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A fuga para o Oeste é a chance dos times do Leste

Ao que parece, boa parte dos bons jogadores que foram trocados ou assinaram contratos com novos times correram para jogar na conferência Oeste. O titular do All Star Game do ano passado e um dos selecionados para o terceiro All NBA Team deste ano, Jimmy Butler, é a principal novidade do Minnesota Timberwolves. Também estrelar e outrora ‘segundo melhor jogador da conferência Leste’ Paul George foi para no Oklahoma City Thunder. Paul Millsap, discreto porém eficientíssimo e All Star nos últimos quatro anos no Leste, assinou contrato com o Denver Nuggets.

Além das mudanças mais significativas, confirmam esta tese Chris Paul, Jrue Holiday e Blake Griffin, que poderiam mudar de ares (e fuso horário), mas preferiram continuar ‘do lado de lá’ do mapa. Sem contar, claro, nos inúmeros jogadores bonzinhos, médios e médios-pra-ruins que fizeram a troca e congestionaram o Oeste americano, como PJ Tucker, Jeff Teague e Patrick Patterson.

De relevante no movimento contrário, apenas Gordon Hayward trocou o Utah Jazz pelo Boston Celtics. No mais, são todos jogadores do calibre de JJ Redick pra baixo – úteis, mas nada que reequilibre a ordem das coisas.

Na teoria, isso significa que os times do Oeste estão se reforçando: Rockets adicionou mais uma estrela (e boatos dão conta que pode ter Carmelo Anthony ainda), Timberwolves virou uma força, Thunder reforçou o apoio a Westbrook e Spurs deu mais profundidade ao elenco com Rudy Gay. Além disso, Clippers conseguiu repor peças, Kings e Suns mostram alguma evolução e Grizzlies tenta rejuvenescer.

Apesar de achar que o Golden State Warriors ainda é, de longe, o time mais forte da liga e que nenhuma destas negociações chegue a formar um time tão talentoso quanto o atual campeão, acredito que este movimento, na prática, seja benéfico para as maiores potências do Leste. Na verdade vou além: acho que pode ser essa a grande chance de Cleveland Cavaliers e Boston Celtics ameaçarem o reinado do Warriors.

Meu raciocínio é o seguinte: nas condições atuais, a menos que uma macumba muito braba pegue de jeito o Golden State, o time tem pouquíssimas chances de ser vencido por qualquer time. Uma das chances mais reais, ao meu ver, seria se o melhor time do Leste conseguisse chegar à final da NBA com o mando de quadra a seu favor. Com o fortalecimento dos rivais do Oeste e míngua dos times do Leste, isso pode perfeitamente acontecer.

(Winslow Townson-USA TODAY)

É de se esperar que, fora Raptors, Wizards e, talvez, Bucks, os demais times não sejam lá grandes coisas para realmente tirar vitórias, de uma maneira geral, dos dois principais times do Leste. Knicks, Nets, Pacers, Bulls e Hawks estão formando times para levar porrada. Magic e Sixers devem levar bastante chumbo ainda. Pistons, Hornets e Heat devem descolar playoffs, mas não me surpreenderia se tivessem campanhas negativas ou bem próximas do 50% de aproveitamento. Com isso, projetando classificação em um exercício puro de especulação, seria natural que os melhores times do Leste tivessem um acréscimo considerável nos seus números de vitórias – já que times das mesmas conferências jogam o dobro de vezes entre si.

Por outro lado, é de se esperar que o Warriors tenha um declínio no seu número total de vitórias enfrentando uma concorrência muito mais bem armada dia sim, dia não. Neste raciocínio esperançoso por uma competição mais imprevisível, também dá para supor, mesmo que sem base alguma, que o Warriors relaxe um pouco mais na sua corrida de temporada regular (seria a quarta perto da casa das 60 vitórias!).

Para que um dos times do Leste o passasse, seria necessário que nenhum deles entrasse no modo de piloto automático – como fez o Cavs no ano passado, entregando a primeira posição para o Celtics nas rodadas finais.

Ok, assumindo que é possível que um time da outra conferência, mesmo sendo consideravelmente pior do que o Warriors, termine na sua frente, defendo que isso pode ser decisivo para que este mesmo time mais fraco aumente bastante as suas chances de bater o GSW numa série de playoffs com o mando de quadra a seu favor.

