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Lance-livre ganha jogo – de novo

O Brasil conseguiu uma vitória empolgante contra a Espanha na segunda rodada do campeonato de basquete das Olimpíadas do Rio. A cinco segundos do fim, Marquinhos deu um tapinha no rebote ofensivo e deu a liderança para o time brasileiro no placar: 66 a 65 sobre um dos favoritos do torneio.

Existem inúmeros fatores que dão ou tiram uma vitória dessas das mãos de uma equipe em jogos tão apertados e é irresponsável atribuir a apenas um destes, mas nestes dois primeiros jogos, o time brasileiro teve uma alteração decisiva e flagrante no seu desempenho: o aproveitamento de lances-livres.

Na derrota na partida de estreia, o Brasil acertou apenas 22 de 35 (62,9%) arremessos da linha, enquanto os lituanos converteram 15 de 18 (83,3%) tentados. No placar, apesar da reação impressionante no segundo tempo, os brasileiros perderam por seis pontos. Hoje, contra a Espanha, o Brasil meteu 16 de 21 (76,2%) e os rivais acertaram 22 de 33 (66,6%). Em especial, Pau Gasol, principal jogador espanhol, errou sete arremessos do lance-livre – e dois decisivos no último minuto, que obrigariam o Brasil a chutar de três pontos no lance seguinte.

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Este tipo de análise vale, atribuindo uma derrota ou uma vitória em grande parte ao aproveitamento dos free throws, porque é a única jogada do basquete em que o time depende exclusivamente da sua capacidade e do seu equilibrio emocional – excluindo a capacidade de defesa do adversário, os esquemas táticos, os matchups, o ritmo da partida, que influenciam nos outros arremessos e jogadas. Um time excelente neste fundamento, vai ganhar boa parte dos jogos disputados lance a lance e um time pouco confiável vai oscilar quando depender disso para vencer – é bem básico.

No final das contas, o Brasil só teve condições de fazer valer seu aproveitamento porque se manteve na partida a todo momento. Sem o apagão nos momentos finais dos torneios anteriores e sem a moleza com que entrou em quadra na estreia.

Marcelinho Huertas controlou o ataque do time e Nene, além de ser um point guard dentro do garrafão, foi monstruoso na defesa. Augusto Lima mostrou que tem que tomar todos os minutos de Hettsheimer e Marquinhos conseguiu entrar no jogo melhor do que fez nos amistosos e na estreia. O time apresenta um desempenho crescente, que é o mais importante em uma competição de tiro curto como esta.

O caminho para medalha é longo e não tem nada garantido, mas o Brasil está pelo menos fazendo o básico – o que a Espanha, um dos seus maiores rivais nesta caminhada, não fez.

 

Não foi de todo mal

O Brasil perdeu na estreia do torneio masculino de basquete para a equipe da Lituânia por 82 a 76. Apesar da derrota, há o que tirar de bom do primeiro jogo do campeonato. Depois de começar o terceiro quarto de jogo perdendo por 58 a 29, o time brasileiro conseguiu uma reação impressionante e chegou a diminuir a vantagem para apenas 4 pontos.

Jogos de estreia em torneios curtos não são fáceis, especialmente jogando em casa, em uma situação que o apoio da galera pode se transformar em nervosismo. Nem acho que foi exatamente este o caso – pelo menos não ficou evidente isso. Na primeira metade de jogo, principalmente no segundo quarto, o time Lituano deu uma aula de ataque contra defesa, em que eles acertavam tudo na frente diante de uma defesa totalmente apática do Brasil.

Tivesse sido este o teor até o final do jogo, a seleção brasileira sairia arrasada de quadra para sua próxima partida. Não foi assim. Nos dois quartos seguintes, o time fez 23 a 12 no terceiro tempo e 24 a 12 no último. A defesa se acertou e o ataque passou a jogar simples, buscando as cestas no garrafão e a forçar a falta nos pivôs lituanos.

