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Olimpíadas: até que ponto o grupo é mesmo ‘da morte’?

Comecei uma série de posts sobre os Jogos Olímpicos. Já falei um pouco do momento da seleção brasileira e do ato final desta geração. Agora é a vez de comentar sobre o primeiro grande desafio do time brasileiro na competição: o famigerado ‘grupo da morte’. Sinceramente, eu acho uma besteira este rótulo nos Jogos Olímpicos. Voltando um pouco no tempo, olhando os torneios dos anos anteriores, dá pra dizer que é um ‘grupo da morte’ mesmo? Na boa, o campeonato de basquete das olimpíadas é tão foda e seleto que todo grupo é dificílimo!

Até pela forma como as eliminatórias acontecem, com um filtro fudido, sempre vão passar pelo menos oito times bem fortes para os jogos. Como são dois grupos de seis, tradicionalmente teremos quatro equipes bem fortes em cada grupo.

No caso do grupo brasileiro, o que faz a turma repetir o mantra é que, em tese, existem cinco potenciais classificados para quatro vagas. Além do time brasileiro, Espanha, Lituânia, Argentina e Croácia estão no bolo para avançar para a próxima fase – deixando só a Nigéria como virtual desclassificado logo de cara.

Eu discordo um pouco disso. Salvo alguma zebra, acho que existem três classificados garantidos – entre eles o Brasil – e duas equipes que disputam a última vaga, o que pra mim descaracteriza essa aura de ‘grupo da morte’ – seria se mais times estivessem disputando vaga, ao meu ver.

Destrinchando melhor cada um dos times: começo pela Espanha, melhor seleção da chave. O time europeu é o mais experiente e com maior número de excelentes jogadores do grupo – e o segundo mais forte da competição, atrás somente do favorito óbvio que é a equipe americana. Ainda que tenha a baixa do seu melhor jogador em atividade, Marc Gasol, e também não vá contar com Serge Ibaka, o grupo de doze espanhóis escolhidos é muito bom.

O provável time titular é muito forte: Rúbio e Mirotic, apesar de jovens, são experientes e têm papéis importantes nos seus times na NBA. Sérgio Llull e Rudy Fernandez são estrelas do Real Madrid (ainda que o segundo tenha passado boa parte do ano lesionado) e Pau Gasol é o grande jogador espanhol de todos os tempos, que carregou a equipe na campanha vitoriosa do Eurobasket do ano passado. O banco ainda tem jogadores que seriam titulares em quase todas as outras equipes do torneio: José Calderon, Juan Carlos Navarro e Sergio Rodriguez, num backcourt impressionante, além dos jovens Alex Abrines e Willy Hernangomez, jovens que acabaram de assinar com times da NBA e que encabeçarão a renovação do time para os próximos anos.

A segunda força do grupo é a Lituânia. A seleção tem uma tradição incrível no esporte – era a base dos times soviéticos nas décadas em que vários daqueles países do leste europeu jogaram sob a mesma bandeira – e chega, mais uma vez, com uma equipe forte para a disputa de medalha. Tem Jonas Valanciunas, um pivô muito forte e com COJONES para liderar o time – não foge da briga e tem experiência internacional, apesar dos 24 anos de idade. O restante do time titular, com Kalnetis e Maciulis, está quase todo no seu auge técnico da carreira – foram vice dos últimos dois Eurobasket e semifinalistas da última Copa do Mundo e das Olimpíadas de 2004 e 2008.

O venceu bem boa parte dos seus últimos amistosos – até da Espanha – e mostrou ter um elenco muito homogêneo, ainda que falte um pontuador mais confiável de fora do garrafão para contribuir todo jogo.

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Junto destes dois times, eu colocaria o Brasil fechando o top3 do grupo, como seleções garantidas para a próxima fase, só dependendo dos seus resultados entre si para definir a ordem da classificação.