Para começar, existe uma vantagem histórica que dá uma boa sustentação a isso. Na temporada regular, o time da casa vence 60% dos jogos. Conforme a competição avança, a vantagem de jogar no seu ginásio é mais visível. Nos playoffs, o time que joga em seu território vence dois a cada três jogos. Nas finais, são três a cada quatro.

Além disso, dá para tirar como base as últimas finais em que Golden State e Cleveland se enfrentaram. Era esperado um confronto consideravelmente equilibrado neste ano, mas as duas lavadas aplicadas pelo Warriors nos primeiros jogos, em casa, fazendo valer o mando, afundaram as pretensões do time de Lebron James e Kyrie Irving. Mais do que o 2 a 0, parecia que não havia competição e que seria necessário um esforço descomunal para que a vantagem do GSW fosse revertida.

Fosse outra a ordem dos jogos, era possível que a série começasse com pelo menos uma vitória para o Cavs, mesmo que o Warriors fosse bastante superior, o que daria uma cara diferente ao confronto – fazendo com que ele fosse até mais competitivo dali em diante.

Não há nenhuma garantia, claro, mas é uma chance das coisas serem um pouco mais equilibradas enquanto o Warriors tiver um time tão sobrenatural. Por mais que seja uma sucessão de fatores que transitam entre a vontade de uma zebra e a possibilidade real (Golden State vencer menos jogos, Cavs ou Celtics ganharem mais, que a diferença seja suficiente para que o mando seja revertido e que isso seja realmente relevante na final), é um que inegavelmente influencia o jogo.

Só falta que cada um faça a sua parte do combinado.

Não é só dinheiro

Stephen Curry completou, nas primeiras horas do período de free agency, a sua negociação com o Golden State Warriors e fechou o maior contrato da história da NBA. Serão 200 milhões de dólares por cinco anos – o primeiro jogador fora do baseball a assinar um contrato deste calibre.

Muito se especulava se Curry não poderia confirmar sua fama de bom garoto e assinar um contrato camarada com a equipe – a franquia está se metendo em uma bolha de salários que vai forçar o time a se livrar de algum dos seus principais jogadores daqui duas temporadas ou vai embarcar em um espiral perigoso de multas por ter extrapolado em muito o limite salarial da liga. O raciocínio era o seguinte: o jogador já é trilhardário e poderia assinar por um contrato abaixo do máximo para dar aliviar as coisas para o Warriors. Em troca, o time teria mais facilidade para entregar um elenco forte por mais anos.

Por mais que seja bem ingênuo pensar assim, tinha quem fizesse esse coro, engrossado pelo fato de que Kevin Durant já tinha anunciado que faria isso – e fez, assinando por 52 milhões por dois anos.

Acontece que nem sempre o assunto é ‘só’ dinheiro.

Descartando o fato de que 200 milhões é muita grana até para as pessoas mais ricas do universo, o simples fato deste ser o contrato mais gordo de toda a história da NBA, já faz com que sua assinatura tenha um valor além das cifras. É uma marca por si só.

É claro que Curry ‘poderia’ assinar por, sei lá, 160 milhões pelos mesmos cinco anos, continuar com uma grana infinita e ajudar o time, mas o papo aqui é sobre ego. É sobre ser o maior.

Numa relação parecida, é a mesma diferença entre ser MVP e ser eleito de forma unânime. O primeiro é um feito absurdo, mas o segundo é algo único.

Nem acho que ele deva esse tipo de esforço ao time. Curry já passou alguns anos subvalorizado com um contrato de 44 milhões por quatro anos, uma bagatela para os padrões atuais da NBA, especialmente se tratando de um dos jogadores mais decisivos da liga nos últimos anos. Este salário, inclusive, fez com que toda a montagem do Golden State Warriors atual fosse possível – em especial, fazer com que o time fosse um destino para Kevin Durant.

Os números de venda de camisa e materiais licenciados também comprovam que pagar alto por Curry é um investimento válido fora das quatro linhas. A camisa mais vendida da NBA pelo mundo atualmente é a 30 do Golden State.

Se era esperado algum sacrifício de Curry, ele já foi feito há algum tempo. Hoje, é mais do que merecido que ele seja o jogador mais bem pago do basquete.

Durant não fugiu da história, só a escreveu à sua maneira

No dia em que Kevin Durant anunciou que se juntaria ao Golden State Warriors, eu fiz um texto aqui revoltado com a decisão. Naquele momento, eu estava triste que meu jogador preferido tinha escolhido se reunir com o time que tinha o derrotado. Que ele preferia o título a uma história que parecia ser mais fascinante.

