – e levando esta ponderação em consideração -, imagino um Chris Paul razoavelmente menos ativo e influente. Pode até ser um desperdício contratar o jogador para emplacar a correria promovida por Mike D’Antoni e ficar ao lado de Harden enquanto ele bate bola, mas confio que o armador é inteligente o suficiente para poder se sair bem neste tipo de situação. No último ano de Vinny Del Negro como técnico do Clippers (segundo de Paul pela franquia), o time era um dos mais rápidos da liga e um dos que mais fazia pontos em contra-ataques. Chris Paul é bom para isso também.

Ambos também são excelentes chutadores. Isso é essencial para que ambos tenham oportunidades de se movimentarem fora da bola e terem melhor chances ainda de arremessar de fora.

Por fim, tirar a bola das mãos de Harden é fundamental em alguns momentos, já que foi o líder disparado em desperdícios de bola na temporada. Ele deve entender isso, já que pediu a adição de Paul ao time.

Será necessário um período de ajuste, com certeza, mas acho que ambos estão dispostos a ceder. E ambos são bons o suficientes para que possam jogar em papéis significativamente diferentes.

Preparando o terreno

O Los Angeles Lakers conseguiu chacoalhar mais o mercado da NBA do que a troca da primeira escolha do draft entre Boston Celtics e Philadelphia 76ers. Com a explícita intenção de limpar a folha salarial para a próxima offseason, o time angelino mandou seu armador titular D’Angelo Russell e o pivô Timofey Mozgov para o Brooklyn Nets em troca do pivô Brook Lopez e da 27ª escolha do draft deste ano.

A troca pode parecer estranha, já que o Lakers vinha em um processo gradual de evolução, apostando todas as fichas em um time equilibrado formado via draft e Russell era o jogador que tinha sido escolhido com a pick mais alta do time nos últimos anos (foi o segundo em 2015, atrás somente de Karl Anthony Towns). Mas a verdade é que o desempenho de D’Angelo, a oferta abundante de armadores na turma do draft deste ano e a manifesta vontade de Paul George jogar pelo time no ano que vem fizeram a franquia mudar os planos de uma hora para a outra.

O que aconteceu, mais detalhadamente, foi o seguinte: há dois dias, Adrian Wojnarowski, insider do Yahoo que antecipa 99% das notícias quentes da liga, soltou que Paul George não renovaria com o Indiana Pacers ao final da próxima temporada e que seu destino preferido era o time roxo e amarelo. O anúncio fez meio mundo se mexer. O Indiana foi ao mercado ouvir propostas pelo jogador e muitos times procuraram o Pacers oferecendo trocas.

Acontece que o seu valor de mercado ficou limitado com a notícia de que quer ir para Los Angeles na temporada que começa em 2018 – em tese, George jogaria apenas um campeonato por qualquer time e na próxima offseason sairia de graça para assinar com o Lakers. Nisso, ficaram na briga apenas times que teriam condições de ‘alugar’ George por um ano para brigar pelo título agora.

Paralelamente, o Lakers viu que teria que se coçar. As possibilidades seriam duas: persuadir o Pacers para uma troca agora e garantir o jogador ou abrir espaço na folha salarial para seduzir George ano que vem, além de sinalizar que poderia montar um time competitivo ao seu redor – o receio é que PG13 mude de ideia ao participar de um projeto vencedor em outra cidade, escolha alguma outra franquia neste meio tempo e desista do seu plano inicial.

Aparentemente o time da Califorina fez algumas propostas ao Indiana, mas não conseguiu tirar George de lá – por enquanto, ao menos. Sem êxito, partiu para a segunda fase do plano e resolveu se livrar dos contratos mais incômodos do elenco. Timofey Mozgov é um deles.

O pivô russo foi uma das contratações mais bizarras do ano passado. Por mais que o novo limite salarial tivesse aumentado, pagar 15 milhões ao ano para ele era um desperdício nítido – eu falei sobre isso há um ano. Pior é que seu contrato ocuparia parte da folha angelina por mais três anos. Se o Lakers quer ir atrás de jogadores de peso, como o próprio George ou até Lebron James (dizem que pode ser um destino do jogador…), a limpa tinha que ser feita já.

