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Uma média de triple double não é suficiente

A temporada de Russell Westbrook não precisa de mais nada para entrar para a história como uma das performances individuais mais bestiais de todos os tempos. Além da absurda e antes tida como impossível de se repetir média de triple double por jogo, Russell é o cestinha da temporada (único com mais de 30 pontos por jogo) e vem colecionando uma série de marcas do tipo “um dos dois jogadores a conseguirem múltiplos jogos seguidos com mais de tantos pontos, rebotes e assistências”, sempre igualando ou batendo marcas de lendas do jogo como Michael Jordan, Oscar Robertson, Wilt Chamberlain e afins.

Apesar disso, o mais provável é que isso não faça de Westbrook o MVP da temporada. Desta vez não vou nem entrar no mérito de que o prêmio de melhor jogador da liga é entregue a um jogador de um dos melhores times e da posição do Thunder na tabela. Mas o fato é que é preciso mais do que um desempenho individual absurdo para ser agraciado com o troféu de jogador mais valioso.

Parece até ingrato e ranzinza exigir ‘mais do que isso’, eu concordo, mas é assim que as coisas funcionam na NBA nestas horas. Quando teve médias de 50 pontos e 25 rebotes por jogo, Wilt Chamberlain ficou apenas em quarto na votação para MVP. Quando pela primeira e única vez até hoje que um jogador teve média de triple double, Oscar Robertson ficou em terceiro lugar na disputa pelo prêmio. As melhores temporadas em termos estatísticos de Michael Jordan (86-87), Lebron James (05-06) e Hakeem Olajuwon (94-95) também não foram contempladas com o ‘award’.

Isso acontece porque a forma como as coisas são conduzidas influenciam muito mais a cabeça dos votantes do que meros números impressos numa planilha – o que é bem justo, na real. A história da temporada, a narrativa do time e do jogador e coisas assim são os fatores que darão luz a este ou aquele cara, fazendo dele o MVP do ano ou não.

Neste caso, o fato de James Harden ter batido na trave na votação de melhor jogador de dois anos atrás, perdendo para o absurdo Stephen Curry, ter tido um ano de merda na temporada passada e ter voltado com tudo, com um jogo renovado, inteligente e, pasmem, altruísta, com um time que parece ter cacife para derrotar qualquer um na busca pelo título acaba valendo muito mais do que 30 pontos, 10 rebotes e 10 assistências por jogo.

Também pesa contra o Westbrook alguns aspectos que inflam estas estatísticas e, para alguns, colocam em dúvida a eficiência de uma média como esta.

Seu chute não é lá dos mais efetivos. Seu true shooting %, que mede a frequência de acertos dos arremessos ponderando chutes de lance livre, dois  e três pontos é apenas 0 147º da liga.

Sua média de rebotes é inflada. 7,8 dos seus rebotes por partida são pegos livres, quando ninguém mais disputa a bola – apenas 12% das bolas que recupera na defesa são ‘brigadas’ com algum rival, de longe a menor média entre os jogadores com mais de 5 rebotes por jogo na liga.

Para completar – e ser bem chato – seu win share, estatística que mede o suposto número de vitórias que um jogador rende para seu time, é menor que o de Kawhi Leonard, James Harden, Lebron James, Isaiah Thomas e Stephen Curry.

Particularmente, não acho que a média de triple double deixe de ser impressionante, mas de fato é de se ponderar o quanto ela é eficaz o suficiente para fazer de Westbrook o melhor jogador do ano, especialmente quando fica claro que há uma forçação de barra para atingir os números – uma crítica que é mais difícil de se fazer a James Harden, seu principal concorrente na disputa.

É mais ou menos o que rolou quando Kobe Bryant, com 35 pontos por jogo e um time meia boca, perdeu o prêmio de MVP para Steve Nash, que não tinha números tão impressionantes. Pesou o fato do primeiro chutar mais de 27 bolas por partida para atingir a média e o segundo estar num time que mudou o jogo naquele momento.

Isso não é diminuir os feitos de Westbrook. Mas, ao mesmo tempo, não é o suficiente para ser MVP.

O dever da torcida do Thunder é atormentar Kevin Durant hoje

Hoje é o típico dia que a torcida justifica a sua existência. Hoje é o dia que a torcida do Oklahoma City Thunder tem o dever de infernizar a vida de Kevin Durant.

Não me entendam mal: eu acho Durant espetacular e já entendi que ele tinha todo o direito de trocar de time. Foi bom para o Thunder enquanto esteve por lá, mas acabou. Sua vida agora é com outro uniforme e pronto.