Mas seria fascinante para quem? Para mim, sem dúvidas, seria muito mais legal ver uma dupla tipo Batman e Robin enfrentando os times superpoderosos da NBA e os derrubando um a um. Ver uma caminhada heróica de dois jogadores, dois amigos, que cresceram juntos como atletas e logo estariam prontos para conquistar a glória máxima. Mas para ele talvez fosse mais uma história digna de filme de heróis do que propriamente uma possibilidade real.

Por mais que o Oklahoma City Thunder tenha verdadeiramente ameaçado o Golden State Warriors no campeonato do ano passado, a quase vitória parece mais um ponto fora da curva, um evento circunstancial, do que uma tendência. Curry e companhia já formavam um time absurdamente bom que dificilmente seria batido por uma equipe com um basquete tão simples como aquele Thunder.

Por mais que eu ainda ache que um título não é (ou pelo menos não deveria ser) determinante para nós, torcedores, reconhecermos definitivamente se um jogador teve sucesso na sua carreira ou não, é preciso, para começo de conversa, considerar que para ele isso pode ser, sim, a coisa mais importante da sua vida. Portanto, se Durant achava tão necessário para sua carreira ser campeão e não via uma maneira disso acontecer em Oklahoma, é legítimo – por mais que eu ou você discordemos – que ele tenha ido para o Warriors.

Mas eu vou mais além nesse processo de empatia. A gente não sabe o que rola no dia a dia de um time, como são as relações dos jogadores, como eles se sentem nas organizações em que trabalham e tudo mais. Se há um ano parecia que Westbrook e Durant eram uma dupla inseparável, os relatos que sucederam a saída de Kevin do Thunder mostraram um cenário bem diferente, em que Russell era próximo de todos os jogadores do time e Durant não passava de uma referência técnica, mas com pouca afinidade com os caras na vida extra-quadra.

A sua trajetória no Warriors também mostra que seu talento pode ser muito melhor aproveitado se usado em um esquema coletivo, de muitos passes, muita movimentação sem a bola – algo que não acontecia no ex-time. Não difícil imaginar que, independente de título, Durant era um cara mais ‘realizado’ profissionalmente, que tinha mais prazer em jogar com seus colegas de Golden State do que com Westbrook.

Por mais que ele ganhe milhões e que seu trabalho seja jogar bola, existem situações que podem fazer disso uma tarefa não muito prazerosa – ou melhor, uma mudança de ares pode fazer desse trabalho muito melhor. Não digo que ser jogador de basquete deva ser encarado como um trabalho qualquer, como o meu ou o seu, mas que existem fatores muito mais corriqueiros do que nós imaginamos. E que eles influenciam a tomada de decisões.

Tudo isso para dizer que eu na época fiquei muito frustrado com a escolha, como vejo que a maioria esmagadora das pessoas ficou, mas que a gente não pode tomar como base apenas a parte da história que nós achamos que conhecemos. Mais do que isso, não podemos minimizar o feito absurdo realizado por Durant – com um super time ‘apelão’, mas contra outro super time ‘apelão’ com Lebron James, Kevin Love e Kyrie Irving. Hoje, Kevin Durant é o melhor jogador do melhor time da NBA – e um daqueles que entram na discussão para ser um dos maiores da história!

Ao ir para a Bay Area, Durant não ‘escolheu se escondeu da história’, como eu mesmo disse há quase um ano. Ele só resolveu marcar seu nome na história de outra forma – como MVP das Finais, como campeão da NBA… -, talvez diferente da que muita gente queria. E aparentemente ele está mais feliz com o desfecho do que com a nossa opinião sobre tudo isso.

Um era pouco

Depois de uma série final irretocável, o Golden State Warriors se sagrou o campeão da NBA. O time varreu todos os seus adversários do Oeste, venceu de maneira incontestável o baita time do Cleveland Cavaliers (desta vez completo), e confirmou, com o segundo título em três anos, que este é um dos grandes times do basquete dos últimos tempos.

Não vou entrar no mérito da comparação se este ou aquele time é o melhor da história, se é top3, se venceria o time de não sei lá quando – essa é uma outra discussão para depois -, mas é fato que, diante de todas as marcas que este Golden State atingiu, de todos os jogadores que reuniu, a forma como jogou e ganhou, um título seria pouco. Por tudo que esse time fez, era essencial, até obrigatório, que Curry e companhia fossem campeões de novo. Pelo reconhecimento que merecem.