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O Brasil fez valer seu banco. Marcelinho Huertas, Alex e Heittsheimer estiveram muito mal. Até mesmo Leandrinho, maior pontuador do time com 21 pontos, não esteve bem com a formação principal e errou quase tudo na primeira parte da partida. Quando Raulzinho – salvo o último chute a cinco passos da linha de três que ninguém entendeu -, e Felício entraram por mais tempo na segunda etapa, o Brasil se acertou. Leandrinho e Nene, titulares, passaram a jogar demais nos dois lados da quadra e o time quase virou um jogo que estava perdido.

Fica o alerta para o apagão que a equipe teve – muito característico deste elenco, ainda que o mais recorrente seja o time estar vencendo e sofrer um lapso no final e tomar a virada. Dos males, o menor: foi no primeiro jogo onde isso ainda poderia acontecer. Também é bom ficar mais atento aos lances-livres e aos chutes de fora, de onde o Brasil teve um desempenho fraco (22/34 do free throw e 2/14 dos três).

É bom para o time entrar no clima da competição. O time lituano é excelente e não é um desastre perder para eles. O grupo tem tudo para ser decidido na última rodada. Até lá, o time já deve ter encontrado sua formação titular.

Olimpíadas: jogar em casa não rende medalhas

Na série de posts que comecei com análises sobre os times (especialmente Brasil e EUA) e grupos do torneio olímpico, muita gente comentou que a seleção brasileira vai ganhar medalha e que até tem chances de vencer os americanos. Apesar da notória e clara diferença de qualidade, o pessoal se prende naquele lance de que os jogos são aqui, a torcida vai empurrar o time e os caras vão se superar em quadra. Eu até acho que o Brasil pode conseguir um resultado acima da sua qualidade, ganhando uma medalha (de bronze ou de prata, dependendo do cruzamento da segunda fase), superando times mais fortes como Sérvia e França, mas acho impossível que vença os EUA. Mas aqui, sobretudo, quero desmistificar esse papo de que o ‘fator casa’ é tão favorável nos torneios de basquete de seleções. Pelo menos no histórico recente, jogar em casa não tem sido uma vantagem grande o suficiente para levar um time ao título.

Isso é tão flagrante que, mesmo quando o time é um dos favoritos no torneio, o título não vem – mais difícil ainda quando não é a melhor equipe, como é o caso do Brasil. Nas Copas do Mundo de Basquete, por exemplo, até os EUA perderam em casa na última vez que sediaram o mundial. A Espanha, maior força europeia dos últimos anos, ficou apenas em quinto quando o campeonato foi realizado por lá – sendo que tinha sido duas vezes medalhas de prata nas olimpíadas anteriores e campeã mundial dois torneios antes.

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Nas olimpíadas, a vantagem do time da casa é ainda menor e chega a dar a impressão que os times têm um desempenho PIOR quando jogam em casa. Só os EUA foram campeões jogando em seus domínios – o que não é nenhuma novidade, já que eles foram medalhistas de outro em 14 dos 18 torneios de basquete nos jogos. Fora isso, só a União Soviética conseguiu ser medalhista em casa – o que não é exatamente um bom resultado, já que os EUA não participaram daquela edição e os soviéticos eram os francos favoritos.

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Falo tudo isso, porque percebi que existem duas correntes muito fortes e distintas entre os fãs de basquete. Uma turma acha que o Brasil vai tomar pau invariavelmente. Outros se alimentam da ilusão que o time tupiniquim vai chegar forte para ganhar dos seus principais rivais, inclusive os EUA.

A verdade é que há um equilíbrio muito grande. Os americanos são muito melhores do que todos, mas, de resto, tudo pode acontecer. Mesmo sendo pior que Espanha, Sérvia e França – e no mesmo nível que Lituânia e Argentina – dá para ganhar de todos em um dia bom. Ou perder em um dia infeliz. Só é preciso ter em mente que o Brasil não se torna favorito só por jogar no Rio de Janeiro.

Olimpíadas – o caminho da medalha

Já falei aqui que a competição olímpica é muito difícil. São poucas equipes, muitas no mesmo nível e o tiro é curto. Da mesma forma que o Brasil tem time para ficar entre os quatro melhores times, pode perfeitamente cair logo no primeiro jogo do mata-mata e ficar com a oitava posição. No final das contas, a sorte nos cruzamentos é o fator mais decisivo para a longevidade da seleção brasileira na competição. Vou detalhar aqui o roteiro ideal para que Nene e companhia belisquem a melhor medalha possível – e, sendo bem otimista, acho que até uma prata é possível, ainda que não seja o mais provável.