Acontece que ninguém estaria disposto a pegar um abacaxi destes sem mais nem menos. O time precisava, então, colocar algum ‘ativo’ minimamente atraente no pacote para chamar a atenção das outras franquias. Aí que entra D’Angelo Russell.

O armador vivia uma pressão grande no time: era o que carregava a maior expectativa de um dia virar craque e, ao mesmo tempo, era o que despertava as maiores dúvidas. Randle já consegue ser mais consistente – tanto nas qualidades quanto nos defeitos. Ingram ainda conta com o benefício da dúvida. Russell, coitado, não desencantou como o staff do time esperava.

Se ainda é cedo para decretar se o jogador não é tudo aquilo, o Lakers tem a vantagem de ter a segunda escolha em um draft lotado de point guards. O mais bem cotado deles para a posição, já que Markelle Fultz será escolhido pelo Sixers, é Lonzo Ball. Na dúvida entre um e outro, o time escolheu abrir mão daquele que conhece e melhor – e pode saber que dali não sai muito mais coisa -, aliado à conveniência de usa-lo como fiel da balança na hora de se livrar do contrato horroroso de Mozgov.

De quebra, o time recebe uma escolha de primeiro round, que sempre teu seu valor na hora das trocas, e Brook Lopez, que é aquele pivô que ninguém vai brigar para ter (não defende nada, não pega rebotes), mas que quando está no seu time, é uma peça muito útil (é um excelente pontuador e que agora se tornou um chutador de três decente). Se vingar, combinar com o time e se sair bem, pode renovar na próxima temporada. Se não, são mais 22 milhões que saem da folha do time.

Particularmente, achei uma movimentação interessante. Posso estar sendo injusto e impaciente, mas não vejo um potencial tão grande em Russell. Acho que vale a pena arriscar a aposta em um point guard do draft e tentar persuadir Paul George. D’Angelo é, no máximo, uma estrela em potencial. George é uma de fato. Por fim, sou fã de Lopez – mesmo com todos os defeitos que tem.

É provável que o Lakers não pare por aí. Luol Deng é outro ‘elefante na sala’ da franquia e o LAL ainda tem alguns valores para despachar em busca de um cenário mais favorável na próxima temporada. No fundo, o time só quer preparar o terreno para atacar agressivamente o mercado na próxima temporada. Pode dar muito certo, como pode dar muito errado.

O bom e o mau exemplo

Em toda a história da NBA, apenas três times varreram três times até alcançar a final do campeonato: o Los Angeles Lakers de 1989, o mesmo Lakers de 2001 e o Golden State Warriors deste ano.

Levando em conta única e exclusivamente o que aconteceu na série final, contra o vencedor do Leste, os dois Lakers são exemplos completamente distintos do que pode acontecer com o Warriors atual.

O time de 1989 era uma máquina. Chegava à sua oitava final em dez anos. Era a terceira consecutiva depois de um bicampeonato. Tinha vencido cinco títulos da NBA neste período. Apesar de ser o segundo período mais vitorioso da história de um time de basquete americano, atrás somente do domínio do Boston Celtics nos anos 50 e 60, o grande legado do time foi ter emplacado um estilo de jogo diferente, baseado no improviso. Prezava pela velocidade, em uma época em que o jogo começava a ficar cada vez mais lento e cadenciado. E diferente da correria das décadas passadas, pregava o envolvimento coletivo de todos em quadra, com troca de passes e movimentação intensa sem a bola. Foi batizado, conhecido e mundialmente reconhecido como “showtime”.

A turma de Magic Johnson, James Worthy e Kareem Abdul Jabbar já estava junta há um bom tempo, tinha conquistado de tudo e naquele ano, pela enésima vez, impunha seu estilo de jogo perante os rivais. Varreu sem dó Blazers, Sonics e Suns.

Com tempo de sobra enquanto esperava a definição do rival do Leste, resolveu se preparar para o pior. No ano anterior, tinha vencido do Detroit Pistons em sete partidas, sofrendo com o jogo brutal do rival. Como o time de Michigan era o favorito para reeditar a final, o Los Angeles Lakers resolveu treinar por uma semana para a pancadaria que se anunciava. A ideia era ajustar o ‘showtime’ para a pegada ‘bad boy’ do Pistons.