Também nem acho que ele e Russell Westbrook se odeiem de verdade. Ok, os últimos dois jogos entre os times foram tensos, mas me parece mais uma tentativa de ambos fazerem moral com suas torcidas do que efetivamente um ódio mútuo – o próprio Durant falou sobre isso essa semana.

Apesar destas ponderações, deste balde de água gelada na rivalidade, acho que o papel da torcida do Thunder é fazer o máximo para implodir a moral do rival.

O único compromisso do torcedor é com o seu time. Se for necessário esquecer por alguns minutos que Durant foi o jogador mais importante da franquia nos últimos anos para desestabilizá-lo, que seja assim. Se for necessário ser injusto com sua história para aumentar as chances de vitória do OKC, que todos o façam. Mesmo aqueles que já superaram a partida do astro e entendem que o time deve seguir seu rumo devem adotar este tom. Este é o papel do cara que está na arquibancada.

De quebra, acho que Westbrook é o tipo de cara que cresce muito nestas situações, com um ginásio pegando fogo. Uma boa dose de hostilidade ao rival parece ser um bom combustível para deixar Russell ensadecido.

Hoje é o dia do torcedor do Thunder enaltecer a lealdade de Russell, que renovou contrato com a franquia assim que Durant partiu, e atormentar os rivais. Pouco importa que, na realidade, Durant não seja um traidor execrável, que ele tenha feito muito pela franquia e que ele e Westbrook nem se odeiem de verdade.

Que as homenagens e honras da casa fiquem para a próxima visita de Durant. Hoje é dia da arquibancada do Thunder odiá-lo.

Palpites para reservas do All Star Game

Divulgados os titulares do All Star Game do dia 19 de fevereiro, agora é o momento de especular quem deve ser reserva do jogo. A discussão tem sua importância porque o número de vezes que um jogador vai para o Jogo das Estrelas é um critério usado desde os gatilhos de contrato (‘se fulano for all star tantas vezes, seu salário aumenta em 10%’, ocupando ainda mais a folha salarial e impactando na formação dos times) até para entrada ou não no Hall da Fama.

A definição dos titulares, você sabe, é um ‘concurso de popularidade’, que neste ano teve algumas mudanças de regras e ponderações. Até por isso, os reservas são escolhidos pelos head coaches, com, em tese, critérios técnicos sobre quem está melhor na temporada.

Levando isso em conta, aqui vão os meus palpites para reservas do All Star Game (lembrando que em cada conferência devem ser escolhidos dois armadores, três alas ou pivôs e dois ‘coringas’ de qualquer posição):

LESTE

Armadores
Isaiah Thomas – Na minha opinião, foi a grande ausência entre os titulares. Além de ser um dos cinco caras mais decisivos da liga atualmente e estar carregando o time do Boston a uma briga pelo segundo lugar da conferência, Isaiah é a cara do All Star Game. Precisa ser um malabarista para sobreviver em um jogo em que os menores rivais são pelo menos 20 centímetros maiores do que ele.

John Wall – A função de ‘armador na conferência Leste’ é a que tem o mercado mais saturado na NBA atualmente. Tem muita gente boa, o que faz desta segunda escolha a mais difícil de todo o conjunto de reservas. Vou de John Wall por estar com uma temporada insana, ser o líder de um Washington Wizards em ascensão, quase imbatível em casa. Pesa aqui o fato do jogador ser um craque na defesa também, ser acrobático, rápido, atlético e ter plenas condições de dar show no jogo (ele já foi até campeão no torneio de enterradas!).

Alas/pivôs
Kevin Love
– Se tinha alguém que poderia ameaçar pintar no trio titular do frontcourt do Leste no lugar de Jimmy Butler, era Kevin Love. O jogador do Cleveland Cavaliers ressuscitou nesta temporada, voltando à forma mais parecida possível da época que era uma estrela solitária no Minnesota Timberwolves.

Paul George – George está levemente abaixo das expectativas neste ano. Talvez por conta do time não ter decolado como se esperava ou por estar em uma posição diferente dos últimos dois anos, não sei, mas a verdade é que eu imaginava que ele fosse se consolidar como segundo melhor jogadores do Leste nesta temporada. Mesmo assim, ainda merece uma vaga no jogo. Seu desempenho nos momentos decisivos da partida fazem dele um dos atletas mais ‘clutch’ da atualidade.