Eu estou considerando que o Brasil passa da primeira fase, claro. Ainda que exista alguma dúvida, já que existem cinco potenciais classificados no grupo para quatro vagas, acho que Croácia e Argentina estão um passo atrás de Espanha, Lituânia e Brasil. Mas, como já disse, as coisas são tão equilibradas que meio que tudo pode acontecer.

Em termos de elenco, saúde, momento e entrosamento, considero que Espanha é o time a ser batido no grupo e Brasil e Lituânia estão no mesmo nível como segunda força. O Brasil até tem condições de ganhar todos os jogos, mas o natural seria ficar em segundo ou terceiro do grupo.

Pensando nos cruzamento da segunda fase, caso não seja possível ser o líder do grupo – o que faria o time ficar no outro lado da chave dos EUA e ainda pegaria uma Austrália ou Venezuela nas quartas-de-final, o melhor dos confrontos -, a melhor posição para terminar a primeira fase é em terceiro lugar, porque jogaria um possível confronto contra os americanos somente para a final.

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Ainda assim, o Brasil já enfrentaria uma pedreira logo de cara, sem margem para derrota: França ou Sérvia. No último mundial, a seleção brasileira derrotou os sérvios na fase de grupos, mas perdeu no mata-mata – e eles acabaram com o vice-campeonato do torneio. Seja quem for, é um cruzamento muito difícil, mas possível de superar.

Passando essa fase, o Brasil, considerando que foi primeiro ou terceiro do grupo, pegaria algum rival da primeira fase (Espanha ou Lituânia de volta). Como eu falei acima, uma pedreira, mas não imbatível. Caso tenha ficado em segundo do próprio grupo e passado das quartas, o adversário é o time americano – e daí, só resta sonhar com o bronze.

Digamos que vença Espanha ou Lituânia mais uma vez na semi, chega à tão sonhada final do torneio olímpico contra os EUA. Sinceramente eu não vejo nenhuma chance de ganhar, ainda que o Brasil tenha um histórico de bons jogos contra os astros da NBA.

Mesmo assim, já seria uma baita campanha terminar com a prata e presentear a torcida com uma final contra o melhor time do mundo. É difícil e depende de uma série de fatores, mas dá para sonhar.

Olimpíadas: o outro grupo

Fechando as análises dos times das olimpíadas, agora é a vez de detalhar um pouco melhor a situação de cada um dos times restantes do Grupo A (já falei aqui sobre a equipe brasileira, sobre seus rivais de grupo e também como os EUA entram como francos favoritos). Por mais que o grupo do Brasil seja considerado o ‘da morte’ por ter um equilíbrio grande entre cinco das seis equipes, acredito que a chave dos Estados Unidos é ainda mais forte. Não só por contar com o time americano, mas porque tem outras duas seleções que, se fossemos levar em conta os desempenhos recentes nas últimas competições internacionais e os momentos dos seus jogadores, seriam semifinalistas naturais – Sérvia e França.

É bem importante mostrar isso, já que o primeiro rival brasileiro na fase de mata-mata será muito provavelmente um destes três times, que no papel estão melhores do que o Brasil.

Os torneios classificatórios para o torneio olímpico chegam a nos enganar, já que França e Sérvia só se garantiram nos jogos do Rio via repescagem. O que acontece é que Lituânia e Espanha garantiram vaga no Eurobasket do ano passado, mas só superaram Sérvia e França no detalhe. A primeira foi eliminada pelos espanhois na prorrogação e a segunda caiu numa partida duríssima diante da Lituânia – além de ter tido a melhor campanha na primeira fase e ter derrotado a Espanha em seu grupo.