Quando falo das realizações do GSW atual, não me refiro apenas aos vários recordes quebrados (de vitórias totais numa temporada, vitórias seguidas, vitórias em três temporadas e etc). Mas falo sobre toda a mudança provocada no estilo de jogo.

O Golden State Warriors retomou um fundamento básico, primário, do basquete de que este é um jogo sobre fazer cestas, sobre eficiência ao colocar a bola no aro antes de qualquer coisa. E mostraram que é possível jogar com atletas fora dos padrões de suas posições se eles provarem que conseguem pontuar.

Que, para não depender dos estereótipos, basta ter um time que saiba se movimentar no ataque e na defesa de maneira inteligente para ocupar todos os espaços da quadra, que a bola corre mais do que as pernas e que o arremesso de três pontos vale mais do que o de dois (dã!).

Não que Steve Kerr e seus comandados tenham inventado estes conceitos e estilo de jogo, mas foram os melhores a executá-los. E, se um título já não parecia mais suficiente para que todos entendessem isso, dois deixam as coisas um pouco mais claras.

Não torço para o Warriors, mas, pensando neste legado, eu fico satisfeito com o resultado. Deixemos as comparações com os outros grandes times da história, as críticas ao fato de Kevin Durant ter se juntado ao time e as ponderações sobre o futuro de uma possível dinastia para daqui a pouco. Agora é hora de reconhecer a importância de mais um título para um time dominante e inovador. E que um time com Stephen Curry, Durant, Klay Thompson, Draymond Green e Andre Iguodala tinha que ser mais do que uma vez campeão.

Warriors não tem que temer a sombra do 3 a 1

A vitória do Cleveland Cavaliers na partida de sexta-feira deu mais do que uma sobrevida à série final da NBA. Retomou um placar que não traz as melhores lembranças ao torcedor do Golden State Warriors. Ano passado, o time da Bay Area vencia pelos mesmos 3 a 1 quando deixou o rival do Leste virar a contagem – a primeira vez na história nestas condições.

A virada foi motivo de chacota o ano inteiro e serve como um argumento para os mais otimistas de que as coisas ainda podem mudar drasticamente na final deste ano. Por mais que ~matematicamente exista esta possibilidade mesmo, as condições deste ano fazem com que uma eventual vitória do Cavs em sete jogos seja uma tarefa praticamente impossível, muito mais complicada do que na temporada passada.

Para começo de conversa, na verdade o Cleveland precisa reverter uma vantagem que começou em 3 a 0, algo que nunca aconteceu na história dos playoffs – não só em finais, como a virada do ano passado. É algo muito, mas muito difícil de acontecer em qualquer circunstância. Especialmente contra o time do Golden State Warriors, que não perde quatro partidas seguidas desde março de 2013.

Para se ter uma ideia de quanto tempo isso não acontece com o time, naquela época o técnico do Warriors era Mark Jackson, o segundo melhor jogador do elenco era David Lee e Draymond Green era um calouro vindo do segundo round com 3 pontos e 3 rebotes de média. Richard Jefferson fazia parte do time e Andre Iguodala ainda nem tinha sido contratado.

Se isso não rola desde que o Golden State era um time ainda em formação, imagine hoje, com Kevin Durant jogando em um patamar de MVP e com uma formação no seu auge. Bem difícil de se imaginar.

Também é preciso olhar para os quatro jogos que já aconteceram na série. Em dois deles o Cavs simplesmente não teve chance de vencer. Em outro a disputa foi pau a pau e no último tudo deu certo para Lebron e companhia. Para vencer o Warriors, é preciso que o último caso se repita por mais três vezes, o que é bastante improvável.

Não que o Cleveland não tenha capacidade de fazer mais jogos com mais de 20 cestas de três e tudo mais, mas é preciso lembrar que um a performance de um time não depende apenas dele, mas da sua capacidade versus a habilidade do rival em atrapalhá-lo, algo que o Golden State faz com primazia. É bem possível que o Cavs consiga mais um jogo muito bom enquanto o Golden State não tenha reação, pode acontecer até duas vezes, mas é difícil imaginar isso acontecendo mais três vezes em sequência.

Por fim, o jogo 5 acontece em Oakland, casa do Warriors, ainda com um clima relativamente tranquilo para os mandantes. Ano passado também deveria ter sido assim, não fosse a ausência de Draymond Green – melhor jogador do Golden State naquelas finais. Uma pressão bem diferente caso a série se encaminhe para um jogo 6 em Cleveland ou para uma partida derradeira com a competição empatada.