A experiência foi tão desastrosa, que Magic Johnson e Byron Scott se machucaram nas preparações – pesadíssimas e que nada tinham a ver com o que o Lakers estava acostumado – e o time angelino foi varrido pelo rival do Leste, mesmo sendo a primeira franquia da história a chegar às finais passando por três rounds invicto.

Já o time de 2001 teve melhor sorte. Apesar de também imbatível nos playoffs, o arranjo com Shaquille Oneal e Kobe Bryant tinha muitas diferenças se comparado com o escrete ‘purple&gold’ de 89: era um time ainda em evolução e ainda estava afirmando o esquema dos ‘triângulos ofensivos’ de Phil Jackson. O treinador havia sido contratado há duas temporadas para tentar impor o modelo que tinha sido dominante nos tempos de Chicago Bulls, além de mediar os talentos e, principalmente, os egos de Kobe e Shaq.

A caminhada até as finais foi bem mais desafiadora: ao invés de times muito jovens e inexperientes, como encontrou a equipe de 89, os rivais do Lakers da virada do milênio foram cascudos. Um Portland que, apesar do sétimo lugar na temporada regular, teve 50 vitórias. O elenco era veteraníssimo: dez jogadores tinham nove anos ou mais de liga, além de Avrydas Sabonis, que estava na NBA há menos tempo, mas já tinha ganhado o mundo por clubes soviéticos e espanhóis.

Depois, foi o Sacramento Kings, principal rival daquele Lakers. Chris Webber, Doug Christie, Peja Stojakovic e Vlade Divac formavam o grupo mais marcante da história recente da franquia, que possivelmente só não descolou um título porque enfrentou a dupla Kobe e Shaq por três anos consecutivos (e em duas vezes levou a disputa até a última partida da série).

Por fim, a caminhada para o título do Oeste foi finalizada contra o San Antonio Spurs, com a dupla Tim Duncan e David Robinson. O time texano estava nos primeiros anos do seu período mais vencedor e naquela temporada tinha registrado a melhor campanha da conferência – foi também o primeiro time nestas condições a ser varrido dos playoffs.

Na final, o Lakers enfretou o Philadelphia 76ers, que tinha única e tão somente Allen Iverson no seu elenco – naquela época, possivelmente o jogador mais decisivo do planeta, mas que não podia confiar muito na colaboração ofensiva dos seus colegas.

O Sixers surpreendeu a todos e venceu o Lakers em Los Angeles na partida inaugural da série. Mas foi só isso. Apesar dos esforços do Pequeno Notável, o LAL sobrou nos jogos seguintes e confirmou o favoritismo com um 4-1 convincente.

O Golden State Warriors chega à final em condições que podem ser comparadas aos dois Lakers. Assim como o time de 89, mostra uma identidade de jogo marcante, muito coletivo e que se impõe na NBA de hoje. Também passou por um caminho relativamente simples ao longo dos playoffs e, para seu azar, vai enfrentar uma equipe muito forte na final. E, comparando com o time de 2001, também foi bem sucedido ao colocar dois dos maiores talentos jogando juntos sem problemas e tem como principal objetivo na final parar um dos caras mais imparáveis da história do basquete.

Mas mais do que estas coincidências, deve olhas para os exemplos. Um passou o rodo, apesar do baque inicial de perder uma partida para um rival reconhecidamente mais fraco. Impôs seu estilo, reforçou seu ritmo. Outro, apesar da experiência e da qualidade, caiu na pilha do rival. Não conseguiu segurar e foi varrido. Ambos tinham sobrevivido tranquilamente nos playoffs até então. Um venceu e outro perdeu.

Acho muito difícil que o Golden State reviva exatamente uma das situações. Ambas tiveram resultados bem extremos. Mas, ainda assim, os dois casos servem de exemplo. Qual deles o Warriors vai seguir?