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Vou começar com os franceses, que estão, aparentemente, em um melhor momento. Assim como o elenco espanhol, o plantel da França é recheado de estrelas e jogadores que são destaques nas melhores equipes do mundo. Do quinteto titular provável, quatro jogam na NBA: Tony Parker, Nicolas Batum, Boris Diaw e Rudy Gobert. O quinto jogador, é ‘só’ o MVP da final da Euroliga, Nando De Colo.

O bom desta unidade é que é muito versátil: Parker é um armador clássico e muito experiente, Diaw é um ala pivô moderno e extremamente técnico – que consegue ir bem mesmo com uma pança proeminente que não condiz com o esporte profissional -, De Colo é um gatilho ofensivo com chute afiado e Batum e Gobert são dois dos melhores jogadores de defesa do mundo.

A Sérvia chega tão forte quanto a França. O armador Milos Teodosic é possivelmente o melhor jogador do mundo fora da NBA e o shooting guard Bogdan Bogdanovic vem logo atrás. Ainda conta com o pivô que esteve entre os cinco melhores calouros da NBA neste ano, Nikola Jokic, e que tem tudo para se tornar uma estrela da liga nos próximos anos. Conta com uma rotação muito equilibrada, com dez jogadores jogando praticamente 20 minutos por jogo – a ponto do melhor jogador geralmente começar no banco -, o que cria uma dificuldade enorme para os rivais.

O quarto colocado natural deste grupo – e melhor cruzamento possível para o Brasil na próxima fase -, é a Austrália. É um time bom, mas que está um passo atrás dos rivais de grupo e dos possíveis quatro classificados no grupo do Brasil. É uma equipe muito experiente – o ala-pivô David Andersen vai disputar sua milésima olimpíada, aliás – e conta com bons jogadores que estão na NBA: Patty Mills na armação, Andrew Bogut como pivô, Joe Ingles na ala, Matthew Dellavedova como sexto homem e Aron Baynes também saindo do banco. É quase uma versão do time brasileiro com menos qualidade.

Tentando forçar uma zebra, ainda temos o time da Venezuela. A seleção é bem experiente – só três jogadores não estão rondando os 30 anos -, mas não terá seu principal jogador, Greivis Vasquez, que se recupera de lesão. A responsabilidade recai, então, sobre seu substituto, Gregory Vargas, melhor jogador do último Sulamericano.

Como pior equipe do campeonato e provável saco de pancadas do torneio, a China fecha o grupo. O gigante asiático só está nas olimpíadas porque é uma potência frente aos seus rivais de continente – e quase que as Filipinas beliscaram a vaga. Vive um processo de renovação, já que boa parte dos seus melhores jogadores se aposentaram. Restou apenas Yi Jianlian, ex NBA e melhor jogador local da liga chinesa. Dos doze convocados, nove tem 24 anos ou menos e devem formar a base da seleção que vai ser a anfitriã do Mundial de 2019.

Olimpíadas: EUA com as duas mãos no ouro

A cartilha nos recomenda a não cravar antes mesmo de um campeonato começar que um time será campeão. Mas até que ponto uma equipe tem que ser tão favorita para que essa recomendação seja inócua? Não temos uma medida exata para isso, mas a sensação é que este time americano que vai disputar as Olimpíadas do Rio é superior o suficiente dos demais para que a gente possa cravar isso.

Só um milagre tira o ouro do pescoço de Kevin Durant e companhia. O time não é tão favorito quanto os Dream Teams de 92 e 96, quando o abismo entre os EUA e as outras seleções era incalculável, e nem tem boa parte das principais estrelas incontestáveis da atualidade (Lebron James, Stephen Curry, Russell Westbrook, James Harden e Kawhi Leonard escolheram não jogar e Anthony Davis, Blake Griffin, Chris Paul e outros estão lesionados), mas, mesmo assim, não dá para imaginar o USA Team perdendo para alguém.

Óbvio que algum chato vai vir “ah, mas e a Espanha”, “em 2004 tinha fulano e beltrano e perdeu” e outros argumentos clichês. Claro que para vencer o time precisa entrar em quadra e superar os rivais e que seleções americanas estelares já perderam em um passado não muito distante, mas acontece que hoje o clima no time americano é outro.