Paul Millsap – O ala do Atlanta Hawks é um robô. Extremamente eficiente, craque nos dois lados da quadra e líder de uma equipe que se mantém na metade de cima da zona de classificação do Leste, mesmo completamente reformulada. Quase ninguém nota, mas Millsap mantém as mesmas médias excelentes há quatro anos – e nos últimos três foi all star, logo não há porque questionar se ele vai ou não para o jogo neste ano. Ah, tudo isso TEMPERADO pelo fato de que ele é um dos nomes mais frequentes na rede de boatos de trocas da temporada. Mesmo assim, continuou bem.

Coringas
Kyle Lowry – Dependendo do critério, Lowry poderia ser titular do Leste, já que é efetivamente o cara que faz todo mundo no Toronto jogar melhor, inclusive Demar Derozan, seu colega que está no quinteto principal – a imprensa hipster dos EUA defende essa tese, inclusive. Não discordo disso, mas acho que Lowry é refém da sua eficiência discreta e de uma competição cruel na armação do Leste. Derozan tem a seu favor o fato de ser shooting guard, de ser o cestinha do time e de estar mais vezes nos ‘melhores momentos’. Neste ano, então, Demar ficou com ‘a cota do Raptors’ para ser o titular. Coloquei Lowry atrás de Wall e Thomas apenas pelo ‘fator espetáculo’.

Kemba Walker – Sim, mais um armador aqui. Kemba começou a temporada com um desempenho digno de ser titular do All Star Game, pontuando muito e carregando o Hornets para uma das melhores campanhas do Leste (na época, terceiro lugar). De dezembro em diante, o time caiu de rendimento e agora está apenas no bolo para se classificar. Em todo caso, Kemba continua sendo um baita pontuador, mais consistente que seus concorrentes pela última vaga no jogo.

Podem aparecer
Eu queria muito colocar Joel Embiid, ser humano mais maravilhoso do planeta Terra nos últimos meses. Seus números são excelentes, ele teria entrado como titular pela votação popular e seria legal ter um pivozão de ofício pra brigar com os ‘bigs’ do Oeste, mas o número restrito de partidas jogadas e os poucos minutos fazem com que ele fique com menos chances de entrar na seleção. Também acho que Jabari Parkers, ala do Milwaukee Bucks, seria um bom nome para figurar no time. Correndo por fora, Hassan Whiteside tem alguma chance, mas não é um cara que me agrade muito – caiu muito de rendimento e o time é um lixo.

OESTE

Armadores
Russell Westbrook – Não tem nem o que comentar. Principal ausência entre os titulares. Entendo que Stephen Curry tenha sido escolhido, ainda que Westbrook e Harden sejam os melhores jogadores da temporada. Curry é um dos atletas mais populares da NBA na atualidade e vem de dois anos surreais. Mas não é possível que os três estejam entre os titulares, então Westbrook é, com certeza, uma presença garantida entre os reservas.

Klay Thompson – Escolha muito difícil aqui. Naturalmente o correto seria colocar Chris Paul, mas ele está machucado e terá que ser substituído por alguém (a lesão pode fazer com que os técnicos nem o escolham, não sei). Como não há nenhuma unanimidade entre os demais armadores do Oeste, fui naquele que acho que é o mais talentoso, está no melhor time e teve performances mais impressionantes – Klay marcou 60 pontos neste ano já em uma partida.

Alas/pivôs
Demarcus Cousins
– Acho que Cousins ameaçava a posição de Anthony Davis entre os titulares, mas o desempenho de Davis nos últimos meses e suas estatísticas o garantiram entre os cinco. O pivô do Sacramento é espetacular, não existe qualquer discussão se ele merece ou não estar nesta lista. Seu único problema seria se fosse TROCADO antes do jogo para um time do Leste, já que sempre está nos boatos de trocas.

Marc Gasol – O espanhol vem tendo uma temporada espetacular. Segurou a onda do time sozinho quando todo mundo do Memphis se machucou. Pela primeira vez na carreira está com uma média superior a 20 pontos por partida e em quase todos os outros atributos está com um desempenho melhor do que em 2014/2015, quando foi titular no jogo.

Draymond Green – Questiona-se se o Golden State Warriors merece quatro jogadores entre os all stars. Acho que sim. O time vem muito forte e conta com uma concentração absurda de talentos individuais. Green é um deles. É um dos sérios candidatos a melhor defensor do ano e é um monstro em todos os aspectos do jogo.