Sim, deixei a Argentina para o segundo escalão. Explico. Não é rivalidade – acho uma besteira essa treta forçada com eles -, nem má vontade, mas acho que os principais jogadores da equipe já envelheceram o suficiente a ponto dos seus níveis técnicos estarem prejudicados. Manu Ginóbili foi um deus em quadra, mas aos 39 anos ele já não é mais tão divino assim. Luis Scola, o terror do Brasil, já mostrou na última temporada da NBA que as 36 primaveras estão pesando. Andres Nocioni é outro vovô titular de 39 anos. Para completar, Carlos Delfino, também veterano, nem time tem.

A ‘Alma’, como é conhecida a seleção deles, até está no caminho certo para renovar seu time – ainda que seja muito difícil substituir à altura uma geração tão talentosa como a que venceu o outro em 2004 -, mas as grandes referências do time estão em uma decadência natural. Não que isso queira dizer muita coisa, mas a Argentina perdeu amistosos para Nigéria e Austrália ao longo da preparação para o torneio, evidenciando algumas fragilidades.

Para brigar com os hermanos pela última vaga, aparece a Croácia, que é basicamente o inverso do que o time argentino representa: um time muito jovem, que depende das suas estrelas em ascensão para ter sucesso. Dario Saric e Roko Ukic são estrelas, mas muito jovens ainda, assim como o reserva Mario Hezonja. Sobra, então, para Bojan Bogdanovic, do Brooklyn Nets, carregar o piano quando a molecada não der conta. Podem até surpreender, mas vão precisar ganhar de algum time muito mais rodado e igualmente talentoso para poder sonhar com uma vaga na segunda fase – e, mesmo que consigam isso, enfrentariam a seleção americana logo de cara.

Fecha o grupo, sem qualquer chance de se classificar, a Nigéria, que tem a melhor geração da sua história – fruto de um processo de naturalização de um monte de descendentes nascidos nos EUA -, mas mesmo assim ainda não tem uma seleção forte formada. Chega sem seus dois jogadores mais famosos, Al-Farouq Aminu, Victor Oladipo e Festus Ezeli, e vai entrar em quadra apenas com alguns jovens talentos escorados no veterano Ike Diogu, que já tentou a vida na NBA, fez sucesso na Europa e hoje joga na China.

Olimpíadas: a última chance deste elenco brasileiro

Hoje vou estrear aqui uma série de posts sobre o torneio masculino de basquete nas Olimpíadas. Para começar, vou destrinchar um pouco da seleção brasileira e, na sequência, as suas possibilidades de beliscar uma medalha.

A competição olímpica é muito difícil, especialmente por ser muito equilibrada e curta. No entanto, justamente por isso, também é possível que o Brasil esteja na briga por medalha, mesmo não sendo uma das três melhores seleções do mundo. É tudo uma questão de sorte nos cruzamentos e momento – vou tratar disso em um post nos próximos dias.

Mas vamos lá, sobre o time: esta é a última chance deste elenco mostrar serviço pela seleção. O ‘núcleo duro’ do time é todo trintão e não vai ter mais uma chance de medalha: Leandrinho, Nene, Alex, Marquinhos, Huertas, Giovanonni e Hettsheimeir não estarão em Toquio daqui quatro anos. Isso não é necessariamente ruim para a disputa deste ano, já que os caras estão com rodagem suficiente para encarar o grande desafio das suas vidas e com a máxima motivação de fazer acontecer agora – só é negativo pensando no futuro da seleção, mas essa é outra conversa.

A primeira geração brasileira com experiência na NBA demorou para engrenar, ficou de fora dos jogos de 2000 a 2008. Mas teve participações com excelentes lampejos nas Olimpíadas de Londres, em 2012, e na Copa do Mundo de 2014, fechando na quinta e sexta posição, respectivamente. Isso denota alguma evolução, especialmente com a chegada do técnico Rubén Magnano no time.

Esta combinação, de técnico e time experientes, aliada à vocação e entrega de um elenco que joga junto há um bom tempo, faz do Brasil uma das melhores defesas da competição, o que já é um primeiro passo para ter um time bem competitivo. Se existe uma nuvem negra que atormenta este time, que são os apagões em momentos decisivos, uma marcação implacável nos 40 minutos de jogo é algo que pode compensar mesmos estes lapsos ofensivos.