Quando assumiu como presidente do USA Basketball, em 2006, Jerry Colangelo, um executivo do esporte americano super respeitado, passou a escalar os jogadores com a contrapartida de um compromisso de três anos por parte dos atletas. Deu sorte de pegar um grupo comprometido e talentosíssimo, com Kobe Bryant, Lebron James, Dwyane Wade, Carmelo Anthony e companhia. Também escalou para comandar a comissão técnico a lenda do basquete universitário Mike Krzyzewski. Juntos, executivo, técnico e jogadores conseguiram imprimir uma nova cultura ao defender a seleção. Antes os grandes nomes se juntavam e apenas entravam em quadra, muitos fora de forma, dando margem para as zebras. Hoje, há um grupo quase permanente de treinos e uma unidade na equipe que torna a seleção americana quase imbatível.

Basketball: USA Basketball Exhibition Game-China at USA

Melhor pivô, melhor ala e melhor armador da competição no mesmo time

O provável time titular, com Kyrie Irving, Klay Thompson, Kevin Durant, Carmelo Anthony e Demarcus Cousins, é feroz. Quatro jogadores mortais do perímetro e um pivô indomável. Carmelo, para completar, já mostrou que no basquete FIBA tem capacidade para dar conta do recado como pivô, quando necessário. Draymond Green e Paul George poderiam facilmente assumir a titularidade sem deixar cair o nível técnico. Kyle Lowry, Demar Derozan, Jimmy Butler e Deandre Jordan completam o elenco.

Como eu já repeti aqui no blog algumas vezes e falei mais no começo do texto, é uma pena que o torcedor brasileiro não vá poder ver outras estrelas tão grandes ou até maiores do que estas que se juntaram à seleção dos EUA. Mesmo assim, é um time para sobrar na competição.

Olimpíadas: até que ponto o grupo é mesmo ‘da morte’?

Comecei uma série de posts sobre os Jogos Olímpicos. Já falei um pouco do momento da seleção brasileira e do ato final desta geração. Agora é a vez de comentar sobre o primeiro grande desafio do time brasileiro na competição: o famigerado ‘grupo da morte’. Sinceramente, eu acho uma besteira este rótulo nos Jogos Olímpicos. Voltando um pouco no tempo, olhando os torneios dos anos anteriores, dá pra dizer que é um ‘grupo da morte’ mesmo? Na boa, o campeonato de basquete das olimpíadas é tão foda e seleto que todo grupo é dificílimo!

Até pela forma como as eliminatórias acontecem, com um filtro fudido, sempre vão passar pelo menos oito times bem fortes para os jogos. Como são dois grupos de seis, tradicionalmente teremos quatro equipes bem fortes em cada grupo.

No caso do grupo brasileiro, o que faz a turma repetir o mantra é que, em tese, existem cinco potenciais classificados para quatro vagas. Além do time brasileiro, Espanha, Lituânia, Argentina e Croácia estão no bolo para avançar para a próxima fase – deixando só a Nigéria como virtual desclassificado logo de cara.

Eu discordo um pouco disso. Salvo alguma zebra, acho que existem três classificados garantidos – entre eles o Brasil – e duas equipes que disputam a última vaga, o que pra mim descaracteriza essa aura de ‘grupo da morte’ – seria se mais times estivessem disputando vaga, ao meu ver.

Destrinchando melhor cada um dos times: começo pela Espanha, melhor seleção da chave. O time europeu é o mais experiente e com maior número de excelentes jogadores do grupo – e o segundo mais forte da competição, atrás somente do favorito óbvio que é a equipe americana. Ainda que tenha a baixa do seu melhor jogador em atividade, Marc Gasol, e também não vá contar com Serge Ibaka, o grupo de doze espanhóis escolhidos é muito bom.

O provável time titular é muito forte: Rúbio e Mirotic, apesar de jovens, são experientes e têm papéis importantes nos seus times na NBA. Sérgio Llull e Rudy Fernandez são estrelas do Real Madrid (ainda que o segundo tenha passado boa parte do ano lesionado) e Pau Gasol é o grande jogador espanhol de todos os tempos, que carregou a equipe na campanha vitoriosa do Eurobasket do ano passado. O banco ainda tem jogadores que seriam titulares em quase todas as outras equipes do torneio: José Calderon, Juan Carlos Navarro e Sergio Rodriguez, num backcourt impressionante, além dos jovens Alex Abrines e Willy Hernangomez, jovens que acabaram de assinar com times da NBA e que encabeçarão a renovação do time para os próximos anos.