Coringas
Gordon Hayward – É impressionante a evolução do Utah Jazz ao longo das últimas temporadas e a personificação disso é Gordon Hayward. O ala do time vem melhorando sua participação gradativamente. Um exemplo disso é que ao longo das últimas seis temporadas, sempre Hayward aumentou sua média de pontos. Além disso, ele é um defensor exemplar no time que tem a melhor marcação da liga.

Damian Lillard – Aqui eu fiquei muito na dúvida, mas coloquei o jogador que eu acho que é mais craque. Lillard é um dos jogadores com basquete mais vistosos da liga. Um talento puro. Além disso, tem anotado excelentes números.

Podem aparecer
Eu fiquei muito na dúvida entre Lillard e Mike Conley, armador do Memphis Grizzlies e jogador mais bem pago da NBA. Conley tem sido excelente, com médias superiores aos anos anteriores. Além disso, ninguém esperava que o time fosse a quarta força do Oeste. Muito disso se deve a ele. Rudy Gobert é outro nome que pode pintar, mas duvido que coloquem tantos pivôs assim na reserva – se ele entrar, Gasol sai, acho.

Revertendo a lógica dos MVP

Como em qualquer lugar, a NBA tem algumas convenções implícitas. Regras que não estão escritas em qualquer lugar, que não são oficiais e que mal são ‘regras’ efetivamente, mas, se olharmos em retrospectiva, são coisas que se repetem corriqueiramente.

É provável que a mais conhecida destas convenções trate do prêmio de Most Valuable Player (MVP) da temporada. Ainda que na prática seja a honra destinada ao melhor jogador da liga naquele ano, nem sempre é isso que acontece de fato. Via de regra, o ‘colégio eleitoral’ dos awards ~laureia o melhor jogador de um dos melhores times. Mesmo que alguém COMA A BOLA em uma equipe de meio de tabela, o eleito será algum jogador que teve um excelente ano em um time de excelente campanha.

Existem alguns pretextos para isso: o nome do prêmio de, numa tradução livre, Jogador Mais Valioso abre precedentes para que o escolhido seja o jogador ‘mais importante para uma caminha vitoriosa’ do que propriamente o melhor atleta da temporada; foi um critério que se moldou com o tempo, se consolidando nos anos 80, quando os melhores jogadores fatalmente estavam nos times de melhor campanha; e é dessa forma que hoje os jornalistas que votam se sentem ‘obrigados’ a votar.

Com isso, dos anos 80 para cá, somente UMA VEZ um jogador de um time fora do top 3 da sua conferência ganhou o prêmio. Em 1982, Moses Malone foi o segundo cestinha da temporada e o maior reboteiro, com médias de 31 pontos e 14 rebotes por partida. Além disso, teve sorte de pegar uma entressafra de talentos, com Abdul Jabbar já com seus melhores dias no passado e Larry Bird e Magic Johnson ainda em ascensão.

E somente em outras duas vezes um atleta que não estava entre os dois melhores foi eleito MVP. Ou seja, das últimas 37 temporadas, em 34 o cara estava em uma das duas melhores campanhas da sua conferência.

No entanto, as coisas vem se desenhando para que, ao final da disputa desta temporada, esta seja uma das poucas vezes em que esta lógica é revertida. Especialmente pelos desempenhos individuais espetaculares de Russell Westbrook e James Harden. Apesar de estarem em equipes que dificilmente figurarão entre as melhores do Oeste, já que Golden State Warriors, San Antonio Spurs e Los Angeles Clippers têm dominado a conferência, seus números são históricos. Mais do que isso, suas equipes, ainda que sem o sucesso necessário para ficar no topo da disputa, estão vencendo consideravelmente mais jogos do que perdendo e suas campanhas superam alguns prognósticos mais pessimistas do início do campeonato.

Excluindo três temporadas de Oscar Robertson, lá nos primórdios do universo dos anos 60, Harden e Westbrook são os únicos dois jogadores que ultrapassaram (por enquanto) uma média de 27 pontos, 11 assistências e 7 rebotes por jogo.

Em toda a história, só estes dois caras fizeram mais do que 20 pontos, 10 assistências e tiveram um índice de Usage Rating, que mede a participação do atleta nas jogadas totais do time, superior a 33%.

Se por um lado Russell Westbrook tem a seu favor números consideravelmente mais impressionantes que os de Harden – como uma média de triple-double – e a narrativa do abandono de Kevin Durant, o barbudo leva vantagem por ter uma campanha melhor por enquanto e também viver uma história curiosa digna de prêmio – de melhor pontuador da NBA a principal criador de jogadas da liga.