A história já nos ensinou que o imponderável toma conta das finais, que tabus são quebrados quando ninguém espera e que não dá para duvidar de Lebron James. Mas o 3 a 1 deste ano é bem diferente do 3 a 1 do ano passado.

Um resultado conveniente – e nada mais do que isso

Se ainda parece muito provável que o título do Golden State Warriors é só uma questão de tempo, a vitória do Cleveland Cavaliers foi bastante útil para confirmar e renovar algumas convicções sobre a série, os times e jogadores envolvidos.

Golden State Warriors não é imbatível
O time finalmente perdeu depois de muito tempo (meses!). É ainda um fato que o Warriors é a melhor equipe da liga, tem o melhor grupo de jogadores e o estilo de jogo mais eficiente nos dois lados da quadra, mas uma noite ou outra nem tudo vai dar certo para eles – nos últimos jogos ficou marcada a impressão exagerada de que nunca mais alguém poderia bater este time junto numa série de playoffs. Vai ser difícil, mas pode acontecer, sim. Nem mesmo a ida de Kevin Durant faz do time invencível – uma conclusão que talvez não faça muito mais sentido para o campeonato deste ano, mas importante para a competitividade das próximas temporadas.

Cleveland Cavaliers também é um supertime
Foram 49 pontos marcados no primeiro quarto e 86 até o intervalo, duas marcas inéditas para as finais da NBA e das maiores na história da liga em qualquer situação. Um aproveitamento nos chutes insano, um volume de jogo surreal. Não se faz isso por acaso. O Cavs também é um time com muito talento reunido. Seu trio de estrelas é um dos melhores da liga na década, seu banco reúne vários bons jogadores que só se juntaram à franquia para tentar ganhar um título também. O resultado é um time excelente – que esquecemos por um tempo o quão bom era por causa da sequência de derrotas para o Golden State.

Cavs se torna competitivo acertando seu jogo de sempre
A diferença de qualidade entre os dois times existe, mas não é tão gritante quanto os três primeiros jogos fizeram parecer. Até agora, o Cleveland não tinha conseguido mostrar algumas das suas principais ferramentas, como uma artilharia pesada da linha dos três pontos. Conseguiu no jogo 4. O time acertou 7 de 12 arremessos da zona morta, de onde vinha tendo um aproveitamento pífio na série final. Foi mais físico no ataque, forçando a ida para a linha de lance livre. Conseguiu recuperar mais rebotes ofensivos. Forçou turnovers do rival. Conseguiu se desvencilhar da defesa do Warriors no perímetro. Enfim, jogou como deve jogar.

Lebron James para a história
Nas estatísticas, Lebron James já tem feito uma performance monstruosa. Anotou mais um triple-double, confirmando sua média na final com mais de 10 rebotes, assistências e pontos por partida – primeira vez na história – e ultrapassando Magic Johnson no número total de vezes que alguém atingiu este statline em jogos de final, com 9. Mas mais do que isso, protagonizou uma daquelas jogadas que entrará para a história da NBA, assim como foi aquele toco em Andre Iguodala no ano passado, mas que ainda não tinha sido feita na disputa deste ano: deu um passe para si mesmo, jogando a bola na tabela, para enterrar no meio da defesa do GSW. O lance é genial porque não foi apenas plástico. Foi um recurso mesmo. Ao infiltrar e segurar a bola para passar, viu que nenhum companheiro seu estava livre. Em uma fração mínima de segundos viu a brecha de jogar a bola na tabela para ele mesmo fazer a cesta. Uma jogada que, com certeza, vai figurar nos tapes de melhores de todos os tempos das finais.

Ainda não acho que o resultado de sexta sirva para mais coisas além disso. Na prática, e mais importante de todos, ainda não é suficiente para que o título do Warriors seja ameaçado.

Um problema na zona morta

Mesmo que hoje já pareça claro que o título do Golden State Warriors é só uma questão de um ou dois jogos, é preciso reconhecer que o Cleveland Cavaliers apresentou alguma evolução dos jogos 1 e 2 para o jogo 3. Fora toda a qualidade ofensiva e defensiva do Warriors, todo o poder de decisão de Kevin Durant, tudo que Stephen Curry está jogando e a qualidade defensiva de Klay Thompson, o Cleveland não estava jogando o seu melhor basquete – e é até natural que as virtudes do GSW façam com que isso aconteça com seus rivais.