A segunda força do grupo é a Lituânia. A seleção tem uma tradição incrível no esporte – era a base dos times soviéticos nas décadas em que vários daqueles países do leste europeu jogaram sob a mesma bandeira – e chega, mais uma vez, com uma equipe forte para a disputa de medalha. Tem Jonas Valanciunas, um pivô muito forte e com COJONES para liderar o time – não foge da briga e tem experiência internacional, apesar dos 24 anos de idade. O restante do time titular, com Kalnetis e Maciulis, está quase todo no seu auge técnico da carreira – foram vice dos últimos dois Eurobasket e semifinalistas da última Copa do Mundo e das Olimpíadas de 2004 e 2008.

O venceu bem boa parte dos seus últimos amistosos – até da Espanha – e mostrou ter um elenco muito homogêneo, ainda que falte um pontuador mais confiável de fora do garrafão para contribuir todo jogo.

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Junto destes dois times, eu colocaria o Brasil fechando o top3 do grupo, como seleções garantidas para a próxima fase, só dependendo dos seus resultados entre si para definir a ordem da classificação.

Sim, deixei a Argentina para o segundo escalão. Explico. Não é rivalidade – acho uma besteira essa treta forçada com eles -, nem má vontade, mas acho que os principais jogadores da equipe já envelheceram o suficiente a ponto dos seus níveis técnicos estarem prejudicados. Manu Ginóbili foi um deus em quadra, mas aos 39 anos ele já não é mais tão divino assim. Luis Scola, o terror do Brasil, já mostrou na última temporada da NBA que as 36 primaveras estão pesando. Andres Nocioni é outro vovô titular de 39 anos. Para completar, Carlos Delfino, também veterano, nem time tem.

A ‘Alma’, como é conhecida a seleção deles, até está no caminho certo para renovar seu time – ainda que seja muito difícil substituir à altura uma geração tão talentosa como a que venceu o outro em 2004 -, mas as grandes referências do time estão em uma decadência natural. Não que isso queira dizer muita coisa, mas a Argentina perdeu amistosos para Nigéria e Austrália ao longo da preparação para o torneio, evidenciando algumas fragilidades.

Para brigar com os hermanos pela última vaga, aparece a Croácia, que é basicamente o inverso do que o time argentino representa: um time muito jovem, que depende das suas estrelas em ascensão para ter sucesso. Dario Saric e Roko Ukic são estrelas, mas muito jovens ainda, assim como o reserva Mario Hezonja. Sobra, então, para Bojan Bogdanovic, do Brooklyn Nets, carregar o piano quando a molecada não der conta. Podem até surpreender, mas vão precisar ganhar de algum time muito mais rodado e igualmente talentoso para poder sonhar com uma vaga na segunda fase – e, mesmo que consigam isso, enfrentariam a seleção americana logo de cara.

Fecha o grupo, sem qualquer chance de se classificar, a Nigéria, que tem a melhor geração da sua história – fruto de um processo de naturalização de um monte de descendentes nascidos nos EUA -, mas mesmo assim ainda não tem uma seleção forte formada. Chega sem seus dois jogadores mais famosos, Al-Farouq Aminu, Victor Oladipo e Festus Ezeli, e vai entrar em quadra apenas com alguns jovens talentos escorados no veterano Ike Diogu, que já tentou a vida na NBA, fez sucesso na Europa e hoje joga na China.

Olimpíadas: a última chance deste elenco brasileiro

Hoje vou estrear aqui uma série de posts sobre o torneio masculino de basquete nas Olimpíadas. Para começar, vou destrinchar um pouco da seleção brasileira e, na sequência, as suas possibilidades de beliscar uma medalha.