Histórias, números e trajetórias tão impressionantes que podem ameaçar candidatos mais tradicionais, como Lebron James, do soberano Cleveland Cavaliers, Kevin Durant, espetacular no Golden State Warriors, e Chris Paul, no ótimo Los Angeles Clippers. Não estivessem Russell e Harden tão sinistros, não poderiam sequer ser cogitados.

Westbrook x Durant: o que cada um tem a provar

Hoje a noite, no último jogo da rodada, teremos um dos confrontos mais aguardados da temporada. O Golden State Warriors, de Kevin Durant e companhia, recebe o Oklahoma City Thunder, de Russell Westbrook (e basicamente só ele mesmo). Ainda que todo mundo esteja em polvorosa por causa do reencontro e das supostas tretas entre os dois, eu acho que o jogo vale menos pela eventual rivalidade entre a dupla e mais pelo que cada um tem a provar neste momento da carreira e da temporada.

Explico: ainda que eu entenda que a forma como as coisas aconteceram leve a este enredo, como se os dois se odiassem e tal, não acredito que isso seja muito real. Pelo que ambos disseram e seus colegas de time confirmaram, nunca foram melhores amigos, nunca passaram de uma dupla imparável dentro de quadra. Além do mais, cada um seguiu sua carreira e pronto, sem ódio recíproco. O desfecho, no final das contas, foi o mais conveniente para cada um: Russell finalmente teve um time só para ele e Durant garantiu uma equipe competitiva a altura do seu talento. Hoje teremos um jogo pegado, disputado entre dois times fortes do Oeste, mas nada mais do que isso necessariamente.

Acho que esse clima de ódio, treta e mágoa vai fazer mais sentido quando Durant for jogar em Oklahoma pela primeira vez, tendo que encarar a torcida que, essa sim, está com sangue nos olhos.

NBA: Playoffs-Oklahoma City Thunder at Dallas Mavericks

O que eu acho mais relevante do encontro de são dois times que têm dinâmicas completamente diferentes de jogo. De um lado é um time quase que de um cara só, que chuta 30, 40 bolas por partida e tenta provar que esse é o melhor caminho para ganhar. Do outro, uma equipe com pelo menos três caras que poderiam fazer o mesmo, mas ainda estão atrás de uma maneira de conciliar suas habilidades individuais dentro de um esquema coletivo.

Da parte do Thunder, o time ainda quer entender em qual intensidade Westbrook é saudável para o jogo da equipe. Da parte do Warriors, o quanto cada um precisa ceder em nome de uma fluidez coletiva.

Até o momento, o time de Oklahoma venceu todos os jogos – é um dos dois únicos que está invicto na NBA. Ontem, no maior desafio do time, contra o Clippers, Westbrook se concentrou em defender o perímetro com mais intensidade do que nas partidas anteriores e pontuar. O ataque se resumia em trocar passes laterais até que a bola voltasse para as mãos de Russell que, individualmente, tentava decidir as jogadas.

Ainda que o jogador esteja com uma média impressionante de assistências (10 por jogo), acho que a versão mais decisiva de Westbrook seja esta mesmo, a pontuadora letal.

Do outro lado da quadra, Durant está provando que conseguiu, até agora, transpor seu jogo para a nova equipe – e que alguns elementos do time, na verdade, é que precisam se ajustar a ele.

Klay Thompson é o melhor exemplo disso: a presença de KD parece ter aberto mais espaços para Klay receber os passes entrando no garrafão do que aberto para o chute de três – aumentou significativamente a frequência de arremessos a menos de um metro da cesta e viu seu rendimento nas tentativas de fora. Ainda que na teoria isso renda melhores oportunidades de pontuação para o jogador, Klay não parece estar confortável com a situação. Cabe um ajuste aí, ainda.

Ainda que amostra seja pequena, a melhor partida do Golden State, contra o Portland, no ano foi aquela em que Durant se preocupou menos em disputar o rebote de defesa e mais em marcar os chutes. Que carregou menos a bola no ataque e que procurou mais abrir espaços para receber livre e chutar.

Com a frequência dos jogos, Durant e seus colegas ainda vão entender se estas funções são as melhores para o Warriors deslanchar ou não.

Mesmo que o burburinho todo do jogo fique em torno da eventual rivalidade entre Kevin e Russell, a partida de hoje tem mais a mostrar sobre o papel de cada um neste novo cenário. E, aí sim, provar se as escolhas deles foram corretas.