Nos dois primeiros jogos da série, a timidez de Kyrie Irving e os coadjuvantes do Cavs foi um problema claro. A falta de convicção se era necessário desacelerar ou não também não ajudou. Mas quando o time resolveu apostar no ataque agudo em transição e Kyrie apareceu para decidir, o jogo foi pau a pau. Decidido em detalhes.

Um destes detalhes foi a falta de eficiência do time nas bolas da zona morta. No jogo em Cleveland, o Golden State Warriors acertou 5 dos 7 arremessos do canto da quadra. O Cleveland Cavaliers meteu 2 de 18.

A disparidade é emblemática: o Cavs tentou muito dali justamente porque pintaram várias oportunidades excelentes ao longo da partida, com jogadores completamente livres – fruto de trocas de passes e contra ataques eficientes do time, tirando a defesa do GSW da bola -, mas mesmo assim JR Smith, Kevin Love, Kyrie Irving, Deron Williams e os demais não se cansaram de errar.

A falta de eficiência neste tipo de chute nesta época do ano explica muito sobre a dificuldade do time em ter jogos parelhos com o Warriors. Primeiro que os chutes dali são naturalmente, por essência, mais ‘fáceis’ que os demais – a linha é mais próxima da cesta e muitas vezes a bola chega antes do marcador, com mais espaço para quem chuta.

Segundo que esta tinha sido uma arma amplamente usada com muita eficiência pelo Cleveland ao longo de toda a temporada. A equipe foi a única de todas as 30 da NBA a arremessar mais de 10 bolas por jogo da zona morta e a fazer mais do que quatro cestas, em média, por partida dali. Tinha o mérito de ter o sétimo maior aproveitamento (40,8%) num volume brutalmente superior aos demais.

Nas finais contra o Warriors, o desempenho despencou. Continuou chutando mais de 10 bolas por partida dali (foram 34), mas acertou residuais 8 tentativas, com um aproveitamento pífio de 23,5%. No último jogo que fosse, se tivesse acertado duas ou três bolas a mais – teve mais chances do que isso completamente livre e ainda assim teria um desempenho médio muito abaixo do normal – o resultado da partida teria chances imensas de ser outro.

Neste caso, repito, nem acho que seja mérito da defesa do Warriors, pois o Cavs teve muitas chances sem marcação, em que a marcação do GSW não conseguiu acompanhar a troca de passes ou que chegou muito atrasada. Foi deficiência dos jogadores do Cleveland mesmo.

Se a batalha da série final já seria difícil para Lebron e companhia fazendo o que estão acostumados, ficou impossível de ser superada com esse tipo de erro.

Eu, pessoalmente, não consigo pensar o que causou isso. Só sei que custou boa parte da competitividade das finais.

Golden State Warriors é isso aí

Os 180 segundos finais de partida resumem todo o poder de fogo do Golden State Warriors de hoje: o time estava perdendo, a torcida estava ensandecida, Kyrie Irving vinha jogando tudo que não tinha jogado na série inteira, mas bastaram algumas posses para que a partida fosse decidida em favor do time californiano.

É sempre assim. Tem sido com o Cleveland, foi com o Spurs e seria contra qualquer outro rival. Não importa o que façam, o quão bem joguem, que tudo dê certo. A facilidade com que o Warriors pontua e se mantém vivo no jogo é surreal. E ao longo de 48 minutos de partida, em algum momento, o time vai abrir uma sequência de pontos, ficar sem tomar e desgarrar no placar.

Nas primeiras duas partidas da série isso tinha acontecido no terceiro quarto, quando em ambas as oportunidades meteu mais de 30 pontos, fez run de alguns minutos pontuando sem resposta do rival e abriu vantagens de uns 15 pontos.

No último jogo a coisa só ficou um pouco mais emocionante porque a sequência matadora veio nos minutos finais. O Cavs estava com a maior chance em toda a série de reequilibrar a disputa, vencendo por 113 a 107 a três minutos do final da partida. Aí então o GSW meteu 9 pontos sem resposta do Cleveland, que confirmaram o 3 a 0 na série e deixam o Cavs respirando por aparelhos na final do campeonato.

Foi cagada do Cleveland, claro, pois podia ter matado o jogo se acertasse uma porção mínima dos inúmeros arremessos de três que teve livre, mas o time cansou de desperdiçar bolas da zona morta que geralmente acerta. Mas é algo que tem que sempre ser contabilizado nas partidas contra o Warriors: se você não aproveitar toda e qualquer oportunidade de pontuar fácil, a conta será cobrada em algum momento da partida.