A competição olímpica é muito difícil, especialmente por ser muito equilibrada e curta. No entanto, justamente por isso, também é possível que o Brasil esteja na briga por medalha, mesmo não sendo uma das três melhores seleções do mundo. É tudo uma questão de sorte nos cruzamentos e momento – vou tratar disso em um post nos próximos dias.

Mas vamos lá, sobre o time: esta é a última chance deste elenco mostrar serviço pela seleção. O ‘núcleo duro’ do time é todo trintão e não vai ter mais uma chance de medalha: Leandrinho, Nene, Alex, Marquinhos, Huertas, Giovanonni e Hettsheimeir não estarão em Toquio daqui quatro anos. Isso não é necessariamente ruim para a disputa deste ano, já que os caras estão com rodagem suficiente para encarar o grande desafio das suas vidas e com a máxima motivação de fazer acontecer agora – só é negativo pensando no futuro da seleção, mas essa é outra conversa.

A primeira geração brasileira com experiência na NBA demorou para engrenar, ficou de fora dos jogos de 2000 a 2008. Mas teve participações com excelentes lampejos nas Olimpíadas de Londres, em 2012, e na Copa do Mundo de 2014, fechando na quinta e sexta posição, respectivamente. Isso denota alguma evolução, especialmente com a chegada do técnico Rubén Magnano no time.

Esta combinação, de técnico e time experientes, aliada à vocação e entrega de um elenco que joga junto há um bom tempo, faz do Brasil uma das melhores defesas da competição, o que já é um primeiro passo para ter um time bem competitivo. Se existe uma nuvem negra que atormenta este time, que são os apagões em momentos decisivos, uma marcação implacável nos 40 minutos de jogo é algo que pode compensar mesmos estes lapsos ofensivos.

O possível time titular – que eu imagino sendo Marcelinho Huertas, Leandrinho, Alex, Hettsheimeir e Nene – joga o chamado BASQUETE MODERNO. No backcourt, Huertas é um armador inteligentíssimo que mete suas bolas quando não é o ponto focal do ataque (e não é neste time), Leandrinho é um combo guard completo. Nas alas, Alex é capaz de marcar qualquer jogador da face da terra e Hettsheimeir, guardadas as devidas proporções, é o típico ‘stretch four’ que virou moda na NBA – corpo de pivô, mas especialista na bola de três, abrindo espaço no garrafão adversário para as infiltrações dos colegas.

Por último, Nene, que é o jogador brasileiro que eu mais gosto – acho que merece um comentário mais longo, aliás. O atleta já foi achincalhado em outros momentos por não ter jogado sempre que convocado pela seleção. Quem acompanha o blog sabe que eu defendo os jogadores que, nestes casos, pensam no que é melhor para suas carreiras e não para as confederações que cuidam das seleções nacionais. Hoje, sem sombra de dúvidas, é o principal jogador do elenco e os PATRIOTAS que tanto xingaram o cara nos últimos anos vão acabar se dobrando diante do seu talento. Nene tem a inteligência de um point guard dentro do garrafão e é o tipo do cara que não afina para absolutamente ninguém. O que me anima ainda mais, é que ele parece estar muito bem fisicamente. Veremos o pivô na sua melhor forma dos últimos anos, o que é excelente.

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Nene no garrafão: fisicamente bem e tecnicamente especial

Outro ponto positivo do time é que seu banco de reservas é bem completo e acima da média da competição. Raulzinho é muito bom jogador e é um armador quase tão bom quanto o titular. Marquinhos é excelente nos tiros e tem porte para encarar os principais jogadores das seleções adversárias. Felício e Augusto Lima são os jovens talentos com gás e potência para, inclusive, brigarem pela titularidade ao longo do torneio. Benite tem cacife para ser o pontuador da segunda unidade.

O que pesa contra esse elenco – e é uma desvantagem perante os principais rivais – é que os principais jogadores do time brasileiro não tem jogado com a intensidade de competição que os melhores jogadores das outras equipes ao longo do ano. Huertas, Nene e Leandrinho foram reservas das suas equipes. Faz diferença no ritmo e na moral você ter jogado a última temporada inteira como um titular, ter entrado em quadra 30 minutos de jogo, ter sido um dos caras que decidiu partidas para seu time de ser um reserva que entra, joga 15 minutos no máximo e volta para o banco assistir os minutos finais de jogo sentado. O alento é que existem outros jogadores que jogaram dezenas de partidas decisivas e foram os principais jogadores em suas equipes da NBB.