O possível time titular – que eu imagino sendo Marcelinho Huertas, Leandrinho, Alex, Hettsheimeir e Nene – joga o chamado BASQUETE MODERNO. No backcourt, Huertas é um armador inteligentíssimo que mete suas bolas quando não é o ponto focal do ataque (e não é neste time), Leandrinho é um combo guard completo. Nas alas, Alex é capaz de marcar qualquer jogador da face da terra e Hettsheimeir, guardadas as devidas proporções, é o típico ‘stretch four’ que virou moda na NBA – corpo de pivô, mas especialista na bola de três, abrindo espaço no garrafão adversário para as infiltrações dos colegas.

Por último, Nene, que é o jogador brasileiro que eu mais gosto – acho que merece um comentário mais longo, aliás. O atleta já foi achincalhado em outros momentos por não ter jogado sempre que convocado pela seleção. Quem acompanha o blog sabe que eu defendo os jogadores que, nestes casos, pensam no que é melhor para suas carreiras e não para as confederações que cuidam das seleções nacionais. Hoje, sem sombra de dúvidas, é o principal jogador do elenco e os PATRIOTAS que tanto xingaram o cara nos últimos anos vão acabar se dobrando diante do seu talento. Nene tem a inteligência de um point guard dentro do garrafão e é o tipo do cara que não afina para absolutamente ninguém. O que me anima ainda mais, é que ele parece estar muito bem fisicamente. Veremos o pivô na sua melhor forma dos últimos anos, o que é excelente.

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Nene no garrafão: fisicamente bem e tecnicamente especial

Outro ponto positivo do time é que seu banco de reservas é bem completo e acima da média da competição. Raulzinho é muito bom jogador e é um armador quase tão bom quanto o titular. Marquinhos é excelente nos tiros e tem porte para encarar os principais jogadores das seleções adversárias. Felício e Augusto Lima são os jovens talentos com gás e potência para, inclusive, brigarem pela titularidade ao longo do torneio. Benite tem cacife para ser o pontuador da segunda unidade.

O que pesa contra esse elenco – e é uma desvantagem perante os principais rivais – é que os principais jogadores do time brasileiro não tem jogado com a intensidade de competição que os melhores jogadores das outras equipes ao longo do ano. Huertas, Nene e Leandrinho foram reservas das suas equipes. Faz diferença no ritmo e na moral você ter jogado a última temporada inteira como um titular, ter entrado em quadra 30 minutos de jogo, ter sido um dos caras que decidiu partidas para seu time de ser um reserva que entra, joga 15 minutos no máximo e volta para o banco assistir os minutos finais de jogo sentado. O alento é que existem outros jogadores que jogaram dezenas de partidas decisivas e foram os principais jogadores em suas equipes da NBB.

Os amistosos mostraram um time bem competitivo, mas né, foram amistosos. Eu acho que, mesmo no ‘grupo da morte’, o Brasil passa bem de fase – isso quer dizer que não fica em quarto, evitando um cruzamento precoce com os EUA – e que, com sorte, briga por medalha lá na frente. Acho que dá.

Deixem os torcedores de Mogi cornetar Rafa Luz

A seleção brasileira está em Mogi das Cruzes fazendo uma série de amistosos preparatórios para as Olimpíadas ao longo dos últimos dias. Em todos os jogos, nos momentos em que é apresentado na escalação inicial e quando dá seus primeiros toques na bola, o armador Rafa Luz recebe uma vaia da galera que está no ginásio. O jogador disputou até o último momento vaga no time final com o armador do time local, Larry Taylor. No final das contas, o atleta que jogou pelo Flamengo foi o escolhido em detrimento do americano naturalizado brasileiro – e o pessoal de Mogi ficou na bronca.

Na mesma frequência em que aparecem as vaias, o pessoal que está cobrindo o jogo, jornalistas que acompanham a modalidade e PERSONALIDADES DO BASQUETE EM GERAL criticam a reação da galera e fazem uma campanha de, digamos assim, ‘acolhimento’ de Rafael Luz.

Eu, sinceramente, acho essa recriminação um saco! Tem coisa mais escrota no esporte do que condenar uma torcida por fazer seu papel de torcida?