O aproveitamento nos tiros de longe mostra como o Golden State não deixa escapar suas chances de emplacar bolas que sobram mais fáceis, enquanto o Cavs queima muitas destas oportunidades. O campeão do Oeste meteu 16 de 33 tentativas, enquanto a equipe do Leste dez 12 de 44.

(David Liam Kyle/NBAE via Getty Images)

Kyrie Irving e Kevin Love, juntos, saíram de quadra com o pífio aproveitamento de 1-14 nos chutes de fora do arco. Kyle Korver, especialista nestes lances (na teoria, ao menos), foi 2-6 de três. Iman Shumpert, Deron Williams e Richard Jefferson não acertaram nenhuma das cinco tentativas.

Do outro lado, Kevin Durant, Klay Thompson e Stephen Curry, juntos,  acertaram 15 de 27 arremessos de fora. Cada um dos três saiu com mais de 50% de aproveitamento neste tipo de chute – foi uma destas cestas no minuto final, de Durant, que virou a partida em favor do Warriors, inclusive depois de um erro de Kyrie Irving num step back.

Com tantos chutadores tão bons e tão afinados, é sempre necessário saber que em algum momento o Warriors vai pontuar e defender muito. Para batê-los, é preciso fazer a diferença – uma diferença, de preferência, grande – no restante do jogo. Mas isso ninguém consegue. Por isso eles estão invictos nos playoffs. Com boas chances de continuarem assim até que ergam a taça.

Dono da quadra

Kevin Durant tem sido, disparado, o melhor jogador das finais da NBA até o momento. Na série com o maior número de all stars dos últimos 30 e poucos anos, o jogador tem o feito de ser o cestinha, o maior bloqueador, o terceiro reboteiro e o segundo com mais assistência entre todos os jogadores dos dois times. Tem decidido os jogos a favor do Golden State Warriors fazendo de tudo um pouco na quadra.

Ao longo da carreira, o jogador já tinha mostrado toda a sua versatilidade: era o armador do Thunder e do próprio Warriors em muitas posses de bola, tem um dos melhores chutes da liga como um bom ala-armador e sabe cair no post como um ala deve fazer. No esquema do Warriors, Durant também se mostrou um bom protetor de aro no garrafão, especialmente cobrindo os jogadores marcados por Draymond Green. Seus 2,10 m e quilômetros de braços já indicavam que ele não encontraria problemas com a nova função.

(Nathaniel S. Butler/NBAE via Getty Images)

E ontem veio a confirmação. No terceiro quarto, com Green carregado de faltas, Steve Kerr colocou Kevin Durant como pivô do time. O jogador já tinha caído várias vezes na posição em trocas defensivas, mas nunca tinha sido escalado como pivô de fato na formação, só com alas menores e armadores ao seu redor. E ele dominou o jogo no único papel do jogo que nunca tinha desempenhado em larga escala.

Na formação Curry, Livingston, Thompson, Iguodala e ele, o Golden State emplatou 14 pontos em cinco minutos e levou a vantagem do jogo a 13, mesmo com Kevin Love e Channing Frye do outro lado, dois jogadores muito mais acostumados com a função.

Defensivamente Durant foi dominante no garrafão.

Os seus números no jogo mostram bem sua atuação eclética. Durant esteve a duas roubadas de bola de fazer um ‘5×5’ – ter pelo menos cinco pontos, rebotes, assistências, roubadas e tocos.

Durant é a cara de uma NBA que busca cada vez mais jogadores versáteis, móveis e leves. Não só tem tudo a ver com o small ball – apesar de não ter nada de ‘small’ no seu tamanho -, como tem o físico que os jogadores buscam nos dias de hoje – coisa inimaginável há 25 anos, quando a força física era um atributo fundamental para o jogo e os jogadores pesados tiravam vantagem dos demais.

A série vai para Cleveland e o time de Ohio precisa, acima de tudo, encontrar uma forma de parar Durant. No ano passado, a reviravolta aconteceu quando o Cavs notou que poderia abrir mão da marcação de Harrison Barnes e Andre Iguodala para anular Stephen Curry, Klay Thompson e Draymond Green.

Com Durant, isso não é possível. Para batê-lo, é preciso encontrar uma forma diferente de jogar. Que ninguém descobriu qual é até agora.