Os amistosos mostraram um time bem competitivo, mas né, foram amistosos. Eu acho que, mesmo no ‘grupo da morte’, o Brasil passa bem de fase – isso quer dizer que não fica em quarto, evitando um cruzamento precoce com os EUA – e que, com sorte, briga por medalha lá na frente. Acho que dá.

Não ouça o Coach K, Demar

Eu tenho um pedido para Demar Derozan, ala-armador do Toronto Raptors e que está na seleção americana que vem aos Jogos Olímpicos do Rio: não se deixe levar pela rabugentisse do técnico do time dos EUA, Mike Krzyzewski.

O Coach K não gostou que o jogador tentou meter uma enterrada 360º na cara de um adversário chinês a dois minutos do final do jogo quando os EUA venciam com o dobro de pontos do rival. Na entrevista pós-jogo, o comandante americano disse que os jogadores se “divertiram um pouco demais na partida” e que eles devem “baixar o tom para a competição olímpica”.

Eu entendo que o seu papel é dizer isso, mas, de verdade, eu vou defender até a morte que um jogador tente fazer uma coisa dessas em um jogo – e suplico para que Derozan não dê ouvidos a ele. Por mim, que faça em qualquer momento, em qualquer jogo – NÓS ESTAMOS AQUI PARA VER ESSE TIPO DE COISA! -, mas se tentar uma jogada assim em um jogo pegado seria algo irresponsável com seu próprio time, então que faça quando a partida já está decidida e a necessidade de acertar seja mínima.

Este time americano está longe de ser o Dream Team de 92, que reunia boa parte dos maiores jogadores de todos os tempos, mas qualquer selecionado americano carrega a aura de ser o representante do basquete-show pelo mundo. Muita gente que vai parar para assistir um jogo deles nas Olimpíadas ainda acha que colocar cinco estrelas da NBA em quadra sempre é sinônimo de espetáculo – e mesmo que isso não seja verdade, acho que os jogadores tem direito de tentar perpetuar esse mito.

Em 2000, Vince Carter enterrou por cima de um francês de 2,10. Por cima, literalmente. Milhões de pessoas nem sabem quem é Vince Carter e que ele era um monstro para esse tipo de coisa, mas viram essa jogada e acham que isso é coisa recorrente na NBA. O lance imortalizou o jogador para uma porrada de gente.

É claro que se puder fazer isso em uma partida dos jogos, Derozan TEM A OBRIGAÇÃO de tentar. Dane-se o Coach K. Ele tem que fazer isso por todos nós que vamos assistir seus jogos.

Bogut tem a solução para os problemas na Vila Olímpica

Se a delegação australiana que chegou ao Rio acha que os apartamentos da Vila Olímpica não tem as mínimas condições para receber os seus atletas, o pivô Andre Bogut tem a solução:

O jogador, que vai jogar as Olimpíadas, ofereceu seus parceiros de Dandenong, uma região do subúrbio de Melbourne, onde ele cresceu, que podem quebrar um galho nos reparos necessários nas acomodações e marcou a chefe da delegação australiana na postagem. Ah, eles só aceitam pagamento dinheiro…

Óbvio que é uma sacanagem, mas a piada é valida. Fazendo uma pesquisa rápida, a região parece ser tipo um gueto australiano cheio de imigrantes e, dentro da realidade dos caras, uma região meio barra pesada. Aqui achei um documentário sobre a região que conta um pouco o perfil ‘dos amigos de Andre Bogut’.

Aquela típica turma que, com uns trocados adiantados, consegue resolver qualquer parada. Um encanamento mal feito não seria problema pros caras, né? Do jeito que as coisas estão no Rio, a proposta de Bogut não pode ser descartada – e a rapaziada de Dandenong poderia tirar uma grana boa de todas as delegações com seus serviços…

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