 

Uma temporada de provação

Toda temporada tem dessas, eu sei, mas parece que esta é especial neste sentido: muitos times e jogadores entrarão em quadra para provar algo que os atormenta. Mais do que o jogo em si, uma tese precisará se confirmar, um mito terá que ser desmentido ou um tabu precisa ser quebrado. Olhando assim para a temporada, antes das coisas começarem, parece que vai haver uma redefinição de papéis a partir do que acontecer na disputa.

A principal destas histórias é a confirmação do favoritismo do Golden State Warriors. Depois de tudo que aconteceu, o time já tinha a obrigação de vencer na temporada passada sob risco de colocar em cheque todos os feitos impressionantes alcançados ao longo do ano – o principal deles, o recorde de 73 vitórias na temporada regular. O time teve números de melhor de todos os tempos e entrou na discussão sobre a melhor equipe de todos os tempos. Mas perdeu e quase tudo foi colocado por água abaixo.

Agora, o time volta a chamar toda a responsabilidade com a contratação de Kevin Durant, incontestavelmente um dos cinco melhores jogadores da atualidade. O time que já era espetacular ficou ainda melhor. Ainda por cima, atraiu Durant justamente pelas suas chances de vencer logo de cara e construir uma dinastia ao seu redor. Se não ganhar, vai parecer que muita coisa foi feita a troco de nada. Não há outra opção, só o titulo interessa para provar que tudo isso teve um propósito justificável.

Steph Curry

A outra grande história da temporada vai ser Russell Westbrook, o jogador que restou em Oklahoma, mostrar que não depende de Durant para ser competitivo. Que pode ser o líder de um time. Que o Thunder pode ser uma franquia forte, que habite o topo da tabela, com ele.

Enquanto Russell e Kevin eram uma dupla, sempre existiu a desconfiança acerca do jogo do armador. Sobre o quanto era eficiente. O quanto as stats avassaladoras faziam bem ao time e não somente a ele mesmo. Agora será possível tirar a prova.

Mas há muito mais coisas em jogo. O San Antonio Spurs vai poder mostrar se é uma franquia vencedora independente do seu maior jogador de todos os tempos, Tim Duncan, que venceu todos os cinco títulos do time. Vai poder provar se sabe fazer uma reconstrução sem recaídas, como parece.

O Los Angeles Clippers vai poder mostrar para todo mundo que unir Doc Rivers, Chris Paul, Blake Griffin e companhia forma um time vencedor, sim. Que é tão forte quanto seus principais concorrentes.

Houston Rockets precisará provar que sabe defender – ou que pode vencer sem defender. Boston Celtics, que melhorou. Dallas e Memphis, que não pioraram.

Dwight Howard tem que mostrar que ainda é útil. Anthony Davis e Joel Embiid, que são saudáveis. Curry, Durant e Thompson, que podem coexistir. Wade, Butler e Rondo idem.

Vish, tem muita coisa em jogo…

Só o Cleveland Cavaliers e Lebron James que não precisam convencer mais ninguém de nada. O Cavs já tirou o enorme peso das costas com o título da temporada passada em uma virada incrível. Lebron já se consolidou como um dos maiores da história – se alguém ainda é louco e não se convenceu disso, não vai ser mais uma campanha absoluta que vai fazer mudar de ideia.

Quem comecem as provações.

Palpites fundamentais para a temporada 2016/2017

Eu já fiz uma análise mais séria, time a time, das pretensões de cada equipe para a temporada que se inicia nesta terça-feira. Agora é a hora de palpitar na base total do achômetro mesmo. Farei aqui as minhas e vocês, concordando ou não, fazem os seus nos comentários. Ano passado fiz o mesmo e até que tive um bom aproveitamento nos acertos. Tomara que a performance se repita neste ano, haha.