Luz foi escolhido no lugar do ídolo do time de Mogi, Flamengo e o time da cidade se mataram na semifinal da NBB há pouco tempo. Se essa é uma torcida de verdade, é claro que eles vão encher o saco dele.

Me coloco no lugar destes torcedores. Lembro de ter ido assistir o treinamento da seleção de futebol quando era moleque, numa das vezes que vieram jogar em Curitiba. Na oportunidade, Oséias, atacante do Atlético foi convocado. Eu, coxa-branca, só fui ao Pinheirão para xingar o cara. Dane-se que ele estava com a camisa do Brasil. Não dá para pedir que o torcedor, aquele que não é um mero espectador, deixe seus sentimentos de lado.

Além disso, são apenas amistosos. Os jogos não valem nada. Em breve, Rafa Luz, que não tem culpa de nada mesmo e está jogando numa boa, vai atuar ’em casa’, sem ninguém pra pegar no seu pé. Tenho certeza que o simples fato de ser o time da casa é uma pressão muito mais perturbadora do que essas vaias – que ao longo do jogo desaparecem, a exemplo de uma bola espírita que o armador meteu na partida deste sábado e todo mundo aplaudiu e comemorou.

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Rafa Luz está menos incomodado com as vaias do que todas as PERSONALIDADES DO BASQUETE que ficaram ofendidas com a reação da torcida local

Por último, o que me deixa mais puto com essa campanha é que, ao mesmo tempo que condenam a reação mais espontânea vinda da arquibancada nestes amistosos, um locutor insuportável tenta enfiar goela abaixo da torcida aqueles coros ensaiados do tipo EEEEEEEEEEUUU SOU BRASILEEEEEEIRO, que nenhuma torcida que se preze deveria ter a pachorra de cantar.

Contra esse tipo de coisa, que é o verdadeiro mal das arquibancadas nesse tipo de competição, essa turma não se revolta…

Felicio mostrou que tomou a decisão correta

Há pouco mais de um mês, Cristiano Felicio abdicou da sua convocação para as olimpíadas para ficar nos Estados Unidos treinando e jogando pelo time do Chicago Bulls na Summer League. Um mês depois,  campeão e um dos destaques da competição, Felicio mostrou que tomou a decisão correta quando abriu mão dos jogos olímpicos.

Basicamente o que um jogador busca ao entrar em quadra nos torneios de verão é ganhar moral com seu time e a comissão técnica. Felicio é o jogador que possivelmente mais tirou proveito disso neste período.

Ele e Bobby Portis foram os jogadores que mais se destacaram no time que venceu a Summer League de Las Vegas, com a diferença que Portis já tinha contrato de calouro garantido e foi titular em uma boa porção de jogos do Chicago na temporada passada – para ele, o torneio era só uma confirmação do seu status como jovem revelação.


Já Felicio era um cara que parecia que seria usado pelo Bulls na próxima temporada, mas que teria que demonstrar muita evolução e dedicação para subir na rotação. Lembrando que ele não tem o hype dos jogadores universitários e é só mais um do bolo de pivôs do time – a ponto de escreverem seu nome errado na camisa em uma das partidas.

Com o desempenho excelente – confirmado por um aproveitamento absurdo nos chutes e uma boa porção de rebotes -, me parece óbvio que ele estará na rotação do time, mesmo que com uma participação modesta.

Na seleção, por outro lado, Felicio até seria útil, mas não seria páreo para a experiência e calibre internacional de Nene e Varejão. Ficar um mês no Brasil treinando para não ser uma peça fundamental e ainda perder a chance de garantir seu lugar na NBA – o primeiro passo da sua carreira na liga – seria pedir demais para o garoto.

Em tempo, também não seria justo pedir para que ele se juntasse ao grupo agora, como vi em alguns lugares. Este é o tipo de concessão que se faz a um fora de série, que mudaria a forma do Brasil jogar. Não é o caso de Cristiano. Seria uma falta de consideração com seus colegas de seleção – alguns, inclusive, que treinaram e foram cortados.

No final das contas, a escolha foi a ideal para Felicio e pode ser a melhor pra o Brasil, que precisa tanto de uma renovação e que vai contar com um jogador mais gabaritado para as próximas competições

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