Lonzo, Kobe e o Lakers

Quem acompanha o basquete universitário com mais atenção garante que esta é uma das melhores turmas dos últimos anos. Seria comparável com a de 2003, que revelou Lebron James, Dwyane Wade, Chris Bosh e Carmelo Anthony. Mesmo sem terem jogado uma partida profissional sequer, Markelle Futlz, Malik Monk, Jayson Tatum e companhia já estão na boca do povo e são tratados como os salvadores de algumas franquias.

Por bons e péssimos motivos, o mais falado deles é Lonzo Ball. O point guard de UCLA mistura um corpo de ala-armador com uma visão de jogo de veterano, um zelo incomum com a bola e uma capacidade única de definir na transição. É, discutivelmente, o melhor jogador da turma. Além dos atributos impressionantes do seu jogo, Lonzo tem um pai falastrão que, ansioso, quer fazer da sua prole – são três filhos – super estrelas do basquete.

A última de Lavar Ball, pai do universitário, foi dizer que não vai calar a boca até que o filho seja um jogador do Los Angeles Lakers. Na cabeça dele, faz todo o sentido: a família é de LA, Lonzo foi uma estrela da universidade local e o Lakers está com a segunda escolha do draft. O plano de Ball é fazer do garoto o novo franchise player do maior time da NBA.

Lonzo e Lavar Ball

A declaração é antipática e pretensiosa. Primeiro que sugere que o jogador não aceitaria jogar com outra camisa, quando na verdade a escolha não é dele. Segundo que coloca um atleta universitário no papel de principal aposta de um time recheado de jovens talentos que, teoricamente, estariam na sua frente na linha sucessória do reinado angelino.

Por mais que pareça hoje que Lavar Ball, o pai, seja um boçal sem precedentes, esta tática é antiga. Ele não foi o primeiro a forçar a barra nesse sentido. Aliás, se serve como alento, uma outra vez que isso aconteceu com o mesmo Los Angeles Lakers, o jovem jogador acabou se transformando em um dos maiores – talvez o maior – jogadores de todos os tempos da franquia.

Era a virada de 1995 para 1996 e um adolescente da Philadelphia começava a chamar a atenção do universo basqueteiro norte-americano. O draft se aproximava e os jogos da Lower Merion High School passaram a ser frequentados por olheiros, general managers e técnicos da NBA. Apesar de ainda estar na escola, o jovem Kobe Bryant já era cobiçado por algumas equipes profissionais.

O maior empecilho era o seguinte: menos de meia dúzia de jogadores tinham pulado a universidade para jogar na NBA e todos eles eram alas ou pivôs. A avaliação era que um jogador de perímetro teria ainda mais dificuldades de render na liga logo de cara e que os fundamentos do basquete universitário poderiam fazer falta. Outro problema era que Kevin Garnett, outro adolescente que tinha entrado na NBA há um ano, apesar de mostrar muito talento, tinha deixado claro que não estava física e tecnicamente pronto para a competição profissional.

Um time mostrava mais interesse que os demais. O New Jersey Nets estava com a oitava escolha no draft e tinha um front office reformulado, afim de reconstruir a franquia, escolher uma estrela em potencial e sair da sombra do New York Knicks. John Nash, general manager, e John Calipari, técnico, se encantaram por Kobe e decidiram que ele era a escolha mais indicada daquela safra de calouros carregada de talentos – em um clima parecido com o deste ano.

Os dois viram alguns jogos e resolveram conversar com o pai de Kobe, Joe Bryant, para formalizar o interesse. Joe gostou da ideia e se convenceu que seria o melhor destino para o jogador – New Jersey fica a menos de 1h30 de carro da Philadelphia e era uma franquia que poderia dar tempo de jogo ao jovem logo de cara, a principal exigência do pai de Kobe.

Kobe e seu pai, Joe Bryant

O interesse do Nets era fundamental também para que Kobe decidisse não ir mesmo para a universidade. O jogador tinha medo de ser rejeitado de alguma maneira ou de chegar a um time sem garantias de que teria um tratamento especial.