Klay Thompson lá e cá

Uma das grandes dúvidas que surgiram quando Kevin Durant desembarcou na California era como o Golden State Warriors funcionaria com mais um arremessador em quadra. Antes do ala, o time já tinha que jogar em um ritmo insano para que todos seus jogadores (Stephen Curry e Klay Thompson em maior medida, Draymond Green em menor) tivessem bolas suficientes para arremessar. Com Durant, o time teria que correr ainda mais ou então todos teriam que abrir mão de alguns de seus chutes.

A temporada regular foi de adaptação. Durant, como um bom recém-chegado, passou a chutar três bolas a menos do que estava acostumado no Thunder – o que foi compensado por um aproveitamento muito melhor, com mais jogadas de catch and shoot do que isolations. Curry fez seu sacrifício também e cortou, em média, dois arremessos de seu repertório. O mesmo fez Draymond Green.

Somente o papel de Klay Thompson ficou imaculado em um primeiro momento: apenas uma diferença decimal nas médias de chutes, acertos e pontos de um ano para o outro, de uma precisão robótica.

A temporada regular caminhou, o Golden State Warriors foi se acertando e só não funcionou como um grande treinamento ideal para a pós-temporada porque Durant se lesionou por uns 20 jogos. De resto, o time conseguiu emplacar e melhorar seu sistema de jogo e definir bem o papel de cada um dentro do esquema mais fluído da liga.

Isso funciona bem na temporada regular, mas geralmente é um cenário que muda nos playoffs. No mata-mata geralmente os melhores jogadores ficam mais tempo em quadra, chamam mais a responsabilidade e são, naturalmente, mais acionados. Como os confrontos são em série, ajustes específicos também são desenhados, redefinindo um pouco as funções de cada um em quadra.

Assim, Kevin Durant e Stephen Curry passaram a dominar mais a bola. Isso significa menos posses para os demais jogadores, especialmente se o ritmo do time continua o mesmo – é o caso do Warriors, que já tinha um dos esquemas mais rápidos da liga e se manteve assim, com uma média de 100 posses de bola por partida.

Aí que pegou para Klay Thompson: o shooting guard passou a chutar uma média de três bolas a menos por partida, a maior diferença registrada no time. E chutadores como ele tendem a sofrer com um volume menor de oportunidades – foi o caso, já que seu aproveitamento caiu para 36% ao longo do mata-mata.

Seria trágico se o ‘splash brother’ fosse única e exclusivamente um arremessador. Mas, para a sorte de Klay e do GSW, não é o caso. Thompson é um defensor implacável no perímetro. Sua vantagem é de ser alto para a posição (2,01m) e mesmo assim ter uma excelente movimentação lateral. Consegue marcar os armadores rivais – muito melhor do que Curry faria, por exemplo – e dá conta dos alas maiores nas trocas do pick and roll.

Contra o Cleveland Cavaliers, sua presença é fundamental: consegue ser o marcador principal de Kyrie Irving, o point guard que melhor dribla na NBA, e ainda cair na troca com Kevin Love e Lebron James. Possivelmente nenhum outro jogador de backcourt da NBA tem a capacidade de fazer estas duas coisas tão bem.

O primeiro jogo da série entre os dois times mostrou que mesmo péssimo no ataque – não errou só chutes difíceis, mas perdeu bolas a dois palmos da cesta -, Klay é indispensável para ajudar a segurar o ataque feroz do Cavs.

O aproveitamento dos rivais enquanto Thompson estava na marcação foi pífio: 11%. Foram nove arremessos na cara de Klay e só um acerto – foi aquela cesta espírita de Kyrie Irving, caindo no chão, para três pontos e mais a falta. De resto, o ala-armador do Warriors foi impecável: forçou dois air ball de Kevin Love, parou Kyrie em quatro bolas, JR Smith em outra e ainda fez Lebron errar na única bandeja em que caíram juntos – e a infiltração de James é, estatisticamente, o arremesso mais seguro da NBA.

Foi, também, o jogador que mais recuperou bolas perdidas para os dois lados: 6 – ajudando não só o Cleveland perder posses (foram 20 no total), bem como o Golden State a ter ínfimos 4 turnovers.

É claro que Klay seria mais útil se estivesse fazendo suas bolas de sempre. Cedo ou tarde, o Golden State também vai precisar dele no ataque – e até por sua capacidade de ser um bom pontuador, o Cleveland não poderá abrir mão de marcá-lo mesmo que a série ruim dele continue. Mas mesmo quando Klay não consegue decidir lá, é um jogador importante cá.

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