Vamos lá:

  • O Brooklyn Nets não vai chegar a 20 vitórias na temporada.
  • New York Knicks se reforçou, mas vai penar para se classificar para os playoffs.
  • Dallas Mavericks não vai se classificar para os playoffs.
  • O técnico do Chicago Bulls Fred Hoiberg não termina a temporada no seu cargo.
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  • Philadelphia 76 vai melhorar, mas só vai ganhar mais jogos que o Nets.
  • Anthony Davis vai finalmente jogar mais de 80 jogos na temporada regular.
  • DeMarcus Cousins será trocado até o final da temporada. Lamarcus Aldridge termina o campeonato no Spurs.
  • Russell Westbrook vai fazer mais do que 25 triple-doubles na temporada (um recorde nos últimos 40 anos), mas não será o MVP.
    Los Angeles Lakers v Oklahoma City Thunder
  • Kristaps Porzingis e Karl Anthony Towns serão chamados para o All Star Game. Giannis Antetokounmpo não.
  • Joel Embiid vai ganhar os nossos corações, mas não o Rookie of the Year.
  • Depois de dois anos batendo na trave, Brad Stevens vai finalmente ser eleito o melhor técnico da temporada.
  • E o Boston Celtics só vai ficar atrás do Cleveland Cavaliers na Conferência Leste.
  • James Harden será o cestinha da NBA. E Kevin Durant será o maior pontuador do Golden State Warriors.
  • Pela primeira vez na história, uma final da NBA vai se repetir pelo terceiro ano consecutivo.

[Previsão 16/17] Thunder: para Westbrook fazer história

Mais do que a união de Kevin Durant e o Golden State Warriors, eu acho que a grande história desta temporada vai ser a cruzada solitária de Russell Westbrook para provar que ele é capaz de levar o Oklahoma City Thunder longe.

Acho que vai ser muito difícil este time superar o próprio Warriors ou o Spurs, mas tenho certeza que Russell, tomado pelo ódio que lhe é característico e sem uma companhia dominante ao seu lado, vai fazer uma das performances individuais mais impressionantes de todos os tempos.

Westbrook é daqueles caras que dominam todas as ações da quadra. É um finalizador nato, tanto de média distância como dentro do garrafão. Apesar de não ter a melhor visão de jogo do mundo para um armador, sua presença ameaçadora como pontuador abre espaços para seus colegas se posicionarem bem, o que rende uma boa média de assistências para o jogador. Ainda é do tipo que briga por todas as bolas com uma intensidade única, conseguindo uma média assustadora de rebotes para um armador.

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Por tudo isso, as apostas são altas para que ele tenha uma temporada de triple-double – feito que só Oscar Robertson conseguiu há 50 anos. Não acredito nisso. O ritmo da NBA de hoje não se compara ao daquela época (na década de 60, os times imprimiam 125 posses por partida e hoje a média fica em torno de 100). Mas Westbrook pode ter o mais próximo possível disso. Nos 61 jogos que atuou sem Durant ao longo da sua carreira, Westbrook teve médias de 28 pontos, 7 rebotes e 8 assistências. Um monstro.

O grande desafio vai ser o time inteiro acompanhar o desempenho da sua principal estrela.

Offseason
Foi uma das mais agitadas da NBA. Primeiro o time se desfez de Serge Ibaka, ala-pivô que não estava muito satisfeito com sua posição no time, e trouxe Victor Oladipo, Ersan Ilyasova e Domantas Sabonis do Orlando Magic. Parecia que era uma boa cartada para manter Kevin Durant. Não foi. O jogador preferiu assinar com o rival Golden State Warriors.

De positivo, conseguiu renovar com Russell Westbrook antecipadamente, adiando uma aflição similar ao que aconteceu com Durant neste ano.

Time Provável
PG – Russell Westbrook / Cameron Payne
SG – Victor Oladipo / Andre Roberson / Alex Abrines
SF – Ersan Ilyasova / Kyle Singler
PF – Enes Kanter / Domantas Sabonis / Joffrey Lauvergne
C – Steve Adams

Expectativas
Eu acho que o time vai manter o bom desempenho dos anos anteriores, mesmo sem KD. Na temporada em que Westbrook jogou sozinho, o OKC venceu 40 dos 60 jogos que o armador carregou o time nas costas. Acredito que é possível ficar entre os quatro melhores do Oeste. Bater Clippers, Spurs ou Warriors já seria um grande feito.

Não dá para imaginar Westbrook em um time de verdade

Sim, é quase impossível deixar de ser monotemático nesta offseason. Basicamente as trocas de time de Kevin Durant e Dwyane Wade dominam as conversas nesta época em que quase nada acontece na NBA (Summer League pra mim é quase nada, foi mal…). Pensando na saída de Durant de OKC e nos boatos que colocam Russell Westbrook, seu ex companheiro, em outros times, eu cheguei à conclusão que eu simplesmente não consigo imaginar Russ jogando por uma outra franquia, com um time já formado.