Na manhã seguinte, no dia do draft, Nash recebeu uma ligação do agente de Kobe, Arn Tellem. O representante disse que o jogador tinha mudado de ideia e que não queria ser draftado pelo Nets. Deu a desculpa que Kobe tinha pensado melhor e que não queria jogar perto da casa dos pais, que estava com medo da pressão. Ao mesmo tempo, Joe Bryant ligou para Calipari, técnico do Nets, dizendo que o filho não jogaria pela equipe de New Jersey. Que caso fosse escolhido, iria abrir mão da NBA para jogar na Itália.

Para se certificar da ameaça, os dois passaram a ligar para colegas de outros times com escolhas próximas no draft para saber se tinham sofrido algum tipo de ameaça parecida. Isiah Thomas, executivo do Toronto Raptors na época, disse que o agente de Kobe tinha o alertado que o jogador não iria jogar no Canadá e que não deveria ser escolhido na segunda posição pela franquia. Mike Dunleavy, do Milwaukee Bucks, disse que Joe Bryant tinha rejeitado que o filho participasse do work out do time, pois já estava acertado com uma outra franquia.

A verdade é que, horas depois que o Nets confirmou o interesse para a família de Kobe, Jerry West, general manager do Lakers, também sinalizou que estava interessado no jogador. O problema é que o time de Los Angeles só tinha a 24ª escolha. West prometeu, então, que iria conseguir ‘subir’ na ordem do draft e pegar Kobe o quanto antes. Paralelamente, West estava a procura de um time que quisesse Vlade Divac, pivô do time, de graça. A ideia era limpar a folha salarial do time para tentar assinar com Shaquille Oneal pelo maior contrato possível.

O Charlotte Hornets aceitou a negociação e topou mandar sua 13ª escolha em troca do iugoslavo. Bastava, agora, a West, Tellem e o pai de Kobe ‘assediar’ as 12 franquias que estavam na frente da lista para que não escolhessem o jogador, frustrando os planos dos três. Até o momento do draft, então, eles fizeram lobby com quase todos os interessados, dizendo que Kobe não aceitaria jogar pelos demais times.

Nash e Calipari, do Nets, até pensaram em se arriscar, achando que o blefe jamais se concretizaria. Mas pesava o fato de que os donos do time preferiam que um jogador mais experiente fosse escolhido. Então o Nets pegou Kerry Kittles, jogador da mesma posição de Kobe, mas que tinha passado um tempo de provação no basquete universitário.

A história toda do draft de Kobe Bryant está no livro “Boys Among Men: How the Prep-to-Pro Generation Redefined the NBA and Sparked a Basketball Revolution”, que relembra as passagens dos jogadores que pularam a universidade para jogar na NBA – as histórias boas e as tristes.

Ainda que Lavar Ball, pai de Lonzo Ball, já tenha se mostrado bem mais insuportável que Joe Bryant – dizendo que os filhos vão revolucionar o jogo e que ele próprio ganharia de Michael Jordan num jogo de basquete -, algumas passagens têm suas semelhanças: quando decidiu ir para a NBA, Kobe fez um anúncio cheio de marra, com um circo imenso montado e transmissão pela TV; o jogador também estava caçando um contrato milionário de alguma marca de tênis antes da estreia, além de chegar à NBA cercado de empresas de marketing e entretenimento que cuidavam da sua imagem ainda quando era adolescente; e Joe Bryant também acertou a ida ao Lakers com a condição de que a franquia ajudasse o jogador a ser All Star logo no seu segundo ano na liga – o que aconteceu.

Não é um bom sinal. Por mais que Kobe tenha se tornado uma lenda, ele teve que jogar muita bola para que seu talento se tornasse mais notável do que sua marra. Hoje fica difícil lembrar, mas nos primeiros vários anos da sua carreira, Kobe esteve longe de ser uma unanimidade. E o principal motivo, foi o estrelismo.

No caso de Lonzo Ball, quis o destino que a franquia visada pela família do rapaz fosse justamente a segunda na ordem do draft – e é justamente essa a posição em que ele sempre foi cogitado. Apesar de ser chato o pai dele forçar a barra, o Lakers escolhê-lo seria a sequência natural das coisas.

Kobe, há 20 anos, superou a fama ruim. Mais do que isso, virou uma lenda. Lonzo Ball vai conseguir?

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