Westbrook é um cara que tem o jogo mais intenso da liga. Também é o que mais domina a bola. Em boa parte das jogadas, ele salta no meio dos pivôs para pegar p rebote, corre por toda a quadra quase que mais rápido do que a bola e bate bola até arremessar ou colocar um companheiro livre para marcar. A cada dez segundos de posse do seu time, parece que só uma fração mínima de tempo ele não está dominando as ações, puxando o time inteiro numa histeria coletiva.

A estranheza de imaginar ele fora de OKC é que ao longo de toda a sua carreira foi desse jeito – no máximo dividindo as responsabilidades com Kevin Durant e James Harden. O grande lance neste caso é que Durant e Harden são estrelas mais tradicionais nos seus modos de jogar, não são uma explosão da força de uma bomba atômica a cada posse de bola. Nos últimos oito anos, enquanto Russell foi jogador profissional, o esquema do seu time era entregar a bola na sua mão ou de Durtant e esperar que algo saísse dali, como um eterno jogo de praça.

No entanto, pela sua personalidade e pelo seu chute refinado, eu consigo imaginar Durant jogando por um time tradicional, com um esquema de jogo de verdade. Westbrook não. O Boston Celtics é o time mais falado no momento para receber o armador em algum tipo de troca antes do início da temporada. A equipe hoje tem um dos técnicos mais inteligentes e promissores da liga. Dá para imaginar um time que joga totalmente baseado em um esquema coletivo sendo conduzido por um trem desgovernado como Westbrook? Eu não consigo.


Em tempo, está não é uma crítica ao jogador. Eu acho ele excelente. Russell é, para mim, o atleta mais naturalmente preparado que eu já vi para tentar ganhar um jogo – todas, TODAS, as suas jogadas são estritamente objetivas, o que eu acho uma qualidade gigantesca. Mas me parece que colocá-lo em um time de verdade, pronto, vai causar nada menos do que um estouro cósmico da força de um Big Bang.

É como colocar um gorila imenso e irado dentro de uma jaula para um mico-leão: ou o bicho destrói tudo aquilo em segundos ou ele se reduz a algo muito menor do que ele é de verdade. É exatamente essa a minha sensação com Westbrook: transformando um eventual novo time em uma nova versão do Thunder, com todas as vantagens e desvantagens disso, ou perdendo algumas das suas características que o fazem um jogador tão único.

Apesar disso tudo, dessa minha incapacidade de abstração, eu acho que ele merece um time mais competitivo. Também entendo que todo time que tenha a chance de propor uma troca por ele, deve fazê-lo. Que o trabalho de somar todo o talento de Westbrook a um esquema vencedor já em desenvolvimento seja do seu novo treinador – mas já adianto que não vai ser fácil.

Westbrook é provavelmente mais inteligente que você

Há um grande consenso sobre Russell Westbrook: que ele é um monstro infernal, um trem desgovernado, um insano completo quando está jogando basquete. Apesar de ter números implacáveis e estar se apresentando no mais alto nível, algumas ações dentro de quadra nos fazem questionar se ele é um excepcional jogador em todos os aspectos ou se é um ser com um corpo abençoado para o jogo mas com uma cabeça que às vezes ‘dá ruim’.

Eu, particularmente, acho ele fantástico, mas entendo que muita gente tenha um pé atrás com ele, já que nem sempre toma as melhores decisões possíveis. Mas eu posso afirmar outra coisa, também: pelo menos fora das quadras, ele é mais inteligente que a grande maioria de nós.

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Os óculos entregam a nerdisse de Westbrook. Ou não.

Quando se formou no Ensino Médio, Russell tinha um GPA, que é a nota média padrão dos EUA, de 3,9. Para você ter uma ideia, esta nota média garante entrada em 97% das universidades americanas e é superior a 94% do desempenho total dos alunos no país. Além de todas as bolsas oferecidas por conta do seu basquete, Westbrook recebeu uma proposta de bolsa parcial de Stanford – uma das cinco universidades mais fodas do país, no mesmo nível de Harvard, por exemplo – por conta do seu desempenho acadêmico, especialmente em matemática, matéria que tinha as melhores notas.

Ele também é um dos poucos casos de jogadores que foram draftados mas continuaram indo às aulas mesmo depois de se tornar profissional. Por alguns verões após ter entrado para a NBA, ele compareceu às aulas de inglês e história para conseguir o diploma de Estudos Afro-Americanos pela UCLA.

É bom pensar duas vezes na próxima vez que for chamá-lo de burro.

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